Poemas neste tema

Arte

Guimarães Passos

Guimarães Passos

Pubescência

Ei-la! Chega ao jardim, que estava triste,
Porque a sua alegria ausente estava,
E ela, que em vê-lo dantes se alegrava,
Agora a toda a tentação resiste.

Seria outra alma, pensa, que a animava ?
Por que um desejo que a persegue insiste?
Qualquer cousa que ignora, mas que existe,
Pulsa-lhe ao coração que não pulsava.

Triste cismando segue, e em frente à fonte:
— Um sátiro, de cuja boca escorre
Um fino fio dágua transparente,

Ri-se dos cornos que lhe vê na fronte,
Os lábios cola aos dele, e porque morre
De sede, bebe alucinadamente...

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VII - Ponho na altiva mente o fixo esforço

Ponho na altiva mente o fixo esforço
Da altura, e à sorte deixo,
E as suas leis, o verso;
Que, quando é alto e grégio o pensamento,
Súbdita a frase o busca
E o escravo ritmo o serve.


(Athena, nº 1, Outubro de 1924)
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Colombina

Colombina

Nós Duas

Parecemo-nos muito; assim dizem — e eu o creio.
Além do mesmo sangue, almas iguais nós temos;
pois, pelo mesmo ideal e com o mesmo anseio,
dentro da vida, nós lutamos e sofremos.

Vemos na arte um refúgio, um oásis, um esteio
para a nossa inquietude, e num barco sem remos
vagamos à mercê do próprio devaneio,
sabendo que jamais à enseada chegaremos...

E, apesar de ela ter todo um sol na cabeça
e o nevoeiro do inverno a minha já embranqueça,
da angústia de minha alma a sua compartilha:

Ela pensa, eu medito... Ela sonha, eu me lembro...
Nossa pobreza é igual de dezembro a novembro:
Quem somos, afinal? Apenas, mãe e filha.


Publicado no livro Versos em lá menor (1930).

In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
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Ronaldo Cunha Lima

Ronaldo Cunha Lima

Fortuna Crítica

...um dos homens públicos que melhor conseguem conciliar a
vocação política com o interesse pela cultura.
Minha admiração por seu talento transpõe todas as
fronteiras geográficas. SÉRGIO ROUANET, da Academia
Brasileira de Letras.

É fácil observar que as poesias de Ronaldo Cunha Lima
retratam de sobremaneira a nossa realidade, principalmente
quando ele fala do sentimento humano. Ao ler suas poesias,
o homem apaixonado, ou que viveu um grande amor, encontra
o consolo desejado, amenizando mansamente a sua dor.
FLÁVIO SÁTIRO FILHO, advogado, poeta, ex-Secretário-Executivo
da Fundação Casa de José Américo.

Poeta por natureza, Ronaldo Cunha Lima faz da vida uma
poesia e dá vida à poesia que faz. A sua produção lírica
é feita com amor. O poeta não constrói como o pedreiro,
como o engenheiro, como o fabricante ou o industrial.
Não trabalha com ferro e cimento, mas sim com palavras,
sentimentos, emoções, vibrações, quase o êxtase. Ronaldo
domina os verbos e os substantivos, a metrificação, a
prosódia e o léxico, em palavras que ele controla e
conduz como autêntico mestre. O senador-poeta Ronaldo
Cunha Lima é um escravo e um senhor do poema. MURILO
MELLO FILHO, Membro da Academia Norte-Riograndense de
Letras e do PEN CLUBE DO BRASIL.

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Cacaso

Cacaso

Estilos de Época

Havia
os irmãos Concretos
H. e A. consanguíneos
e por afinidade D.P.,
um trio bem informado:
dado é a palavra dado
E foi assim que a poesia
deu lugar à tautologia
(e ao elogio à coisa dada)
em sutil lance de dados:
se o triângulo é concreto
já sabemos: tem 3 lados.


Publicado no livro Grupo Escolar (1974). Poema integrante da série 2a. Lição: Rachados e Perdidos.

