Poemas neste tema
Humor e Ironia
Charles Bukowski
O Que Estou Fazendo?
preciso parar de enfrentar esses corredores enlouquecidos na autoestrada enquanto
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
1 010
Itamar Assumpção
Abobrinhas não
Cansei de ouvir abobrinhas
vou consultar escarolas
prefiro escutar salsinhas
pedir consolo às papoulas
e às carambolas
pedir um help ao repolho
indagar umas espigas
aprender com pés de alho
sobre bugalhos
ouvir dicas das urtigas
e dessas tulipas
um toque pro miosótis
um palpite pro alpiste
uma luz da flor de lótus
pedir alento ao cipreste
e pra dama da noite
pedir conselho à serralha
sugestão pro almeirão
idéias para azaléias
opinião para o limão, pimentão
abobrinhas não
895
Charles Bukowski
Trabalhando
ah, aquele tempo em que eu
as botava
pra dentro e pra fora do meu
apartamento miserável.
meu deus, eu era uma coisa
peluda e
feiosa.
e eu encurralava
todas elas nas
molas
mandando
ver
eu era o insano
macaco bêbado
numa vizinhança
triste e
moribunda.
mas o mais estranho
de tudo
eram as
novas e contínuas
chegadas:
era um
desfile
feminino
e
eu exultava
me pavoneava e
atacava.
mal fazendo
ideia
do
significado
daquilo.
era um
inesquecível
quarto
pintado de um estranho
azul.
e
a maioria das
damas
ia embora pouco antes do
meio-dia
mais ou menos na hora
em que o carteiro
chegava.
ele conversou comigo
um dia, “meu deus,
cara, onde você
arranja todas elas?”
“não sei”, eu
respondi.
“me desculpa”, ele
prosseguiu, “mas você não
parece exatamente
um presente de Deus às
mulheres, como você
consegue?”
“não sei”,
eu disse.
e era
verdade: simplesmente
acontecia e eu
ia em frente
no meu quarto
azul
com a
melhor toalha de mesa
de renda
da minha mãe morta
fixada
por cima da
janela.
eu era um
puta
idiota.
as botava
pra dentro e pra fora do meu
apartamento miserável.
meu deus, eu era uma coisa
peluda e
feiosa.
e eu encurralava
todas elas nas
molas
mandando
ver
eu era o insano
macaco bêbado
numa vizinhança
triste e
moribunda.
mas o mais estranho
de tudo
eram as
novas e contínuas
chegadas:
era um
desfile
feminino
e
eu exultava
me pavoneava e
atacava.
mal fazendo
ideia
do
significado
daquilo.
era um
inesquecível
quarto
pintado de um estranho
azul.
e
a maioria das
damas
ia embora pouco antes do
meio-dia
mais ou menos na hora
em que o carteiro
chegava.
ele conversou comigo
um dia, “meu deus,
cara, onde você
arranja todas elas?”
“não sei”, eu
respondi.
“me desculpa”, ele
prosseguiu, “mas você não
parece exatamente
um presente de Deus às
mulheres, como você
consegue?”
“não sei”,
eu disse.
e era
verdade: simplesmente
acontecia e eu
ia em frente
no meu quarto
azul
com a
melhor toalha de mesa
de renda
da minha mãe morta
fixada
por cima da
janela.
eu era um
puta
idiota.
1 168
Carlos Felipe Moisés
Meia Palavra Inteira
Carlos Felipe Moisés entrevista José Paulo Paes
Poeta, ensaísta e tradutor, José Paulo Paes goza de alto prestígio entre intelectuais e especialistas, mas não conta ainda com o reconhecimento que merece junto a um público mais amplo. Uma das razões é sua aversão à chamada "vida literária", aquela aura mundana, feita de vaidades exacerbadas, golpes de oportunismo e tráfico de influências, que cerca o objeto propriamente literário que é o livro impresso. Parte por temperamento, parte por princípio, José Paulo sempre se manteve à distância das confrarias do elogio mútuo, responsáveis por tanta glória efêmera, preferindo arcar com o ônus de uma atividade rigorosamente ética. Para ele, a recepção da obra literária deve prescindir da promoção publicitária, sobretudo a autopromoção; o livro deve oferecer-se ao leitor tal como é e não como o estrelismo do autor e as injunções do momento o imponham ao imediatismo do consumo. Tem sido assim ao longo de mais de quatro décadas de dedicação discreta, silenciosa e apaixonada à literatura.
