Poemas neste tema

Arrependimento e Culpa

Adélia Prado

Adélia Prado

A Sempre-Viva

Gostava de cantar A flor mimosa:
“Nas pétulas de ouro
que esta flor ostenta...”
Pétula, a palavra errada,
agulha no coração,
uma certa vergonha,
culpa por lhe ter dito:
é pétala, pai, é pétala.
Ah! Pois venho cantando errado a vida inteira.
Que vale essa lembrança?
Cinquenta anos já e a agulha tornada faca,
sua lâmina ainda vibra.
É excruciante o amor,
mas por nada no mundo trocarei sua pena.
1 372
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Não Mudamos

pena

não mudamos

o tempo

escorreu
água entre
os dedos

pena

pássaros coloridos alcançam as nuvens
todos os dias
ficamos

Raízes.


In: ARRUDA, Eunice. Os momentos. Pref. Álvaro Alves de Faria. São Paulo: Nobel: Secretaria de Estado da Cultura, 1981
899
D. Dinis

D. Dinis

Nom Sei Como Me Salv'a Mia Senhor

Nom sei como me salv'a mia senhor
se me Deus ant'os seus olhos levar,
ca, par Deus, nom hei como m'assalvar
que me nom julgue por seu traedor,
       pois tamanho temp'há que guareci
       sem seu mandad'oir e a nom vi.

E sei eu mui bem no meu coraçom
o que mia senhor fremosa fará
depois que ant'ela for: julgar-m'-á
por seu traedor com mui gram razom,
       pois tamanho temp'há que guareci
       sem seu mandad'oir e a nom vi.

E pois tamanho foi o erro meu,
que lhe fiz torto tam descomunal,
se mi a sa gram mesura nom val,
julgar-m'-á por en por traedor seu,
       pois tamanho temp'há que guareci
       sem seu mandad'oir e a nom vi.

[E] se o juizo passar assi,
ai eu cativ'! e que será de mim?
816
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Maus Momentos No Hotel da 3Rd Com a Vermont

Alabam era um ladrão sorrateiro e ele entrou no meu
quarto quando eu estava bêbado e
toda vez que eu me levantava ele me derrubava
de novo.

seu babaca, eu disse, você sabe que apanha
de mim!

ele apenas me derrubou
outra vez.

quando ficar sóbrio, falei, vou espalhar os teus dentes
daqui até o inferno!

ele só seguiu me empurrando
pra lá e pra cá.

finalmente acertei um em cheio, bem na
têmpora
e ele recuou e
saiu.

foi uns dias depois
que eu me vinguei: comi a namorada
dele.

então desci e bati na porta
dele.

bem, Alabam, comi a tua mulher e agora vou
espalhar os teus dentes daqui até o
inferno!

o pobre coitado começou a chorar, cobriu o rosto com as
mãos e apenas chorou

fiquei ali parado observando
o cara.

e falei, me desculpa,
Alabam.

então o deixei lá, voltei ao
meu quarto.

éramos todos bebuns e nenhum de nós tinha emprego, tudo que tínhamos
era um ao outro.

naquele momento a minha assim chamada mulher estava em algum bar ou
sei lá onde, eu não a via fazia uns
dias.

ainda me restava uma garrafa de
porto.

saquei a rolha e levei o porto até o quarto do
Alabam.

falei, que tal um trago,
Rebelde?

ele levantou a cabeça, ficou de pé, bebeu duas
taças.
1 117
Vera Maya

Vera Maya

Self-service

Entre o desejo e o medo
de perdas irreparáveis,
a moralista e seu dedo
tornaram-se inseparáveis.

