Poemas neste tema

Humor e Ironia

Carlos Pinhão

Carlos Pinhão

A Guerra

Carlos Pinhão é português e contemporêneo

Num ano qualquer,
houve uma batalha qualquer,
numa terra qualquer,
entre um rei qualquer e outro rei
qualquer.
No fim, um anjo qualquer
desceu no campo de batalha,
pegou nos cadáveres do rei qualquer
e do rei qualquer
e perguntou
para um deus qualquer:
- Qual quer?

1 222
João Adolfo Hansen

João Adolfo Hansen

Floretes agudos e porretes grossos

especial para a Folha de São Paulo

No Antigo Regime, dizia Adorno, a sátira aparecia como o florete agudo da distinção virtuosa dos melhores. Depois de algumas revoluções, deveria aparecer como o porrete grosso dos privilégios.
Hoje, apropriações de Gregório de Matos, classificação de um corpus poético colonial, ainda fazem o nome reencarnar-se retrospectivamente no seu tempo, o século 17, como um indivíduo liberal-libertino-libertário a profetizar o advento do Barroco e dos neo-Neo no retrô geral desse fim de século.
Na Bahia do século 17, a ordem era imposta, contestada, deformada e sempre reposta como padrão civilizatório em vários registros e meios materiais _entre eles, a sátira atribuída a Gregório de Matos, cuja produção e consumo incluíam-se na política católica do império português.
Como uma prática fundamentalmente integrativa, então a sátira emanava do lugar sagrado do Rei-hipóstase de Deus, ou da Trindade, Potência do Pai, Sabedoria do Filho e Amor do Espírito.
Programática, a arqueologia da ruína satírica seiscentista reconstrói tensões, conflitos e mesmo contradições dos seus usos em seu tempo porque não quer o fóssil. A diferença arruinada do passado é, justamente, a medida crítica das petrificações do presente que efetuam Gregório como desmemória política e cultural.
Como Robinet demonstra para o Ancien Régime, também na Bahia seiscentista a Potência subordina as outras primordialidades, assegurando o monopólio da violência da razão de Estado em nome da prudência política do governo cristão que declara visar ao bem comum. O que se faz com Sabedoria e Amor, segundo a sátira, que glosa o absoluto da ordem. Não distingue público e privado; ratifica a proibição da imprensa e a censura intelectual; aplaude o Santo Ofício da Inquisição e a caça à heresia; reitera ordens-régias e bandos que determinam a destruição de quilombos, a guerra justa ou massacres de índios, as devassas de foros falsos de fidalguia, de desvios de impostos e contrabando, de sedições de soldados e da plebe, de amores freiráticos, de sexo nefando, de blasfêmia e bruxaria. Antimaquiavélica, antierasmiana, antiluterana, anticalvinista, antijudaica, absolutista, contra-reformada, define as medidas da Potência como ações prudentes, amorosas e sábias. Insiste: devem ser complementadas pelo degredo, pelos açoites, pela forca, pelo garrote vil, pelo auto-da-fé e mais castigos, exemplares, não menos prudentes, exercidos com Sabedoria pela Potência pública em nome do Amor do todo. Como se lê, em outro registro, nas Cartas e nas Atas do Senado da Câmara de Salvador, em nome do bem comum do corpo místico do Estado do Brasil.
Na dilatação da Fé e do Império desse corpo místico, o satírico metaforiza a analogia com que Santo Tomás de Aquino define o terceiro modo da unidade de integração das partes do corpo humano no comentário do Livro 5 da Metafísica, de Aristóteles. A unidade do corpo pressupõe a pluralidade dos membros e a diversidade das funções. Sua perfeição, que é ordem, resulta da sua integração harmônica como instrumentos para um princípio superior, a alma. Por analogia, o corpus hominis naturale, o corpo natural do homem, é o termo de comparação para o corpo político do Estado, doutrinado como integração hierárquica, concórdia e paz de indivíduos e estamentos, súditos, que o compõem.
Na sátira, a autonomia é a paixão máxima que pode afetar os corpos. Nela, o bom uso político do cada macaco no seu galho reatualiza o meio-termo racional da virtude da Ética Nicomaquéia, adaptando-o ao elenco completo das virtudes cristãs, como meios e fins da colonização: defesa do território, controle da população, escravismo, catequese, combate à heresia, manutenção dos privilégios, ócio dos doces negócios do açúcar e do sexo.