Seus ensaios exibem a curiosidade eclética do leitor privilegiado, autodidata, que, sem metodologias artificiais nem preconceitos, mas munido de severo olhar perscrutador, notável erudição e proficiência, cumpre com a função primordial da crítica: informar, avaliar, sempre no sentido de esclarecer e enriquecer a obra analisada e não de promover o analista e suas idiossincrasias. Suas traduções, impecáveis, têm posto à disposição do leitor de língua portuguesa algumas das mais importantes obras da literatura universal, em textos que não ficam nada a dever aos originais: os Sonetos luxuriosos de Aretino, os Poemas de Kaváfis, o Tristam Shandy de Sterne e tantos outros. Sua poesia, desde O aluno (1947) até Prosas (1992), revela uma voz instigante e original, que a cada livro aprimora aquelas características que lhe são mais peculiares: a concisão epigramática, o horror ao derramamento e ao sentimentalismo, a tendência conceitual mas antidiscursiva e a engenhosidade verbal, que em vez de buscar o malabarismo exibicionista busca a síntese exemplar, o laconismo prenhe de insinuações. Uma das marcas registradas dessa voz poética é o humor, aprendido em parte com Drummond, um humor que trafega ágil entre o trocadilho e o deboche, a acidez ferina e a soltura da gozação lúdica, sempre funcionando como revelação aguda do ridículo e das misérias da condição humana — ceticamente, mas com afeto, à Machado de Assis. Esse conluio de lirismo contido e denúncia amarga está invaria-velmente a serviço da consciência política, sem dogmas: a consciência do homem da Pólis, o homem solidário em sua relação com a comunidade.
José Paulo Paes, em suma, é um escritor a quem se aplica com justeza o epíteto homem de letras, em sua expressão mais digna e elevada. Não é o simples profissional nem o diletante, não é o burocrata e menos ainda o arrivista das letras. É o homem de letras no sentido do denso humanismo que lhe serve de fundamento à atividade literária, por ele exercida com admirável humildade mas com a convicção ainda mais admirável do poder humanizador da literatura. Para ele, a literatura é o último reduto onde ainda é possível ao menos formular, de frente e em regime da mais irrestrita autenticidade, a ingente interrogação pelo sentido da existência.
Desde o início da carreira, José Paulo vem formulando e reformulando essa interrogação, nos seus mais variados matizes, empenhado em encontrar uma resposta que ele talvez saiba impossível — uma resposta que será, quando muito, parcial e provisória. Mas desistir quem há de?
Poeta, ensaísta e tradutor, José Paulo Paes goza de alto prestígio entre intelectuais e especialistas, mas não conta ainda com o reconhecimento que merece junto a um público mais amplo. Uma das razões é sua aversão à chamada "vida literária", aquela aura mundana, feita de vaidades exacerbadas, golpes de oportunismo e tráfico de influências, que cerca o objeto propriamente literário que é o livro impresso. Parte por temperamento, parte por princípio, José Paulo sempre se manteve à distância das confrarias do elogio mútuo, responsáveis por tanta glória efêmera, preferindo arcar com o ônus de uma atividade rigorosamente ética. Para ele, a recepção da obra literária deve prescindir da promoção publicitária, sobretudo a autopromoção; o livro deve oferecer-se ao leitor tal como é e não como o estrelismo do autor e as injunções do momento o imponham ao imediatismo do consumo. Tem sido assim ao longo de mais de quatro décadas de dedicação discreta, silenciosa e apaixonada à literatura.
Seus ensaios exibem a curiosidade eclética do leitor privilegiado, autodidata, que, sem metodologias artificiais nem preconceitos, mas munido de severo olhar perscrutador, notável erudição e proficiência, cumpre com a função primordial da crítica: informar, avaliar, sempre no sentido de esclarecer e enriquecer a obra analisada e não de promover o analista e suas idiossincrasias. Suas traduções, impecáveis, têm posto à disposição do leitor de língua portuguesa algumas das mais importantes obras da literatura universal, em textos que não ficam nada a dever aos originais: os Sonetos luxuriosos de Aretino, os Poemas de Kaváfis, o Tristam Shandy de Sterne e tantos outros. Sua poesia, desde O aluno (1947) até Prosas (1992), revela uma voz instigante e original, que a cada livro aprimora aquelas características que lhe são mais peculiares: a concisão epigramática, o horror ao derramamento e ao sentimentalismo, a tendência conceitual mas antidiscursiva e a engenhosidade verbal, que em vez de buscar o malabarismo exibicionista busca a síntese exemplar, o laconismo prenhe de insinuações. Uma das marcas registradas dessa voz poética é o humor, aprendido em parte com Drummond, um humor que trafega ágil entre o trocadilho e o deboche, a acidez ferina e a soltura da gozação lúdica, sempre funcionando como revelação aguda do ridículo e das misérias da condição humana — ceticamente, mas com afeto, à Machado de Assis. Esse conluio de lirismo contido e denúncia amarga está invaria-velmente a serviço da consciência política, sem dogmas: a consciência do homem da Pólis, o homem solidário em sua relação com a comunidade.
