Poemas neste tema

Arte

Herberto Helder

Herberto Helder

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à memória de meu bisavô Francisco Ferreira,
santeiro
álcool, tabaco, anfetaminas, que alumiação, mijo cor de ouro e esperma
grosso,
tudo quente, e eu risco
e desenvolvo,
mantenho aberta a ferida, infundo
a miúda, aos poucos, minha, humílima,
respiração
na madeira madura rasgada e na fundura da argila,
e no sítio à espera cai o pacote,
brilha, porque na torção da luz o pacote de tripas
sou eu que o faço, e risco
e lixo e pinto e nimbo e ponho sob a mão atenta
esquerda
e as frias forças da vista a crua
artesania, e ouço agora na rádio Bach, meu Deus, e Haendel, e peço:
leiam-me dos livros
o curso de sôbolos rios que vão, ou Lucrécio:
que
o mundo é um caos sumptuoso — este
é o segredo:
música, e eu estou bêbado, e é tão amargo o tempo,
tão irrevocável,
quero eu dizer: doce é ouvir o que se ouve muito junto ao ouvido,
enquanto se responde ao movimento dos dedos,
embora as asas do arcanjo, rémiges e retrizes, cada uma do tamanho
parede de uma ca:
não passem pelas portas:
segredo é o gosto de ser ainda agraz e agudo,
gosto primeiro, de quem se fez nele, o gosto novo,
inacessível,
a leite e fruta —
e tu que me ouves, leva tudo mas não me leves
a mão, e as maneiras que lhe dou, de assinatura, e nela me refaço
com um soluço, autor, nó de corpo,
a contas com a autoria,
eu que me sinto nos dedos pelo canhoto e o curto,
falta de academia, erros metidos nisso,
e bêbado durante uma estação inteira, um estio, um outono,
bêbado das massas em que embaraço as obras ou
de que as desembaraço, as obras às dedadas,
e o espaço rodeia-me e depois já não rodeia,
o espaço que ocupo já me não presta,
não me presta a luz nas olarias e nos vibrantes paus de cedro
suando até que se me afigure,
e a terra que se mistura com o sangue sob as unhas,
da minha boca para fora já nada é assombroso,
nada para fora dos dedos sem estudo,
sou de matéria volúvel pouco a pouco,
ou muito rápido neste estio ou neste outono muito lento,
eu que me perco de mim sempre bêbado do tempo,
eu que morro
589
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Corpo E Terra

Vejo o corpo grande, na solidão ignorada,
na sua alvura larga, toalha viva e água,
na banheira cantando como é larga a mulher!
Sem destino oiço o sol e as janelas abertas,
oiço um corpo extenso, branco, volumoso,
abraçando a madeira, abraço a carne, a terra viva.

Entrar em ti, mulher, ó lâmpada de seda,
abrir-me na paisagem de um só tronco com boca,
encrespar as planícies da tua pele ondulada,
oh como o mar é claro nesta onda deitada!

Oh como eu sou um homem no meio-dia claro!
*
Os seus seios louros (ó cor só de sonhá-la)
entre o branco e o negro, ó rósea sedução,
deitado à sombra respiro mamilos plenos
a obscura densa suave oscilação
*
(mulheres de Picasso)

Estou preso a estas linhas de espaço e de ternura
tremendo na montanha fina da carne plena
*
Murmúrio tão intenso e a água sempre bela!
A casa branca, gloriosa e simples.
Aberto o vale diante da janela,
a mesa com os frutos e a claridade da água
na jarra ao centro, as flores no azul!
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Herberto Helder

Herberto Helder

3K

De todos os sítios do parque uma vibração ataca
a estátua que sobe o dia
inclinado, que entra no escuro com os olhos brancos.
O ar ilumina-lhe a boca.
Com dedos de ouro brusco a noite fecha-lhe
os músculos. Mas abrem-nos um fluxo de seiva,
uma temperatura de química
radiosa. Porque é no centro dessa massa
territorial
que o sangue estremece e desabrocha
entre pedra e aura.
—Alenta estátua carregando a sua estrela até se atrasar
noutras pupilas deslumbradas.
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Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz

Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz.
Quando era tudo de perfil. Nem podia ser
de outro modo: de perfil e em diorite
como nos retratos do Império Antigo. Muitos

iriam acolher depois os ritos do primitivo
estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados,
ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns
resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita

afeição. No limite do conhecimento, a tremer
de alegria, encontram aquilo que
tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas
nem sempre se distingue de um sussurro

de lâminas. A música de tal desígnio percute
nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes
por um punhado de lágrimas, equívoco maior.
É claro que a iniquidade continua impune.
640
Herberto Helder

Herberto Helder

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espaço que o corpo soma quando se move,
não apenas o espaço mexido pelos dedos, mas
o superlativo,
a dança,
arte dos números,
e o que se inventa e entesoura,
punhados de ouro grosso enquanto se atravessa o sono,
e a matéria sombriamente escrita,
o espaço interno do teu nome, ah o teu
amargo, árduo, agudo,
quente
nome lavra a minha língua louca, digo:
o fósforo e a lixa do teu nome riscam
e calcinam
a língua portuguesa
504
Herberto Helder

Herberto Helder

4C

Que ofício debruçado: polir a jóia extenuante,
multiplicar o mundo face
mais face.
Fazer da imagem uma consciência vária.
O fogo dessa pedra cada vez mais
alerta, preciosa, convulsa, funda, abrasadora.
Trabalhas nela até às unhas.
Trabalhas na atenção aterrada, com que louvor
de obra, irrealmente. As estações da noite, os sistemas
nervosos das avenças do alto,
as plumagens.
E os dias compactos como o leite
guardado nos jarros, ou largos
das sedas estendidas. Passam
unidos todos uns aos outros
nos cotovelos. E lapidas, lapidas. Arrancas-lhe a força
eléctrica. Que a ti mesmo,
nas mãos e na cabeça, no escuro, no levantamento
do ar no sono, te faz desentranhadamente
límpido. O relâmpago
do âmago. Queima-te avista. E na cegueira fica apenas,
atroz,
o coração da jóia.
614
Cezário de Sousa

Cezário de Sousa

Continente Brasília

gente de toda parte
arte parte arte parte arte
status estata!
povoação enigmação, _
vazio normal buracultural
diz para mim
enfim, qual teu mal?

Gente de toda arte
quem há derrado afinal?
Onde esteve teu futuro
esse todo tempo
teu fu turo teu futuro teu

tu és boi e computador
qualquer coisa assim
olha aesse cerrado será nosso
será cerrado será cerrado será

que fizeram das lembranças
das mortes da tua infância?
no des-contar da tua glória
ó cidade bela
fizeram jorrar sangue
teu solo foi manchado

continente brazilha
gente de toda mente
a seta da arte incerta te alvejará
pra espalhar flores em forma de trigo
teus hômi é teus próprio inimigo

e a seta da arte incerta não parte

teu lago afundará
vai ser até bão de pescar
mas tuelitelitista num vai tão cedo acabar

vumbora vumbora povo!
(palavra de novo mal dita)
na garganta da gravata
teúnico jota cá paz de ser gente
foi-se in-esperado
teus solitários lares decentes
teu dom bosco poliético visionário
teus vários bonitos espaços vazios
onde nos levaremos?

brazileira
filha
tu és brazileira
menina menina menina
cabeça de menina ·
corpo de cheiro de ânsia
continentalmentilha
corcheirosa de cabelos amanteigados
mão te queira
mantequilla
mãe e filha
mar à vila do sossego
desapego
tu és o concreto da arquijuntura
tu futuras
pelos passos dos teus filhos ilhos
para que quem porque foste criada
hoje agora em tédio nadas
pré destinada a ser fada
místico interpretada
lança jogada no centro
vento passaporte muldireções
oeste pé na estrada

abra
berre
erre
ria
tenha
uma
rota
agora
?

Ilha maravilhosamente certa
reta cabeça da nação
decisão precisão ver se dão lassidaão
perfidocraticamente sem coração
teus satélites querem tua luz planoalto
não brilharias tu alguma vez
não terias asas na inspiração?
Onde estaria escondida a vontade do nosso peito
nas asas na cabeça ou no coração do avião?

