Poemas neste tema
Arrependimento e Culpa
Alfred Edward Housman
SHOT? SO QUICK
Um tiro? Um fim asseado?
Fizeste bem em buscá-lo.
Eras um caso arrumado:
Melhor a morte guardá-lo.
Razoável tu pensaste,
Soubeste que ias à viola;
E muito a tempo encostaste
À tua fronte a pistola.
Antes que tarde já fosse
Em humilhações e desgraça,
O teu traidor acabou-se
Que nascera de má raça.
O futuro adivinhaste,
E ao teu pântano fugiste,
Se o pó, meu filho, ganhaste,
ainda há pior, que previste.
Não-alma que as almas suga,
Essa história é bem sabida.
Aos outros poupaste a fuga.
Foi de homem teu fim de vida
Os estranhos e os amigos
Com inveja passam cá:
Sem desonra e sem perigos
Sem culpas, teu ser está.
Repousa-te em paz serena.
Coroa é só esta a que eu traga:
Guardá-la não vale a pena
Mas, se usada, não se apaga.
Fizeste bem em buscá-lo.
Eras um caso arrumado:
Melhor a morte guardá-lo.
Razoável tu pensaste,
Soubeste que ias à viola;
E muito a tempo encostaste
À tua fronte a pistola.
Antes que tarde já fosse
Em humilhações e desgraça,
O teu traidor acabou-se
Que nascera de má raça.
O futuro adivinhaste,
E ao teu pântano fugiste,
Se o pó, meu filho, ganhaste,
ainda há pior, que previste.
Não-alma que as almas suga,
Essa história é bem sabida.
Aos outros poupaste a fuga.
Foi de homem teu fim de vida
Os estranhos e os amigos
Com inveja passam cá:
Sem desonra e sem perigos
Sem culpas, teu ser está.
Repousa-te em paz serena.
Coroa é só esta a que eu traga:
Guardá-la não vale a pena
Mas, se usada, não se apaga.
1 001
Max Jacob
NOITE INFERNAL
Qualquer coisa de horrivelmente frio cai
nos meus ombros. Qualquer coisa de pegajoso agarra-se-me ao pescoço. Urna voz vem do céu
e grita: Monstro! sem que eu saiba se é de mim e dos meus vícios que se
trata ou se quer significar afinal o ser viscoso que se agarra a mim.
nos meus ombros. Qualquer coisa de pegajoso agarra-se-me ao pescoço. Urna voz vem do céu
e grita: Monstro! sem que eu saiba se é de mim e dos meus vícios que se
trata ou se quer significar afinal o ser viscoso que se agarra a mim.
1 098
Geraldo Lyra
Perdão para Meu Pai!
Meu pai pagou bem caro uma aventura
com jovem que não tinha virgindade,
pois, quando a "conheceu", toda a cidade
sabia que não era mulher pura ...
O genitor da tal, por crueldade,
contratou pistoleiros de alma dura:
— pegado de surpresa, um que o segura
e outro que o esfaqueia sem piedade ...
Pelo resto da vida deformado,
sofreu motejos e os filhos, também,
mesmo sem terem culpa do pecado...
Mas, quem de uma moiçola enjeita as graças?
— E eu, agora, respondo que — ninguém,
apesar das piores das desgraças!!!
com jovem que não tinha virgindade,
pois, quando a "conheceu", toda a cidade
sabia que não era mulher pura ...
O genitor da tal, por crueldade,
contratou pistoleiros de alma dura:
— pegado de surpresa, um que o segura
e outro que o esfaqueia sem piedade ...
Pelo resto da vida deformado,
sofreu motejos e os filhos, também,
mesmo sem terem culpa do pecado...
Mas, quem de uma moiçola enjeita as graças?
— E eu, agora, respondo que — ninguém,
apesar das piores das desgraças!!!
326
Luiz Guimarães
História d’um cão
História d’um cão
Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
Para dizer numa palavra tudo
Foi o mais feio cão que houve no mundo
Recebi-o das mãos dum camarada.
Na hora da partida, o cão gemendo
Não me queria acompanhar por nada:
Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.
O meu amigo cabisbaixo, mudo,
Olhava-o ... o sol nas ondas se abismava....
«Adeus!» - me disse,- e ao afagar Veludo
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
«Trata-o bem. Verás como rasteiro
Te indicarás os mais sutís perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos.»
Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitado
A sua cauda - caminhava errante
A luz da lua - tristemente uivando
Toussenel: Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.
Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! era um artigo
Contendo a narração miuda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes:
Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais - todas francesas.
Assombrava-me muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso d’uma passageira...
Mil coisas mais de que me não recordo.
Finalmente, por baixo disso tudo
Em nota breve do melhor cursivo
Recomendava o pobre do Veludo
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.
Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento
Me contemplava, e - creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se a meus pés silencioso
Movendo a cauda, - e adormeceu contente
Farto d’um puro e satisfeito gozo.
Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre d’aquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher d’um velho carvoeiro.
E respirei! «Graças a Deus! Já posso»
Dizia eu «viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo».
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca sismadora.
Mal respirei, porém! Quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo
Sentí que à minha porta alguem batia:
Fui ver quem era. Abrí. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E - de cansado - foi rolar dormindo
Como uma pedra, junto do meu leito.
Preguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo
Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos...
De instante em instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.
Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo - e com furor remamos
Veludo à proa olhava-me choroso
Como o cordeiro no final momento,
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremessei-o às ondas de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente.
Voltei à terra - entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas morimbundo.
Mas ao despir dos ombros meus o manto
Notei - oh grande dor! - haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
Certo caira lém no mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah, se Veludo
Duas vidas tivera - duas vidas
Eu arrancara àquela besta morta
E àquelas vís entranhas corrompidas.
Nisto sentí uivar à minha porta.
Corrí, - abrí... Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se a meus pés, - e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente.
