Poemas neste tema

Humor e Ironia

João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Muito Te Vejo, Lourenço, Queixar

- Muito te vejo, Lourenço, queixar
pola cevada e polo bever,
que to nom mando dar a teu prazer;
mais eu to quero fazer melhorar:
pois que t'agora citolar oí
e cantar, mando que to dem assi
bem como o tu sabes merecer.

- Joam Garcia, se vos en pesar
de que me queix[e] em vosso poder,
o melhor que podedes i fazer:
nom mi mandedes a cevada dar
mal, nen'o vinho, que mi nom dam i
tam bem com[o m']eu sempre mereci,
ca vos seria grave de fazer.

- Lourenço, a mim grave nom será
de te pagar tanto que mi quiser:
pois ante mi fezisti teu mester,
mui bem entendo e bem vejo já
como te pagu'; e logo o mandarei
pagar a [um] gram vilão que hei,
se um bom pao na mão tever.

- Joam Garcia, tal paga achará
em vós o jograr, quand'a vós veer,
mais outr'a quem [meu] mester fezer,
que m'en entenda, mui bem [mi] fará,
que panos ou algo merecerei;
e vossa paga ben'a leixarei
e pagad'[a] outro jograr qualquer.

- Pois, Lourenço, cala-t'e calar-m'-ei
e todavia tigo mi averrei,
e do meu filha quanto chi m'eu der.

- Joam Garcia, nom vos filharei
algo, e mui bem vos citolarei,
e conhosco mui bem [o] trobar.

- O chufar, Dom Lourenço, [o] chufar!
658
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Dom Foam Disse Que Partir Queria

Dom Foam disse que partir queria
quanto lhi derom e o que havia.
E dixi-lh'eu, que o bem conhocia:
       "Castanhas eixidas, e velhas per souto".

E disso-m'el, quando falava migo:
- Ajudar quero senhor e amigo.
E dixi-lh'eu: - Ess'é o verv'antigo:
       "Castanhas saídas, e velhas per souto".

E disso-m'el: - Estender quer'eu mão
e quer'andar já custos'e loução.
E dixi-lh'eu: - Esso, ai Dom Foão:
       "Castanhas saídas, e velhas per souto".
616
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Ora Quer Lourenço Guarir

Ora quer Lourenço guarir
pois que se quita de rascar;
e já guarria, a meu cuidar,
se ora houvesse que vestir
[.......................em]
e já nulh'home nom se tem
por devedor de o ferir.

E se se quisesse partir,
como se partiu do rascar,
d'um pouco que há de trobar,
poderia mui bem sair
de todo, por se quitar en,
e nõn'o ferriam por en
os que o nom querem oir.

E seria conhocedor
de seu trobar, por nom fazer
os outros errados seer;
e el guarria mui melhor
sem trobar e sem citolom,
pois perdeu a voz e o som,
por que o feriam peior.
504
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Dona Ouroana, Pois Já Besta Havedes

Dona Ouroana, pois já besta havedes,
outro conselh'ar havedes mester:
vós sodes mui fraquelinha molher
e já mais cavalgar nom podedes;
mais, cada que quiserdes cavalgar,
mandade sempr[e] a besta chegar
a um car[v]alho, de que cavalguedes.

E cada que vós andardes senlheira,
se vo'la besta mal enselada andar,
guardade-a de xi vos derramar,
ca, pela besta, sodes soldadeira,
e, par Deus, grave vos foi d'haver;
e punhade sempr'en'[a] guarecer,
ca em talho sodes de peideira.

E nom moredes muito [e]na rua,
este conselho filhade de mim,
ca perderedes log'i o rocim
e nom faredes i vossa prol nẽũa;
e mentr'houverdes a besta, de pram,
cada u fordes, todos vos farám
honra doutra puta fududancua.

E se ficardes em besta muar,
eu vos conselho sempr[e] a ficar
ant'em muacho novo ca em mua.
758
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Nunca [A]Tam Gram Torto Vi

Nunca [a]tam gram torto vi
com'eu prendo d'um infançom,
e quantos ena terra som,
todo'lo têm por assi:
o infançom, cada que quer,
vai-se deitar com sa molher
e nulha rem nom dá por mi.

E já me nunca temerá,
ca sempre me tev'em desdém,
des i ar quer sa molher bem
e já sempr'i filhos fará
- siquer três filhos que fiz i,
filha-os todos pera si:
o Demo lev'o que m'en dá!