Gente de toda ilha
sente de toda falta
mente de toda farda
pente de todo flerte
rente de todo porte
tente de toda sorte
gente de todo mistério-vida
cidade jovem de toda parte
encontro de tempos de antes antigos
ainda destinos incertos em Volta do sonho
eorrem atrás do copo da noite
ou escutam o tédio ou vêem a ilusão
ou lêem a falta de imaginação

foi dada a largada
os cavalos estão na frente
e os funcionários montados no medo se borram
detrás da felicidade da mesa

a dor do muro na pichação:
"Ilha e Solidão"

gente de todo porte
porta que vem e que volta
as quadras nasceram enquadradas na LSN
aqui não se comete um grande crime
e todos somos funcionários do SN I
ó felizes meninos que aqui surgirão
pra repetir a cadeira gravata dos pais pais
repetir a dor repetir a dor repetir?

ai` meninas daqui
a prosseguir o passado se submeter
ao másculo caduco poder?
meninas que hão de dançar
hão de dançar dançarão
(o corpo das tuas meninas são só bailarinas?)

quem fará o que quem fará aqui lo quem faremos como

o garoto agora engraçado
filho satélite da quadra do lago
fadado a ser forte conforme o destino
ou dono de si o teimoso menino?

a arte solta salta da rua rua não existe
artista sente por não ser a praça contente
a tua reviração se faremos
quem dera que a gente quisesse
teu profetismo nos encantaremos
pra viver real idade nossa dia~a-dia
toda morte se daria em holocausto
o fausto dos teus ricos se extinguiria
o farto prato então se dividiria
e tanto pranto alegre que a vida choraria
se um dia fosse verdade
sa ída de nossas mãos
é bom gonhar e ver voar teu avião

tem olhos de fora olhando pra gente tem
a tal bastilha atual é forte meu bem
guardada por 49 chaves do além
roma honra amor remo loba rômulo êmulo

hermano hermanito m ío
dónde está nuestra amistad
dónde nuestro proyecto por la libertad

a mil milhas de altura está brazilha
continente filho da filha da quimera
esperam inferno e Verão primavera
a fé no futuro é besteira
sem o eterno-presente na mochila
as lutas a paz hão de vingar

reconhecer os que fazem fizeram a história com H
as mães de brasará
proliferação da vrida
terão mãos hão de ter mãos terá
serão mais onde ir-mãos será
virão filhos que hão de virar
essa terra criança velha
em semente do sempre novo fogo povo a penetrar

828
Herberto Helder

Herberto Helder

V B

Não peço que o espaço à minha volta se engrandeça,
peço
que a força do sangue na garganta
não a cerre toda: e eu sopre uma canção
biorrítmica
onde se encurve o ar — curta canção
gutural, obscura, rouca:
o sangue coalha numa posta
púrpura, sufoca o movimento da música,
mas peço
que a escassa estria ainda se ouça.
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Herberto Helder

Herberto Helder

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o fôlego rouco irrompe nas pronúncias bárbaras
dos nós da língua:
voz, escrita:
linhas que se refractam umas nas outras,
bolhas cardíacas:
tanto louvor da terra movido a custo
na frase fracturada: o acordo entre
ritmo e
iluminação, enquanto as mãos intermináveis
lavram as obras, às meadas, ríspidas, rútilas, curtas, compridas, m
escuro, obra
que se ensinam a quem as saiba já na confusão da luz:
arcaicas
matérias, melancolias, memórias, magnificências,
quero esses dons e dias,
esses erros, se emendam o certo contemporâneo, quero-os todos,
esveltos, essoutros, exímios:
dor e estilo, quando são canhotos,
não os há mais vivos
881
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Palavra

A que mais se prolonga
termina e continua
A que abre um espaço e dança
a que quebra e é uma
e só lisa espada

Ó palavra que duras
no teu ar e nas pedras
brilhas só quando passas
respiras continuas
ó palavra sem mais
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Herberto Helder

