Poemas neste tema

Humor e Ironia

António Lobo de Carvalho

António Lobo de Carvalho

Soneto IX

A um figurão mui putanheiro, que em prémio de suas laboriosas proezas teve a pica decepada

De foder sujos conos já cansado
De Almeida apodreceu o membro enorme;
Parou enfim a máquina triforme,
Que tinha imensas cricas arrombado:

Soou por toda a parte o grosso brado
Do tremendo marzapo ingente, e informe;
Mas (desgraça cruel!) em cinzas dorme,
Por amolados ferros decotado:

A ver o triste funeral correram
Mais de mil putas, que ao fatal estrago
Cobrindo os olhos com as mãos gemeram:

Temei, casadas, o venal afago:
Olhai que vis michelas concorreram
Para ficar de Nise o cono vago

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Ona Gaia

Ona Gaia

Você me Pede

Você me pede pra falar de Eros

E eu nem aí pros seus Boleros.
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Ona Gaia

Ona Gaia

Heis como ficar

Heis como ficar
sem dizer como:
não espere
nada mais fere
do que tontas interferindo.

Quais tontas?

senhoras
perdendo as horas...

pra que lembrar?
pra que esquecer?
es como não ficar
heis como não ir
... nem vir
dizendo como eu como
(canibalmente)
e como como
você!

812
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXX

Quando escreveu seu livro azul
Rubén Darío não era verde?

Não era escarlate Rimbaud e
Gôngora cor de violeta?

E Victor Hugo tricolor?
E eu listões amarelos?

Juntam-se todas as lembranças
dos pobres das aldeias?

E em uma caixa mineral
guardaram seus sonhos os ricos?
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXII

Há algo mais tolo na vida
que chamar-se Pablo Neruda?

Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?

Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?

Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?

Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

VIII

O que é que irrita os vulcões
que cospem fogo, frio e fúria?

Por que Cristóvão Colombo
não pôde descobrir a Espanha?

Quantas perguntas tem um gato?

As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?

Ou serão rios invisíveis
que escorrem até a tristeza?
588 1
Nelson Motta

Nelson Motta

Apocalipse

(GENEBRA)-do correspondente
Os quatro glandes
quebram pau
na conferência de cópula.

1 013
Nelson Motta

Nelson Motta

Fetixe

axo um luxo
essa sua vox de bruxa
nesa cara de fada safada
e xic.

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Carla Bianca

Carla Bianca

Dia

O relógio parou, imoral, agredindo e violentando a necessidade de um novo dia.
Peço outro sol, qualquer luz que traga delírio, gente nova, para habitar um mundo enredado por teias de aranha.
Um raio dourado, queimando a pele, ardendo nos couros, deixando um vermelho seguido por manchas.
A claridade chegando, chamando para a vida, jogando na cara a renovação.
Traiçoeiro dia, irônico que brinca com a ansiedade lançando promessas com ar descrente, falando com jeito de desmentido.

992
João Luiz Pacheco Mendes

João Luiz Pacheco Mendes

Reversão de Expectativa

Você me deixou com trauma,
E um filme pro Brian De Palma.
Bato na cama,
rolam em flash-back
cenas daquela transa
em que estávamos de pileque.

Ou risco isto da lembrança,
ou me arrisco numa vingança.

Esboço um plano seqüência noir:
eu vestida para matar,
dedo no gatilho,
fecho os olhos e disparo.
Mas antes de ouvir o tiro
me dá um estalo.
Entrego então meu único vintém
para alguém
fazer um haver outro final
(de repente, um musical...):
você voltando pra mim
sorrindo beijos. FADE IN.

953
João Luiz Pacheco Mendes

João Luiz Pacheco Mendes

Por Outro Lado

Tem poeta fingidor
fingindo tão completamente
que chega a fingir-se autor
do verso que a outro pertence...

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Pablo Neruda

Pablo Neruda

LV

Por que não mandam as toupeiras
e as tartarugas à lua?

Os animais engenheiros
de cavidades e ranhuras

não poderiam tomar o encargo
destas longínquas inspeções?
1 011
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LVI

Não achas que os dromedários
preservam lua em suas corcovas?

Não a semeiam nos desertos
com persistência clandestina?

E não estará emprestado o mar
por um curto tempo à terra?

Não teremos que devolvê-lo
com suas marés à lua?
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

LVII

Não será bom proibir
os beijos interplanetários?

Por que não analisar as coisas
antes de habilitar planetas?

E por que não o ornitorrinco
com sua espacial indumentária?

As ferraduras não se fizeram
para cavalos da lua?
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Paulo Leminski

Paulo Leminski

cansei da frase polida

cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas

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Pablo Neruda

Pablo Neruda

LVIII

E o que palpitava na noite?
Eram planetas ou ferraduras?

Devo escolher esta manhã
entre o mar desnudo e o céu?

E por que o céu está vestido
tão cedo com suas neblinas?