José Paulo Paes, em suma, é um escritor a quem se aplica com justeza o epíteto homem de letras, em sua expressão mais digna e elevada. Não é o simples profissional nem o diletante, não é o burocrata e menos ainda o arrivista das letras. É o homem de letras no sentido do denso humanismo que lhe serve de fundamento à atividade literária, por ele exercida com admirável humildade mas com a convicção ainda mais admirável do poder humanizador da literatura. Para ele, a literatura é o último reduto onde ainda é possível ao menos formular, de frente e em regime da mais irrestrita autenticidade, a ingente interrogação pelo sentido da existência.
Desde o início da carreira, José Paulo vem formulando e reformulando essa interrogação, nos seus mais variados matizes, empenhado em encontrar uma resposta que ele talvez saiba impossível — uma resposta que será, quando muito, parcial e provisória. Mas desistir quem há de?
895
Charles Bukowski
O Amor É Uma Folha de Papel Rasgada Em Pedaços
toda a cerveja estava envenenada e o cap. soçobrou
e o imediato e o cozinheiro
e não tínhamos ninguém pra manejar as velas
e o noroeste dilacerou os panos como unhas
e nós arfávamos que era uma loucura
o casco se rasgando nas laterais
e o tempo todo no canto
um merda qualquer comia uma cadela bêbada (minha esposa)
e socava tranquilo
como se nada estivesse acontecendo
e o gato não parava de olhar para mim
e de rastejar na despensa
em meio aos pratos estrepitosos
com flores e videiras pintadas neles
até que não aguentei mais
e peguei a coisa
e a lancei
pela
borda.
e o imediato e o cozinheiro
e não tínhamos ninguém pra manejar as velas
e o noroeste dilacerou os panos como unhas
e nós arfávamos que era uma loucura
o casco se rasgando nas laterais
e o tempo todo no canto
um merda qualquer comia uma cadela bêbada (minha esposa)
e socava tranquilo
como se nada estivesse acontecendo
e o gato não parava de olhar para mim
e de rastejar na despensa
em meio aos pratos estrepitosos
com flores e videiras pintadas neles
até que não aguentei mais
e peguei a coisa
e a lancei
pela
borda.
604
Charles Bukowski
O Dia Em Que Joguei Pela Janela Uma Grana Preta
e, eu disse, você pode pegar seus ricos tios e tias
e avós e pais
e todo aquele petróleo escroto deles
e seus sete lagos
e seus selvagens perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus fuzilamentos de corvos
e seus calçadões de sábado à noite,
e sua biblioteca de meia-tigela
e seus vereadores corruptos
e seus artistas veadinhos –
você pode pegar tudo isso
e o seu jornal semanal
e os seus famosos tornados
e as suas enchentes imundas
e todos os seus gatos uivantes
e a sua assinatura da Time,
e enfiar lá, bebê,
enfiar lá.
posso empunhar de novo a picareta e o machado (acho)
e posso descolar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode tirar o grisalho
do meu cabelo;
e ainda consigo escrever poemas (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e atirar em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece.
tá bom, vagabundo, ela disse,
cai fora.
o quê?, eu disse
cai fora. você teve o seu último
acesso de fúria.
cansei dos seus malditos acessos de fúria:
você está sempre agindo como um
personagem
de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, bebê,
não consigo
evitar.
você é diferente, tá bom!
meu Deus, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, bebê, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer
um mentiroso ou um
amante?
você não é nenhum dos dois! fora, vagabundo,
fora!
...mas bebê!
volte pro O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a sem barulho e fui embora,
pensando: tudo que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado acima do fogo e
não infernize demais;
mas você já está ficando
velho, garoto;
da próxima vez não abra
tanto
o jogo.
e avós e pais
e todo aquele petróleo escroto deles
e seus sete lagos
e seus selvagens perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus fuzilamentos de corvos
e seus calçadões de sábado à noite,
e sua biblioteca de meia-tigela
e seus vereadores corruptos
e seus artistas veadinhos –
você pode pegar tudo isso
e o seu jornal semanal
e os seus famosos tornados
e as suas enchentes imundas
e todos os seus gatos uivantes
e a sua assinatura da Time,
e enfiar lá, bebê,
enfiar lá.
posso empunhar de novo a picareta e o machado (acho)
e posso descolar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode tirar o grisalho
do meu cabelo;
e ainda consigo escrever poemas (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e atirar em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece.
tá bom, vagabundo, ela disse,
cai fora.
o quê?, eu disse
cai fora. você teve o seu último
acesso de fúria.
cansei dos seus malditos acessos de fúria:
você está sempre agindo como um
personagem
de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, bebê,
não consigo
evitar.
você é diferente, tá bom!
meu Deus, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, bebê, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer
um mentiroso ou um
amante?
você não é nenhum dos dois! fora, vagabundo,
fora!
...mas bebê!
volte pro O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a sem barulho e fui embora,
pensando: tudo que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado acima do fogo e
não infernize demais;
mas você já está ficando
velho, garoto;
da próxima vez não abra
tanto
o jogo.