Herberto Helder

56

acima do cabelo radioso,
abaixo do cabelo,
sentado à mesa brilhando ou em pé brilhando muito,
acima de onde as obras,
abaixo de onde as obras se lavraram,
o dito assintáctico do poema, o exercício, o poema físico, o de abrupto
sentido, o poema absoluto,
acima da camisa sobre o sangue,
abaixo da camisa,
poema tão difícil aprendido até ao último erro,
e entre caos e melancolia,
a mão:
pela escrita da memória assoprada na folha:
a actividade prática,
rápida:
mão plenária apanhando o dia de cada sítio em cada sítio transborda
em nome de outra lição, outra
dor, outro júbilo, outro louvor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor, outro mundo,
e os dedos trabalhados pela bic apanham tudo, o cru e o cozido, o aberto e o fechado, os elementos leves ar e fogo
e a ciência dos fenómenos:
a acerba, funda língua portuguesa,
poema revolvido a quente e resolvido
a frio entre os átomos,
o puro rebrilhar
irredutível, irreversível, imperecível: saber a quantas
translações estamos
entre sujeito e acto, a quanto preto bic do escrito,
auto de autor, a luz inteligente sobre o mundo,
magnificência,
e o mundo, entre visto e emendado e rescrito
977
Bernardo Pinto de Almeida

Bernardo Pinto de Almeida

No bicentenário de Kant

Sim —
digo que foi sublime. Mas
não desse carácter que certas coisas tomam —
pores de sol numa paisagem vasta
como queria Kant
no seu entendimento extenso
quando se avolumam quando se tornam
grandes como se crescessem para lá do mensurável
e do humano. Antes um sublime
de modéstia ou de pensão barata
de cerveja
tépida num bar em rua lateral às avenidas.

Seja —
nem gestos maiores do que os mais simples
nem outra coisa que os corpos
a sua lividez
a sua bela doçura contra um fundo de ruídos
quotidianos
a sua fome sangrenta e manchada
de culpa
de pecado. Assim nada
que se comente em círculos mais híbridos
ou se diga fora de outro modo de dizer
do que esse que os mesmos corpos pedem
ansiosos
logo se reconhecem.

Na pintura talvez —
por exemplo o sábio Tiziano
velho pintor ousando
toda aquela nudez desfigurada
como se pintasse com o próprio sexo
debaixo das poses voluptuosas
de cânones ainda consentidos
em paganismo de entreter salões
outros segredos que as imagens conservaram.

Sublime então —
não de grandeza ou de terror
mas o da pele
a sibilina pele arrepiando-se
contra um frio mosaico
os joelhos nus
ajoelhando-se uma boca ávida
uma língua a inclinar-se dos dentes
como num quadro de Bacon. Ou
estremecendo um sexo
quando tocado de outro
um do outro
um no outro
um contra o outro
talvez
porque esta guerra é sublime
porque um abraço é sublime quando
transporta ao mesmo tempo a vida e a morte. Quando
contém na vida a própria morte
um espasmo — um retesar dos músculos
que se querem ainda impetuosos
mesmo se já feridos do cansaço —
isso é o sublime. O da matéria. O dos pobres
também porque de repente iguais
todos iguais a todos quando
na morte como no gesto nu
despedaçando urgente extremo
exacto o arco que se tende —
isso —
é o mais mortal
porque o mais verdadeiro.
601
Herberto Helder