O que me esperava em Ilha Negra?
A verdade verde ou o decoro?
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Alphonsus de Guimaraens

Alphonsus de Guimaraens

XXIV - Carnaval! Carnaval!

(Jovelino Gomes)


Chibante, ora a bater numa zabumba,
Ora a tocar uma buzina rouca,
Queira o deus infernal que eu não sucumba
Nesta farra em que estou, bulhenta e louca!

Não sei se tombarei na minha tumba,
Que a minha força para a luta é pouca.
Este bombo de modo tal retumba,
Que até me faz a pobre orelha mouca.

Mas seguirei avante, destemido,
Alerta sempre o desvairado ouvido,
Nos pinchos desta enorme pagodeira...

Berrarei, urrarei, com todo o gosto,
Tendo mais feia máscara no rosto
Do que a cara do Bento de Oliveira!


In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 582-583. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Em Mariana: Outras Sátiras / Versos Humorísticos
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Machado de Assis

Machado de Assis

Os Arlequins, 1864

Que deviendra dans l'éternité l'âme d'un
homme qui a fait Polichinelle toute sa vie?
Mme. DE STAEL

Musa, depõe a lira!
Cantos de amor, cantos de glória esquece!
Novo assunto aparece
Que o gênio move e a indignação inspira.
Esta esfera é mais vasta,
E vence a letra nova a letra antiga!
Musa, toma a vergasta,
E os arlequins fustiga.

Como aos olhos de Roma,
— Cadáver do que foi, pávido império
De Caio e de Tibério, —
O filho de Agripina ousado assoma;
E a lira sobraçando,
Ante o povo idiota e amedrontado,
Pedia, ameaçando,
O aplauso acostumado;

E o povo que beijava
Outrora ao deus Calígula o vestido,
De novo submetido
Ao régio saltimbanco o aplauso dava.
E tu, tu não te abrias,
Ó céu de Roma, à cena degradante!
E tu, tu não caías,
Ó raio chamejante!

Tal na história que passa
Neste de luzes século famoso,
O engenho portentoso
Sabe iludir a néscia população;
Não busca o mal tecido
Canto de outrora; a moderna insolência
Não encanta o ouvido,
Fascina a consciência!

Vede; o aspecto vistoso,
O olhar, seguro, altivo e penetrante,
E certo ar arrogante
Que impõe com aparências de assombroso;
Não vacila, não tomba,
Caminha sobre a corda firme e alerta;
Tem consigo a maromba
E a ovação é certa.

Tamanha gentileza,
Tal segurança, ostentação tão grande,
A multidão expande
Com ares de legítima grandeza.
O gosto pervertido
Acha o sublime neste abatimento,
E dá-lhe agradecido
O louro e o monumento.

Do saber, da virtude,
Logra fazer, em prêmio dos trabalhos,
Um manto de retalhos
Que à consciência universal ilude.
Não cora, não se peja
Do papel, nem da máscara indecente,
E ainda inspira inveja
Esta glória insolente!

(...)

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Publicado no livro Crisálida: poesias (1864).

In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.196-197. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
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Gregório de Matos

Gregório de Matos

Descreve a Vida Escolástica

Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.

Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.

A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.

Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante.


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
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Gregório de Matos

Gregório de Matos

Escandalizado o Poeta

Um Branco muito encolhido,
um Mulato muito ousado,
um Branco todo coitado,
um canaz todo atrevido:
o saber muito abatido,
a ignorância, e ignorante
mui ufano, e mui farfante
sem pena, ou contradição:
milagres do Brasil são.

Que um Cão revestido em Padre
por culpa da Santa Sé
seja tão ousado, que
contra um Branco ousado ladre:
e que esta ousadia quadre
ao Bispo, ao Governador,
ao Cortesão, ao Senhor,
tendo naus no Maranhão:
milagres do Brasil são.

Se a este podengo asneiro
o Pai o alvanece já,
a Mãe lhe lembre, que está
roendo em um tamoeiro:
que importa um branco cueiro,
se o cu é tão denegrido!
mas se no misto sentido
se lhe esconde a negridão:
milagres do Brasil são.

(...)

Que vos direi do Mulato,
que vos não tenha já dito,
se será amanhã delito
falar dele sem recato:
não faltará um mentecapto,
que como Vilão de encerro
sinta, que dêem no seu perro,
e se porta como um cão:
milagres do Brasil são.

Imaginais, que o insensato
do canzarrão fala tanto,
porque sabe tanto, ou quanto,
não, senão porque é mulato:
ter sangue de carrapato
ter estoraque de congo
cheirar-lhe a roupa a mondongo
é cifra de perfeição:
milagres do Brasil são.


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.

NOTA: Canaz: canzarrão, em sentido figurado, pessoa vil, de má fama; sangue de carrapato: medroso, covarde, equivalente à expressão 'sangue de barata'; estoraque: leviano, imprudente
2 283
Gregório de Matos

Gregório de Matos

Novas do Mundo

França está mui doente das ilhargas,
Inglaterra tem dores de cabeça,
Purga-se Holanda, e temo lhe aconteça
Ficar debilitada com descargas.

