Poemas neste tema
Humor e Ironia
João Soares Coelho
Quem Ama Deus, Lourenç', Am'a Verdade
- Quem ama Deus, Lourenç', am'a verdade,
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
563
João Soares Coelho
Joam Garcia Tal Se Foi Loar
Joam Garcia tal se foi loar
e enfenger que dava [i] sas doas
e que trobava por donas mui boas;
e oí end'o meirinho queixar
e dizer que fará, se Deus quiser,
que nom trobe quem trobar nom dever
por ricas donas nem por infançoas.
E oí noutro dia en queixar
ũas coteifas e outras cochõas,
e o meirinho lhis disse: - Varõas,
e nom vos queixedes, ca se eu tornar,
eu vos farei que nẽum trobador
nom trobe em talho senom de qual for,
nem ar trobe por mais altas pessõas.
Ca manda 'l-rei, porque há en despeito,
que trobem os melhores trobadores
polas mais altas donas e melhores,
e tem assi por razom, com proveito;
e o coteife que for trobador
trobe, mais cham'a coteifa "senhor",
e andarám os preitos com dereito.
E o vilão que trobar souber
que trob'e chame "senhor" sa molher,
e haverá cada um o seu dereito.
e enfenger que dava [i] sas doas
e que trobava por donas mui boas;
e oí end'o meirinho queixar
e dizer que fará, se Deus quiser,
que nom trobe quem trobar nom dever
por ricas donas nem por infançoas.
E oí noutro dia en queixar
ũas coteifas e outras cochõas,
e o meirinho lhis disse: - Varõas,
e nom vos queixedes, ca se eu tornar,
eu vos farei que nẽum trobador
nom trobe em talho senom de qual for,
nem ar trobe por mais altas pessõas.
Ca manda 'l-rei, porque há en despeito,
que trobem os melhores trobadores
polas mais altas donas e melhores,
e tem assi por razom, com proveito;
e o coteife que for trobador
trobe, mais cham'a coteifa "senhor",
e andarám os preitos com dereito.
E o vilão que trobar souber
que trob'e chame "senhor" sa molher,
e haverá cada um o seu dereito.
732
João Soares Coelho
Dom Vuitorom, o Que Vos a Vós Deu
Dom Vuitorom, o que vos a vós deu
sobre los trobadores a julgar,
ou nom sabia que x'era trobar
ou sabia como vos trobei eu,
que trobei duas vezes mui bem;
e se vos el fez juiz por en,
de vós julgardes outorgo-vo-l'eu.
E se vos el por esto fez juiz,
Dom Vuitorom, devede-l'a seer,
ca vos soub'eu dous cantares fazer,
sem outros seis ou sete que vos fiz,
per que devedes julgar com razom;
[e por en vos digo, Dom Vuitorom],
julgad'os cantares que vos eu fiz!
E pois julgardes como vos trobei,
e ar chamad'o comendador i,
que fezerom comendador sem mi
de mias comendas, per força de rei;
e o que ora nas alças está,
se o em dereit'hei, entregar-mi-as-á,
ca todas estas som forças de rei.
sobre los trobadores a julgar,
ou nom sabia que x'era trobar
ou sabia como vos trobei eu,
que trobei duas vezes mui bem;
e se vos el fez juiz por en,
de vós julgardes outorgo-vo-l'eu.
E se vos el por esto fez juiz,
Dom Vuitorom, devede-l'a seer,
ca vos soub'eu dous cantares fazer,
sem outros seis ou sete que vos fiz,
per que devedes julgar com razom;
[e por en vos digo, Dom Vuitorom],
julgad'os cantares que vos eu fiz!
E pois julgardes como vos trobei,
e ar chamad'o comendador i,
que fezerom comendador sem mi
de mias comendas, per força de rei;
e o que ora nas alças está,
se o em dereit'hei, entregar-mi-as-á,
ca todas estas som forças de rei.
540
Vinicius de Moraes
O Assassino
Meninas de colégio
Apenas acordadas
Desuniformizadas
Em vossos uniformes
Anjos longiformes
De faces rosadas
E pernas enormes
Quem vos acompanha?
Quem vos acompanha
Colegiais aladas
Nas longas estradas
Que vão da campanha
Às vossas moradas?
Onde está o pastor
Que vos arrebanha
Rebanho de risos?
Rebanho de risos
Que tingem o poente
Da cor impudente
Das coisas contadas
Entre tanto riso!
Meninas levadas
Não tendes juízo
Nas vossas cabeças?
Nas vossas cabeças
Como um cata-vento
Nem por um momento
A ideia vos passa
Do grande perigo
Que vos ameaça
E a que não dais tento
Meninas sem tino!
Pois não tendes tino
Brotos malfadados
Que aí pelos prados
Há um assassino
Que à vossa passagem
Põe olhos malvados
Por entre a folhagem...
Cuidado, meninas!
Apenas acordadas
Desuniformizadas
Em vossos uniformes
Anjos longiformes
De faces rosadas
E pernas enormes
Quem vos acompanha?
Quem vos acompanha
Colegiais aladas
Nas longas estradas
Que vão da campanha
Às vossas moradas?
Onde está o pastor
Que vos arrebanha
Rebanho de risos?