Fôra crível, oh Deus? - Ajoelhado
Junto do cão - estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.
Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
Para dizer numa palavra tudo
Foi o mais feio cão que houve no mundo
Recebi-o das mãos dum camarada.
Na hora da partida, o cão gemendo
Não me queria acompanhar por nada:
Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.
O meu amigo cabisbaixo, mudo,
Olhava-o ... o sol nas ondas se abismava....
«Adeus!» - me disse,- e ao afagar Veludo
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
«Trata-o bem. Verás como rasteiro
Te indicarás os mais sutís perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos.»
Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitado
A sua cauda - caminhava errante
A luz da lua - tristemente uivando
Toussenel: Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.
Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! era um artigo
Contendo a narração miuda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes:
Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais - todas francesas.
Assombrava-me muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso d’uma passageira...
Mil coisas mais de que me não recordo.
Finalmente, por baixo disso tudo
Em nota breve do melhor cursivo
Recomendava o pobre do Veludo
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.
Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento
Me contemplava, e - creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se a meus pés silencioso
Movendo a cauda, - e adormeceu contente
Farto d’um puro e satisfeito gozo.
Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre d’aquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher d’um velho carvoeiro.
E respirei! «Graças a Deus! Já posso»
Dizia eu «viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo».
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca sismadora.
Mal respirei, porém! Quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo
Sentí que à minha porta alguem batia:
Fui ver quem era. Abrí. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E - de cansado - foi rolar dormindo
Como uma pedra, junto do meu leito.
Preguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo
Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos...
De instante em instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.
Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo - e com furor remamos
Veludo à proa olhava-me choroso
Como o cordeiro no final momento,
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremessei-o às ondas de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente.
Voltei à terra - entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas morimbundo.
Mas ao despir dos ombros meus o manto
Notei - oh grande dor! - haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
Certo caira lém no mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah, se Veludo
Duas vidas tivera - duas vidas
Eu arrancara àquela besta morta
E àquelas vís entranhas corrompidas.
Nisto sentí uivar à minha porta.
Corrí, - abrí... Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se a meus pés, - e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente.
Fôra crível, oh Deus? - Ajoelhado
Junto do cão - estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.
1 327
Luiz Nogueira Barros
Luta
Luta mais feroz não há que a dos erros
saindo das cavernas mais recônditas
de portas derrubadas aos últimos instantes:
quando a morte é certa e a vida uma tolice !...
saindo das cavernas mais recônditas
de portas derrubadas aos últimos instantes:
quando a morte é certa e a vida uma tolice !...
938
João Linneu
Em seu leito, finda a velha
Em seu leito, finda a velha.Ao seu lado, fito a cena.Num átimo, sou seus sentidos.Por olhos turvoslímpidas visões;nos flácidos braços,íntimos abraçosNo silencio dos ouvidossussurros de paixão;br>no mutismo dos lábios,murmurando, disse não.Sofre pelo não feito...o beijo negado e tanto querido;o bilhete escrito e logo rasgado;o abraço sonhado e nunca dado;a palavra não dita, e que a sós gritava;amores ocultos, noites insones;um pouco mais e seria feliz...
733
Fernando Pessoa
Porque, ó Sagrado, sobre a minha vida
Porque, ó Sagrado, sobre a minha vida
Derramaste o teu verbo?
Porque há-de a minha partida
A coroa de espinhos da verdade
(...)
Antes eu era sábio sem cuidados,
Ouvia, à tarde finda, entrar o gado
E o campo era solene e primitivo.
Hoje que da verdade sou o escravo
Só no meu ser tenho de ter o travo,
Estou exilado aqui e morto vivo.
Maldito o dia em que pedi a ciência!
Mais maldito o que a deu porque me a deste!
Que é feito dessa minha inconsciência
Que a consciência, como um traje, veste?
Hoje sei quase tudo e fiquei triste...
Porque me deste o que pedi, ó Santo?
Sei a verdade, enfim, do Ser que existe.
Prouvera a Deus que eu não soubesse tanto!
1932
(para o Fausto?)
Derramaste o teu verbo?
Porque há-de a minha partida
A coroa de espinhos da verdade
(...)
Antes eu era sábio sem cuidados,
Ouvia, à tarde finda, entrar o gado
E o campo era solene e primitivo.
Hoje que da verdade sou o escravo
Só no meu ser tenho de ter o travo,
Estou exilado aqui e morto vivo.
Maldito o dia em que pedi a ciência!
Mais maldito o que a deu porque me a deste!
Que é feito dessa minha inconsciência
Que a consciência, como um traje, veste?
Hoje sei quase tudo e fiquei triste...
Porque me deste o que pedi, ó Santo?
Sei a verdade, enfim, do Ser que existe.
Prouvera a Deus que eu não soubesse tanto!
1932
(para o Fausto?)
4 377
Fernando Pessoa
Sei bem que não consigo
Sei bem que não consigo
O que não quero ter,
Que nem até prossigo
Na estrada até querer.
Sei que não sei da imagem
Que era o saber que foi
Aquela personagem
Do drama que me dói.
Sei tudo. Era presente
Quando abdiquei de mim...
E o que a minha alma sente
Ficou nesse jardim.
18/08/1930
O que não quero ter,
Que nem até prossigo
Na estrada até querer.
Sei que não sei da imagem
Que era o saber que foi
Aquela personagem
Do drama que me dói.
Sei tudo. Era presente
Quando abdiquei de mim...
E o que a minha alma sente
Ficou nesse jardim.
18/08/1930
4 118
Fernando Pessoa
Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.
Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.
Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.
23/08/1934
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.
Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.
Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.
23/08/1934
4 306
Júlio Maria dos Reis Pereira
Interrogação
Sim, preferi deixar-te,
abandonando
a dádiva de encontrar-te.
Quem eras afinal?
Qual a estrela que te guiava?
Qual a cor dos teus dias?
Qual o segredo que em ti eu tentei desvendar?