Herberto Helder

64

limoeiros, riachos, faúlhas, montes levantados ao de cima da cabeça,
alguém amado com uma estrela esmagada contra o rosto como para
indiciá-lo,
frio aroma respirado muito,
inesperados membros que a luz trabalha,
ou é a luz que é inesperada com os membros dentro dela: dança,
o medo,
quer dizer: o paraíso, o inferno,
no uso expansivo das palavras, por exemplo: poemas
como foi possível escrevê-los antes ou depois de Auschwitz?
no corpo até se fazer osso,
até que fosse apenas uma ferida,
Auschwitz é sempre contra os mesmos,
e sempre se escreveu na língua do inimigo,
e escreve-se nessa língua porque é preciso que o inimigo não compreenda
nunca,
ou é preciso resgatar a língua do seu crime imprevisível
mas quem ronda lá fora as minhas ásperas moradas,
e rosna resvés ao rosto, quem, e em
que língua se estrangula,
que fomes o devoram,
que nomes loucos o destroem?
e é nesse instante mesmo que o poema retoma a sua fala bárbara,
e aí, nas líricas ignições, encontra o assassino,
Auschwitz é o dia imparcial, às vezes
leve com água raspando ao lado ou os lábios sobre as pálpebras,
ou quando vem nos jornais:
política, artes & letras, coacções, corrupções, e a violência do dinheiro
estúpido
como é que um dia, nos montes, os dedos numa
estrela fundida na cara, à sombra das frutas, se puderam escrever, ou
não puderam,
fanopeia, melopeia, logopeia,
as coisas cruas?
Auschwitz é sempre, immer, e escreve-se ou por fora ou por dentro,
ou por baixo ou por cima, ou cara a cara, que é o melhor de tudo
e é cada vez mais perigoso, ou é o mesmo, ou é menos perigoso?
dados os termos dos tempos: à quoi bon aujourd’hui la poésie?
ou então: la poésie comme l’amour
gantes ou depois: de quem, de quê, de como ou quando?
immer, always, Auschwitz, sempre, toujours, em todas as línguas rie
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Atlan

Estas cores livres
em que o sonho é sol
homem ouve o dia
que há nos teus olhos

Estas cores bruscas
de quinas de pedras
homem vê os ossos
da tua alegria

Estas cores negras
de cílios de vespas
homem olha o centro
da loucura certa
1 026
Herberto Helder

Herberto Helder

4I

O canteiro cheira à pedra. Da rosa cavada nela cheirará,
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada — o canteiro desentranha
outra mão: — A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. — O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada.
Abre a fonte no mármore, sob a forçados dedos
o vento da luz sacode a árvore.
As veias da pedra,
o cinzel faz isto, são as veias dos cavalos
— e por trás das cabeças estelares respiram rosas.
Crianças, que sinistro enlevo, como percorrem
o círculo puro da guerra, entre escudos
e lanças. E algures,
ao meio da primavera lavrada,
dança a rapariga,
desdobra-se — um sopro move-lhe a cara
imovelmente branca. Mas a noite devagar,
de fora, natural, a noite de longe,
devora joelhos e ferraduras, a espuma que a mão
arranca de dentro
— a pálpebra grande do mundo que se vê defronte
da sua obra. Devora, a noite furiosamente externa
entrando,
não só a água suave e a máquina da guerra
e a soberba ondulação do fogo
nas formas,
mas a doce e dolorosa mão que ergueu a fábula.
1 112
Herberto Helder

Herberto Helder

Nada Pode Ser Mais Complexo Que Um Poema

nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora
1 345
Herberto Helder

Herberto Helder

Que Um Punhado de Ouro Fulgure No Escuso

que um punhado de ouro fulgure no escuso do mundo,
agora, antes que as palavras desapareçam,
que a palavra firmada brilhe,
porque tive também a força,
porque tive a graça e a desgraça,
porque fui e vim a andar entre muralhas de água,
espuma e grande perigo da razão e da vida,
e cheguei lá,
sobrevivente ao desastre das artes,
o louco,
o roído pelo coração adentro,
com lágrimas que me arrefeciam a cara depois de a lavrarem toda,
e já não acreditava na verdade e na realeza da forma,
nem movia a boca,
a testa,
a mão esquerda,
até que me levaram por cima das massas de água e de iodo,
rumo aos infernos que já em vida conhecera,
talvez uma braçada de rosas de inomináveis raças,
talvez um feixe de cardos,
talvez um botão simples todo cerrado sobre si mesmo,
talvez soprasse uma brisa como um nome nisso que era agora
minha língua nenhuma, sal de água grossa,
gosto agraz na boca,
um só nome para a terra toda
974
Herberto Helder