1 134
Fernando Pessoa
Levava eu um jarrinho
Levava eu um jarrinho
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!
Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!
Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
1 752
Fernando Pessoa
POEMA PIAL
Casa Branca — Barreiro a Moita (Silêncio ou estação, à escolha do freguês)
Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.
Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.
Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.
Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.
Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.
Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.
Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.
Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.
Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.
Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.
Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.
E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.
Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.
Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.
Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.
Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.
Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.
Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.
Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.
Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.
Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.
Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.
E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
2 111
Fernando Pessoa
Este é o riso daquela
Este é o riso daquela
Em que não se reparou.
Quando a gente se acautela
Vê que não se acautelou.
Em que não se reparou.
Quando a gente se acautela
Vê que não se acautelou.
1 040
Fernando Pessoa
Fica o coração pesado
Fica o coração pesado
Com o choro que chorei.
É um ficar engraçado
O ficar com o que dei...
Com o choro que chorei.
É um ficar engraçado
O ficar com o que dei...
1 508
Pedro Amigo de Sevilha
Um Bispo Diz Aqui, Por Si
Um bispo diz aqui, por si,
que é de Conca; mais bem sei
de mi que bispo nom achei
de Conca, des que eu naci,
que dalá fosse natural;
mais daqueste mi venha mal,
se nunca tam sem conca vi.
E nunca tal mentira oí
qual el diss'aqui ant'el-rei,
ca se meteu por qual direi:
por bispo de Conca log'i;
e dixi-lh'eu log'entom al:
- U est essa conca bispal,
de que vós falades assi?
E polo bisp'haver sabor
grande de conca [e] nõn'[a] haver,
nom lho queremos nós caber;
ca diss[e] o vesitador:
- Que bispo! Per nẽum logar
nom pode por de Conca andar
bispo, que de Conca nom for!
Vedes que bisp'e que senhor,
que vos cuida a fazer creer
que é de Conca; mais saber
podedes que é chufador,
per mim, que o fui asseitar
per um telhad', e nom vi dar
ant'el conca nem telhador.
que é de Conca; mais bem sei
de mi que bispo nom achei
de Conca, des que eu naci,
que dalá fosse natural;
mais daqueste mi venha mal,
se nunca tam sem conca vi.
E nunca tal mentira oí
qual el diss'aqui ant'el-rei,
ca se meteu por qual direi:
por bispo de Conca log'i;
e dixi-lh'eu log'entom al:
- U est essa conca bispal,
de que vós falades assi?
E polo bisp'haver sabor
grande de conca [e] nõn'[a] haver,
nom lho queremos nós caber;
ca diss[e] o vesitador:
- Que bispo! Per nẽum logar
nom pode por de Conca andar
bispo, que de Conca nom for!
Vedes que bisp'e que senhor,
que vos cuida a fazer creer
que é de Conca; mais saber
podedes que é chufador,
per mim, que o fui asseitar
per um telhad', e nom vi dar
ant'el conca nem telhador.
544
Luís Gama
Serei Conde, Marquês e Deputado
Pelas ruas vagava, em desatino,
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.
A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara.
Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.
Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”
Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”
Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.
A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara.
Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.
Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”
Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”
Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...
1 580
Luís Gama
O Barão da Borracheira
Na Capital do Império Brasileiro,
Conhecida pelo — Rio de Janeiro,
Onde a mania, grave enfermidade,
Já não é como dantes, raridade;
E qualquer paspalhão endinheirado
De nobreza se faz empanturrado -
Em a rua chamada do Ouvidor,
Onde brilha a riqueza, o esplendor,
À porta de uma modista de Paris,
Lindo carro parou — Número — X — ,
Conduzindo um volume, na figura,
Que diziam alguns, ser criatura
Cujas formas mui toscas e brutais
Assemelham-na brutos animais.
Mal que da sege salta a raridade,
Retumba a mais profunda hilaridade.
Em massa corre o povo, apressuroso
Para ver o volume monstruoso;
De espanto toda a gente amotinada
Dizia ser coisa endiabrada!
Uns afirmam que o bruto é um camelo,
Por trazer no costado cotovelo,
É asno, diz um outro, anda de tranco,
Apesar do focinho d'urso branco!
Ser jumento aquele outro declarava,
Porque longas orelhas abanava.
Recresce a confusão na inteligência,
O bruto não conhecem d'excelência.
Mandam vir do Livreiro Garnier,
Os volumes do Grande Couvier;
Buffon, Guliver, Plínio, Columella,
Morais, Fonseca, Barros e Portela;
Volveram d'alto a baixo tais volumes,
Com olhos de luzentes vagalumes,
E desta nunca vista raridade
Não puderam notar a qualidade!