Abandonei-te.
No entanto,
na minha vida
talvez fosses o leite
capaz de me curar.
abandonando
a dádiva de encontrar-te.
Quem eras afinal?
Qual a estrela que te guiava?
Qual a cor dos teus dias?
Qual o segredo que em ti eu tentei desvendar?
Abandonei-te.
No entanto,
na minha vida
talvez fosses o leite
capaz de me curar.
570
Castro Alves
Mãe Penitente
"Ouve-me, pois!... Eu fui uma perdida;
Foi este o meu destino, a minha sorte...
Por esse crime é que hoje perco a vida,
Mas dele em breve há de salvar-me a morte!
"E minhaalma, bem vês, que não se irrita,
Antes bendiz estes mandões ferozes,
Eu seria talvez por ti maldita,
Filho! sem o batismo dos algozes!
"Porque eu pequei... e do pecado escuro
Tu foste o fruto cândido, inocente,
— Borboleta, que sai do — lodo impuro...
— Rosa, que sai de — pútrida semente!
"Filho! Bem vês... fiz o maior dos crimes:
— Criei um ente para a dor e a fome!
Do teu berço escrevi nos brancos vimes
O nome de bastardo — impuro nome.
"Por isso agora tua mãe te implora
E a teus pés de joelhos se debruça.
Perdoa à triste — que de angústia chora,
Perdoa à mártir — que de dor soluça!
"Mas um gemido a meus ouvidos soa...
Que pranto é este que em meu seio rola?
Meu Deus, é o pranto seu que me perdoa...
Filho, obrigada pela tua esmola!"
Foi este o meu destino, a minha sorte...
Por esse crime é que hoje perco a vida,
Mas dele em breve há de salvar-me a morte!
"E minhaalma, bem vês, que não se irrita,
Antes bendiz estes mandões ferozes,
Eu seria talvez por ti maldita,
Filho! sem o batismo dos algozes!
"Porque eu pequei... e do pecado escuro
Tu foste o fruto cândido, inocente,
— Borboleta, que sai do — lodo impuro...
— Rosa, que sai de — pútrida semente!
"Filho! Bem vês... fiz o maior dos crimes:
— Criei um ente para a dor e a fome!
Do teu berço escrevi nos brancos vimes
O nome de bastardo — impuro nome.
"Por isso agora tua mãe te implora
E a teus pés de joelhos se debruça.
Perdoa à triste — que de angústia chora,
Perdoa à mártir — que de dor soluça!
"Mas um gemido a meus ouvidos soa...
Que pranto é este que em meu seio rola?
Meu Deus, é o pranto seu que me perdoa...
Filho, obrigada pela tua esmola!"
4 131
Castro Alves
Último Abraço
"Filho, adeus! Já sinto a morte,
Que me esfria o coração.
Vem cá... Dá-me tua mão...
Bem vês que nem mesmo tu
Podes dar-lhe novo alento!...
Filho, é o último momento...
A morte — a separação!
Ao desamparo, sem ninho,
Ficas, pobre passarinho,
Neste deserto profundo,
Pequeno, cativo e nu!...
"Que sina, meu Deus! que sina
Foi a minha neste mundo!
Presa ao céu — pelo desejo,
Presa à terra — pelo amor!...
Que importa! é tua vontade?
Pois seja feita, Senhor!
"Pequei!... foi grande o meu crime,
Mas é maior o castigo...
Ai! não bastava a amargura
Das noites ao desabrigo;
De espedaçaram-me as carnes
O tronco, o açoite, a tortura,
De tudo quanto sofri.
Era preciso mais dores,
Inda maior sacrifício...
Filho! bem vês meu suplício...
Vão separar-me de ti!
"Chega-te perto... mais perto;
Nas trevas procura ver-te
Meu olhar, que treme incerto,
Perturbado, vacilante...
Deixa em meus braços prender-te
Pra não morrer neste instante;
Inda tenho que fazer-te
Uma triste confissão...
Vou revelar-te um segredo
Tão negro, que tenho medo
De não ter o teu perdão!...
Mas não!
Quando um padre nos perdoa,
Quando Deus tem piedade
De um filho no coração
Uma mãe não bate à toa.
Que me esfria o coração.
Vem cá... Dá-me tua mão...
Bem vês que nem mesmo tu
Podes dar-lhe novo alento!...
Filho, é o último momento...
A morte — a separação!
Ao desamparo, sem ninho,
Ficas, pobre passarinho,
Neste deserto profundo,
Pequeno, cativo e nu!...
"Que sina, meu Deus! que sina
Foi a minha neste mundo!
Presa ao céu — pelo desejo,
Presa à terra — pelo amor!...
Que importa! é tua vontade?
Pois seja feita, Senhor!
"Pequei!... foi grande o meu crime,
Mas é maior o castigo...
Ai! não bastava a amargura
Das noites ao desabrigo;
De espedaçaram-me as carnes
O tronco, o açoite, a tortura,
De tudo quanto sofri.
Era preciso mais dores,
Inda maior sacrifício...
Filho! bem vês meu suplício...
Vão separar-me de ti!
"Chega-te perto... mais perto;
Nas trevas procura ver-te
Meu olhar, que treme incerto,
Perturbado, vacilante...
Deixa em meus braços prender-te
Pra não morrer neste instante;
Inda tenho que fazer-te
Uma triste confissão...
Vou revelar-te um segredo
Tão negro, que tenho medo
De não ter o teu perdão!...
Mas não!
Quando um padre nos perdoa,
Quando Deus tem piedade
De um filho no coração
Uma mãe não bate à toa.
3 104
Natália Correia
Guerra santa
Não estou aqui para que Deus me ignore
mas nem por isso lhe sere solícita
em loa e laudes cada vez que morde
meu coração.Não gosto da visita.
Também dispenso que me seja Cristo.
Os meus erros na cruz não são remíveis.
