Poemas neste tema

Arrependimento e Culpa

Rafael Días Icaza

Rafael Días Icaza

Insônia

Sou naufrago, mãe, e te chamo na noite,
desolado, no firme marchar para a morte,
e de golpe me assalta a ternura infinita
dos primeiros anos. E necessito saber que te achas
perto, que a tua lâmpada vela, pontual, perto de mim.

Necessito teu copo para a má sombra dos pesadelos,
teu apoio de nogueira para o descanso dos sonhos
absurdos teu desencantado sorriso e tuas mãos sobre meus cabelos.
Desolado, desde a má noite, quebro meus punhos em portas infinitas
e chamo, e ninguém me abre.
Mãe: me de a chave de tuas despensas,
sou um homem perdido baixo a chuva cinza:
Ascende o fósforo mais tênue para que eu caminhe

Atravessam a sombra, desde os pórticos da alvorada,
a noiva e seu lenço de açafrão e pérola,
a querida com seus beijos impuros,
todas as esperanças e todos os fracassos,
todos os malabares e os equilíbrios na corda bamba

Volta o homem, desde sua maturidade do seu poderio,
até a comarca em que chorava só baixo a noite imensa,
e voltam a soltar-se os mastins e a derramar-se o vinho dos odres,
e a assinalar com os índices à criança desvalida:
"Vejam aqui ao que come pães do lamento e a angustia."

Mãe: um escuro terror, uma certa sensação de culpa
há neste homem cego que empunha as aldravas
das casas sem donos, em seus erros na noite.

387
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A PARTIDA [a]

A PARTIDA

Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta
Sensivelmente começam a pressão definitiva...
E que tomo consciência exorbitando os meus olhos,
Olho p'ra trás de mim, reparo pelo passado fora
Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui
Considero lucidamente o meu passado misto
E acho que houve um erro
Ou em eu viver ou em eu viver assim.

Será sempre que quando a Morte me entra no quarto
E fecha a porta a chave por dentro,
E a coisa é definitiva, inabalável,
Sem Cour de cassation para o meu destino findo,
Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida
Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada
Acorda como uma coisa anterior à infância no meu partir?
Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga
Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa,
Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde
Se sabe que a trovoada, por estar [...], decresceu.

Viro-me para o passado.
Sinto-me ferir na carne.
Olho com essa espécie de alegria da lucidez completa
Para a falência instintiva que houve na minha vida
Vão apagar o último candeeiro
Na rua amanhecente de minha Alma!
Sinal de [..]
O último candeeiro que apagam!
Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a
Antes que a conheça, amo-a.
Viro-me para trás, para o passado, não [visiono? ];
Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim.

Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio
E a quem depois abandonei como um espantalho reles,
Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim,
Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro
E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim,
Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é.
Ergo-me em fim das almofadas quase cómodas
E volto ao meu remorso sadio.
1 710
Menezes y Morais

Menezes y Morais

Balada dos Mortos na Parede etc

teus mortos
estão nas paredes
nos álbuns
memórias
dramas

te espiamudos
denunciam calados
o crime q comeste

teus mortos
não perdoaram

eles vivem
todo dia
quando reparas
nos álbuns
paredes
memórias
dramas
é inútil tentar/remover os mortos/
dessas paragens
eles estão em ti

te acompanham
procriam na sala
quarto lembranças

convive com os mortos
é mais seguro do q conviver com os
vivos
a vida é túmulo em via

908
Marco Valadares

Marco Valadares

Nossos Caminhos Pela Vida

Eu não saberia da vida
Muito que dela aprendi
Se por caminhos passados
Passasse por longe de ti

E nesses caminhos vividos...
Com amor, mágoa e paixão
Certas vezes eu era sozinho
Mas longe da solidão

Pois solidão é nunca ter tido
Nada pra pensar ou sentir
Mas desde que te conheço
Não me conheço longe de ti

E nesse novo caminho que estamos
Ando com muito cuidado
Pois estou tendo que aprender
A não andar mais do teu lado

Mas quero ter sempre em mente
Que isso é coisa passageira
Pois quero viver novamente
Daquela velha maneira

Como quando numa praia deserta
Ficamos juntos por dez dias
Dias de amor, carinho, amizade,
E um sentimento que crescia

Ou mesmo de um carnaval
Que muitas tristezas senti
Mas quando voltamos pra casa
Podia estar perto de ti

Queria muito me desculpar
Por aquele nosso passado
Mas é de se compreender
Pelo caminho que começou errado

E a vida que desejávamos
Lhe digo com muito amor
Que está mais perto do que pensas
Se reconhecer nosso valor

Pois a tua falta pra mim
Faz com que viver pareça
Semanas durarem anos
E faz, com isso, que eu cresça

Faz com que eu me arrependa
Da liberdade que não lhe dei
Mas foi tão inconsciente
Que fui eu quem me aprisionei

Tanto que não lhe devo desculpas
Pois me sinto em igual situação
Mas devo com muita esperança
Propor-lhe uma solução

De que nossas pegadas na areia
Pelos caminhos que passamos
Não sejam jamais esquecidas
Pra não esquecermos que erramos

Mas que sejam deixadas expostas
Nossas pegadas na vida
Para que o vento possa fechá-las
Fechando nossas feridas

E, nesse dia, finalmente
No meu ombro se deitarás
Como era antigamente
E não deixará de ser mais...