Vencido de roaz curiosidade
O povo percorreu toda a cidade;
As caducas farmácias, livrarias,
As boticas, e vãs secretarias;
E já todos a fé perdida tinham,
Por verem que o brutal não descobriam,
Quando idéia feliz e luminosa,
Na cachola brilhou dum Lampadosa
Que excedendo em carreira os finos galgos,
Lá foi ter à Secreta dos Fidalgos;
E dizem que encontrara registrado
O nome do colosso celebrado:
Era o grande Barão da borracheira,
Que seu título comprou na régia-feira!
1 352
Luís Gama
A um Nariz
Você perdoe,
Nariz nefando
Que eu vou cortando
E ainda fica nariz em que se assoe.
Gregório de Matos
Aí vai, leitores,
Um monstro esguio,
Que em corropio
De uma rua tem posto os moradores.
Maior que a proa
De nau de linha,
Tem camarinha
Aonde à tarde se obumbra a tocha coa,
Rinoceronte
De tromba enorme,
Mais desconforme
Do que o mero, a baleia, a catodante
Nariz bojante,
Recurvo e longo,
Que lá do Congo
Alcança o Tenerife e monte Atlante.
De raça eslava
Tremenda espiga,
E há quem diga
Que nela Polifemo cavalgava.
Nariz alado,
De cor bringela.
Que de pinguela,
Serviu no Amazonas celebrado.
E se não mente
A tradição,
De lampião
Fazia num farol da Líbia ardente.
Nariz de pau,
Com tal composto,
Que sobre o rosto
Tem forma de bandurra ou berimbau.
Cavado e torto,
Formal tripeça,
Fundido à pressa
Nas forjas de Vulcano — por aborto.
Nariz de forno,
De amplas badanas,
Que mil bananas
Aloja em cada venta, sem transtorno.
É tão famoso
O tal nariz,
Que por um triz
Não fez parte do Cabo Tormentoso.
Qual catatau
Da testa pende,
E alguém entende
Ser ninho de coruja ou picapau.
Nariz de barro,
Mas não cozido,
Que suspendido,
Sobre as grimpas da lua vai de esbarro.
De quanto fiz
Não se enraiveça;
Não enrubesça,
Que pr'a dar e vender sobra nariz.
do livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).
Nariz nefando
Que eu vou cortando
E ainda fica nariz em que se assoe.
Gregório de Matos
Aí vai, leitores,
Um monstro esguio,
Que em corropio
De uma rua tem posto os moradores.
Maior que a proa
De nau de linha,
Tem camarinha
Aonde à tarde se obumbra a tocha coa,
Rinoceronte
De tromba enorme,
Mais desconforme
Do que o mero, a baleia, a catodante
Nariz bojante,
Recurvo e longo,
Que lá do Congo
Alcança o Tenerife e monte Atlante.
De raça eslava
Tremenda espiga,
E há quem diga
Que nela Polifemo cavalgava.
Nariz alado,
De cor bringela.
Que de pinguela,
Serviu no Amazonas celebrado.
E se não mente
A tradição,
De lampião
Fazia num farol da Líbia ardente.
Nariz de pau,
Com tal composto,
Que sobre o rosto
Tem forma de bandurra ou berimbau.
Cavado e torto,
Formal tripeça,
Fundido à pressa
Nas forjas de Vulcano — por aborto.
Nariz de forno,
De amplas badanas,
Que mil bananas
Aloja em cada venta, sem transtorno.
É tão famoso
O tal nariz,
Que por um triz
Não fez parte do Cabo Tormentoso.
Qual catatau
Da testa pende,
E alguém entende
Ser ninho de coruja ou picapau.
Nariz de barro,
Mas não cozido,
Que suspendido,
Sobre as grimpas da lua vai de esbarro.
De quanto fiz
Não se enraiveça;
Não enrubesça,
Que pr'a dar e vender sobra nariz.
do livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).
1 405
Pedro Amigo de Sevilha
Pediu Hoj'um Ric'home
Pediu hoj'um ric'home,
de que eu hei queixume,
candeas a um seu home,
e deu-lh'o home lume.
E pois que foi o lume ficado no esteo,
diss'assi: - Erro aqui há, segun[do eu] creo,
que al est a candea e al est o candeo.
El candeas e vinho
pediu ao serão;
e log'um seu meninho
troux'o lume na mão,
e foi log'a dereito ficá-la no esteo;
e disse: - Err'aqui há, colguem-me d'um baraceo,
que al est a candea e al est o candeo.
El candeas pedia,
e logo mantenente,
assi com'el queria,
foi-lh'o lume presente
e per logo ficado bem ali no esteo;
e disse: - Err'aqui há, ou eu nada nom creo,
que al est a candea e al est o candeo.
de que eu hei queixume,
candeas a um seu home,
e deu-lh'o home lume.
E pois que foi o lume ficado no esteo,
diss'assi: - Erro aqui há, segun[do eu] creo,
que al est a candea e al est o candeo.