Acertam no Espírito,Pai e Filho
manifestados são só varas e cíveis.
Piedade ganhar em tais instâncias
não vale a quem se atira ao impossível.
Iluminada a alma por dez lâmpadas
a ideia só concebe o inconcebível.
Chamais-me chama? Explico: em corpo ardido
anulo o osso até que transpareço.
Descriando-me, em cinza me unifico
com a vontade pura do começo.
Assim vos queima a minha língua ardente
e frequentais-me o lume.Mas da festa
saís gorados.Não sabeis ser hóspedes
da santidade que não se manifesta.
de O Dilúvio e a Pomba(1979)
mas nem por isso lhe sere solícita
em loa e laudes cada vez que morde
meu coração.Não gosto da visita.
Também dispenso que me seja Cristo.
Os meus erros na cruz não são remíveis.
Acertam no Espírito,Pai e Filho
manifestados são só varas e cíveis.
Piedade ganhar em tais instâncias
não vale a quem se atira ao impossível.
Iluminada a alma por dez lâmpadas
a ideia só concebe o inconcebível.
Chamais-me chama? Explico: em corpo ardido
anulo o osso até que transpareço.
Descriando-me, em cinza me unifico
com a vontade pura do começo.
Assim vos queima a minha língua ardente
e frequentais-me o lume.Mas da festa
saís gorados.Não sabeis ser hóspedes
da santidade que não se manifesta.
de O Dilúvio e a Pomba(1979)
1 613
Pablo Neruda
Passeando Com Laforgue
Direi desta maneira, eu, nós,
superficiais, mal-vestidos de profundidades,
por que nunca quisemos ir de braço dado
com este terno Julio, morto sem companhia?
Com um puríssimo superficial
que talvez pudesse ensinar-nos a vida à sua maneira,
a luz à sua maneira,
sem a aspereza hostil do derrotado?
Por que não acompanhamos seu violino
que desfolhou o outono de papel de seu tempo
para uso exclusivo de qualquer um,
de todo o mundo, como deve ser?
Adolescentes éramos, tontos enamorados
do áspero tenor de Sils-María,
esse sim nos agradava,
a irredutível solidão a contracorrente
o extremo dos pássaros águias
que só servem para as moedas,
imperadores, pássaros destinados
ao embalsamento e aos brasões.
Adolescentes de pensões sórdidas,
nutridos com incessantes espaguetes,
migalhas de pão nos bolsos rasgados,
migalhas de Nietzsche nas pobres cabeças:
sem nós se resolvia tudo,
as ruas, as casas e o amor:
fingíamos amar a solidão
como os presidiários sua pena.
Hoje já tarde demais voltei a ver-te,
Jules Laforgue,
gentil amigo, cavalheiro triste,
divertindo-se com tudo quanto eras,
só no parque da Imperatriz
com tua lua portátil
– a condecoração que te impunhas –
tão correto com o entardecer,
tão solidário com a melancolia,
tão generoso com o vasto mundo
que mal conseguiste digerir.
Porque com teu sorriso agonizante
chegaste tarde, suave jovem bem vestido,
para consolar-nos de nossas pobres vidas
quando já te casavas com a morte.
Ai, quanto se perdeu com o desdém
em nossa juventude menosprezante
que só amou a tempestade, a fúria,
quando o frufru que nos descobriste
ou o solo de astro que nos ensinaste
foram uma verdade que não aprendemos:
a beleza do mundo que perdias
para que nós a herdássemos:
a nobre cifra que não deciframos:
tua juventude mortal que queria nos ensinar
batendo na janela com uma folha amarela:
tua lição de adorável professor,
de companheiro puro
tão reticente quanto agonizante.
superficiais, mal-vestidos de profundidades,
por que nunca quisemos ir de braço dado
com este terno Julio, morto sem companhia?
Com um puríssimo superficial
que talvez pudesse ensinar-nos a vida à sua maneira,
a luz à sua maneira,
sem a aspereza hostil do derrotado?
Por que não acompanhamos seu violino
que desfolhou o outono de papel de seu tempo
para uso exclusivo de qualquer um,
de todo o mundo, como deve ser?
Adolescentes éramos, tontos enamorados
do áspero tenor de Sils-María,
esse sim nos agradava,
a irredutível solidão a contracorrente
o extremo dos pássaros águias
que só servem para as moedas,
imperadores, pássaros destinados
ao embalsamento e aos brasões.
Adolescentes de pensões sórdidas,
nutridos com incessantes espaguetes,
migalhas de pão nos bolsos rasgados,
migalhas de Nietzsche nas pobres cabeças:
sem nós se resolvia tudo,
as ruas, as casas e o amor:
fingíamos amar a solidão
como os presidiários sua pena.
Hoje já tarde demais voltei a ver-te,
Jules Laforgue,
gentil amigo, cavalheiro triste,
divertindo-se com tudo quanto eras,
só no parque da Imperatriz
com tua lua portátil
– a condecoração que te impunhas –
tão correto com o entardecer,
tão solidário com a melancolia,
tão generoso com o vasto mundo
que mal conseguiste digerir.
Porque com teu sorriso agonizante
chegaste tarde, suave jovem bem vestido,
para consolar-nos de nossas pobres vidas
quando já te casavas com a morte.
Ai, quanto se perdeu com o desdém
em nossa juventude menosprezante
que só amou a tempestade, a fúria,
quando o frufru que nos descobriste
ou o solo de astro que nos ensinaste
foram uma verdade que não aprendemos:
a beleza do mundo que perdias
para que nós a herdássemos:
a nobre cifra que não deciframos:
tua juventude mortal que queria nos ensinar
batendo na janela com uma folha amarela:
tua lição de adorável professor,
de companheiro puro
tão reticente quanto agonizante.
1 081
Joaquim Manuel Magalhães
Cru e de bergamota
Cru e de bergamota.
Semblante, engulho,
a calça, ui a calça, tenro tom
de alça toupeira,
cobiça.