343
Mario Ribeiro Martins

Mario Ribeiro Martins

Qual dos Dois?

Abandonou-me a vida displicente,
fria, calada, sem medo e sem dó...
Aquela cuja vida tão somente,
era meu coração, o meu Jacó.
Agora, eu subo os montes tristemente,
olho o rico passado, como Jó...
Ouço as desilusões na minha frente,
que gritam com desprezo: SIGA SÓ.
Como seguir assim sem coração?
pois eu o dei com tanta devoção,
com tanta devoção que não pensei.
Ó montanhas, ó gritos, ó passado,
respondei-me: FUI EU ABANDONADO?
OU TIVE O PARAÍSO E REJEITEI?

949
Mario Ribeiro Martins

Mario Ribeiro Martins

O Triste

Ei-la, tristonha, como nunca esteve:
Face pálida, cabisbaixa, rosto decaído.
Fui eu? Perguntou meu coração e não conteve...
Sim. Fui eu... ingrato, injusto, distraído.
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
e eu pobre, com o coração dorido.
Sofri o amor...sofri a dor...ah! ela susteve
meu amor, meu ser, meu triste dolorido!
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
mas perto de mim, ela manteve
aquele amor que vem da alma apetecida.
Ei-la agora alegre como nunca esteve,
ei-la disposta a se manter como manteve
perto de mim, O TRISTE MAIS FELIZ DA VIDA.

859
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Contrição

Quero banhar-me nas águas límpidas
Quero banhar-me nas águas puras
Sou a mais baixa das criaturas
Me sinto sórdido

Confiei às feras as minhas lágrimas
Rolei de borco pelas calçadas
Cobri meu rosto de bofetadas
Meu Deus valei-me

Vozes da infância contai a história
Da vida boa que nunca veio
E eu caia ouvindo-a no calmo seio
Da eternidade.
1 287
António Carlos Cortez

António Carlos Cortez

Ecos

Errar todo o discurso de teus anos
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre

e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)

Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…

Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
706
Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk

Amiga

Amiga,
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.

908
Dagmar Destêrro

Dagmar Destêrro

Êxtase

Amor,
bem sabes tu como te quis...
No afeto que minha alma te ofertou,
dei-te tudo... Ilusão... Dei-te carinho...
uma alma vibrante,
— essa taça de vinho
que sorveste feliz,
o vinho delirante
que tua vida embriagou.

Amor,
bem sabes tu como te quis.
Na volúpia de querer a tua vida,
Tua alma na minha alma confundida,
retratei-me toda inteira nos meus versos
Meus segredos disperses!

Amor,
bem sabes tu quanto te quis.
No momento supremo, iluminado,
que ainda agora o coração bendiz,
nos encontramos,
e nos amamos
o meu olhar no teu continuado.

Meu ser estremeceu,
vibrou minha alma, num lampejo.
Senti, na terra, o céu.
Tive em mim a volúpia de um desejo.

Tudo, agora, porém, é solidão.
Já não voltas, não podes mais voltar.
A minha alma lamenta em triste pranto,
nunca mais te encontrar.
Lamenta este meu coração
não haver gozado,
não haver te dado,
carinhos que me deste e eu não aceitei,
os beijos que pediste e não te dei...

1 190
Maria Lúcia Dal Farra

Maria Lúcia Dal Farra

Desabitação

Penso que a gente morre
tal qual o frango no prato que destrinçamos
(alheadamente)
em prosa com os convivas.
Às vezes sem ruído, outras esmagados

sob o pecado, a falta não redimida –
como um trem que atravessasse as vísceras.

Levantamos a cabeça por cima dos talheres
e fisgamos no ar a ideia
com que debicar o vinho –
mas o odor da marmita
faz quase vomitar.