El candeas e vinho
pediu ao serão;
e log'um seu meninho
troux'o lume na mão,
e foi log'a dereito ficá-la no esteo;
e disse: - Err'aqui há, colguem-me d'um baraceo,
que al est a candea e al est o candeo.
El candeas pedia,
e logo mantenente,
assi com'el queria,
foi-lh'o lume presente
e per logo ficado bem ali no esteo;
e disse: - Err'aqui há, ou eu nada nom creo,
que al est a candea e al est o candeo.
573
Pedro Amigo de Sevilha
Lourenço Nom Mi Quer Creer
Lourenço nom mi quer creer,
pero que o conselho bem,
do que el nom sabe fazer;
e pero, se mi creess'en,
de três cousas, que bem direi,
podia per i com el-rei
e com outros bem guarecer.
E quero-lh'eu logo dizer
ũa antr'as cousas que el tem
que sabe melhor: e saber
podedes que nom sabe rem
trobar, ca trobador nom há
eno mundo, nem haverá,
a que s'el queira conhocer.
E bem com'el faz do trobar,
assi jura, se veess'i
Pero Sem com el[e] cantar
e Pero Bodin'outrossi
e quantos cantadores som:
por todos diz el ca nom
lhis quer end'avantada dar.
Ainda de seu citolar
vos direi eu quanto lh'oí:
diz que o nom podem passar
todos quantos andam aqui;
e por esto lhi conselh'eu
que leix'esto, que nom é seu,
em que lhi vam todos travar.
E eu que lh'o conselho dou
que leix'est'a que se filhou,
diz que ando pol'enganar!
pero que o conselho bem,
do que el nom sabe fazer;
e pero, se mi creess'en,
de três cousas, que bem direi,
podia per i com el-rei
e com outros bem guarecer.
E quero-lh'eu logo dizer
ũa antr'as cousas que el tem
que sabe melhor: e saber
podedes que nom sabe rem
trobar, ca trobador nom há
eno mundo, nem haverá,
a que s'el queira conhocer.
E bem com'el faz do trobar,
assi jura, se veess'i
Pero Sem com el[e] cantar
e Pero Bodin'outrossi
e quantos cantadores som:
por todos diz el ca nom
lhis quer end'avantada dar.
Ainda de seu citolar
vos direi eu quanto lh'oí:
diz que o nom podem passar
todos quantos andam aqui;
e por esto lhi conselh'eu
que leix'esto, que nom é seu,
em que lhi vam todos travar.
E eu que lh'o conselho dou
que leix'est'a que se filhou,
diz que ando pol'enganar!
549
Raquel Nobre Guerra
Deixa que nos chamem
Deixa que nos chamem
pequeno cemitério de animais em flor.
O meu coração gótico espera por ti
aqui onde ninguém dança.
Porque havemos sempre de brincar
vestidos de santos até adormecer
nos olhos da cabra que, escuta:
I touched her thigh and death smiled.
Se perguntarem por nós aponta para cima
e responde com humor tipicamente irlandês
Senhor Roubado. Linha Amarela. Estação Terminal.
pequeno cemitério de animais em flor.
O meu coração gótico espera por ti
aqui onde ninguém dança.
Porque havemos sempre de brincar
vestidos de santos até adormecer
nos olhos da cabra que, escuta:
I touched her thigh and death smiled.
Se perguntarem por nós aponta para cima
e responde com humor tipicamente irlandês
Senhor Roubado. Linha Amarela. Estação Terminal.
721
Raquel Nobre Guerra
É evidente que nos mentem
É evidente que nos mentem quando põem por escrito
que é preciso imaginar Sísifo feliz. Como assim?
(Renunciar ao cigarro no peito inimigo
rebocar o morto para lhe lamber os pés?)
Que valha a pena andar aqui com o propósito
de ter ponta por se estar vivo ainda que falido.
Precisamos de Sísifo doente e formas febris
para encher o bucho filosófico a toque de punheta.
Uma vida sem relato para diminuir a expectativa.
Porque na verdade não há gerações intoleráveis
há momentos em que o homem se torna imóvel
e gerado para um só momento:
o de estar de tal forma comprometido com a sua época
que lhe resta apenas ser ridículo e mentir.
Que me desculpem senhores putas, não é fácil
dirigir esta merda sob o olhar do entendimento
num país onde o poeta nos leva o talho a casa
e se morre de fome num país cheio de poetas.
Dei por mim no «Resumo» da documenta
que quanto a mim, perde para os westerns.
Dei por mim sozinho na cena de porrada ao futuro
cabrões de vindouros se isto não é um grande filme.
E estava certo.
Dei por mim a propor duelos.
Café e pistolas para dois?
que é preciso imaginar Sísifo feliz. Como assim?
(Renunciar ao cigarro no peito inimigo
rebocar o morto para lhe lamber os pés?)
Que valha a pena andar aqui com o propósito
de ter ponta por se estar vivo ainda que falido.