Em tam gram coita viv'hoj'eu
que nom poderia maior:
vai-se deitar com mia senhor
e diz do leito que é seu
e deita-se a dormir em paz;
des i, se filh'ou filha faz,
nõn'o quer outorgar por meu!
549
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Lourenço, Pois Te Quitas de Rascar

Lourenço, pois te quitas de rascar
e desemparas o teu citolom,
rogo-te que nunca digas meu som
e jamais nunca mi farás pesar;
ca per trobar queres já guarecer;
e farás-m'ora desejos perder
do trobador que trobou do Juncal.

Ora cuid'eu [a] cobrar o dormir
que perdi: sempre, cada que te vi
rascar no cep'e tanger, nom dormi;
mais, poilo queres já de ti partir,
pois guarecer [buscas i] per trobar,
Lourenço, nunca irás a logar
u tu nom faças as gentes riir.

E vês, Lourenço, se Deus mi perdom,
pois que me tolhes do cepo pavor
e de cantar, farei-t'eu sempr'amor,
e tenho que farei mui gram razom;
e direi-ti qual amor t'eu farei:
jamais nunca teu cantar oírei
que en nom ria mui de coraçom;

Ca vês, Lourenço, muito mal prendi
de teu rascar, e do cep'e de ti;
mais, pois t'en quitas, tudo ti perdom.
712
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Vi Eu Estar Noutro Dia

Vi eu estar noutro dia
infanções com um ric'home
posfaçando de quem mal come;
e dix'eu, que os ouvia:
       "Cada casa, favas lavam!"

Posfaçavam d'um escasso,
[e] foi-os eu ascuitando;
eles forom posfaçando,
e dixi-m'eu, pass'em passo:
       "Cada casa, favas lavam!"

Posfaçavam d'encolheito
e de vil e d'espantoso
e em sa terra lixoso;
e dix'eu entom dereito:
       "Cada casa, favas lavam!"
408
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Childe Harold — Canto Quarto

I

Era sombrio arrogante belo e coxo
Perseguido
Pela insondável paixão do mais vedado
E amava unicamente o mais perdido

Mulheres de longos cabelos negros
Ou leves finas etéreas loiras musas
Pasmavam ensombradas
Ante a palidez lendária do seu rosto

Ele porém buscava os olhos da gazela
Ou Estrela d’Alva da manhã antiga
Ou o clarão feroz da face proibida
II

Tinha vindo para o Sul
Em perfumados jardins
Em negras luminosas noites
Perseguindo como um tigre a própria fome
Rondava o silêncio
Arrebatado convocava
O poema escrito para habitar a vida

Entre colunas lagos e suspiros
Erguia o jogo e o canto das palavras:
«Das filhas da beleza nem só uma
Trouxe magia assim
És quem desliza e canta à flor da água
Música e água é tua voz para mim

Em beleza te moves como a noite
Deste país — escura e cintilante
E em teus gestos e teus olhos se combinam
O que é mais sombrio e mais brilhante»*
III

À beira da laguna onde se espelham
Narcísicos palácios cor-de-rosa
Alta noite a si próprio se inventava

D. Juan foi em Veneza sua máscara

— Escutando o dedilhar da laguna nos degraus
De pedra
Tecia intrincadas e teatrais
Conquistas
Que as cartas contavam aos amigos longínquos
Em calculada e ingénua exibição:
Vivia até ao ponto extremo
Seu modo particular d’ironia e paixão

Queria ser quem era
Gravar para sempre
A sua imagem em todos os espelhos
IV

Sonhava-se quem era:
— Lord que foi d’Escócias de outras eras
Werther fatal e não
O sensato pai de Werther
Príncipe da Aquitânia da abolida torre
Ou pirata sem pátria e sem regresso
* As estrofes entre aspas são glosas do poema de Byron «There be none of Beauty’s daughters».
1 231
João Lobeira

João Lobeira

Um Cavaleiro Há 'Qui Tal Entendença

Um cavaleiro há 'qui tal entendença
qual vos eu agora quero contar:
faz, u dev'a fazer prazer, pesar,
e sa mesura toda é entença;
e o que lhi preguntam, respond'al;
e o seu bem fazer é fazer mal,
e todo seu saber é sem sabença.

E nom depart'em rem, de que se vença,
pero lh'outro [a]guisado falar;
e verveja, u se dev'a calar,
e nunca diz verdad', u mais nom mença;
e, u lhi pedem cousimento, fal;
pero é mans', u dev'a fazer al
e, u deve sofrer, é sem sofrença.