Rebanho de risos
Que tingem o poente
Da cor impudente
Das coisas contadas
Entre tanto riso!
Meninas levadas
Não tendes juízo
Nas vossas cabeças?
Nas vossas cabeças
Como um cata-vento
Nem por um momento
A ideia vos passa
Do grande perigo
Que vos ameaça
E a que não dais tento
Meninas sem tino!
Pois não tendes tino
Brotos malfadados
Que aí pelos prados
Há um assassino
Que à vossa passagem
Põe olhos malvados
Por entre a folhagem...
Cuidado, meninas!
1 383
Juião Bolseiro
Juïão, Quero Contigo Fazer
- Juïão, quero contigo fazer,
se tu quiseres, ũa entençom:
e querrei-te, na primeira razom,
ũa punhada mui grande poer
eno rostro, e chamar-te rapaz
mui mao; e creo que assi faz
boa entençom quen'a quer fazer.
- Meem Rodriguiz, mui sem meu prazer
a farei vosc', assi Deus me perdom:
ca vos haverei de chamar cochom,
pois que eu a punhada receber;
des i trobar-vos-ei mui mal assaz,
e atal entençom, se a vós praz,
a farei vosco mui sem meu prazer.
- Juïão, pois [con]tigo começar
fui, direi-t'ora o que te farei:
ũa punhada grande te darei,
des i querrei-te muitos couces dar
na garganta, por te ferir peor,
que nunca vilão haja sabor
doutra tençom comego começar.
- Meem Rodriguiz, querrei-m'emparar,
se Deus me valha, como vos direi:
coteife nojoso vos chamarei,
pois que eu a punhada recadar;
des i direi, pois sô os couces for:
"Le[i]xade-m'ora, por Nostro Senhor",
ca assi se sol meu padr'a emparar.
- Juïão, pois que t'eu [ora] filhar
pelos cabelos e que t'arrastrar,
ah que dez couces te presentarei!
- Meem Rodriguiz, se m'eu trosquiar,
ou se me fano, ou se m'encostar,
ai, trobador, já vos nom tornarei!
se tu quiseres, ũa entençom:
e querrei-te, na primeira razom,
ũa punhada mui grande poer
eno rostro, e chamar-te rapaz
mui mao; e creo que assi faz
boa entençom quen'a quer fazer.
- Meem Rodriguiz, mui sem meu prazer
a farei vosc', assi Deus me perdom:
ca vos haverei de chamar cochom,
pois que eu a punhada receber;
des i trobar-vos-ei mui mal assaz,
e atal entençom, se a vós praz,
a farei vosco mui sem meu prazer.
- Juïão, pois [con]tigo começar
fui, direi-t'ora o que te farei:
ũa punhada grande te darei,
des i querrei-te muitos couces dar
na garganta, por te ferir peor,
que nunca vilão haja sabor
doutra tençom comego começar.
- Meem Rodriguiz, querrei-m'emparar,
se Deus me valha, como vos direi:
coteife nojoso vos chamarei,
pois que eu a punhada recadar;
des i direi, pois sô os couces for:
"Le[i]xade-m'ora, por Nostro Senhor",
ca assi se sol meu padr'a emparar.
- Juïão, pois que t'eu [ora] filhar
pelos cabelos e que t'arrastrar,
ah que dez couces te presentarei!
- Meem Rodriguiz, se m'eu trosquiar,
ou se me fano, ou se m'encostar,
ai, trobador, já vos nom tornarei!
706
Martha Medeiros
eu não sou nada disso
eu não sou nada disso
que você está pensando
por isso venha com calma
que eu conheço este tipo
quem quer acertar na mosca
acaba errando de sopa
que você está pensando
por isso venha com calma
que eu conheço este tipo
quem quer acertar na mosca
acaba errando de sopa
1 089
Martha Medeiros
vou andando devagar
vou andando devagar
olhando para um lado
para o outro
rindo ali, pensando aqui
de repente
vejo você na minha frente
e até pararia de andar
se você não fosse
estacionamento proibido
olhando para um lado
para o outro
rindo ali, pensando aqui
de repente
vejo você na minha frente
e até pararia de andar
se você não fosse
estacionamento proibido
1 056
Martha Medeiros
tango ensaiado
tango ensaiado
boca pintada
só de danada
lasco um decote
profundo
rosa vermelha
batom maravilha
só de rasteira
lasco um pingente
na orelha
don’t cry for me
segunda-feira
boca pintada
só de danada
lasco um decote
profundo
rosa vermelha
batom maravilha
só de rasteira
lasco um pingente
na orelha
don’t cry for me
segunda-feira
1 063
Lourenço
Rodrig'eanes, Queria Saber
- Rodrig'Eanes, queria saber
de vós por que m'ides sempre travar
em meus cantares; ca sei bem trobar;
e a vós nunca vos vimos fazer
cantar d'amor nem d'amigo; e por en,
se querede'lo que eu faço bem
danar, terrám-vos por sem conhocer.
- Lourenço, tu fazes i teu prazer
em te quereres tam muito loar,
ca nunca te vimos fazer cantar
que ch'en querrá nen'o Demo dizer.
Com'esso dizes, ar di ũa rem:
que és homem mui comprido de sem
e bom meestr'[e] que sabes leer.