Engoles, encanto,
o objecto humilhado.
Conquanto no anelar
correta aliança te finja.
Âmbito árido.
O novelo da demanda
uma trave,
cimitarra turba do olvido.
A ribalta um sigilo,
decrépito revés e desacato.
E se interpretou no aqui
um exercício de sintaxe,
uma retórica minada de prosódia,
independente de biografia,
por favor não atrapalhe.
Uma cápsula de arrependimento,
um bourbon e triplo.
Semblante, engulho,
a calça, ui a calça, tenro tom
de alça toupeira,
cobiça.
Engoles, encanto,
o objecto humilhado.
Conquanto no anelar
correta aliança te finja.
Âmbito árido.
O novelo da demanda
uma trave,
cimitarra turba do olvido.
A ribalta um sigilo,
decrépito revés e desacato.
E se interpretou no aqui
um exercício de sintaxe,
uma retórica minada de prosódia,
independente de biografia,
por favor não atrapalhe.
Uma cápsula de arrependimento,
um bourbon e triplo.
1 131
Gregório de Matos
Ao Mesmo Assumpto e na Mesma Occasião
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
2 764
José Castello
Depois da inútil excitação
Não quero polemizar com Caetano Veloso. Não tenho cacife para isso e, além do mais, correria o risco de ferir a mim mesmo. Desde muito cedo, Caetano, Gilberto Gil, Gal Costa ocupam postos de honra em minha mitologia pessoal. Não é confortável polemizar com mitos. Gil é zen, Gal é doce e silenciosa, sobra Caetano que, de vez em quando, gosta de dar um bote.
Algo me diz que Caetano Veloso é o mais importante poeta brasileiro desse fim de século. É que ainda não temos clareza para ver. Mas o crítico literário Wilson Martins não merece as palavras desastradas que Caetano, em entrevistas recentes, lhe destinou. Não sou amigo de Wilson Martins, com quem estive uma única vez em um encontro profissional. Ele me pareceu um homem tímido, que fala baixo e raramente sorri, e que desarma na origem qualquer tentativa de envolvimento. Sinto- me, portanto, livre para escrever.
Wilson Martins leu e não gostou de Estorvo, o romance de Chico Buarque. Coerente, escreveu a respeito e exibiu sua coleção de argumentos. Caetano leu a crítica de Wilson Martins e não gostou do que leu. Até aqui, nada demais: ambos exerceram seus direitos de ler e de não gostar. É assim que as idéias circulam e se alimentam.
Não li Estorvo. Não li também, a célebre História da Inteligência Brasileira, de Wilson Martins. Tenho a esperança tola de que minhas carências literárias se transformem, agora, em uma vantagem. Outro dia, ouvi Mauro Rasi dizer que já passou da época em que se sentia obrigado a "ler" tudo. Foi a partir daí que pôde escutar melhor a própria voz - e escrever peças formidáveis como Pérola. Enquanto puder ouvir minha voz com mitidez já estarei bem contente.
Sou, como quase todo mundo, um admirador de Chico Buarque. Leio, e quase sempre gosto das colunas literárias que Wilson Martins assina na imprensa. Continuo a admirar ambos, apesar de Wilson não ter gostado do romance de Chico. Bem, eu sou um homem comum e isso me resguarda, posso ter a chance de não me envolver no que não é meu.
Já gostei de polêmicas, que me pareciam exercícios esplêndidos para dinamizar o mundo, mas de uns tempos para cá elas passaram a me desinteressar. Agora, quando me defronto com uma controvérsia pública, prefiro me apegar a uma sentença escrita, certa vez, por Hélio Pellegrino. Enfiado à força em uma polêmica entre Eduardo Mascarenhas e José Guilherme Merchior a respeito da validade científica da psicanálise, e decidido a não se envolver, Hélio escreveu no Jornal do Brasil um célebre artigo cuja força maior estava no título: "Comigo não, violão". Não era preciso uma só linha a mais.
Polêmicas são bichos vorazes, que sugam tudo à sua volta. São máquinas de extorsão intelectual. Se lhes damos ouvidos, nem percebemos e já fomos enfiados em uma posição. Pellegrino entendeu que a grande saída, meio inerte, e que os crédulos podem atribuir ao comodismo, está na independência. Está em desprezar as saídas e dar preferências às portas de entrada.
Reconheço nos polemistas, apesar disso, uma grande fibra. Sempre me espanto quando vejo um homem como Bruno Tolentino a bramir solitário suas idéias contra a vileza reinante. Precisamos, eu acho, de homens ferozes e indignados que agitem a mornidão dos hipócritas. Mas o cntrário da mornidão é o desprezo malévolo. Tolentino, quando polemiza, e apesar de seu estilo impetuoso, ampara-se sempre em sólidos argumentos. Podemos concordar, ou discordar, mas ficamos obrigados a ouvi-lo.
Caetano, que é um poeta ágil e refinado, se deixa tomar às vezes por uma desnecessária ânsia de exposição. Nessas horas, despreza os argumentos e apenas rosna. É isso o mais decepcionante: que alguém tão sábio, tão desperto, precise se amparar no vazio das sentenças categóricas.
Eu me pergunto, no fim das contas, de que servem essas manifestações de ira. Me parece que elas não servem para nada. Temos, por algum tempo, o sentimento reconfortante de uma grande agitação, como se enfim o mundo estivesse andando. Mas, e depois, o que sobra além da inútil excitação?
É uma pena que o principal - um debate em torno da produção literária contemporânea, tendo Estrvo como âncora - nos tenha escapado. Diante das vozes peremptórias, o livro ficou esquecido.
Ainda vou ler Estorvo. Vou continuar também a ouvir as canções irrepreensíveis de Caetano Veloso e a ler as críticas severas de Wilson Martins. Polêmicas não me impressionam mais. A vida não é um duelo de espadas.