Somos os habitantes e os visitantes
dessa casa que dá para o caos.
692
Yannis Ritsos

Yannis Ritsos

O Espaço Do Poeta

A escrivaninha negra com entalhes,
os dois candelabros de prata, o cachimbo vermelho.
Está sentado, quase invisível, na poltrona, com a janela sempre às suas costas.
Por detrás dos óculos, enormes e cautos, observa o interlocutor à luz intensa,
ele próprio oculto dentro de suas palavras, dentro da História,
com personagens seus, distantes, invulneráveis,
capturando a atenção dos outros nos delicados revérberos
da safira que traz num dedo, e alerta sempre para saborear-lhes as
expressões, nos momentos em que os tolos efebos
umedecem os lábios com a língua, admirativamente. E ele,
astuto, sôfrego, sensual, o grande inocente,
entre o sim e o não, entre o desejo e o remorso,
qual balança na mão de um deus, ele oscila por inteiro,
enquanto a luz da janela atrás lhe põe na cabeça
uma coroa de absolvição e santidade.
“Se a poesia não for a remissão – murmura a sós consigo -
não esperemos então misericórdia de ninguém”.

(tradução de José Paulo Paes)

1 062
Yannis Ritsos

Yannis Ritsos

Versos na tarde

A escrivaninha negra com entalhes,
os dois candelabros de prata, o cachimbo vermelho.
Está sentado, quase invisível, na poltrona, com a janela sempre às suas costas.
Por detrás dos óculos, enormes e cautos, observa o interlocutor à luz intensa,
ele próprio oculto dentro de suas palavras, dentro da História,
com personagens seus, distantes, invulneráveis,
capturando a atenção dos outros nos delicados revérberos
da safira que traz num dedo, e alerta sempre para saborear-lhes as
expressões, nos momentos em que os tolos efebos
umedecem os lábios com a língua, admirativamente. E ele,
astuto, sôfrego, sensual, o grande inocente,
entre o sim e o não, entre o desejo e o remorso,
qual balança na mão de um deus, ele oscila por inteiro,
enquanto a luz da janela atrás lhe põe na cabeça
uma coroa de absolvição e santidade.
“Se a poesia não for a remissão – murmura a sós consigo -
não esperemos então misericórdia de ninguém”.

(tradução de José Paulo Paes)

957
Carvalho Nogueira

Carvalho Nogueira

Oração da Noite

— Meu Deus, eu agradeço mais um dia
de vida neste mundo de emoções,
também peço perdão pelos pecados
que cometi, por mais que os evitasse.

E por esses pecados, de joelhos,
perdão suplico, cheio de remorso,
pedindo forças, luzes e talento
para evitá-los quando me tentarem.

Como dissestes que a gente batesse,
que as portas se abririam de repente,
rogo pela felicidade dos meus filhos.

Pelas almas dos maus também eu rogo,
pelos que sofrem, pelos que não sabem
rezar uma palavra de perdão.

994
Celso Novais

Celso Novais

Canto de confissão e louvor à minha mãe

Pousa tua mão o meu rosto
Como fazia outrora - minha mãe,
Eu sou o mesmo menino antigo
Que te precisa.

A vida, com seu livro aberto diante de nós
Nos contempla, como querendo julgar-nos,
A mim por não ter sido fiel ao teu amor
A ti pelo teu amor incomparável.

Talvez agora, tornado homem, possa eu
Levar-te pela mão devagarinho
Com todo ardor enternecente
Com que me fazias passear nas tardes,
Talvez o mundo que venha a te mostrar
Não sejas aquele que sonhaste para mim,
Mas não faz mal, mãe, eu também me enganei...

Uma coisa porém é fundamental:
Não devemos ficar à margem,
Alheios ou neutros - temos de participar,
Pois todo aquele que lava as mãos
Não enxuga as culpas.

551
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Numa estação de metro

A minha juventude passou e eu não estava lá.
Pensava em outra coisa, olhava noutra direcção.
Os melhores anos da minha vida perdidos por distracção!

Rosalinda, a das róseas coxas, onde está?
Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão?
Provavelmente professoras de Alemão
em colégios fora do tempo e do espa-

ço! Hoje, antigamente, ele tê-las-ia
amado de um amor imprudente e impudente,
como num sujo sonho adolescente
de que alguém, no outro dia, acordaria.

Pois tudo era memória, acontecia
há muitos anos, e quem se lembrava
era também memória que passava,
um rosto que entre outros rostos se perdia.

Agora, vista daqui, da recordação,
a minha vida é uma multidão
onde, não sei quem, em vão procuro
o meu rosto, pétala dum ramo húmido, escuro.

Manuel António Pina | "Todas as palavras" | Poesia reunida | Ed. Assírio & Alvim, 2012
2 359
Renato Rezende

Renato Rezende

Desejo

Um anjo desejou outro anjo.
Isso não foi inocente. Os primeiros
tons rubros surgiram no horizonte eterno.
Logo tudo foi tomado pelas chamas
e era o poente: a aurora do inferno.