Herberto Helder

67

isto que às vezes me confere o sagrado, quero eu
dizer: paixão: tirar,
pôr, mudar uma palavra, ou melhor: ficar certo
com a vírgula no meio da luz,
dividindo,
erguendo-me do embrulho da carne obsessiva:
que eu habite durante uma espécie de eternidade
o clarão —
isto não o entendo, esta pancada desferida
no máximo concreto: copo,
cigarros,
o livro, e do próprio meu: a ininterrupta
amargura da memória, o tão pouco de
quente respiração — isto
eu não entendo que os dedos sejam arrancados com o copo, que
no caderno a vírgula
fundamental
trave tudo para sempre — e depois é a obra das bruscas
aberturas, a abertura de cada coisa, e cada
minha abertura na abertura
do mundo — isto
não o entendo fora e dentro, esta
velocidade, só
porque fui tão oficinal com as pontuações mais simples
e o quotidiano em baixo,
amor e desamor
— porque não entendo que uma garra me tenha apanhado por trás
da cabeça
e me tenha impelido, e o
desequilíbrio sobre as árduas escritas em casa, ou a
devastação morfológica, ou
um abalo, um abuso,
nada,
me concedam a sumptuosa ignorância quantas atmosferas acima
dos pés na vírgula: o
arrebatamento
908
Herberto Helder

Herberto Helder

4G

A arte íngreme que pratico escondido no sono pratica-se
em si mesma. A morte serve-a.
Serve-se dela. Arte da melancolia e do instinto.
Quando agarro a cara, a rotação do mundo faz rodar
a olaria astronómica: uma cara
chamejante, múltipla, luxuosa.
Deus olha-a.
E a arte alta do sono fica pesada:
— Mel, o mel em brasa, a substância
potente, elementar, ardente, obscura, doce de uma doçura
fortíssima,
o mel,
arrebatada. Uma arte inextricável que,
pela doçura, enche as bolsas cruas
da carne, embriaga, queima tudo, mata,
mata.
1 019
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ataíde À Venda?

— Quanto quer pelo Ataíde?
fala ao padre lazarista
o emissário paulista
de olhar guloso na “Ceia”
que na aguda serrania
ilumina qual candeia
as ruínas do Caraça.
Dou duzentos, dou quinhentos,
oitocentos mil cruzeiros
por esse quadro… — Não, não!
— Já que estou com a mão na massa,
reforço meus argumentos,
ofereço-lhe um milhão.
Pintura aqui nesses altos,
na friúra desolada
destas rocas, destes longes,
não tem sentido nem vez.
Só peregrinos e monges
podem curti-la. Melhor
é levá-la quanto antes
para o conforto envolvente
do Palácio Bandeirantes.
— Já disse: não. — Ah, desculpe,
prefere que se desfaça
a obra de Mestre Manuel
no desgaste que lhe inflige
o dente roaz do Tempo
em sua faina cruel?
Quer ver Cristo desbotado,
carcomido, atomizado,
mancha pálida no pano?
Seus bem-amados discípulos,
sua mesa, seu pão ázimo,
sua colação simbólica,
sua postura litúrgica,
e sua mensagem mística,
sumindo, pasto de traça,
de cupim e de pobreza,
neste sem-fim do Caraça?
— Deus é grande… — Deus ajuda
a quem, esperto, madruga.
E daí, meu padre, atente
que milagre brasileiro
anda bastante vasqueiro.
Pegue logo esse dinheiro
e com ele faça obras,
obras, obras e mais obras
que a casa do Irmão Lourenço
está pedindo, e que, feitas,
serão atrativo imenso
à multidão de turistas.
Bote piscina, playground,
cassino — um “Monte Cassino”,
bote som sofisticado
com Raquel Welch e quejandas
bailando pelas varandas!
— Jamais… — Jamais? Que pecado,
recusar a minha oferta!
Eis que outro sacerdote,
de mansinho e de oiça alerta,
já sonhando com um caixote
só de notas de quinhentos
abarrotando a arca murcha
da magra comunidade,
puxa o primo pela manga,
sussurra-lhe: — É bom negócio.
Deus decerto não se zanga,
se vige a necessidade.
Os dois discutem: — Não, não.
— Ora essa, meu irmão.
Vai-se a pintura, mas fica
a nossa vida segura.
Já se criam dois partidos
entre os padres pressionados
e já novos compradores
em enxames voadores
e propostas tentadoras
ferem o doce silêncio
em que, à tarde, ressoa
a melodia dos poemas
de Henriqueta Lisboa
sobre a vívida montanha.
Vende, não vende. Vendemos?
Que vale ter Ataíde
e não ter teto e parede?
Ser um sacrário de arte,
a mais pura arte mineira,
orgulho do nosso Estado
e da alma brasileira,
sem ter como restaurar
a velha casa de ensino
onde ensinamos a amar
as criações do passado?
Debatem os lazaristas
o grave dilema, enquanto
Manuel da Costa Ataíde
e sua tela, suprema
esperança de resgate
da indigência caracense,
viram tema de comércio.
Corre, corre, Aureliano,
vai, Conselho de Cultura,
depressa, Assembleia, vai,
salva os padres agoniados
da prontidão que os achaca,
e salvando-os, preservando-os
da mercantil ameaça,
salva a arte, salva a glória,
salva o máximo tesouro,
a riqueza que não passa:
Cristo-Ceia do Caraça!
870
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Voz do Pulso