Vale, aqui, lembrar de Leila Diniz. Diante da pergunta "do que você se arrepende", ela não vacilou. "Não me arrependo de nada do que fiz. Só me arrependo do que não fiz."
(in O Estado de São Paulo, Caderno 2, 20.05.96)
Algo me diz que Caetano Veloso é o mais importante poeta brasileiro desse fim de século. É que ainda não temos clareza para ver. Mas o crítico literário Wilson Martins não merece as palavras desastradas que Caetano, em entrevistas recentes, lhe destinou. Não sou amigo de Wilson Martins, com quem estive uma única vez em um encontro profissional. Ele me pareceu um homem tímido, que fala baixo e raramente sorri, e que desarma na origem qualquer tentativa de envolvimento. Sinto- me, portanto, livre para escrever.
Wilson Martins leu e não gostou de Estorvo, o romance de Chico Buarque. Coerente, escreveu a respeito e exibiu sua coleção de argumentos. Caetano leu a crítica de Wilson Martins e não gostou do que leu. Até aqui, nada demais: ambos exerceram seus direitos de ler e de não gostar. É assim que as idéias circulam e se alimentam.
Não li Estorvo. Não li também, a célebre História da Inteligência Brasileira, de Wilson Martins. Tenho a esperança tola de que minhas carências literárias se transformem, agora, em uma vantagem. Outro dia, ouvi Mauro Rasi dizer que já passou da época em que se sentia obrigado a "ler" tudo. Foi a partir daí que pôde escutar melhor a própria voz - e escrever peças formidáveis como Pérola. Enquanto puder ouvir minha voz com mitidez já estarei bem contente.
Sou, como quase todo mundo, um admirador de Chico Buarque. Leio, e quase sempre gosto das colunas literárias que Wilson Martins assina na imprensa. Continuo a admirar ambos, apesar de Wilson não ter gostado do romance de Chico. Bem, eu sou um homem comum e isso me resguarda, posso ter a chance de não me envolver no que não é meu.
Já gostei de polêmicas, que me pareciam exercícios esplêndidos para dinamizar o mundo, mas de uns tempos para cá elas passaram a me desinteressar. Agora, quando me defronto com uma controvérsia pública, prefiro me apegar a uma sentença escrita, certa vez, por Hélio Pellegrino. Enfiado à força em uma polêmica entre Eduardo Mascarenhas e José Guilherme Merchior a respeito da validade científica da psicanálise, e decidido a não se envolver, Hélio escreveu no Jornal do Brasil um célebre artigo cuja força maior estava no título: "Comigo não, violão". Não era preciso uma só linha a mais.
Polêmicas são bichos vorazes, que sugam tudo à sua volta. São máquinas de extorsão intelectual. Se lhes damos ouvidos, nem percebemos e já fomos enfiados em uma posição. Pellegrino entendeu que a grande saída, meio inerte, e que os crédulos podem atribuir ao comodismo, está na independência. Está em desprezar as saídas e dar preferências às portas de entrada.
Reconheço nos polemistas, apesar disso, uma grande fibra. Sempre me espanto quando vejo um homem como Bruno Tolentino a bramir solitário suas idéias contra a vileza reinante. Precisamos, eu acho, de homens ferozes e indignados que agitem a mornidão dos hipócritas. Mas o cntrário da mornidão é o desprezo malévolo. Tolentino, quando polemiza, e apesar de seu estilo impetuoso, ampara-se sempre em sólidos argumentos. Podemos concordar, ou discordar, mas ficamos obrigados a ouvi-lo.
Caetano, que é um poeta ágil e refinado, se deixa tomar às vezes por uma desnecessária ânsia de exposição. Nessas horas, despreza os argumentos e apenas rosna. É isso o mais decepcionante: que alguém tão sábio, tão desperto, precise se amparar no vazio das sentenças categóricas.
Eu me pergunto, no fim das contas, de que servem essas manifestações de ira. Me parece que elas não servem para nada. Temos, por algum tempo, o sentimento reconfortante de uma grande agitação, como se enfim o mundo estivesse andando. Mas, e depois, o que sobra além da inútil excitação?
É uma pena que o principal - um debate em torno da produção literária contemporânea, tendo Estrvo como âncora - nos tenha escapado. Diante das vozes peremptórias, o livro ficou esquecido.
Ainda vou ler Estorvo. Vou continuar também a ouvir as canções irrepreensíveis de Caetano Veloso e a ler as críticas severas de Wilson Martins. Polêmicas não me impressionam mais. A vida não é um duelo de espadas.
Vale, aqui, lembrar de Leila Diniz. Diante da pergunta "do que você se arrepende", ela não vacilou. "Não me arrependo de nada do que fiz. Só me arrependo do que não fiz."