In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.106

NOTA: Referência aos poetas Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, signatários do 'Plano Piloto para Poesia Concreta' (1958); ao verso 'flor é a palavra flor', de João Cabral de Melo Neto ("Antiode"); Ao poema "Um Lance de Dados", de Mallarm
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Murillo Mendes

Murillo Mendes

The Responsive Eye

O olho responde ao ataque da luz.
O olho responde à cor planificada.
O olho responde ao ataque do olho.
O olho agride com luvas.
O olho irresponde à bomba atômica.
O olho, alavanca do quadro.
O olho responde à língua, ao ouvido.
O olho não tateia: vai ao núcleo.
O olho constrói no futuro.
O olho dispara a câmara lenta, a câmara veloz.
O olho espicaça meu poder de construção; por isto sofri de pintura informal como do duodeno.
O olho amarelo expulsa o olhar azul.
O olho do pintor resfolega.
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Poemas Sânscritos

Poemas Sânscritos

DE KALIDASA

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Melhor é uma poesia por antiga?
Então é sempre má, se for moderna?
Só o amador conhece a luta eterna:
e o crítico que espere o que ele diga.

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Vitorino Nemésio

Vitorino Nemésio

De Rembrandt a Van Gogh a tinta és tu

Em rosa de bateira e sol de vinho.

O tempo fez-se-me fome,

Mas levantas os braços-e é o moinho.

Como a corça na Haia plo rebento

E a ponte levadiça,

Vais em maneira,amor e movimento,

Vela da tarde,dique do meu sangue:

Afinal só um pouco de mulher

Que a palavra detém e´águas cultivam.

Graça do vento em céus inesperados,

Gaivota és para mim que nasci delas;

No milagre de sermos encontrados

Já de Amesterdão são nossas as janelas.

Taça a taça trocámos anéis áureos

De vinho português sobre holandilha:

Quem via-como saber

Se era braço de noivo ou mão de filha?

Mas sempre tinta à tarde!Eras a Lua

Que em foice adestra os calmos céus dos pólderes:

Eu ceifava a manhã nos teus cabelos,

Contava-os um a um,canal abaixo,

E,deitado nos verbos que te evocam,

Feliz com um pintor que vende pouco,

Era holandês por ti...

Que,bem pensando,

O que eu cá sou,céus de Van gogh,é louco!

de O Andamento
Holandês

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Tobias Barreto

Tobias Barreto

Ainda à Adelaide do Amaral

Atriz, não sei o mistério
Do teu talento estupendo!
Mulher, eu te compreendo
Nas falas do coração...
Tu, simpática e celeste,
Colheste, d'arte aos quebrantos,
O aplauso de nossos prantos,
E queres deixar-nos?... não!

Se tens saudades que ao longe
Dispersam teu pensamento,
Nós pediremos ao vento
Que sopre mais devagar,
Que à tarde, nas fibras ternas
Do teu peito harmonioso,
Module um canto mimoso,
Que não te faça chorar...

(...)

Os gênios vivem de orvalhos,
Alimentam-se de odores;
Diremos às flores: flores,
Ah! não a deixeis partir!...
Com ela a chorar se aprendem
Todas as dores profundas,
Todas as mágoas fecundas
Que a mulher pode sentir.

1867


Publicado no livro Dias e Noites (1881). Poema integrante da série Parte III - Estéticas.

In: BARRETO, Tobias. Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. p.197-198. (Obras completas
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Sousândrade