Precisamos de Sísifo doente e formas febris
para encher o bucho filosófico a toque de punheta.
Uma vida sem relato para diminuir a expectativa.
Porque na verdade não há gerações intoleráveis
há momentos em que o homem se torna imóvel
e gerado para um só momento:
o de estar de tal forma comprometido com a sua época
que lhe resta apenas ser ridículo e mentir.
Que me desculpem senhores putas, não é fácil
dirigir esta merda sob o olhar do entendimento
num país onde o poeta nos leva o talho a casa
e se morre de fome num país cheio de poetas.
Dei por mim no «Resumo» da documenta
que quanto a mim, perde para os westerns.
Dei por mim sozinho na cena de porrada ao futuro
cabrões de vindouros se isto não é um grande filme.
E estava certo.
Dei por mim a propor duelos.
Café e pistolas para dois?
719
Pedro Amigo de Sevilha
Per'ordónhez, Torp'e Desembrado
Per'Ordónhez, torp'e desembrado
vej'eu um home que vem da fronteira
e pregunta por Maria Balteira,
Per'Ordónhez, e semelha guisado
daquest'home que tal pregunta faz,
Per'Ordónhez, de semelhar rapaz
ou algum home de pouco recado?
Per'Ordónhez, torp'e enganado
mi semelha e fora de carreira
quem pregunta por ũa soldadeira
e nom pregunta por al mais guisado;
e, Per'Ordónhez, mui cheo de mal
mi semelha e torp'est'hom'atal,
Per'Ordónhez, que m'há preguntado.
E Per'Ordónhez, nom preguntaria
por esto, se algũa rem valesse
aquest'homem e se o bem conhocesse,
Per'Ordónhez; fez mui gram bavequia
aquest'home que tal pregunta fez,
Per'Ordónhez, se foss'algũa vez
por torp'ess'hora, dereito seria.
vej'eu um home que vem da fronteira
e pregunta por Maria Balteira,
Per'Ordónhez, e semelha guisado
daquest'home que tal pregunta faz,
Per'Ordónhez, de semelhar rapaz
ou algum home de pouco recado?
Per'Ordónhez, torp'e enganado
mi semelha e fora de carreira
quem pregunta por ũa soldadeira
e nom pregunta por al mais guisado;
e, Per'Ordónhez, mui cheo de mal
mi semelha e torp'est'hom'atal,
Per'Ordónhez, que m'há preguntado.
E Per'Ordónhez, nom preguntaria
por esto, se algũa rem valesse
aquest'homem e se o bem conhocesse,
Per'Ordónhez; fez mui gram bavequia
aquest'home que tal pregunta fez,
Per'Ordónhez, se foss'algũa vez
por torp'ess'hora, dereito seria.
522
Afonso Mendes de Besteiros
Já Lhi Nunca Pediram
Já lhi nunca pediram
o castel'a Dom Foam;
ca nom tinha el de pam
senom quanto queria;
e foi-o vender, de pram,
com mínguas que havia.
Por que lh'ides [a]poer
culpa [por] non'[o] teer?
Ca nom tinha que comer
senom quanto queria;
e foi-o entom vender
com mínguas que havia.
Travam-lhi mui sem razom
a home de tal coraçom:
"Em fronteira de Leon",
diz, "com quen'o terria?"
E foi-o vender entom
com mínguas que havia.
Dizem que lh'a el mais val
esto que diz, ca nom al:
"Em cabo de Portugal",
diz, "com quen'o terria?"
E vende[u]-o entom mal
com mínguas que havia.
o castel'a Dom Foam;
ca nom tinha el de pam
senom quanto queria;
e foi-o vender, de pram,
com mínguas que havia.
Por que lh'ides [a]poer
culpa [por] non'[o] teer?
Ca nom tinha que comer
senom quanto queria;
e foi-o entom vender
com mínguas que havia.
Travam-lhi mui sem razom
a home de tal coraçom:
"Em fronteira de Leon",
diz, "com quen'o terria?"
E foi-o vender entom
com mínguas que havia.
Dizem que lh'a el mais val
esto que diz, ca nom al:
"Em cabo de Portugal",
diz, "com quen'o terria?"
E vende[u]-o entom mal
com mínguas que havia.
893
Afonso X
Mester Havia Dom Gil
Mester havia Dom Gil
um falconcinho bornil
que nom voasse,
nemigalha nom filhasse;
[e] um galguilinho vil
que ũa lébor, de mil,
non'[a] filhasse,
mais rabejasse e ladrasse;
podengo de riba Sil
que en fiass'um nihil
que lhi mejasse,
a Dom Gil,
quando lébor i achasse;
e osas d'um javaril
que dessem per seu quadril
[e s'embargasse],
[i] Dom Gil,
quando lébor levantasse.
um falconcinho bornil
que nom voasse,
nemigalha nom filhasse;
[e] um galguilinho vil
que ũa lébor, de mil,
non'[a] filhasse,
mais rabejasse e ladrasse;
podengo de riba Sil
que en fiass'um nihil
que lhi mejasse,
a Dom Gil,
quando lébor i achasse;
e osas d'um javaril
que dessem per seu quadril
[e s'embargasse],
[i] Dom Gil,
quando lébor levantasse.