Assim, a virtude do satírico metaforiza o conceito de superioridade social da racionalidade de Corte absolutista. Então, a superioridade só é mantida pela submissão política e simbólica às instituições. A submissão implica uma lógica da distinção pela subordinação à vontade real, à etiqueta e ao dogma. Afirma uma sátira ao Conde da Ericeira, que se suicidou jogando-se de uma janela: Quem cai da graça dEl-Rei/ cai da sua desgraça. Outra, que identifica sodomia e judaísmo pela perspectiva da instituição real: Mandou-vos El-Rei acaso/ a Sodoma, ou ao Brasil? Se não viveis em Judá,/ quem vos meteu a Rabi?. Ainda segundo o padrão da racionalidade de Corte, a identidade virtuosa do satírico e a não-unidade viciosa dos satirizados são compostas como representação e por meio da representação. A virtude alega signos de limpeza de sangue, catolicismo, fidalguia, liberdade, discrição e masculinidade, opondo-se às representações que pretendem a autonomia que lhe subverte a superioridade pressuposta: Ou por limpo, ou por branco/ fui na Bahia mofino. Em outra: Alerta pardos do trato,/ a quem a soberba emborca,/ que pode ser hoje forca,/ o que ontem foi mulato.
A posição deriva da forma da representação e, sendo figurado como parte de um conflito de representações, o satírico joga com a dupla hierarquia do seu ponto de vista. Quando afirma sua virtude e constitui o vício como obscenidade contra naturam, a (des)constituição do tipo prova metaforicamente a (im)propriedade política do topos. Na sátira, a tipologia semântica de virtudes e vícios é uma topologia pragmática de posições hierárquicas.
Instituição, a sátira produz a perversão como exemplaridade da regra. Para tanto, apropria-se da retórica de Quintiliano, Cícero e Aristóteles; emula a poesia de Juvenal; cantigas de escárnio e maldizer; o Cancioneiro Geral, de Resende; Camões, Suárez, Melo, Rodrigues Lobo, Gracián, Saavedra Fajardo, Quevedo, Góngora, Botero, Tesauro... Aplicando padrões coletivos e anônimos _... é já velho em Poetas elegantes/ O cair em torpezas semelhantes_, opera com técnicas de uma racionalidade não-psicológica, que estiliza e deforma os discursos das instituições e da murmuração informal do lugar. Sem pressupor a expressão do eu, a autoria, o mercado e a originalidade, compõe o público, na representação, como representação teológico-política de discretos e vulgares: O néscio, o ignorante, o inexperto,/ Que não elege o bom, nem mau reprova,/ Por tudo passa deslumbrado, e incerto.
Suas deformações obscenas são reguladas pelos dois estilos do gênero cômico: o ridículo, adequado aos vícios fracos, e a maledicência, própria dos nocivos: Tudo, o que aqui vos digo,/ ora é zombando, ora rindo, diz o personagem satírico. Em Gregório, domina a variante maledicente: zombando. No caso, o satírico é um tipo virtuoso e indignado contra a corrupção do seu mundo, conforme uma afetação retórica de indignação. Como na sátira de Juvenal, que imita, afirma que está às avessas e que sua indignação também é caótica, como se a fala fosse expressão informal de sua ira. A sátira, contudo, é uma arte do insulto que finge não seguir nenhuma arte: suas paixões são naturais, mas não são informais. A irracionalidade da indignação é construída racionalmente e sua obscenidade pressupõe, como dizia Klossowski sobre Sade, as normas que a tornam visível e emolduram. Na poesia católica chamada Gregório, o obsceno é alegoria do pecado mortal, a infração hierárquica, que corrompe a unidade do bem comum. A anatomia horrorosa de vícios, com que compõe tipos vulgares, não é subversiva ou transgressora da ordem. Também na vituperação dos melhores, o desbocado do Boca do Inferno encontra a realidade não na empiria, mas nas convenções hierárquicas da recepção contemporânea, pautadas pela concordância quanto à imagem caricatural que elabora, enquanto mantém em circulação os estereótipos de pessoas, grupos e situações.
A sátira não é iluminista. Concebe o tempo qualitativamente, como análogo do divino. Quando dramatiza os discursos do corpo místico, perspectiva-os pelo dogma da luz natural da Graça inata. Seu estilo misto formaliza a percepção do destinatário como
1 006
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Sonnet