Nova York, agôsto 1993
1 139
Jorge Melícias

Jorge Melícias

A mulher borda

violentamente

o ventre contra o chão.

É este o centro do círculo da loucura,

e a luz está toda nos dedos.

O crime tem a idade do mundo,diz,

e recomeça a coser os pulsos

filho a filho.

A loucura é agora uma mão

cheia de sal

voltada para dentro.

Nenhum vaso se entorna

já em seu nome,

e sobre a mesa

os frutos estão fechados como pedras.

de Iniciação ao Remorso(1998)

832
Jorge Melícias

Jorge Melícias

Há a boca pisada de pedras,

e o remorso

é uma parede mordida pelo eco.

A mulher fechou-se no quarto

com a noite entre as mãos.

Está funda na casa.

Mas partidas todas as lâmpadas

a cegueira é ainda uma forma de ver.

de Iniciação ao Remorso(1998)

1 142
Ingeborg Bachmann

Ingeborg Bachmann

Manobras de Outono

Manobras de Outono
Não digo: isso foi ontem. Com insignificantes
trocos de Verão nos bolsos, estamos de novo deitados
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.
E a nós não nos é dada, como aos pássaros,
a retirada para o sul. À noite passam por nós
traineiras e gondolas, e por vezes
atinge-me um estilhaço de mármore impregnado de sonho,
onde a beleza me torna vulnerável, nos olhos.

Leio nos jornais muitas notícias - do frio
e suas consequências, de imprudentes e mortos,
de exilados, assassinos e meríades
de blocos de gelo, mas pouca coisa que me dê prazer.
E porque havia de dar? Ao pedinte que vem ao meio-dia
fecho-lhe a porta na cara, porque há paz
e podemos evitar essas cenas, mas não
o triste cair das folhas à chuva.

Vamos viajar! Debaixo dos ciprestes
ou de palmeiras ou nos laranjais, vamos
contemplar a preços reduzidos
inigualáveis pôr-do-sol! Vamos esquecer
as cartas ao dia de ontem, não respondidas!
O tempo faz milagres. Mas se chegar quando não nos convém,
com o bater da culpa - não estamos em casa.
Na cave do coração, desperto, encontro-me de novo
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.

1 283
Renato Rezende

Renato Rezende

Estelita Lins Com Laranjeiras

Nesta esquina havia um mendigo
que queria sempre falar comigo.
Quando me via me chamava.
Ei, ei, preciso falar com você!
Mas eu passava apressado e deprimido.
E lá ficava ele, sentado
entre cocôs de cachorro e lixo.
Quem sabe ele era o anjo, um Zipruana
São Francisco de Assis, o próprio Jesus Cristo
que me levaria enfim ao Paraíso.
Talvez ele fosse o anjo do eu-redimido.
Talvez ele fosse o meu anjo prometido.

Duvido.


Rio de Janeiro, 27 de fevereiro 1997
910
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ODE MARCIAL

ODE MARCIAL

Inúmero rio sem água – só gente e coisas,
Pavorosamente sem água!

Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!

Helahoho! helahoho!

A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta...
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,

Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.

Helahoho! Helahoho!

Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.

Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou.
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso com uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito.

E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.

Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar,
E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.

Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe.
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.

Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.

Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviúve e a quem aconteça isto?

Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo.
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
2 343
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PECADO ORIGINAL

PECADO ORIGINAL


Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade – o sonho à janela do infância?
Que é daquela nossa certeza – o propósito à mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão –
Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!


07/12/1933
2 517
Josefina Plá

Josefina Plá

Soy

Soy

Carne transida, opaco ventanal de tristeza,

agua que huye del cielo en perpetuo temblor;

vaso que no ha sabido colmarse de pureza

ni abrirse ancho a los negros raudales del horror.

¡Ojos que no sirvieron para mirar la muerte,

boca que no ha rendido su gran beso de amor!

Manos como dos alas heridas: ¡diestra inerte

que no consigue alzarse a zona de fulgor!

Planta errátil e incierta, cobarde ante el abrojo,

reacia al duro viaje, esquiva al culto fiel;

¡rodillas que el placer no hincó ante su altar rojo,

mas que el remordimiento no ha logrado vencer!

Garganta temerosa del entrañable grito

que desnuda la carne del último dolor:

¡lengua que es como piedra al dulzor infinito

de la verdad postrera dormida en la pasión!

Haz de inútiles rosas, agostándose en sombra,

pozo oculto que nunca abrevó una gran sed;

prado que no ha podido amansarse en alfombra,

¡pedazo de la muerte, que no se sabe ver!

1 113