Sousândrade

Elogio do Alexandrino

Asclepiádeo verso: à evolução do poema
Das sestas, cadenciar daltas antigüidades,
já porque bipartido em fúlgidas metades
Reata em conjunção opostos de um dilema,
E já por ser de gala a forma do matiz
Heleno na escultura e lácio na linguagem
Reacesda, de Alexandre, em fogos de Paris:
Paris o tom da moda, o bom gosto, a roupagem;
Que desperta aos tocsins, galo às estrelas dalva,
Que faz revoluções de Filadélfia às salvas
E o verso-luz, fardeur das formas, de grandeza,
o verso-formosura, adornos, lauta mesa
Ond tokay, champanh, flor, copos cristal-diamantes
Sobrelevam roast-beef e os queijos e o pudding.
Porém, mens divinior, poesia é o férreo guante:
Ao das delícias tempo, o fácil verso ovante,
o verso cor de rosa, o de oiro, o de carmim,
Dos raios que o astro veste em dia azul-celeste;
E para os que têm fome e sede de justiça,
O verso condor, chama, alárum, de carniça,
Dharpas dÉsquilus, de Hugo, a dor, a tempestade:
Que, embora contra um deus "Figaro" impiedade
Vesgo olhinho a piscar diga tambour-major,
Restruge alto acordando os cândidos espíritos
Às glórias do oceano e percutindo os gritos
Réus. Ao belo trovoar do magno Trovador
Ouve-se afinação no mundo brasileiro,
Acorde tão formoso, hodierno, hospitaleiro,
Flamívomo social, encantador. Fulgura
Luz de dia primeiro, a nota formosura,
Que ao jeová-grande-abrir faz novo Éden luzir.

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Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Maria Bonomi, Maria Gravura

Maria Bonomi, Maria Gravura;
Os traços, pouco a pouco, deixam
de caminhar.
As cores não passam mais
pelos olhos,
Pelos ouvidos, inundam.
A noite desceu sobre a gravura —
Sombra da prensa a comprimir —
Maria Bonomi, Maria Gravura
Ouve-se agora um canto
Do papel em liberdade.

Maria Bonomi
O corte sorri. A mão fica em silêncio,
O contraste murmura
Maria Gravura.


In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.190. Poema integrante da série Mundos Paralelos
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João Augusto Sampaio

João Augusto Sampaio

Me risca qu’eu gosto

Ô canetinha macia
Que desliza e passeia neste papel
Que de quase lixo é reciclado e entra prá História.

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Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Sonetossom

I

Sonetossom é música — sonata —
Suíte da qual desponta o som da giga
Que o Novo a voz imita em voz antiga
E alude a um alaúde em tom de prata.

É canto inverso, divisão, cantata
Que do alto vem, do teto, minha amiga,
Onde a canção das cordas de uma viga,
Uma equação vibrante a mim relata.

Sonetossom é música, retrata,
Em traços de Bourrée e de Alamanda,
Aquilo que comove ou que maltrata.

Inda mais é, amiga, ouça o sentido:
A mímica do fogo em sarabanda,
A voz do tempo, pelo som, perdido.

II

Sonetossom é cor também... também...
Jalne sutil, rude açafrão; dossel
Que do animal, da planta, a cor contém:
Composição de púrpura e pastel.

Como um tapete vai rolando, além:
De sucessivas cores, carrosel.
Às margens dos seus versos entretém,
De cores vegetais, debrum, cairel.

Sonetossom, também, de cor brasil
Tingido está, de índigo, de anil...
Cores que a um povo deu prazer perdido.

Branco de Kaolim; de genipapo
Preto retinto: mínimo farrapo,
De morta luz, bem sei, constituído.


In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.193-194. Poema integrante da série Mundos Paralelos.
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Sebastião da Rocha Pita

Sebastião da Rocha Pita

Soneto

Soneto

[Mudou o Sol o Berço refulgente,
[ou fez Berço do Túmulo arrogante
[galhardo onde se punha agonizante
[com luz no Ocaso, e sombras no Oriente.

[Não morre agora o Sol, quer diferente
[no Aspecto, se na vida semelhante
[no Oriente nascer menos flamante,
[e renascer mais belo no Ocidente.

[Fênix de raios a uma, e outra parte
[O comunica os incêndios, e fulgores,
[porém com diferença hoje os reparte.

[Nasce lá no Oriente só em ardores,
[no Ocidente a ilustrar Ciência, e Arte
[renasce em luzes, vive em resplendores.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Diante das Fotos de Evandro Teixeira

A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo sob a luz,
e dois olhos não são bastantes
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.

É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das figuras.

Fotografia — é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência,
cristal do tempo no papel.

Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como a exorcizar?

Marcas da enchente e do despejo,
o cadáver insepultável,
o colchão atirado ao vento,
a lodosa, podre favela,
o mendigo de Nova York
a moça em flor no Jóquei Clube.