- Rodrig'Eanes, sempr'eu loarei
os cantares que mui bem feitos viir,
quaes eu faço; e quem os oír
pagar-s'-á deles; mais vos eu direi:
dos sarilhos sodes vós trobador,
ca nom faredes um cantar d'amor
por nulha guisa qual eu [o] farei.
- Lourenç', enas terras u eu andei,
nom vi vilam tam mal departir;
e vejo-te [em] trobares cousir
e loar-te; mais ũa cousa sei:
de tod'homem que entendudo for,
nom haverá em teu cantar sabor,
nem cho colherám em casa del-rei.
- Rodrig'Eanes, u meu cantar for,
nom acharei rei nem emperador
que o nom colha - mui bem eu o sei.
- Lourenço, tenho que és chufador;
e vejo-t'ora mui gram loador
de pouco sem, [e] nom cho creerei.
de vós por que m'ides sempre travar
em meus cantares; ca sei bem trobar;
e a vós nunca vos vimos fazer
cantar d'amor nem d'amigo; e por en,
se querede'lo que eu faço bem
danar, terrám-vos por sem conhocer.
- Lourenço, tu fazes i teu prazer
em te quereres tam muito loar,
ca nunca te vimos fazer cantar
que ch'en querrá nen'o Demo dizer.
Com'esso dizes, ar di ũa rem:
que és homem mui comprido de sem
e bom meestr'[e] que sabes leer.
- Rodrig'Eanes, sempr'eu loarei
os cantares que mui bem feitos viir,
quaes eu faço; e quem os oír
pagar-s'-á deles; mais vos eu direi:
dos sarilhos sodes vós trobador,
ca nom faredes um cantar d'amor
por nulha guisa qual eu [o] farei.
- Lourenç', enas terras u eu andei,
nom vi vilam tam mal departir;
e vejo-te [em] trobares cousir
e loar-te; mais ũa cousa sei:
de tod'homem que entendudo for,
nom haverá em teu cantar sabor,
nem cho colherám em casa del-rei.
- Rodrig'Eanes, u meu cantar for,
nom acharei rei nem emperador
que o nom colha - mui bem eu o sei.
- Lourenço, tenho que és chufador;
e vejo-t'ora mui gram loador
de pouco sem, [e] nom cho creerei.
617
Lourenço
Quero Que Julguedes, Pero Garcia
- Quero que julguedes, Pero Garcia,
d'antre mim e tôdolos trobadores
que de meu trobar som desdezidores:
pois que eu hei mui gram sabedoria
de trobar e de o mui bem fazer,
se hei culpa no que me vam dizer,
julgade-o, sem tod'a bandoria.
- Dom Lo[urenço], muito me cometedes,
e em trobar muito vos ar loades;
e dizem esses com que vós trobades
que de trobar nulha rem nom sabedes,
nem rimades nem sabedes iguar;
e pois vos assi travam em trobar,
de vos julgar, senhor, nom me coitedes.
- Dom Pedro, em como vos ouç'i falar,
ou vós bem nom sabedes julgar,
ou já dos outros ofereçom havedes.
- Dom Lourenço, vejo i vos posfaçar;
mais quem nom rima nem sabe iguar,
se eu juizo dou, queixar-vos-edes.
d'antre mim e tôdolos trobadores
que de meu trobar som desdezidores:
pois que eu hei mui gram sabedoria
de trobar e de o mui bem fazer,
se hei culpa no que me vam dizer,
julgade-o, sem tod'a bandoria.
- Dom Lo[urenço], muito me cometedes,
e em trobar muito vos ar loades;
e dizem esses com que vós trobades
que de trobar nulha rem nom sabedes,
nem rimades nem sabedes iguar;
e pois vos assi travam em trobar,
de vos julgar, senhor, nom me coitedes.
- Dom Pedro, em como vos ouç'i falar,
ou vós bem nom sabedes julgar,
ou já dos outros ofereçom havedes.
- Dom Lourenço, vejo i vos posfaçar;
mais quem nom rima nem sabe iguar,
se eu juizo dou, queixar-vos-edes.
626
Lourenço
Lourenço, Soías Tu Guarecer
- Lourenço, soías tu guarecer
como podias, per teu citolom,
ou bem ou mal, nom ti dig'eu de nom,
e vejo-te de trobar trameter;
e quero-t'eu desto desenganar:
bem tanto sabes tu que é trobar
bem quanto sab'o asno de leer.
- Joam d'Avoim, já me cometer
veerom muitos por esta razom
que mi diziam, se Deus mi perdom,
que nom sabia 'm trobar entender;
e veerom por en comig'entençar,
e figi-os eu vençudos ficar;
e cuido-vos deste preito vencer.
- Lourenço, serias mui sabedor
se me vencesses de trobar nem d'al,
ca bem sei eu quem troba bem ou mal,
que nom sabe mais nẽum trobador;
e por aquesto te desenganei;
e vês, Lourenço, onde cho direi:
quita-te sempre do que teu nom for.
- Joam d'Avoim, por Nostro Senhor,
por que leixarei eu trobar atal
que mui bem faç'e que muito mi val?