"Seldom we find," says Solomon Don Dunce,
"Half an idea in the profoundest sonnet.
Through all the flimsy things we see at once
As easily as through a Naples bonnet —
Trash of all trash! — how can a lady don it?
Yet heavier far than your Petrarchan stuff—
Owl-downy nonsense that the faintest puff
Twirls into trunk-paper the while you con it."
And, veritably, Sol is right enough.
The general Petrarchanities are arrant
Bubbles — ephemeral and so transparent —
But this is, now, — you may depend upon it —
Stable, opaque, immortal — all by dint
Of the dear names that lie concealed within 't.


1848

1 296
Bocage

Bocage

Um procurador de causas

Um procurador de causas
Tinha na destra de harpia
Nojenta, incurável chaga,
Que até ossos lhe roía.

Exclama um taful ao vê-lo:
"Que pena de Talião!
Quem com a mão roeu tanto
Ficou roído na mão".

1 179
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ii - Assim Teria Acontecido

Assim teria acontecido, assim teria acontecido
se não houvesses também, quase invisível,
entrado para sempre na História.
Nos teríamos visto diariamente,
teríamos mudado certos livros que amamos,
se eu te houvesse relatado
contos de pescadores e mineiros
de minha pátria marinha,
e teríamos rido
de tal maneira que os transeuntes
achariam perigosa
nossa grande alegria.
1 052
Bocage

Bocage

Certo enfermo, homem sisudo,

Certo enfermo, homem sisudo,
Deixou por condescendência
Chamar um doutor, que tinha
Entre os mais a preferência.

Manda-lhe o fofo Esculápio
Que bote a língua de fora,
E envia dez garatujas
À botica sem demora.

"Com isto (diz ao doente)
A sepultura lhe tapo".
Replica o pobre a tremer:
"Aposto que não escapo".

1 493
Bastos Tigre

Bastos Tigre

Sintaxe Feminina

Leio: "Meu bem não passa-se um só dia
Que de você não lembre-me"... Ora dá-se!
Mas que terrível idiossincrasia!
Este anjo tem as regras de sintaxe!

Continuo: "Em ti penso noite e dia...
Se como eu amo a ti, você me amasse!
"Não! É demais! Com bruta grosseria
A gramática insulta em plena face!

Respondo: "Sofres? Sofrerei contigo...
Por que razão te ralas e consomes?
Não vês em mim teu dedicado amigo?

Jamais, assim, por teu algoz me tomes!
Tu me colocas mal! Fazes comigo
O mesmo que fizeste com os pronomes!"...

1 529
Bocage

Bocage

Arrimado às duas portas

Arrimado às duas portas
Pingue boticário estava,
E brandamente acenou
A um doutor que passava.

Mal que chega o bom Galeno,
Diz o outro com ar jocundo:
"Unamo-nos, meu doutor,
E demos cabo do Mundo!"