Des i er fala sempr'em conhocença
que sabe bem sem-conhocer mostrar;
e dorme, quando se dev'espertar,
e meos sab', u mete mais femença;
e, se com guisa diz, logo s'en sal;
e, u lh'avém algũa cousa tal
que lh'é mester cienç', é sem ciença.

E nom lhi fazem mal, de que se sença,
ante leix'assi o preito passar,
e os que lhi deviam a peitar,
peita-lhis el, por fazer aveença,
e diz que nẽum prez nada nom val;
mais Deus, que o fez tam descomunal,
lhi queira dar, por saúde, doença.
594
José Saramago

José Saramago

D. Quixote

Não vejo Dulcineias, D. Quixote,
Nem gigantes, nem ilhas, nada existe
Do teu sonho de louco.
Só moinhos, mulheres e Baratárias,
Coisas reais que Sancho bem conhece
E para ti são pouco.
1 121
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Casamento do Céu E do Inferno

No azul do céu de metileno
a lua irônica
diurética
é uma gravura de sala de jantar.

Anjos da guarda em expedição noturna
velam sonos púberes
espantando mosquitos
de cortinados e grinaldas.

Pela escada em espiral
diz-que tem virgens tresmalhadas,
incorporadas à via-láctea,
vaga-lumeando. . .

Por uma frincha
o diabo espreita com o olho torto.

Diabo tem uma luneta
que varre léguas de sete léguas
e tem o ouvido fino
que nem violino.

São Pedro dorme
e o relógio do céu ronca mecânico.

Diabo espreita por uma frincha.
Lá em baixo
suspiram bocas machucadas.
Suspiram rezas? Suspiram manso,
de amor.

E os corpos enrolados
ficam mais enrolados ainda
e a carne penetra na carne.


Que a vontade de Deus se cumpra!
Tirante Laura e talvez Beatriz,
o resto vai para o inferno.
1 831 1
Valter Hugo Mãe

Valter Hugo Mãe

a capitalização do amor

não escondemos que aprendemos a
capitalizar o amor, entregando
amplamente os nossos melhores
momentos às raparigas mais carentes.
o amor, sabemos bem, é o caminho directo
para a inutilidade, e nós procuramos as
raparigas que mais rapidamente se
inutilizem perante as coisas clássicas
da vida. não nos queremos atarefar com
a vulgaridade, e gostaríamos até de
impregnar cada gesto com características
alienígenas, mas o tempo escapa-se e o
dinheiro também e, se só pensamos no amor,
não temos como fazer de outro modo
senão vendê-lo entusiasticamente, como
fontes de trovões bonitos jorrando nas
praças mais movimentadas das cidades. e
as raparigas correm para nós urgentes
e cheias de vida, férteis de tudo quanto o
amor se abate sobre elas, uma alegria rica
de se ver, e nós a balançar os braços para
chamar a atenção de mais e mais e
já nem sabemos como parar, como forças
incontroladas, à semelhança de mecanismos
ferozes da natureza, e só sairemos daqui
quando desfalecermos de amor até
pelas raparigas mais feias
662
Salomé Queiroga

Salomé Queiroga

Piparotes na estátua eqüestre de Pedro I

Pobre país, não tens fé,
Não te causa o crime abalo!
Deixas a virtude a pé,
E pões o vício a cavalo.

Ei-lo! a nova geração
Tem-no aqui bem verdadeiro:
Sem possuir coração
E de bronze todo inteiro.

Esse, que vês esculpido
No bronze monumental,
Foi cá no Brasil Cupido,
Marte foi em Portugal.

Como um primor se apregoa
A estátua de Luís Rochet,
Não pode ser coisa boa:
— "Rien n’est beau que le vrai."

859
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

À La Manière De

No mundo da arte há muitos saltimbancos
Que voam sem rede e jogam
A virar o mundo de pernas para o ar
Também caminham
Pé ante pé no arame
Equilibrados no fio fino e leve da vara

Eles próprios são leves e finos e recaem
Aéreos sobre a terra e conhecem
As leis abstractas do equilíbrio

O jogo do que é os absorve
Porque o inventam
1 112
Junqueira Freire

Junqueira Freire

Vai

Vai, maldita, vai, víbora sangrenta,
Mulher impura, e ávida de infâmias!
O mundo é amplo: arroja-te em seu gúrgite.
Mereces bem seu lodo.