Garrincha e Nureyev, dança
de dois destinos, mães de santo
na praia-templo de Ipanema,
a dama estranha de Ouro Preto,
a dor da América Latina,
mitos não são, pois que são fotos.

Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo
a viajar, a surpreender
a tormentosa vida do homem
e a esperança a brotar das cinzas.
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Emílio de Menezes

Emílio de Menezes

Na Glorificação de Bilac

Como é bom elogiar quando nasce o elogio
De um entusiasmo assim, de uma emoção sincera:
Corre sobre o papel a tinta como um rio
A correr na caudal que o declive acelera!

Os vocábulos vêm espontâneos a fio,
Como os sorrisos sãos que um são deleite gera!
Rebenta o aplauso em nos, vigoroso e sadio
Como rebenta a flor em plena primavera!

Eis porque sou feliz em ver glorificado
Fora da inveja hostil, do despeito perverso
O prosador querido, o poeta muito amado!

..............................................

Da arte, no sangue real tens o teu estro imerso
Porém, não basta, Mestre! um simples principado
— A quem é rei, na prosa e imperador no verso!

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Renato Russo

Renato Russo

Acrilic on canvas

- É saudade então.

E mais uma vez
De você fiz o desenho mais perfeito que se fez:
Os traços copiei do que não aconteceu.
As cores que escolhi, entre as tintas que inventei,
Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três.
Trabalhei você em luz e sombra

Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que nunca
Quis deixar você tão triste.
Sempre as mesmas desculpas
E desculpas nem sempre são sinceras -
Quase nunca são

Preparei a minha tela
Com pedaços de lençóis
Que não chegamos a sujar.
A armação fiz com madeira
Da janela do seu quarto.
Do portão da sua casa
Fiz paleta e cavalete
E com as lágrimas que não brincaram com você
Destilei óleo de linhaça
E da sua cama arranquei pedaços
Que talhei em estiletes
De tamanhos diferentes
E fiz então
Pincéis com seus cabelos.
Fiz carvão do batom que roubei de você
E com ele marquei dois pontos de fuga
E rabisquei meu horizonte.

Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que não foi por mal.
Eu não queria machucar você: prometo que isso nunca vai
Acontecer mais uma vez.
E era sempre, sempre o mesmo novamente -
A mesma traição.

Às vezes é difícil esquecer:
- Sinto muito, ela não mora mais aqui.
Mas então porque eu finjo que acredito no que invento ?
Nada disso aconteceu assim - não foi desse jeito.
Ninguém sofreu: é só você que provoca essa saudade vazia
Tentando pintar essas flores com o nome
De "amor-perfeito" e "não-te-esqueças-de-mim".

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Adriana Sampaio

Adriana Sampaio

Reflexo

Reflexo

Eu sou o espelho que reflete o mundo
Decodificando a coletiva sensação
Mas também espelho
O que reflete ao mundo
O meu interno e plácido
Estampado
Reflexões num espelho plano...
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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Adágio de Mendelsohn

E como eu tivesse que sair do escritório
e o rádio tocasse o adágio do Concerto para Violino de Mendelsohn
decidi deixar ligado o aparelho
embora ninguém estivesse ali para apreciar o que se ouvia.
Deixei os livros, o computador, objetos na estante,
as canetas, grampeadores, tesoura, folhas de papel em branco,
deixei tudo entregue
à responsabilidade musical de Mendelsohn.
Quando voltei daí a dez minutos
todos os objetos, absolutamente todos,
olhavam-me agradecidos
e até na paisagem da janela
havia uma densa, muda e imponderável melodia.
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Frei António das Chagas

Frei António das Chagas

Ao Cavalo do Conde de Sabugalque fazia Grandes Curvetas

Galhardo bruto, teu bizarro alento
Música é nova, com que aos olhos cantas,
Pois na harmonia de cadências tantas
É clave o freio, é solfa o movimento.

Ao compasso da rédea, ao instrumento
Do chão, que tocas, quando a vista encantas,
Já baixas grave, e agudo já levantas,
Onde o pisar é som, e o andar concento.