Des i ar gradece-mi-o mia senhor,
por que o faç'; e, pois eu tod'est'hei,
o trobar nunca [o] eu leixarei,
poilo bem faç'e hei [i] gram sabor.
como podias, per teu citolom,
ou bem ou mal, nom ti dig'eu de nom,
e vejo-te de trobar trameter;
e quero-t'eu desto desenganar:
bem tanto sabes tu que é trobar
bem quanto sab'o asno de leer.
- Joam d'Avoim, já me cometer
veerom muitos por esta razom
que mi diziam, se Deus mi perdom,
que nom sabia 'm trobar entender;
e veerom por en comig'entençar,
e figi-os eu vençudos ficar;
e cuido-vos deste preito vencer.
- Lourenço, serias mui sabedor
se me vencesses de trobar nem d'al,
ca bem sei eu quem troba bem ou mal,
que nom sabe mais nẽum trobador;
e por aquesto te desenganei;
e vês, Lourenço, onde cho direi:
quita-te sempre do que teu nom for.
- Joam d'Avoim, por Nostro Senhor,
por que leixarei eu trobar atal
que mui bem faç'e que muito mi val?
Des i ar gradece-mi-o mia senhor,
por que o faç'; e, pois eu tod'est'hei,
o trobar nunca [o] eu leixarei,
poilo bem faç'e hei [i] gram sabor.
698
Martha Medeiros
caprichei na meia-calça
caprichei na meia-calça
preparei a meia-luz
irrompi à meia-noite
ficou tudo meia-boca
preparei a meia-luz
irrompi à meia-noite
ficou tudo meia-boca
1 031
Lourenço
Quem Ama Deus, Lourenç', Am'a Verdade
- Quem ama Deus, Lourenç', am'a verdade,
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
578
Lourenço
Pedr'amigo Duas Sobérvias Faz
Pedr'Amigo duas sobérvias faz
ao trobar, e queixa-se muit'en
o trobar, aquesto sei eu mui bem;
ca diz que lhi faz ende mal assaz:
com seus cantares vai-o escarnir;
ar diz que o leix'eu, que sei seguir
o trobar e todo quant'en'el jaz!
E aquestas sobêrvias duas som,
que Pedr'Amigo em trobar vai fazer:
ena ũa vai-o escarnecer
com seus cantares sempre em seu som,
ena outra vai i mim de[s]loar:
desto se queixa mui mal o trobar
ca tem comigo em tod'a razom.
Mais dizede porque lho sofrerei
a Pedr'Amigo, se me mal disser
de meus mesteres, poilos bem fezer,
e o trobar de mi já partirei?
S' el sem conhocer [é], per ficará
do que me diz; [e] quem quer veerá
que faço bem est'a que me filhei.
ao trobar, e queixa-se muit'en
o trobar, aquesto sei eu mui bem;
ca diz que lhi faz ende mal assaz:
com seus cantares vai-o escarnir;
ar diz que o leix'eu, que sei seguir
o trobar e todo quant'en'el jaz!
E aquestas sobêrvias duas som,
que Pedr'Amigo em trobar vai fazer:
ena ũa vai-o escarnecer
com seus cantares sempre em seu som,
ena outra vai i mim de[s]loar:
desto se queixa mui mal o trobar
ca tem comigo em tod'a razom.
Mais dizede porque lho sofrerei
a Pedr'Amigo, se me mal disser
de meus mesteres, poilos bem fezer,
e o trobar de mi já partirei?
S' el sem conhocer [é], per ficará
do que me diz; [e] quem quer veerá
que faço bem est'a que me filhei.
501
Lourenço
Lourenço Jograr, Hás Mui Gram Sabor
- Lourenço jograr, hás mui gram sabor
de citolares, ar queres cantar,
des i ar filhas-te log'a trobar
e teens-t'ora já por trobador;
e por tod'esto ũa rem ti direi:
Deus me confonda, se hoj'eu i sei
destes mesteres qual fazes melhor!
- Joam Garcia, sõo sabedor
de meus mesteres sempre deantar,
e vós andades por mi os desloar;
pero nom sodes tam desloador
que, com verdade, possades dizer
que meus mesteres nom sei bem fazer;
mais vós nom sodes i conhocedor.
- Lourenço, vejo-t'agora queixar:
pola verdade que quero dizer,
metes-me já por de mal conhocer,
mais en nom quero tigo pelejar;
e teus mesteres conhocer-tos-ei,
e dos mesteres verdade direi:
ess'é que foi com os lobos arar.
- Joam Garcia, no vosso trobar
acharedes muito que correger;
e leixade mi, que sei bem fazer
estes mesteres que fui começar;
ca no vosso trobar sei-m'eu com'é:
i há de correger, per bõa fé,
mais que nos meus, em que m'ides travar.
- Vês, Lourenç[o], ora m'assanharei,
pois mal i entenças, e tod'o farei
o citolom na cabeça quebrar.
- Joam Garcia, se Deus mi perdom,
mui gram verdade dig'eu na tençom;
e vós fazed'o que vos semelhar.
de citolares, ar queres cantar,
des i ar filhas-te log'a trobar
e teens-t'ora já por trobador;
e por tod'esto ũa rem ti direi:
Deus me confonda, se hoj'eu i sei
destes mesteres qual fazes melhor!