(...)

Vai, desgraçada, vai. Farta-te em crimes,
Sacia as garras, cobre-te de sangue
É esse o gênio teu. Corre, — que eu vejo
Teu exemplar castigo.

Vai, desgraçada, vai. Riso da plebe,
Indigna até de maldições severas,
Hei de ver-te amanhã pedindo um óbolo,
Errando pelas praças.

E adornada de fétidos andrajos,
A mão leprosa estenderás, ao ver-me,
E a boca túmida abrirás mendiga,
Pedindo-me uma esmola.

E eu com o nobre olhar que já receias,
Hei de talvez passar sereno e alegre,
Ou, tremendo tocar-te as mãos imundas,
Jogar-te algum dinheiro.

Tal é minha vingança. A ouvir-me agora,
Um riso, um riso estólido desprendes.
Ah! tu não crês ainda na justiça
Do Deus que nos escuta!

Ri-te outra vez de minhas frases duras!
Sim: tens razão, incrédula. — Mas corre,
Corre depressa, — que amanhã teu riso
Já não será tão grande.

Vai, maldita, vai, víbora sangrenta,
Mulher impura, e ávida de infâmias!
O mundo é amplo, arroja-te em seu gúrgite,
Mereces bem seu lodo.


Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
5 384
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Joam Soares, Comecei

- Joam Soares, comecei
de fazer ora um cantar,
vedes por quê: porque achei
boa razom pera trobar -
ca vej'aqui um jograrom
que nunca pode dizer som
nen'o ar pode citolar.

- Joam Peres, eu vos direi
por que o faz, a meu cuidar:
porque beve muit', [est'] eu sei;
e come fode, pois falar
nom pode; por esta razom
canta el mal; mais atal dom
bem dev'el de vós a levar.

- Joam Soares, responder
nom mi sabedes desto bem:
nom canta el mal por bever,
sabede, mais por ũa rem:
porque, des quando começou
a cantar, sempre mal cantou
e cantará, mentre viver.

- Joam Peres, por maldizer
vos foi esso dizer alguém,
ca, pelo vinh'e per foder,
perd'el o cantar e o sem;
mais bem sei eu que o miscrou
alguém convosc'e lhi buscou
mal, pois vos esso fez creer.

- Joam Coelho, el vos peitou
noutro dia, quando chegou,
pois ides del tal bem dizer.

- Joam Peres, já [eu] vos dou
quanto mi deu e mi mandou
e quanto mi há de remeter.
632
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Joam Soárez, de Pram As Melhores

- Joam Soárez, de pram as melhores
terras andastes, que eu nunca vi:
d'haverdes donas por entendedores
mui fremosas, quaes sei que há i,
fora razom; mais u fostes achar
d'irdes por entendedores filhar
sempre quand'amas, quando tecedores?

- Juião, outros mais sabedores
quiserom já esto saber de mim,
e em todo trobar mai[s] trobadores
que tu nom és; mais direi-t'o que vi:
vi boas donas tecer e lavrar
cordas e cintas, e vi-lhes criar,
per bõa fé, mui fremosas pastores.

- Joam Soárez, nunca vi chamada
molher ama, nas terras u andei,
se por emparament'ou por soldada
nom criou mês, e mais vos en direi:
enas terras u eu soía viver,
nunca mui bõa dona vi tecer,
mais vi tecer algũa lazerada.

- Juião, por est', outra vegada,
com outro tal trobador entencei;
fiz-lhe dizer que nom dezia nada,
com'or'a ti desta tençom farei;
vi boas donas lavrar e tecer
cordas e cintas, e vi-lhes teer
mui fremosas pastores na pousada.

- Joam Soárez, u soía viver,
nom tecem donas, nem ar vi teer
berç'ant'o fog'a dona muit'honrada.

- Juião, tu deves entender
que o mal vilam nom pode saber
de fazenda de bõa dona nada.
661
Martha Medeiros

Martha Medeiros

era uma vez um gato chinês

era uma vez um gato chinês
que me chamou para comer um frango
xadrez
no boteco onde ele era freguês


e eu, como gata vadia
topei porque sempre podia
e fiz dele meu prato do dia
1 210
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Balada do Morto Vivo

Tatiana, hoje vou contar
O caso do Inglês espírito
Ou melhor: do morto vivo.

Diz que mesmo sucedeu
E a dona protagonista
Se quiser pode ser vista
No hospício mais relativo
Ao sítio onde isso se deu.