Cantam teus pés, e o teu meneio pronto,
Nas fugas, não, nas cláusulas medido,
Mil consonâncias forma m cada ponto.

Pois em falsas airosas suspendido,
Ergues em cada quebro um contraponto,
Fazes em cada passo um sustenido.

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

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José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Os Versos

Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta

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Al Berto

Al Berto

A paisagem prolonga-se

a paisagem prolonga-se num S de flores azuladas
ela entra nas ruínas
junto ao ângulo penumbroso da casa destruída
está vestida de branco quando ele lhe fala
ambos têm o olhar vago
ela recorta-se sobre um fundo de árvores nuas
ele está de pé encostado a um muro de pedra
ouve-se alguém dizer: não tenhas medo
so
somos apenas actores dum sonho paralelo à paisagem
os lábios dela tremem ou sorriem
ele encolhe-se mais contra a parede
o silêncio ainda não os abandonou
ela espreita-o
ele desenha-se exacto no centro do écran
(de novo uma voz off)
um vento vertical adere à casa
onde as raízes dos cardos irrompem dos alicerces
e quando ela se vira para o interior das ruínas
prende-se-lhe o olhar num ponto inexistente
ele já ali não está
apenas a objectiva da câmara continua a segui-la
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Manuel António Pina

Manuel António Pina

A poesia vai acabar

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? -
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Jorge de Sena

Jorge de Sena

Chopin: um inventário

Quase sessenta mazurcas; cerca de trinta estudos;
duas dúzias de prelúdios; uma vintena de nocturnos;
umas quinze valsas; mais de uma dúzia de “polonaises”;
“scherzos”, improvisos, e baladas, quatro de cada;
três sonatas para piano; e dois concertos para piano e orquestra,
uma “berceuse”, uma barcarola, uma fantasia, uma tarantela, etc.,
além de umas dezassete canções para canto e piano; uma tuberculose mortal;
um talento de concertista; muitos sucessos mundanos; uma paixão infeliz;
uma ligação célebre com mulher ilustre; outras ligações sortidas;
uma pátria sem fronteiras seguras nem independência concreta;
a Europa francesa do Romantismo; várias amizades com homens eminentes;
e apenas trinta e nove anos de vida. Outros viveram menos, escreveram mais,
comeram mais amargo o classicamente amargo pão do exílio, foram ignorados
ou combatidos, morreram abandonados, não se passearam nas alcovas
ou nos salões da glória, confinaram-se menos ao instrumento que melhor dominavam,
e mesmo foram mais apátridas sofrendo de uma pátria que não haja.
Além disso, quase todos escaparam mais à possibilidade repelente
de ser melodia das virgens, ritmo dos castrados,
requebro de meia-tijela, nostalgia dos analfabetos,
e outras coisas medíocres e mesquinhas da vulgaridade, como ele não. Ou de ser
prato de não-resistência para os concertistas que tocam para as pessoas que julgam
que gostam de música mas não gostam. Ainda por cima
era um arrivista, um pedante convencido da aristocracia que não tinha,
um reaccionário ansiando por revoluções que libertassem as oligarquias
da Polónia, coitadinhas, e outras. E, para cúmulo,
a gente começa a desconfiar de que não era sequer um romântico,
pelo menos da maneira que ele fingiu ser e deixou entender que era.
Uma arte de compor a música como quem escreve um poema,
a força que se disfarça em languidez, um ar de inspiração
ocultando a estrutura, uma melancolia harmónica por sobre
a ironia melódica (ou o contrário), a magia dos ritmos
usada para esconder o pensamento – e escondê-lo tanto,
que ainda passa por burro de génio este homem que tinha o pensamento nos dedos,
e cuja audácia usava a máscara do sentimento ou das formas livres
para criar-se a si mesmo. Tão hábil na sua cozinha, que pode servir-se
morno, às horas da saudade e da amargura,
quente, nas grandes ocasiões da vida triunfal,
e frio, quando só a música dirá o desespero vácuo
de ser-se piano e nada mais no mundo.
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