1 022
Charles Bukowski

Charles Bukowski

#1

ah me perdoem Por quem os sinos dobram,
ah me perdoe Homem que andou sobre as águas,
ah me perdoe velhinha que morava num sapato,
ah me perdoe a montanha que rugia à meia-noite,
ah me perdoem os sons bobos da noite do dia e da morte,
ah me perdoe a morte da última bela pantera,
ah me perdoem todos os navios afundados e exércitos derrotados.
este é o meu primeiro POEMA EM FAX.
é tarde demais:
fui
conquistado.
1 095
Francisco Galvão

Francisco Galvão

À Paixão

Porque a tamanhas penas se oferece
pelo pecado alheio e erro insano
o terno Deus? Porque sujeito humano
não pode com o castigo que merece?

Quem padecera as penas que padece,
quem sofrera desonra e tanto dano,
ninguém senão somente o Soberano
que reina, serve, manda e obedece?

Foi a força do homem tão pequena,
que não pode sofrer tanta aspereza,
que não sustém a lei que Deus ordena:

Sofreu aquela imensa fortaleza
por puro amor à nossa vil franqueza;
para o erro foi só, e não p’ra pena.

771
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Exame de Direção

motoristas
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.

tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.

mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.

mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.

foi a minha primeira
vez.

eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
1 277
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Remorso Em Genebra

Eu não poderia viver em Genebra
a olhar aquele lago congelado
sobre meu vermelho remorso.
Os prédios têm cinco, dez
andares cheios de ouro no subsolo,
estão erguidos
sobre distantes escombros.
Quando ali chove, repare
como a chuva
cai vermelha em nossos ombros.
547
Adélia Prado

Adélia Prado

Da Mesma Fonte

De onde vens, graça que me perdoa
desta tristeza,
desta nódoa na roupa,
da seiva má no sangue,
da pele rachada em bolhas.
De onde vens, certeza
de que um pouco mais de açúcar
não fará mal a ninguém.
O orgulho fede como um bom cadáver,
minha cerviz é dura,
mais duro é vosso amor, deus escondido
donde jorram tormentas,
minha nuca dobrada a este repouso
e esta alegria.
1 015
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Morte No Jardim

Ondulando anéis rubros e negros, a cobra
era bela
e vinha deslizando no jardim
quando a vi
– num misto de temor e êxtase.
Venceu em mim, no entanto, o selvagem
que saiu à caça da presa
que se enroscava
mimetizando-se
com as flores no gramado.
Atiro-lhe na luta a lança
corto-lhe o corpo em uma
duas
três
partes
e nauseado
com o veneno do remorso
afasto-me
deixando atrás a beleza destroçada.
A tarde enrolava rubros e negros anéis sobre as montanhas
e o Sol morria perplexo sobre os crisântemos e dálias.
– A poesia
não resgata
– o que matamos no jardim.
1 177
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

Da Oração

Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.

Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?

Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?
680
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

LIII Ó montes altos

Ó montes altos, vales abatidos,
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos;

Onde mais claro vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.

Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deos acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito;

Cuja pena a velhice está pejando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.
598
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

II Os versos, que cantei importunado

Os versos, que cantei importunado
Da mocidade cega a quem seguia,
Queimei (como vergonha me pedia)
Chorando, por haver tão mal cantado.

Se nestes não ficar tão desculpado
Quanto mais alto estilo merecia,
Não me podem negar a melhoria
Da mudança, que diz dum noutro estado.

Que vai que sejam bem ou mal aceitos?
Pois não os escrevi para louvores
Humanos, pelo menos perigosos,

Senão para plantar em tenros peitos
Desejos de colher divinas flores
À força de suspiros saudosos.
580
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

XXIX Da emenda

Concluido me tendo a mi comigo
De deixar o caminho que levava,
Vendo com razões claras quanto errava
Em não me desviar do mais antigo.

Pois no trabalho seu, no mor perigo,
Meu amigo consigo a mi me achava;
E quando no meu mal algum buscava,
Achava-me comigo sem amigo.

Agora dei a volta por caminhos
De solitarios bosques enramados,
De feras bravas mansos passarinhos;

Que ainda que entre espinhos conversados,
Mais quero pé descalço entre espinhos,
Que dos homens humanos espinhados.
725
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

LI À morte

Os correos da morte são chegados,
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.