Diz também que é muito raro
Que por mais cético o ouvinte
Não passe uma noite em claro:
Sendo assim, por conseguinte
Se quiser diga que eu paro.

Se achar que é mentira minha
Olhe só para essa pele
Feito pele de galinha...

Dou início: foi nos faustos
Da borracha do Amazonas.
Às margens do Rio Negro
Sobre uma balsa habitável
Um dia um casal surgiu
Ela chamada Lunalva
Formosa mulher de cor
Ele por alcunha Bill
Um Inglês comercial
Agente da “Rubber Co.”

Mas o fato é que talvez
Por ter nascido na Escócia
E ser portanto escocês
Ninguém de Bill o chamava
Com exceção de Lunalva
Mas simplesmente de Inglês.

Toda manhã que Deus dava
Lunalva com muito amor
Fazia um café bem quente
Depois o Inglês acordava
E o homem saía contente
Fumegando o seu cachimbo
Na sua lancha a vapor.

Toda a manhã que Deus dava.

Somente com o sol-das-almas
O Inglês à casa voltava.

Que coisa engraçada: espia
Como só de pensar nisso
Meu cabelo se arrepia...

Um dia o Inglês não voltou.

A janta posta, Lunalva
Até o cerne da noite
Em pé na porta esperou.

Uma eu lhe digo, Tatiana:
A lua tinha enloucado
Nesse dia da semana...
Era uma lua tão alva
Era uma lua tão fria
Que até mais frio fazia
No coração de Lunalva.
No rio negroluzente
As árvores balouçantes
Pareciam que falavam
Com seus ramos tateantes
Tatiana, do incidente.

Um constante balbucio
Como o de alguém muito em mágoa
Parecia vir do rio.

Lunalva, num desvario
Não tirava os olhos da água.

Às vezes, dos igapós
Subia o berro animal
De algum jacaré feroz
Praticando o amor carnal
Depois caía o silêncio...

E então voltava o cochicho
Da floresta, entrecortado
Pelo rir mal-assombrado
De algum mocho excomungado
Ou pelo uivo de algum bicho.
Na porta em luzcancarada
Só Lunalva lunalvada.

Súbito, ó Deus justiceiro!
Que é esse estranho ruído?
Que é esse escuro rumor?
Será um sapo-ferreiro
Ou é o moço meu marido
Na sua lancha a vapor?

Na treva sonda Lunalva...
Graças, meu Pai! Graças mil!
Aquele vulto... era o Bill
A lancha... era a Arimedalva!

“Ah, meu senhor, que desejo
De rever-te em casa em paz...
Que frio que está teu beijo!
Que pálido, amor, que estás!”

Efetivamente o Bill
Talvez devido à friagem
Que crepitava do rio
V oltara dessa viagem
Muito branco e muito frio.

“Tenho nada, minha nega
Senão fome e amor ardente
Dá-me um trago de aguardente
Traz o pão, passa manteiga!
E aproveitando do ensejo
Me apaga esse lampião
Estou morrendo de desejo
Amemos na escuridão!”

Embora estranhando um pouco
A atitude do marido
Lunalva tira o vestido
Semilouca de paixão.

Tatiana, naquele instante
Deitada naquela cama
Lunalva se surpreendeu

Não foi mulher, foi amante
Agiu que nem mulher-dama
Tudo o que tinha lhe deu.

No outro dia, manhãzinha
Acordando estremunhada
Lunalva soltou risada
Ao ver que não estava o Bill.

Muito Lunalva se riu
Vendo a mesa por tirar.

Indo se mirar ao espelho
Lunalva mal pôde andar
De fraqueza no joelho.

E que olhos pisados tinha!

Não rias, pobre Lunalva
Não rias, morena flor
Que a tua agora alegria
Traz a semente do horror!

Eis senão quando, no rio
Um barulho de motor.

À porta Lunalva voa
A tempo de ver chegando
Um bando de montarias
E uns cabras dentro remando
Tudo isso acompanhando
A lancha a vapor do Bill
Com um corpo estirado à proa.

Tatiana, põe só a mão:
Escuta como dispara
De medo o meu coração.

E frente da balsa para
A lancha com o corpo em cima
Os caboclos se descobrem
Lunalva que se aproxima
Levanta o pano, olha a cara
E dá um medonho grito.

“Meu Deus, o meu Bill morreu!
Por favor me diga, mestre
O que foi que aconteceu?”