a Vergílio Ferreira
Se eu penso que é um crime
a luz clara nasce
deste não que suspendo

Não saber até onde
e claramente abrir
o começo tão certo
deste pulso que afirmo
*
A noite me confunde
e nela retempero
a flor que não distingo
de um destino sem olhos
*
Mas o dia de sol
a prumo
fere meus dedos
na página deserta
*
A música começa
no deserto do não
(no túmulo do quarto
as sílabas são mudas)

O delírio é só um
e a esperança é arriscar-se
nesta pedra de som
*
Eu me abro eu me levanto
à janela à mesa ao dia
Sou esse outro que anda
com um destino aos ventos
entre claras lâmpadas

O homem que aconteço
casualmente certo
e se afirma no dia
na igualdade pura

(Ó deserto tão simples)
*
Música alheia minha
Afirmação dos outros
Ao lado deles vou
Tenho um espelho no quarto

O dia é alto quando
na mesa nada espera
que não seja poesia
*
É verdade o que digo
Com a justa rapidez
Breve dureza
a luz
que abre o espaço tão certo
de cada um
a cada um
*
É uma rosa que surge
na mesa a contemplar
É uma forma onde
um mar pequeno sonha
onde recomeçar
a maravilha simples
*
A voz que subsiste
mas só nasce inesperada
A tua mão é larga
Limpa a tua vida

afirma-a sem nada
522
Herberto Helder

Herberto Helder

4K

O mármore maduro desabrocha, move-o pelo meio
a estrela de água.
E a cobra enrola-se ao torso, mergulha
na bolsa tenra. O sopro da víbora incha a pedra
de ombro a ombro.
E a pedra formada, a víbora fria, a estrela
que funciona,
transmudam-se umas nas outras.
— Todas as canções são canções múltiplas
e únicas
de demência.
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Herberto Helder

Herberto Helder

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curva labareda de uma chávena,
colher no seu anel de estrela inóx,
a força terrestre da colher e da chávena,
coisas ditas com luz própria erguida,
palavra e mão uma a uma até ao cume irrespirável de umas quantas
linhas,
e ninguém sabe por mais abrupto que suba da muita iluminação,
dias botânicos, cerâmicos, aumentados,
frutas a pleno oxigénio,
o verão é de azulejo,
que vida alpinista, que epifania!
de tudo se fulgura e se resulta curto,
néon de um astro no quarto,
trate-se o erro intratável no recôndito sentado,
mas antes sentido a salto do que sentado escrito
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Herberto Helder

Herberto Helder

Joelhos, Salsa, Lábios, Mapa.

Joelhos, salsa, lábios, mapa.