- Joam Garcia, sõo sabedor
de meus mesteres sempre deantar,
e vós andades por mi os desloar;
pero nom sodes tam desloador
que, com verdade, possades dizer
que meus mesteres nom sei bem fazer;
mais vós nom sodes i conhocedor.
- Lourenço, vejo-t'agora queixar:
pola verdade que quero dizer,
metes-me já por de mal conhocer,
mais en nom quero tigo pelejar;
e teus mesteres conhocer-tos-ei,
e dos mesteres verdade direi:
ess'é que foi com os lobos arar.
- Joam Garcia, no vosso trobar
acharedes muito que correger;
e leixade mi, que sei bem fazer
estes mesteres que fui começar;
ca no vosso trobar sei-m'eu com'é:
i há de correger, per bõa fé,
mais que nos meus, em que m'ides travar.
- Vês, Lourenç[o], ora m'assanharei,
pois mal i entenças, e tod'o farei
o citolom na cabeça quebrar.
- Joam Garcia, se Deus mi perdom,
mui gram verdade dig'eu na tençom;
e vós fazed'o que vos semelhar.
693
Lourenço
Muito Te Vejo, Lourenço, Queixar
- Muito te vejo, Lourenço, queixar
pola cevada e polo bever,
que to nom mando dar a teu prazer;
mais eu to quero fazer melhorar:
pois que t'agora citolar oí
e cantar, mando que to dem assi
bem como o tu sabes merecer.
- Joam Garcia, se vos en pesar
de que me queix[e] em vosso poder,
o melhor que podedes i fazer:
nom mi mandedes a cevada dar
mal, nen'o vinho, que mi nom dam i
tam bem com[o m']eu sempre mereci,
ca vos seria grave de fazer.
- Lourenço, a mim grave nom será
de te pagar tanto que mi quiser:
pois ante mi fezisti teu mester,
mui bem entendo e bem vejo já
como te pagu'; e logo o mandarei
pagar a [um] gram vilão que hei,
se um bom pao na mão tever.
- Joam Garcia, tal paga achará
em vós o jograr, quand'a vós veer,
mais outr'a quem [meu] mester fezer,
que m'en entenda, mui bem [mi] fará,
que panos ou algo merecerei;
e vossa paga ben'a leixarei
e pagad'[a] outro jograr qualquer.
- Pois, Lourenço, cala-t'e calar-m'-ei
e todavia tigo mi averrei,
e do meu filha quanto chi m'eu der.
- Joam Garcia, nom vos filharei
algo, e mui bem vos citolarei,
e conhosco mui bem [o] trobar.
- O chufar, Dom Lourenço, [o] chufar!
pola cevada e polo bever,
que to nom mando dar a teu prazer;
mais eu to quero fazer melhorar:
pois que t'agora citolar oí
e cantar, mando que to dem assi
bem como o tu sabes merecer.
- Joam Garcia, se vos en pesar
de que me queix[e] em vosso poder,
o melhor que podedes i fazer:
nom mi mandedes a cevada dar
mal, nen'o vinho, que mi nom dam i
tam bem com[o m']eu sempre mereci,
ca vos seria grave de fazer.
- Lourenço, a mim grave nom será
de te pagar tanto que mi quiser:
pois ante mi fezisti teu mester,
mui bem entendo e bem vejo já
como te pagu'; e logo o mandarei
pagar a [um] gram vilão que hei,
se um bom pao na mão tever.
- Joam Garcia, tal paga achará
em vós o jograr, quand'a vós veer,
mais outr'a quem [meu] mester fezer,
que m'en entenda, mui bem [mi] fará,
que panos ou algo merecerei;
e vossa paga ben'a leixarei
e pagad'[a] outro jograr qualquer.
- Pois, Lourenço, cala-t'e calar-m'-ei
e todavia tigo mi averrei,
e do meu filha quanto chi m'eu der.
- Joam Garcia, nom vos filharei
algo, e mui bem vos citolarei,
e conhosco mui bem [o] trobar.
- O chufar, Dom Lourenço, [o] chufar!
607
Martim Anes Marinho
Ena Primeira Rua Que Cheguemos
Ena primeira rua que cheguemos,
guarnir-nos-á Dom Foam mui bem
d'um pan'estranho que todos sabemos,
d'ũa ucha pere[nal] que [i] tem;
e as calças seram de melhor pano:
feitas seram de névoa d'antano;
e nós de chufas guarnidos seremos.
E prometeu-m'el ũa bõa capa,
ca nom destas maas feitas de luito,
mais outra bõa, feita de gualdrapa,
cintada, e de nom pouco nem muito;
e ũa pena, nom destas mizcradas,
mais outra bõa, de chufas paradas;
já m'eu daqui nom irei sem a capa.
Viste'lo potro coor de mentira,
que mi antano prometeu em Janeiro,
que nunca home melhor aqui vira?
Criado foi em Castro Mentireiro.
E prometeu-m'ũas armas entom,
nom destas maas feitas de León,
mais melhores, d'Outeir'em Freixeeiro.
Com grande labor, mi deu a loriga,
e toda era de chufas viada;
e como quer que vos end'eu al diga,
nunca mi a home viu na pousada;
e [atam] cravelada de mensonha
e tam lev'era, que bem de Coronha
a trageria aqui ũa formiga.