E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossivel será serem contados.

Se não viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.

Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.
734
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

LXIV Ao pecado original

Se sendo, meu Senhor, por vós formado
Adão, antes de ser o mal nascido,
Pecou, que fará quem foi concebido
Nas entranhas, que já tinham pecado?

Comer de um fruito só lhe foi vedado,
Tudo o mais a seu gosto concedido,
E por uma só vez haver caido,
Por muitas ser não posso levantado.

Tão fraca ficou minha natureza,
Que levantar não deixa o pensamento
Da terra, a que está atada e presa,

Tão imiga do meu merecimento,
Que se morder não pode na pureza,
Não deixa de ladrar um só momento.
715
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

LXI Ipse dixit et facta sunt

Se bastou só dizer para ser feito,
E mandar para ser tudo criado,
O que tambem a mim me está mandado,
Como não tem em mim o mesmo efeito?

E que seja maior este preceito
De ser Deos sobre tudo mais amado,
E que em mim só não seja efeituado,
Que tal deve de ser o meu defeito!

Dous extremos daqui fico notando,
Que confundem o meu entendimento
As causas dos efeitos discursando.

Não vejo quanto pode o mandamento
Noutro quão pouco em mim só fica obrando,
E de ambos falta em si o sentimento.
644
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

ELEGIA II Da Arrábida

Alta Serra deserta, donde vejo
As águas do Oceano duma banda,
E doutra já salgadas as do Tejo:

Aquela saüdade que me manda
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saüdosa, e branda?

Daqui mais saüdoso o sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo, se reparte.

Aqui sob-lo mar dependurado
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.

Duvido poder ser que se desfaça
Com água clara, e branda a pedra dura
Com quem assim se beija, assim se abraça.

Mas ouço queixar dentro a Lapa escura,
Roídas as entranhas aparecem
Daquela rouca voz, que lá murmura.

Eis por cima da rocha áspera descem
Os troncos meio secos encurvados,
Eis sobem os que neles enverdecem.

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo mil segredos,
Cujas primeiras letras vou cortando
Nos pés doutros mais verdes arvoredos.

Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razão, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.

Ali me chamo cego, ali perdido,
Ali por tantos nomes me nomeio,
Quantos por culpas tenho merecido.

Ali gemo, e suspiro, ali pranteio;
Ali geme, e suspira, ali pranteia
O monte, e vai de meus suspiros cheio.

Ali me faz pasmar, ali me enleia
Quanto colhendo estou da saüdade,
Que por toda esta terra se semeia.

Ora me ponho a rir da vaïdade,
Ora triste a chorar com quanto estudo
Erros solicitei da mocidade.

Tudo se muda enfim, muda-se tudo,
Tudo vejo mudar cada momento:
Eu de mal em pior também me mudo.

Soía levantar meu pensamento
Assentado sobre estas penedias
Duras, eu duro mais nelas me assento.

Punha-me a ver correr as águas frias
Por cima de alvos seixos repartidas,
Que faziam tremer ervas sombrias.

As flores, que levava já colhidas,
Passando pelos vales enjeitava
Por outras doutra nova cor vestidas.

O livre passarinho, que voava,
Cantando para o céu deixando a terra,
Da terra para o céu me encaminhava.

Cuidei que se esquecesse nesta Serra
A dura imiga minha natureza;
Mas donde quer que vou lá me faz guerra.

Oh! quem vira naquela fortaleza
Rodeada de fogo de amor puro,
Daquele amor divino esta alma acesa!

Quão firme, e quão quieto, e quão seguro
No campo se pusera em desafio!
E quão brando sentira o ferro duro!

Mas se agora de mim me não confio,
Se fujo, se me escondo, se me temo,
É porque sinto fraco o peito frio.

Alevantam-se os mares; e pasmo, e tremo:
Vejo vento contrário, desfaleço,
A corrente das mãos me leva o remo.

Confesso minha culpa, bem conheço
Que por mais graves males que padeça
Menos padecerei do que mereço.