(in O Estado de São Paulo, Caderno 2, 20.05.96)
974
Max Martins
O caldeirão
Aos sessenta anos-sonhos de tua vida (portas
que se abrem e fecham
fecham e abrem
carcomidas)
.....................ferve
a gordura e as unhas das palavras
seu licor umbroso, teus remorsos-pêlos
.....................Ferve
e entorna o caldo, quebra o caldeirão
.....................e enterra
teu faisão de jade do futuro
teu mavioso osso do passado
Agora que a madeira e o fogo de novo se combinam
e o inimigo nº 1 já não te enxerga
.....................ou vai-se embora
varre a tua cabana e expõe ao sol tua língua
tua esperança tíbia
.............o tigre da Coréia da parede
É lícito tomar agora a concubina
E despentear na cama a lua escura, o ideograma
que se abrem e fecham
fecham e abrem
carcomidas)
.....................ferve
a gordura e as unhas das palavras
seu licor umbroso, teus remorsos-pêlos
.....................Ferve
e entorna o caldo, quebra o caldeirão
.....................e enterra
teu faisão de jade do futuro
teu mavioso osso do passado
Agora que a madeira e o fogo de novo se combinam
e o inimigo nº 1 já não te enxerga
.....................ou vai-se embora
varre a tua cabana e expõe ao sol tua língua
tua esperança tíbia
.............o tigre da Coréia da parede
É lícito tomar agora a concubina
E despentear na cama a lua escura, o ideograma
1 032
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Filho Pródigo
Banido da tua herança
Dispersaste as tuas forças contra os enganos da terra
Comendo o pão magro das sementeiras devastadas —
Até que viraste os teus passos para o avesso:
Filho pródigo que nenhum pai esperava em seu regresso
Dispersaste as tuas forças contra os enganos da terra
Comendo o pão magro das sementeiras devastadas —
Até que viraste os teus passos para o avesso:
Filho pródigo que nenhum pai esperava em seu regresso
2 105
Sophia de Mello Breyner Andresen
Electra
a Aspassia Papathanassiou
O rumor do estio atormenta a solidão de Electra
O sol espetou a sua lança nas planícies sem água
Ela solta os seus cabelos como um pranto
E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos
Onde em colunas verticais o calor treme
O seu grito atravessa o canto das cigarras
E perturba no céu o silêncio de bronze
Das águias que devagar cruzam seu voo
O seu grito persegue a matilha das fúrias
Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros
Ou nos cantos esquecidos do palácio
Porque o grito de Electra é a insónia das coisas
A lamentação arrancada ao interior dos sonhos dos remorsos e dos crimes
E a invocação exposta
Na claridade frontal do exterior
No duro sol dos pátios
Para que a justiça dos deuses seja convocada
O rumor do estio atormenta a solidão de Electra
O sol espetou a sua lança nas planícies sem água
Ela solta os seus cabelos como um pranto
E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos
Onde em colunas verticais o calor treme
O seu grito atravessa o canto das cigarras
E perturba no céu o silêncio de bronze
Das águias que devagar cruzam seu voo
O seu grito persegue a matilha das fúrias
Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros
Ou nos cantos esquecidos do palácio
Porque o grito de Electra é a insónia das coisas
A lamentação arrancada ao interior dos sonhos dos remorsos e dos crimes
E a invocação exposta
Na claridade frontal do exterior
No duro sol dos pátios
Para que a justiça dos deuses seja convocada
2 692
Ives Gandra da Silva Martins
Elegia do Tempo e da Saudade
"Os espinhos de roseira contavam
histórias medievais
e não faltava ao menino
a nítida imagem do que é uma princesa".
ALEXANDRE GRAVINAS
"Ele sabe que rondas indiferente
O muro do seu jardim
.............
Ele está preso no jardim. Crê no jardim".
MÁRIO CHAMIE
I
Ah! não poder antecipar manhãs,
Circundado pelas noites do impossível...
Erguer as mãos inúteis para o céu,
Em súplica sincera,
E os olhos, para o inferno dirigidos,
Em lagoas de azul desesperado,
No silêncio, navegar...
Ó dunas transatlânticas,
desérticas,
Que o calor de teu contato, perdoe-me!
Destino sem destino. Meu destino.
II
Mistério do anterior. Pouco mais e nada.
O passado inexistia.
Futuro manchado de desejos,
Colorido de cores irreais.
Presente suspeitante foi a véspera,
Presente suspeitante, mas contente.
Era o sonho do calmo da existência,
Concretizado na falta de tormenta.
(Vivência da vida!
Quanta angústia refletida nas lembranças!
Ó arrependimento, que não cria
O quando inatural das coisas nuas,
Povoadas de mundos diferentes!)
E a marcha, não sentida, desvendava
Jardins adormecidos, sem princesa,
Na fragrância envitativa do repouso,
Para os que tinham sonhos a sonhar.
Era tudo irreal como o futuro,
Que o cerco do deserto circundante
Nunca veio a penetrar.
E, assim, embriagado,
O menino fez-se, ao toque da ambiência,
Poeta e descoberta,
Até que certa vez,
Sorridente, com a lira,
Partiu para o deserto conhecer.
III
Nasceu quando o tempo era da lua
E foi aurora sempre.
Imagem feita coração cansado,
Na invasão da filha do deserto.
(Pobre jardim intemporal da ingenuidade,
Fenecido, à distância,
Por onde o teu espectro silente!)
E o menino espantado percebeu
A sensação agonizante do infindável
Prender-lhe a alma sem resguardo
E levaram-lhe do peito a própria imagem,
Era o tempo da lua. A lua grande, no entretanto,
Trazia a lividez materna indissolúvel
Dos momentos da perda irreparável.
Ah! Morte no jardim.
Aurora de fogo surgida em tempo novo.
Dois mares de azul desesperado.
Montanhas sanguíneas entreabertas
A pedirem o sangue das irmãs,
Por que teus vultos pela areia quente?
Tudo longínquo e tudo perto do menino.
E o menino sentindo, então,
A sede da ilusão insaciável.
Ilusão, não mais que isto.
Todo o mal foi excesso de ilusão
E a pouca realidade das areias quentes.
Areias quentes, onde o menino
Veio a esquecer-se
Que foi poeta no jardim.
E o jardim dos tempos idos
Era mais descoberta que aventura!
Para que a nova descoberta?
Marinheiro sem viagem,
Tragado na viagem da tortura...
Foi aurora quando o tempo era da lua
E o brilho de seu rapto fugaz
Fez o ódio do menino no deserto,
Esquecido o jardim.
histórias medievais
e não faltava ao menino
a nítida imagem do que é uma princesa".
ALEXANDRE GRAVINAS
"Ele sabe que rondas indiferente
O muro do seu jardim
.............
Ele está preso no jardim. Crê no jardim".
MÁRIO CHAMIE
I
Ah! não poder antecipar manhãs,
Circundado pelas noites do impossível...
Erguer as mãos inúteis para o céu,
Em súplica sincera,
E os olhos, para o inferno dirigidos,
Em lagoas de azul desesperado,
No silêncio, navegar...