1 740
Bastos Tigre

Bastos Tigre

Argumento de Defesa

Disse alguém, por maldade ou por intriga,
Que eu de Vossa Excelência mal dissera:
Que tinha amantes, que era "fácil", que era
Da virtude doméstica, inimiga.

Maldito seja o cérebro que gera
Infâmias tais que em cólera maldigo!
Se eu disse tal, que tenha por castigo
O beijo de uma sogra ou de uma fera!

Senhora! pondo a mão sobre a consciência,
Minha palavra, impávida, protesta
Contra essa intriga da maledicência!

Indague a amigos meus; qualquer atesta
Que eu acho e sempre achei Vossa Excelência
Feia de mais para não ser honesta...

1 699
Stéphane Mallarmé

Stéphane Mallarmé

Le guignon

Au-dessus du bétail ahuri des humains
Bondissaient en clarté les sauvages crinières
Des mendiants d'azur le pied dans nos chemins.

Un noir vent sur leur marche éployé pour bannières
La flagellait de froid tel jusque dans la chair,
Qu'il y creusait aussi d'irritables ornières.

Toujours avec l'espoir de rencontrer la mer,
Ils voyageaient sans pain, sans bâtons et sans urnes,
Mordant au citron d'or de l'idéal amer.

La plupart râla dans les défilés nocturnes,
S'enivrant du bonheur de voir couler son sang,
O Mort le seul baiser aux bouches taciturnes!

Leur défaite, c'est par un ange très puissant
Debout à l'horizon dans le nu de son glaive:
Une pourpre se caille au sein reconnaissant.

Ils tettent la douleur comme ils tétaient le rêve
Et quand ils vont rythmant de pleurs voluptueux
Le peuple s'agenouille et leur mère se lève.

Ceux-là sont consolés, sûrs et majestueux;
Mais traînent à leurs pas cent frères qu'on bafoue,
Dérisoires martyrs de hasards tortueux.

Le sel pareil des pleurs ronge leur douce joue,
Ils mangent de la cendre avec le même amour,
Mais vulgaire ou bouffon le destin qui les roue.

Ils pouvaient exciter aussi comme un tambour
La servile pitié des races à voix terne,
Égaux de Prométhée à qui manque un vautour!

Non, vils et fréquentant les déserts sans citerne,
Ils courent sous le fouet d'un monarque rageur,
Le Guignon, dont le rire inouï les prosterne.

Amants, il saute en croupe à trois, le partageur!
Puis le torrent franchi, vous plonge en une mare
Et laisse un bloc boueux du blanc couple nageur.

Grâce à lui, si l'un souffle à son buccin bizarre,
Des enfants nous tordront en un rire obstiné
Qui, le poing à leur cul, singeront sa fanfare.

Grâce à lui, si l'une orne à point un sein fané
Par une rose qui nubile le rallume,
De la bave luira sur son bouquet damné.

Et ce squelette nain, coiffé d'un feutre à plume
Et botté, dont l'aisselle a pour poils vrais des vers,
Est pour eux l'infini de la vaste amertume.

Vexés ne vont-ils pas provoquer le pervers,
Leur rapière grinçant suit le rayon de lune
Qui neige en sa carcasse et qui passe au travers.

Désolés sans l'orgueil qui sacre l'infortune,
Et tristes de venger leurs os de coups de bec,
Ils convoitent la haine, au lieu de la rancune.

Ils sont l'amusement des racleurs de rebec,
Des marmots, des putains et de la vieille engeance
Des loqueteux dansant quand le broc est à sec.

Les poëtes bons pour l'aumône ou la vengeance,
Ne connaissent le mal de ces dieux effacés,
Les disent ennuyeux et sans intelligence.

« Ils peuvent fuir ayant de chaque exploit assez,
» Comme un vierge cheval écume de tempête
» Plutôt que de partir en galops cuirassés.