Mandais, Senhor, que busque, bata, e peça,
Eu busco, bato, e peço a vós, Senhor,
Sem haver cousa em mim que vos mereça.

Com os braços na Cruz, meu Redentor,
Abertos me esperai, co lado aberto,
Manifestos sinais do vosso amor.

Ah! quem chegasse um dia de mais perto
A ver cos olhos de alma essa ferida,
Que esse coração mostra descoberto!

Esse, que por salvar gente perdida
De tanta piedade quis usar,
Que deu nas suas mãos a própria vida.

A sangue nos quisestes resgatar
De tão cruel, e duro cativeiro,
Vendido fostes vós por nos comprar.

Padecestes por nós, manso Cordeiro,
Pisado, preso, e nu entre ladrões,
Ardendo o fogo posto no madeiro:
Arçam postos no fogo os corações.
1 018
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Deus que me fez e fizera

Deus que me fez e fizera
O pecado antes de mim,
Junto de Si não me espera,
Sabe o destino a que vim.

Pode tudo; e não altera
O pecador que há em mim,
Nem nunca tanto pudera:
Pecarei até ao fim.

Pois que tudo em mim venera
O pecador que há em mim.
Deus já não pode nem espera:
Fez o destino a que vim.

2 047
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

A estátua jacente

Mandei, mundano, talhar
Esta galante postura.
Ai de mim!, que a desventura
Dura o que a pedra durar!

Latinas frases austeras
Dizem de mim ilegíveis,
As mil virtudes possíveis
À pressão das sete esferas.

O nome, farto e faustoso
Com que de nada me enchi
Horizontal, o esqueci
Da altura do meu repouso.

Mas sempre sofro, emanando
Das cinzas por mim guardadas,
Memória de horas danadas
Que vão meu sono acordando.

Bispo fui; amando a guerra,
Cego ao aceno dos céus,
Troquei a graça de Deus
Pelas miragens da terra

Fui cobiçoso, mesquinho,
Falso, cruel, intrigante,
E numa orgia infamante
Pequei a carne e o vinho.

Morto me acharam um dia
No leito; tão decomposto
Que pelos restos do rosto
Ninguém já me conhecia.

Em vão, com óleos, essências
De aroma arábico e forte,
Se disputaram à morte
Minhas letais pestilências.

Húmido, em nardo, eu jazia;
Mas o fedor que exalava,
Mais que da carne, alastrava
Da alma que apodrecia.

Mãos, num vagar rancoroso,
Vingadas, porque adularam,
Em brocado entalharam
Meu corpo inchado e escabroso.

Por fim, fantoche mitrado,
Entre cem círios a arder
- Pudesse um deles também ser
E consumir-me queimado! -

Entrei na nave deserta
Que do pórtico parecia
Que a todos nos engolia,
Fauce esfaimada e aberta.

Oh! Com que náusea os ouvi
Salmodiar-me; e exausto
De tão falsíssimo fausto,
Com terror me apercebi

De que o cansaço devia
Ter-se extinguido também
Comigo, não ir além
Da vida que em mim havia.

Mas não! Meus cinco sentidos
Desenfreados agora
Os tinha mais do que outrora,
Buscando os vícios preferidos!

Incapaz de movimento,
Eu, cego, impotente e mudo,
Dentro de mim, via tudo
Num pavoroso tormento!

Só a solidão me deixaram
Na cava nave nocturna
E a presença taciturna
Dos que a meu soldo mataram,

Dos que a meu lado morreram
Sem confissão, emboscados,
Dos que ao meu oiro amarrados
Porque os perdi se perderam!

O tempo, enorme, passou.
Mais que um vitral se partiu,
Mais de que um arco ruiu
E eu vivo e morto ainda estou.

Quando o tempo ao fim desbaste
Minhas puídas feições,
Talvez as minhas acções
Também o tempo as desgaste.