E prometeu-m'ũa arma preçada,
como dizem os que a conhocerom;
"gualdrapa Fariz" havia nom'a espada,
de mouros foi, nom sei u x'a perderom;
e pelo pão mi prometeu log'i
de nevoeiro, e eu lho recebi,
que me pagass', a seu poder, de nada.
[De preç'e com labor foi a loriga
que m'el mandou e de parla viada;
mais como quer que vo-lo homem diga,
nunca a mim virom teer na pousada:
bem cravelada e[ra] de zamponha,
des i tam leve, que bem de Monçonha
mi a aduria aqui ũa formiga.]
guarnir-nos-á Dom Foam mui bem
d'um pan'estranho que todos sabemos,
d'ũa ucha pere[nal] que [i] tem;
e as calças seram de melhor pano:
feitas seram de névoa d'antano;
e nós de chufas guarnidos seremos.
E prometeu-m'el ũa bõa capa,
ca nom destas maas feitas de luito,
mais outra bõa, feita de gualdrapa,
cintada, e de nom pouco nem muito;
e ũa pena, nom destas mizcradas,
mais outra bõa, de chufas paradas;
já m'eu daqui nom irei sem a capa.
Viste'lo potro coor de mentira,
que mi antano prometeu em Janeiro,
que nunca home melhor aqui vira?
Criado foi em Castro Mentireiro.
E prometeu-m'ũas armas entom,
nom destas maas feitas de León,
mais melhores, d'Outeir'em Freixeeiro.
Com grande labor, mi deu a loriga,
e toda era de chufas viada;
e como quer que vos end'eu al diga,
nunca mi a home viu na pousada;
e [atam] cravelada de mensonha
e tam lev'era, que bem de Coronha
a trageria aqui ũa formiga.
E prometeu-m'ũa arma preçada,
como dizem os que a conhocerom;
"gualdrapa Fariz" havia nom'a espada,
de mouros foi, nom sei u x'a perderom;
e pelo pão mi prometeu log'i
de nevoeiro, e eu lho recebi,
que me pagass', a seu poder, de nada.
[De preç'e com labor foi a loriga
que m'el mandou e de parla viada;
mais como quer que vo-lo homem diga,
nunca a mim virom teer na pousada:
bem cravelada e[ra] de zamponha,
des i tam leve, que bem de Monçonha
mi a aduria aqui ũa formiga.]
614
Raquel Nobre Guerra
Não foi preciso muito
Não foi preciso muito para que a cidade
começasse a tomar o veneno do milho
e fechasse tudo. A Palmeira, o Estádio,
a Barateira, até os grandes candidatos
à última cadeira ficaram por sua conta.
Lisboa é uma azinhaga tristíssima.
Talvez queiram acabar com a música
as doenças tropicais, os sonhadores.
Fechá-los no foyer servir-lhes faisão
e orquídeas negras, preveni-los de que
no sopé da lixeira haverá sempre lugar
para mais uma mantinha.
Que dias estes em que o amor passou
para um tempo que não mexe.
Vida em troca de indícios
de que apenas depois percebemos
a dimensão furiosa do vazio.
Grandes clássicos da vida para quem acha
que por ter lido a Rayuela foi ao cu ao profeta.
Homem, se tiveres sorte saberás
que nunca foi preciso namorar Platão
para saber que o cocheiro vai louco e num só pé.
É importante esta narrativa agigantada de referências
para que tudo feche literalmente com o porteiro da discoteca.
E que não sejamos menos aqui, que ninguém nos ouve,
contra o jogo de não termos conseguido melhor:
I want to fuck everyone in the world
I want to do something that matters
Ficas a dever-me uma.
começasse a tomar o veneno do milho
e fechasse tudo. A Palmeira, o Estádio,
a Barateira, até os grandes candidatos
à última cadeira ficaram por sua conta.
Lisboa é uma azinhaga tristíssima.
Talvez queiram acabar com a música
as doenças tropicais, os sonhadores.
Fechá-los no foyer servir-lhes faisão
e orquídeas negras, preveni-los de que
no sopé da lixeira haverá sempre lugar
para mais uma mantinha.
Que dias estes em que o amor passou
para um tempo que não mexe.
Vida em troca de indícios
de que apenas depois percebemos
a dimensão furiosa do vazio.
Grandes clássicos da vida para quem acha
que por ter lido a Rayuela foi ao cu ao profeta.
Homem, se tiveres sorte saberás
que nunca foi preciso namorar Platão
para saber que o cocheiro vai louco e num só pé.
É importante esta narrativa agigantada de referências
para que tudo feche literalmente com o porteiro da discoteca.
E que não sejamos menos aqui, que ninguém nos ouve,
contra o jogo de não termos conseguido melhor:
I want to fuck everyone in the world
I want to do something that matters
Ficas a dever-me uma.
573
Lourenço
Joam Vaásquez, Moiro Por Saber
- Joam Vaásquez, moiro por saber
de vós por que leixastes o trobar
ou se foi el vos primeiro leixar;
ca vedes o que ouço a todos dizer:
ca o trobar acordou-s'em atal:
que 'stava vosco em pecado mortal
e leixa-vos, por se nom perder.
- Lourenço, tu veens por aprender
de mim, e eu nom cho quero negar:
eu trobo bem quando quero trobar,
pero nom o quero sempre fazer;
mais di-me ti, que trobas desigual:
se te deitam por en de Portugal,
ou se matast'hom', ou roubast'haver.