Alemanha lhe aplica ervas amargas,
Botões de fogo, com que convaleça.
Espanha não lhe dá, que este mal cresça.
Portugal tem saúde e forças largas.

Morre Constantinopla, está ungida.
Veneza engorda, e toma forças dobres,
Roma está bem, e toda a Igreja boa.

Europa anda de humores mal regida.
Na América arribaram muitos pobres.
Estas as novas são, que há de Lisboa.


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.

NOTA: Botão de fogo: instrumento cirúrgico com um botão de aço que se aquece para cauteriza
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Gregório de Matos

Gregório de Matos

Descreve com Mais Individuação

Senhora Dona Bahia,
nobre, e opulenta cidade,
madrasta dos Naturais,
e dos estrangeiros madre.
Dizei-me por vida vossa,
em que fundais o ditame
de exaltar, os que aí vêm,
e abater, os que ali nascem?
(...)
Vem um Clérigo idiota,
desmaiado com um jalde,
os vícios com seu bioco,
com seu rebuço as maldades:
Mais Santo do que Mafoma
na crença dos seus Árabes,
Letrado como um Matulo,
e velhaco como um Frade:
Ontem simples Sacerdote,
hoje uma grã dignidade,
ontem salvage notório,
hoje encoberto ignorante.
Ao tal Beato fingido
é força, que o povo aclame,
e os do governo se obriguem,
pois edifica a cidade.
Chovem uns, e chovem outros
com ofícios, e lugares,
e o beato tudo apanha
por sua muita humildade.
Cresce em dinheiro, e respeito,
vai remetendo as fundagens,
compra toda a sua terra,
com que fica homem grande,
e eis aqui a personagem.
(...)
Chega um destes, toma amo,
que as capelas dos Magnates
são rendas, que Deus criou
para estes Orate frates.
Fazem-lhe certo ordenado,
que é dinheiro na verdade,
que o Papa reserva sempre
das ceias, e dos jantares.
Não se gasta, antes se embolsa,
porque o Reverendo Padre
é do Santo Nicomedes
meritíssimo confrade;
e eis aqui a personagem.
Vêem isto os Filhos da terra,
e entre tanta iniquidade
são tais, que nem inda tomam
licença para queixar-se.
Sempre vêem, e sempre falam,
até que Deus lhes depare,
quem lhes faça de justiça
esta sátira à cidade,
Tão queimada, e destruída
te vejas, torpe cidade,
como Sodoma, e Gomorra
duas cidades infames.
(...)


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.

NOTA: Bioco: manto ou capuz usado sobre a cabeça e parte do rosto para afetar modéstia, virtude; Mafoma: Maomé
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Raimundo Correia

Raimundo Correia

Epístola ao Bardo Muniz

Cala-te, esdrúxulo lírico;
Teu estro é bandulho hidrópico!
Olha as garras de um satírico!
Cala-te, esdrúxulo lírico!
Teu verso ao leitor empírico
Fere de tópico em tópico...
Cala-te, esdrúxulo lírico;
Teu estro é bandulho hidrópico!

(...)

Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!
Citas autores dramáticos
Nos teus preitos esquipáticos
Citas talentos simpáticos!
Citas Camões! Citas Sócrates!
Nos teus preitos esquipáticos
Citas tanto bardo, — Hipócrates!

Muniz! tu causas-nos cólicas!
Erudito de catálogos!
Pondo as almas melancólicas,
Muniz! tu causas-nos cólicas!
Faze antes canções bucólicas,
Mas nunca preitos análogos!
Muniz! tu causas-nos cólicas
Erudito de catálogos!

Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...
Sê ferino, sê irônico!
Deita antes verso byrônico!
Que diabo! Isso é vício crônico!
Espanta que sejas bípede!
Deita antes verso byrônico,
Mas, rápido, a velocípede...

Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!
Ó professor de dialética!
Larga essa lira caquética!
Porque antes não curas ética,
Pústula, escrófula e fístula!
Larga essa lira caquética!
Ouve! e desculpa esta epístola!


Poema integrante da série Poesias Avulsas.

In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo. Ed. Nacional, 1948. v.2, p.354-356
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J. B. Sayeg

J. B. Sayeg

Máquina de Fazer Gorjeio

Eu já te disse
ele é um passarinho lento
toda manhã em nossa janela,
não lhe preste qualquer atenção,
para não criar nenhuma dependência,
pois um dia ele se acabará
como tudo nesta cidade se consome,
sobretudo, quando se sabe,
não é um pássaro,
mas um brinquedo de corda,
proferindo-se a senha, um estranho gorjeio
sai do mecanismo
querendo comunicar-se,
toda a vez que se vira a manivela.

(do livro Pantomimas e Animação, 1989).

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