» Nous soûlerons d'encens le vainqueur de la fête:
» Mais eux, pourquoi n'endosser pas, ces baladins,
» D'écarlate haillon hurlant que l'on s'arrête! »

Quand en face tous leur ont craché les dédains,
Nuls et la barbe à mots bas priant le tonnerre,
Ces héros excédés de malaises badins

Vont ridiculement se pendre au réverbère.


2 056
Félix Pacheco

Félix Pacheco

Símbolo dos Símbolos

Caveira! Tu conténs a Síntese do Mundo!
Trazes dentro de ti o impalpável Mistério.
És o louro mudado em tinhorão funéreo,
És o Azul transformado em báratro profundo!

Destronados Satãs de olhar meditabundo,
Andam dentro de ti como num cemitério,
E os Faustos doutorais, de aspecto mudo e sério,
Descem do informe Caos ao tenebroso fundo.

Cabalístico signo exótico do Nada,
Sofres, e a tua Dor, Caveira, é sufocada,
Gemes, e o teu gemido esvai-se em Ironia...

Resta-te agora só, depois de tantas glórias,
A lembrança cruel das passadas vitórias
E essa amar a expressão de funda nostalgia!

1 004
Alfredo Castro

Alfredo Castro

A Estátua de Sileno

Longo tempo no parque, entre a alegre verdura,
Às carícias do sol, na luz fina e fagueira,
Sileno, o velho deus, guardara a compostura
Firme na sua estátua, enramada em videira.

Mas um dia se espalma a asa pesada e escura
Da borraxa. Do céu vela-se a face inteira.
E um raio que desceu busca o parque, procura
A estátua e lança em terra o deus da bebedeira.

Ao tombar destronada, a figura grotesca,
Num acaso feliz, ficou mesmo com a cara
Encostada na relva umedecida e fresca.

Quem depois transitou por aquele caminho
Certamente pensou que o deus melhor ficara
Estendido no chão para curtir seu vinho!

1 169
Irineu Filho

Irineu Filho

O Padre Cacete

Nédio, careca e culto reverendo,
vadio monsenhor que ainda namora,
pesar de com a velhice ir já perdendo
o risco de perder qualquer senhora!

Foi o padre das moças; foi outrora
um Don Juan de batina... E, hoje, descendo
pela encosta da vida, de hora em hora,
saudades do passado vai vertendo...

Professor normalista de francês,
matéria ingrata e má... porém, gostosa:
pelo arame que dá no fim do mês...

Mas, se a língua que ensina sabe mal,
leva vida folgada e milagrosa
beliscando as meninas da Normal...

820
Danilo Melo

Danilo Melo

Náuseas

Saltitante entre as marquises
O desespero revelado de cada dia
Aqui jaz a substância humana
Armazenada em programas de computador
E a carne meus amigos,

A carne finge que é bela.
Crônicas do massacre urbano e livre
O amor enlatado e vendido com etiquetas de 1a qualidade
Aqui descreve-se a moral do ocidente escrita em boas maneiras.

Promíscua continua a poesia procurando a existência
Deserto é o coração, o homem permanece cheio

Todo o cosmo ri de mim quando faço poemas
minha linguagem é de um mundo atrasado
Preocupado eternamente com a morte, em vez da vida.

Sente-se fome de si, e náusea.

412
Bocage

Bocage

A Macaca

Em verso alexandrino

Nos serros do Brasil diz certo autor que
havia
Uma namoradeira, uma sagaz bugia.
Milhões de chichisbéus pela tafulguinchavam,
E por não terem asa, o rabo lhe arrastavam.
Qual, caindo-lhe aos pés de amores cego e
louco,
Nas cabeludas mãos lhe apresentava umcoco;
Qual do açúcar brilhante a sumarenta cana;
E qual um ananás, e qual uma banana.
Ela com riso astuto, ela com mil caretas,
Lhe entretinha a paixão, lhe ia doirando as
petas;
Os olhos requebrava ao som de um
suspirinho:
A todos prometia o mais fiel carinho,
E, se algum lhe rogava especial favor,
À terna petição dizia: "Sim, senhor."
Mas com muita esperança o fruto eranenhum,
E os pobres animais ficavam em jejum.
Leitores, há mulher tão destra e tão velhaca,
Que nisto não ganha inda a melhor macaca.