- Joam Vaásquez, nunca roubei rem,
nem matei homem, nem ar mereci
porque mi deitassem, mais vim aqui
por gaar algo; e pois sei iguar-mi bem
como o trobar vosso; mais estou
que se perdia convosc'e quitou-
-se de vós; e nom trobades por en.
[...]
de vós por que leixastes o trobar
ou se foi el vos primeiro leixar;
ca vedes o que ouço a todos dizer:
ca o trobar acordou-s'em atal:
que 'stava vosco em pecado mortal
e leixa-vos, por se nom perder.
- Lourenço, tu veens por aprender
de mim, e eu nom cho quero negar:
eu trobo bem quando quero trobar,
pero nom o quero sempre fazer;
mais di-me ti, que trobas desigual:
se te deitam por en de Portugal,
ou se matast'hom', ou roubast'haver.
- Joam Vaásquez, nunca roubei rem,
nem matei homem, nem ar mereci
porque mi deitassem, mais vim aqui
por gaar algo; e pois sei iguar-mi bem
como o trobar vosso; mais estou
que se perdia convosc'e quitou-
-se de vós; e nom trobades por en.
[...]
595
Charles Bukowski
Encurralado
não dispa o meu amor
você pode encontrar um manequim;
não dispa um manequim
você pode encontrar
o meu amor.
ela há muito tempo
me esqueceu.
ela experimenta um novo
chapéu
e parece mais
coquete
do que nunca.
ela é uma
criança
e um manequim
e
é a morte.
não tenho como odiar
isso.
ela não faz
nada fora do
comum.
queria apenas que ela
fizesse.
você pode encontrar um manequim;
não dispa um manequim
você pode encontrar
o meu amor.
ela há muito tempo
me esqueceu.
ela experimenta um novo
chapéu
e parece mais
coquete
do que nunca.
ela é uma
criança
e um manequim
e
é a morte.
não tenho como odiar
isso.
ela não faz
nada fora do
comum.
queria apenas que ela
fizesse.
672
Charles Bukowski
Cinzas
peguei as cinzas dele, ela disse, e as lancei
ao mar e as espalhei e
elas nem sequer pareciam cinzas
e
o que dava peso à urna eram os
seixos verdes e azuis...
ele não lhe deixou nem um centavo de seus
milhões?
nada, ela disse.
mesmo depois de todos aqueles cafés da manhã
e almoços e jantares ao lado dele? depois
de ter escutado toda a merda que ele falava?
ele era um homem brilhante.
você sabe do que estou falando.
seja como for, eu fiquei com as cinzas. e você comeu
minhas irmãs.
nunca comi suas irmãs.
comeu sim.
comi uma delas.
qual?
a lésbica, respondi, ela me pagou o jantar e as bebidas,
não tive muita escolha.
estou indo, ela disse.
não se esqueça do frasco.
ela entrou para buscá-lo.
sobra tão pouco de você, ela disse, que quando você morre e eles te queimam precisam acrescentar uma porção de seixos verdes e azuis.
está bem, eu disse.
vejo você daqui a 6 meses! ela gritou e bateu a porta.
bem, pensei, creio que para me livrar dela terei que
comer a outra irmã. caminhei até o quarto e comecei a dar
uma olhada nos números de telefone. tudo o que eu
[lembrava
era que ela
vivia em San Mateo e tinha um ótimo
emprego.
ao mar e as espalhei e
elas nem sequer pareciam cinzas
e
o que dava peso à urna eram os
seixos verdes e azuis...
ele não lhe deixou nem um centavo de seus
milhões?
nada, ela disse.
mesmo depois de todos aqueles cafés da manhã
e almoços e jantares ao lado dele? depois
de ter escutado toda a merda que ele falava?
ele era um homem brilhante.
você sabe do que estou falando.
seja como for, eu fiquei com as cinzas. e você comeu
minhas irmãs.
nunca comi suas irmãs.
comeu sim.
comi uma delas.
qual?
a lésbica, respondi, ela me pagou o jantar e as bebidas,
não tive muita escolha.
estou indo, ela disse.
não se esqueça do frasco.
ela entrou para buscá-lo.
sobra tão pouco de você, ela disse, que quando você morre e eles te queimam precisam acrescentar uma porção de seixos verdes e azuis.
está bem, eu disse.
vejo você daqui a 6 meses! ela gritou e bateu a porta.
bem, pensei, creio que para me livrar dela terei que
comer a outra irmã. caminhei até o quarto e comecei a dar
uma olhada nos números de telefone. tudo o que eu
[lembrava
era que ela
vivia em San Mateo e tinha um ótimo
emprego.
1 153
Charles Bukowski
Foda
ela tirou o vestido
por sobre a cabeça
e eu vi a calcinha
um tanto enterrada em suas
carnes.
é simplesmente humano.
agora teremos que fazê-lo.
eu terei que fazê-lo
depois de todo esse logro.