Ó dunas transatlânticas,
desérticas,
Que o calor de teu contato, perdoe-me!
Destino sem destino. Meu destino.
II
Mistério do anterior. Pouco mais e nada.
O passado inexistia.
Futuro manchado de desejos,
Colorido de cores irreais.
Presente suspeitante foi a véspera,
Presente suspeitante, mas contente.
Era o sonho do calmo da existência,
Concretizado na falta de tormenta.
(Vivência da vida!
Quanta angústia refletida nas lembranças!
Ó arrependimento, que não cria
O quando inatural das coisas nuas,
Povoadas de mundos diferentes!)
E a marcha, não sentida, desvendava
Jardins adormecidos, sem princesa,
Na fragrância envitativa do repouso,
Para os que tinham sonhos a sonhar.
Era tudo irreal como o futuro,
Que o cerco do deserto circundante
Nunca veio a penetrar.
E, assim, embriagado,
O menino fez-se, ao toque da ambiência,
Poeta e descoberta,
Até que certa vez,
Sorridente, com a lira,
Partiu para o deserto conhecer.
III
Nasceu quando o tempo era da lua
E foi aurora sempre.
Imagem feita coração cansado,
Na invasão da filha do deserto.
(Pobre jardim intemporal da ingenuidade,
Fenecido, à distância,
Por onde o teu espectro silente!)
E o menino espantado percebeu
A sensação agonizante do infindável
Prender-lhe a alma sem resguardo
E levaram-lhe do peito a própria imagem,
Era o tempo da lua. A lua grande, no entretanto,
Trazia a lividez materna indissolúvel
Dos momentos da perda irreparável.
Ah! Morte no jardim.
Aurora de fogo surgida em tempo novo.
Dois mares de azul desesperado.
Montanhas sanguíneas entreabertas
A pedirem o sangue das irmãs,
Por que teus vultos pela areia quente?
Tudo longínquo e tudo perto do menino.
E o menino sentindo, então,
A sede da ilusão insaciável.
Ilusão, não mais que isto.
Todo o mal foi excesso de ilusão
E a pouca realidade das areias quentes.
Areias quentes, onde o menino
Veio a esquecer-se
Que foi poeta no jardim.
E o jardim dos tempos idos
Era mais descoberta que aventura!
Para que a nova descoberta?
Marinheiro sem viagem,
Tragado na viagem da tortura...
Foi aurora quando o tempo era da lua
E o brilho de seu rapto fugaz
Fez o ódio do menino no deserto,
Esquecido o jardim.
764
Bocage
Um procurador de causas
Um procurador de causas
Tinha na destra de harpia
Nojenta, incurável chaga,
Que até ossos lhe roía.
Exclama um taful ao vê-lo:
"Que pena de Talião!
Quem com a mão roeu tanto
Ficou roído na mão".
Tinha na destra de harpia
Nojenta, incurável chaga,
Que até ossos lhe roía.
Exclama um taful ao vê-lo:
"Que pena de Talião!
Quem com a mão roeu tanto
Ficou roído na mão".
1 177
Carlos Góes
Mística
Rezas, postas as mãos em súplice postura.
Pedes a Deus perdão das faltas que deploras,
E Ele, em quem lacrimosa o fito olhar demoras,
Sorri, por te saber acrisolada e pura.
Há na tua atitude mística doçura
De quem contempla o albor de célicas auroras,
— O olhar vago de quem se impregna e se satura
De toda a contrição que exala o Livro de Horas...
Volves agora o olhar à imagem de Maria,
E Maria, de cima, a unção prodigaliza
De outro olhar, onde a graça esplêndida irradia!
Nem sequer o cansaço as fibras te quebranta...
E, arroubada, não vês que assim se imobiliza
Genuflexa uma santa em face de outra Santa...
Pedes a Deus perdão das faltas que deploras,
E Ele, em quem lacrimosa o fito olhar demoras,
Sorri, por te saber acrisolada e pura.
Há na tua atitude mística doçura
De quem contempla o albor de célicas auroras,
— O olhar vago de quem se impregna e se satura
De toda a contrição que exala o Livro de Horas...
Volves agora o olhar à imagem de Maria,
E Maria, de cima, a unção prodigaliza
De outro olhar, onde a graça esplêndida irradia!
Nem sequer o cansaço as fibras te quebranta...
E, arroubada, não vês que assim se imobiliza
Genuflexa uma santa em face de outra Santa...
844
César William
O Errante
Por um erro me fiz errante,
Mais errante que o erro do errado
Mil tropeços no meu passado,
Os infernantes constando
Dos meus retalhos.
Sem dúvida, com mágoas
Meu sorriso pichado.
Ó triste dor tão infinita:
Não me inflame agora
Não me deixe ser um errante,
O mesmo que ontem amava
Nas curvas de um delirante.
Um errado errante,
Um facínora
Um desamante.
Tantos sonhos refeitos,
Tantos tombos levados...
Viver numa clausura com incúria
Tamanha fera, qual a rua desabitada.
Nos degraus de uma ponte pitoresca?
Na esquina de um velho sobrado?...
Não importa
É um errado,
Um errante de sonhos mutilados
Pelo poder da censura
Mais errante que o erro do errado
Mil tropeços no meu passado,
Os infernantes constando
Dos meus retalhos.
Sem dúvida, com mágoas
Meu sorriso pichado.
Ó triste dor tão infinita:
Não me inflame agora
Não me deixe ser um errante,
O mesmo que ontem amava
Nas curvas de um delirante.
Um errado errante,
Um facínora
Um desamante.
Tantos sonhos refeitos,
Tantos tombos levados...
Viver numa clausura com incúria
Tamanha fera, qual a rua desabitada.
Nos degraus de uma ponte pitoresca?
Na esquina de um velho sobrado?...
Não importa
É um errado,
Um errante de sonhos mutilados
Pelo poder da censura
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