603
Afonso Mendes de Besteiros
O Arrais de Roi Garcia
O arrais de Roi Garcia,
que em Leirea tragia,
desseinou-o;
e pois veo outro dia
e enlinhou-o.
Nom vos foi el de mal sem:
serviu-se del mui[to] bem,
desseinou-o;
e pois veo a Santarém
e enlinhou-o.
Nom vos foi el mui mesquinho:
per como diz Cogominho,
desseinou-o;
e pois morreu Dom Martinho,
enlinhou-o.
Ainda vos eu mais direi:
per quant'eu del vej'e sei,
desseinou-o;
e pois veo a cas del-rei,
enlinhou-o.
que em Leirea tragia,
desseinou-o;
e pois veo outro dia
e enlinhou-o.
Nom vos foi el de mal sem:
serviu-se del mui[to] bem,
desseinou-o;
e pois veo a Santarém
e enlinhou-o.
Nom vos foi el mui mesquinho:
per como diz Cogominho,
desseinou-o;
e pois morreu Dom Martinho,
enlinhou-o.
Ainda vos eu mais direi:
per quant'eu del vej'e sei,
desseinou-o;
e pois veo a cas del-rei,
enlinhou-o.
784
Afonso X
Penhoremos o Daiam
Penhoremos o daiam
na cadela, polo cam.
Pois que me foi el furtar
meu podeng'e mi o negar
- e quant'é, a meu cuidar,
destes penhos, pesar-lh'-am:
ca o quer'eu penhorar
na cadela, polo cam.
Penhoremos o daiam
na cadela, polo cam.
Mandou-m'el furtar alvor
o meu podengo melhor
que havia; e sabor
de penhorar lh'hei, de pram,
e filhar-lh'-ei a maior
sa cadela, polo cam.
Penhoremos o daiam
na cadela, polo cam.
Pero querrei-mi aviir
com el, se [mi o] consentir;
mais, se o el nom comprir,
os seus penhos ficar-mi-am;
e querrei-me bem servir
da cadela, polo cam.
Penhoremos o daiam
na cadela, polo cam.
na cadela, polo cam.
Pois que me foi el furtar
meu podeng'e mi o negar
- e quant'é, a meu cuidar,
destes penhos, pesar-lh'-am:
ca o quer'eu penhorar
na cadela, polo cam.
Penhoremos o daiam
na cadela, polo cam.
Mandou-m'el furtar alvor
o meu podengo melhor
que havia; e sabor
de penhorar lh'hei, de pram,
e filhar-lh'-ei a maior
sa cadela, polo cam.
Penhoremos o daiam
na cadela, polo cam.
Pero querrei-mi aviir
com el, se [mi o] consentir;
mais, se o el nom comprir,
os seus penhos ficar-mi-am;
e querrei-me bem servir
da cadela, polo cam.
Penhoremos o daiam
na cadela, polo cam.
618
Rui Queimado
O Meu Amigo, Que Me Mui Gram Bem
O meu amigo, que me mui gram bem
quer, assanhou-s'um dia contra mim
muit'endoado; mais [d]el que s'assi
a mim assanha, sei eu ũa rem:
se soubess'el quam pouc'eu daria
por sa sanha, nom s'assanharia.
E, porque nom quig'eu com el falar
quand'el quisera, nem se mi aguisou,
assanhou-s'el, e de pram bem cuidou
que me matava; mais, a meu cuidar,
se soubess'el quam pouc'eu daria
por sa sanha, nom s'assanharia.
Porque me quer gram bem de coraçom,
assanhou-s'el, e cuidou-m'a fazer
mui gram pesar; mais devedes creer,
del que s'assanha, se Deus me perdom,
se soubess'el quam pouc'eu daria
por sa sanha, nom s'assanharia.
quer, assanhou-s'um dia contra mim
muit'endoado; mais [d]el que s'assi
a mim assanha, sei eu ũa rem:
se soubess'el quam pouc'eu daria
por sa sanha, nom s'assanharia.
E, porque nom quig'eu com el falar
quand'el quisera, nem se mi aguisou,
assanhou-s'el, e de pram bem cuidou
que me matava; mais, a meu cuidar,
se soubess'el quam pouc'eu daria
por sa sanha, nom s'assanharia.
Porque me quer gram bem de coraçom,
assanhou-s'el, e cuidou-m'a fazer
mui gram pesar; mais devedes creer,
del que s'assanha, se Deus me perdom,
se soubess'el quam pouc'eu daria
por sa sanha, nom s'assanharia.
571