é como uma festa –
dois idiotas
numa cilada.
debaixo dos lençóis
depois que apaguei
as luzes
suas calcinhas ainda estavam
ali. ela esperava um
número introdutório.
eu não podia culpá-la. mas sim
me perguntar por que ela estava ali
comigo? onde estão os outros
caras? como você pode se julgar
sortudo tendo alguém que
outros abandonaram?
não precisávamos fazer aquilo
embora tivéssemos que fazê-lo
era algo como
renovar o crédito
com o homem do imposto de
renda. tirei a calcinha.
decidi não usar
a língua. ainda assim
pensava no momento
em que tudo estivesse terminado.
dormiremos juntos
esta noite
tentando nos acomodar
entre os papéis de parede.
tento, falho,
reparo no cabelo em sua
cabeça
mais do que tudo reparo no cabelo
em sua
cabeça
e de relance em
suas narinas
de porquinho
tento
novamente.
por sobre a cabeça
e eu vi a calcinha
um tanto enterrada em suas
carnes.
é simplesmente humano.
agora teremos que fazê-lo.
eu terei que fazê-lo
depois de todo esse logro.
é como uma festa –
dois idiotas
numa cilada.
debaixo dos lençóis
depois que apaguei
as luzes
suas calcinhas ainda estavam
ali. ela esperava um
número introdutório.
eu não podia culpá-la. mas sim
me perguntar por que ela estava ali
comigo? onde estão os outros
caras? como você pode se julgar
sortudo tendo alguém que
outros abandonaram?
não precisávamos fazer aquilo
embora tivéssemos que fazê-lo
era algo como
renovar o crédito
com o homem do imposto de
renda. tirei a calcinha.
decidi não usar
a língua. ainda assim
pensava no momento
em que tudo estivesse terminado.
dormiremos juntos
esta noite
tentando nos acomodar
entre os papéis de parede.
tento, falho,
reparo no cabelo em sua
cabeça
mais do que tudo reparo no cabelo
em sua
cabeça
e de relance em
suas narinas
de porquinho
tento
novamente.
1 116
Charles Bukowski
Eu
mulheres não sabem como amar,
ela me disse.
você sabe como amar
mas mulheres só querem
parasitar.
sei disso porque sou
mulher.
hahaha, eu ri.
por isso não se preocupe por ter terminado
com Susan
porque ela apenas irá parasitar
outro homem.
falamos um pouco mais
então eu me despedi
desliguei o telefone
fui ao banheiro
e mandei uma boa merda de cerveja
basicamente pensando, bem,
continuo vivo
e tenho a capacidade de expelir
sobras do meu corpo.
e poemas.
e enquanto isso acontecer
serei capaz de lidar com
traição
solidão
unhas encravadas
gonorreia
e o boletim econômico do
caderno de finanças.
com isso
me levantei
me limpei
dei a descarga
e então pensei:
é verdade:
eu sei como
amar.
ergui minhas calças e caminhei
para a outra peça.
ela me disse.
você sabe como amar
mas mulheres só querem
parasitar.
sei disso porque sou
mulher.
hahaha, eu ri.
por isso não se preocupe por ter terminado
com Susan
porque ela apenas irá parasitar
outro homem.
falamos um pouco mais
então eu me despedi
desliguei o telefone
fui ao banheiro
e mandei uma boa merda de cerveja
basicamente pensando, bem,
continuo vivo
e tenho a capacidade de expelir
sobras do meu corpo.
e poemas.
e enquanto isso acontecer
serei capaz de lidar com
traição
solidão
unhas encravadas
gonorreia
e o boletim econômico do
caderno de finanças.
com isso
me levantei
me limpei
dei a descarga
e então pensei:
é verdade:
eu sei como
amar.
ergui minhas calças e caminhei
para a outra peça.
1 200
Marcus Vinicius Quiroga
O TABULEIRO DE XADREZ
A mesa posta só lembra a espera,
talvez a espera da morte, da peste,
ou jogo de xadrez com o propósito
de adiá-la, deixá-la à espera, só,
na ante-sala da vida, de ironia.
Em uma hora decerto serviriam
vinho sobre a toalha de xadrez,
para que a morte então perdesse a vez
no jogo e, sem olhar para o relógio,
esquecesse que a vida torna ao pó.
Com tudo em seu lugar, a mesa em ordem,
não há medo diante de tal morte.
Talvez seja afetuosa e aprecie
a boa prosa e cálices de vinho,
enquanto o tempo e o jogo passam lentos.
Na casa limpa, olham-se frente a frente
e brindam, mas no fundo esperam ainda
que a outra se embriague com o tinto.
Na toalha aparece estranha nódoa:
marca suja da vida, despropósito.
talvez a espera da morte, da peste,
ou jogo de xadrez com o propósito
de adiá-la, deixá-la à espera, só,
na ante-sala da vida, de ironia.
Em uma hora decerto serviriam
vinho sobre a toalha de xadrez,
para que a morte então perdesse a vez
no jogo e, sem olhar para o relógio,
esquecesse que a vida torna ao pó.
Com tudo em seu lugar, a mesa em ordem,
não há medo diante de tal morte.
Talvez seja afetuosa e aprecie
a boa prosa e cálices de vinho,
enquanto o tempo e o jogo passam lentos.
Na casa limpa, olham-se frente a frente
e brindam, mas no fundo esperam ainda
que a outra se embriague com o tinto.
Na toalha aparece estranha nódoa:
marca suja da vida, despropósito.
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