1 568
Bocage

Bocage

O Cão e a Cadela

Em verso alexandrino

Tinha de uma cadela um cão fome canina,
Ele bom perdigueiro, ela de casta fina:
Mil foscas lhe fazia o terno maganão,
Mas gastava o seu tempo, o seu carinho em
vão.
Dando no chichisbéu dentada e maisdentada,
A fêmea parecia um cadela honrada
E incapaz de ceder às pretensões de amor.
Mas o amante infeliz foi sabedor
De que a mesma, em que via ações tão
desabridas,
Era coum torpe cão fagueira às
escondidas.
Se és sagaz, meu leitor, talvez tenhas visto
Cadelas de dois pés, que também fazem isto.

3 673
Bocage

Bocage

O Macaco Declamando

Um mono, vendo-se um dia
Entre brutal multidão,
Dizem que lhe deu na cabeça
Fazer uma pregação.

Creio que seria o tema
Indigno de se tratar;
Mas isto pouco importava,
Porque o ponto era gritar.

Teve mil vivas, mil palmas,
Proferindo à boca cheia
Sentenças de quinze arrobas,
Palavras de légua e meia.

Isto acontece ao poeta,
Orador, e outros que tais;
Néscios o que entendem menos
É o que celebram mais.

2 055
Bocage

Bocage

A um mau médico

Doutor, até do hospital
Te sacode enfermo bando.
Qual será disto a causal?
É porque, em tu receitando,
Qualquer doença é mortal.

2 375
Bocage

Bocage

A um mulato comilão que murmurava de mim

Dizem que Flávio glutão
Em Bocage aferra o dente:
Ora é forte admiração
Ver um cão morder na gente!

2 089
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ímpetos de dizer-lhe (....) acorda!

Ímpetos de dizer-lhe (....) acorda!
Acorda, olha o mistério ao pé de ti!
E assim pensando rio amargamente
Dentro em mim rio como se chorasse.
1 448
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PITY? NO!

Pity? No! I wish not pity.
That were but a bitterer scorn,
Disdain ruthlessly made witty
With a serious look to strain
Its awful joke. No; let me mourn
In peace. Pity me not again!

Pity? No! Let more scorn come,
More indifference, more disdain:
These are the conforts of my home.
To change their look to pity were too far
To make me feel a direr pain.
Pretend not good: it cannot be.
Let evils all seem as they are.
To mask them were a mockery
Heartless and evilly rare.
1 427
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPIGRAMS - I

And so they whisper about us -
About me and about you?
And so they whisper about us?
Let us give them reason to!
1 305
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FRATERNITY?

I have no reason to love mankind,
Nor, alas! mankind one to love me;
To all its vileness I am not blind,
And all vileness it well can see.

If my hatred in words ne'er wreak
I know, as none do, ununderstood
It is of all men; were I to speak,
As unknown of them remain it would.

So, all in instinct, a mutual hate,
Hid under smiling, we bear each other.
All mankind's kindness well I can rate;
And I hate each man, and call him brother'.
1 506
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dos montes, dos vales,

Dos montes, dos vales,
Das luzes, das flores
O prazer vem;
Que importa, pois, Tempo, que te resvales?
Riamos, que amores pra outros amores,
        São o Além!

Há risos e beijos
E olhares e abraços
        De amor,

E risos e olhares acendem desejos,
E dizem matar-me em corpos e braços
        Num estertor.

E como a verdade
E a existência
É o prazer nu,
Dancemos
1 453