A sombra silenciosa
Da cruz, que alonga ao sol posto
Sua brandura ao meu rosto,
Talvez parando piedosa

Sobre os meus olhos, talvez
Dorida do meu quebranto,
Amoleça em meigo pranto
Tanta maciça altivez.

Talvez os vermes, por dó,
Os alicerces minando,
Altos tectos derrubando,
Me restituam ao pó.

Talvez também - maldição! -
Em cada grão inda viva
A minha insónia, cativa
De um remorso sem perdão!

Não creias, pois, viajante
No meu sossego aparente;
Sê calmo, casto e constante,
Sê sóbrio, humano e paciente;

Sê tudo quanto eu não sendo,
Porque o não fui, Deus legou,
À pedra inerme jazendo
A sensação de quem sou.

2 065
Lili Gharcia

Lili Gharcia

Boulevard

Compro do mundo uma parte de mim.
A alma é tão comerciável....

Vendo aos homens a vida que me deram.
Multiplicai-me, Senhor!

O social é uma relação de compra e venda

Então vendo meu Milton,
Vendo Chopin,
Meu Bach,
Minha Alegria,

E depois me afogo de culpa por comer no almoço
um pedaço de espírito.

1 534
Olegário Mariano

Olegário Mariano

O Flirt

Retirei um breve instante
Das minhas cogitações,
Para falar-vos do Flirt,
A epidemia elegante
Dos salões.

Nasce de um sorriso mudo,
De um quase nada que, enfim
Vale tudo
Para elas e para mim.

O Flirt. Haverá no mundo
Quem não sinta essa embriaguez
De um momento, de um segundo,
De quinze dias, de um mês?

Ele é efêmero e fortuito,
Vale pouco ou vale muito,
Conforme o Diabo o compôs.
É um simples curto-circuito
Entre dois.

Uma carícia inflamável
Doidinha por incendiar,
Um micróbio insuportável
Que vai de olhar para olhar.

Ou antes: um precipício
Que a gente olha sem pavor.
O divino instante, o início
Do êxtase imenso do amor.

Um galanteio, uma frase
Intencional
Que sendo frívola, é quase
Um madrigal.

A mão que outra mão afaga,
O pé que pisa outro pé.
Carícia lânguida e vaga...
Só quem ama e quem divaga
Pode saber o que isto é.

A orquestra soluça um tango:
Dois. Ela folle, ele fou.
Flor de Tango. — A flor de Tango,
Diz ele baixinho, és tu.

E assim vai num tal crescendo,
Que ela se debate em vão.
Parece que está morrendo
Nos braços do cidadão.

Quando passa o áureo momento,
Vem a tragédia em três atos.
Três atos
Com um epílogo. Depois,
Um noivado, um casamento,
Um bruto arrependimento
E ao fim divórcio entre os dois.


In: MARIANO, Olegário. Ba-Ta-Clan. Figurinhas de J. Carlos. Rio de Janeiro: B. Costallat & Micolis, 1924
1 150
Anónimo Francês do Século IX

Anónimo Francês do Século IX

A MORTE DE ROLANDO

À sombra de um pinheiro, estende-se Rolando,
E volta para Espanha a sua face.
Muitas coisas começa a recordar:
As terras que, barão, tem conquistado,
A doce França, os seus iguais no sangue,
O Imperador, que proteção lhe deu,
Os franceses, dos quais é tanto amado.
E contra o seu querer, chora e suspira;
De si, porém, deseja se lembrar:
Bate no peito e pede a Deus perdão:
Ó verdadeiro Pai, que nunca mentes,
Que Lázaro da morte libertaste
E, dos leões, salvaste Daniel,
A minha alma preserva do perigo,
Pelos pecados que na vida fiz!

A Deus entrega a luva da direita,
São Gabriel a toma em sua mão.
A cabeça, no braço, reclinando,
De mãos postas, chegou ao fim da vida.
lhe envia Deus seu anjo querubim
E São Miguel-Arcanjo-do-Perigo;
Juntamente com ele vem Gabriel
E a alma do conde levam para o céu.

918