As letras dormiam na noite inclinada, e eram
silveiras bravas. Por elas
escorregava o sono inclinado: mercúrio,
salsa leve.
Unidas as letras nos cotovelos, unidas
dormindo
nos seus frios joelhos de letras.
Por baixo, os mapas redondos com seu
mercúrio leve e a sua
salsa leve inclinada. Bravias
silveiras escorregando nos mapas.
Meus lábios unidos às letras dormindo.
Esse, isso — cabelo quente,
telha molhada.

Fogo, vestido, cidade, areia.

Cantando as mulheres palpitavam às portas,
sonhando com atenção. E eu —
engenheiro móvel — enquanto
a noite sensível.
Martelos batiam borboletas como sons
na cidade de areia.
As letras vergavam num sonho.
Cantando linho agudo na atenção
sensível, vergadas às portas,
mulheres cantavam, palpitando letras
na cidade de areia.
Longe, perto — cabelo
quente, telha molhada.

Mulheres, mercúrio, noite, fábrica.

Através do livro raso, um estupendo k
negro de tanto amor.
E o meu grito, copo de pé através
de frias fábricas.
o radar pontuava a viagem das rosas.
Vírgulas na neve batendo nas rosas.
Ww, tt, aspas, parêntesis sensíveis.
Enquanto através alguém ia gritando
pela noite, pela neve — o seu amor:
cabelo quente, telha molhada.

Engenheiro, letra, grito, aspas.

A terra irada escrevia o seu livro raso.
Enquanto por baixo as letras dos peixes
fazendo som.
Eles vinham sonhando, elas vinham sonhando.
Como vírgulas num mapa—os peixes, as letras
vergavam num sonho.
Martelos batendo som nos peixes.
Por baixo os martelos, por cima o radar,
no meio os peixes, as letras, as rosas.
E dentro de mim as vírgulas grandes —
cor de martelos,
som de rosas.
Esse grito, essa letra — cabelo quente, telha
molhada.

Som, radar, peixe, k.

E um terrível amor —pontapé estupendo,
tempestade de areia.
Então o cabelo respirava como uma tábua
irada. Longe, perto — as silveiras
vergavam ao som de mulheres
cantando vírgulas, peixes e aspas.
Enquanto a visão de um copo de pé e da letra k.
E a minha alegria, fábrica de
cabelo quente, telha molhada.

Copo, muro, livro, tábua.

Então o meu cabelo respirava.
Telhas voavam pelos canais —11, tt, ii — durante
todo o pensamento, e os cabelos
no muro batiam finas estátuas.
Abrindo no escuro, durante toda a neve,
os copos, os vestidos, os mapas.
E dentro de mim, rompendo peixes,
uma noite sensível cor de martelos.
Esse grito, essa vírgula, esse amor, esse
martelo louco
nas borboletas. Então o meu cabelo
respirava — cabelo quente, telha
molhada.

Neve, borboleta, vírgula, estátua.

Na noite sensível — louco, louco —
loucamente levantava sobre o livro raso
essa letra k.
Elas tinham asas de castiçal na cara.
Enquanto eu — engenheiro móvel — na fria
fábrica, um copo de pé, um sentimento
de areia. Irado amor em todos
os mapas — cabelo quente,
telha molhada.

Martelo, sono, rosa, porta.

Eu comia fogo ao pé das cerejas.
Álcool escorrendo num retrato aberto
ao contrário da noite.
E as cerejas dormiam de tão abertas —
líricas e loucas.
E eu, álcool escorrendo
pelas fábricas de neve, abertas.
A cabeça aguda dormia nos ares
de um livro raso — cabelo
quente, telha molhada.

Cara, retrato, canal, álcool.

Sinistro na mão um peixe levantado
louco, alguém
gritando, ia gritando pela fábrica fora.
Rosas enoveladas vergavam no sono,
enquanto letras com os cabelos
escorrendo num muro.
Extraordinário, pendurado no sono
sinistro, um negro peixe
morria durante a neve inteira.
Com esse peixe, alguém ia gritando:
cabelo quente, telha molhada.

Gritando, cor de martelo, em peixes
com som de rosas:

Castiçal, silveira, linho — e:

porta porta.

1963.
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