E o mestre contou contado:
O Inglês caíra no rio
Tinha morrido afogado.

Quando foi?... ontem de tarde.

Diz — que ninguém esqueceu
A gargalhada de louca
Que a pobre Lunalva deu.

Isso não é nada, Tatiana:
Ao cabo de nove luas
Um filho varão nasceu.

O filho que ela pariu
Diz-que, Tatiana, diz-que era
A cara escrita do Bill:

A cara escrita e escarrada...

Diz-que até hoje se escuta
O riso da louca insana
No hospício, de madrugada.

É o que lhe digo, Tatiana...
1 031
Martha Medeiros

Martha Medeiros

aquele monstro que você pensou que era

aquele monstro que você pensou que era
é um bobo covarde que só fala besteiras
vive dizendo que mata, estrangula, devora
mas quando muito enforca umas
segundas-feiras
579
Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

Cubismo

Um Arlequim feito de cubos
equilibrados:
trinta losangos arranjados
sobre dois tubos.
— Ele talvez
jogue xadrez...

No halo, que a lâmpada tranquila
rasga, de cima,
esse Arlequim de pantomima
oscila, oscila,
e vem... e vai...
e quase cai...

Mas entra alguém: é uma silhueta
que espia e passa.
Seu riso é um fruto sob a graça
da mosca preta
— É uma mulher
como qualquer...

Um gesto só lânguido e doce:
e, num instante,
Dom Arlequim, o petulante,
esfarelou-se...
— Todo Arlequim
é mesmo assim...


Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série I - O Reino Encantado: Sugerir.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
10 316
Cacaso

Cacaso

O Que É o Que É

Descoberto pelo português
emancipado pelo inglês
educado pelo francês
sócio menor do americano
mas o modelo é japonês...


In: CACASO. Grupo Escolar. Fotos de Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro. Rio de Janeiro: Mapa Filmes, 1974. (Frenesi). Poema integrante da série 3a. Lição: Dever de Caça
4 643
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Vedes, Picandom, Som Maravilhado

- Vedes, Picandom, som maravilhado
eu d'En Sordel, que ouço em tenções
muitas e boas [e] em mui bõos sões,
como fui em teu preito tam errado:
pois nom sabes jograria fazer,
por que vos fez per corte guarecer?
Ou vós ou el dad'ende bom recado.

- Joam Soares, logo vos é dado
e mostrar-vo-l'-ei em poucas razões:
gram dereit'hei de gaar [muitos] dões
e de seer em corte tam preçado
como segrel que diga mui bem ves,
em canções e cobras, e serventés,
e que seja de falimen guardado.

- Picandom, por vós vos muito loardes,
nom vo-lo catarám por cortesia,
nem por entrardes na tafularia,
nem por beverdes, nem por pelejardes:
e se vos esto contarem por prez,
nunca Nostro Senhor tam cortês fez
como vós sodes, se o bem catardes.

- Joam Soares, por me deostardes,
nom perç'eu por esso mia jograria;
e a vós, senhor, melhor estaria
d'a tod'home de segre bem buscardes;
ca sei canções muitas e canto bem
e guardo-me de todo falimen
e cantarei, cada que me mandardes.

- Sinher, conhosco-mi-vos, Picandom,
e do que dixi peço-vos perdom
e gracir-vo-l'-ei se mi perdoardes.

- Joam Soares, mui de coraçom
vos perdoarei, que mi dedes dom
e mi busquedes prol per u andardes.
652
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Martim Alvelo

Martim Alvelo,
desse teu cabelo
te falarei já:
cata capelo
que ponhas sobr'elo,
ca mui mester ch'há;
ca o topete
pois mete
cãos mais de sete,
e mais, u mais há,
muitos che vejo
sobejo:
e que grand'entejo
tod'a molher há!

E das trincheiras
e das trasmoleiras
ti quero dizer:
vejo-chas veiras
e von'as carreiras,
polas defender;
ca a velhece,
pois crece,
sol nom quer sandece,
al é de fazer:
ca essa tinta
mal pinta;
e que val a enfinta
u nom há foder?

Messa os cãos
e filh'os soumãos,
e nom ch'há mester
panos louçãos;
abr'i deles mãos,
ca tod'a molher
a tempo cata
quem s'ata
a esta barata
que t'ora disser:
d'encobrir anos
com panos;
aquestes enganos
per rem nõn'os quer.
609