Poemas neste tema
Humor e Ironia
D. Dinis
U Noutro Dia Dom Foam
U noutro dia Dom Foam
disse ũa cousa que eu sei,
andand'aqui em cas d'el-rei,
bõa razom mi deu de pram
per que lhi trobass'; e nom quis,
e fiz mal porque o nom fiz.
Falou migo o que quis falar
e com outros mui sem razom;
e do que nos i diss'entom
bõa razom mi per foi dar
per que lhi trobass'; e nom quis
e fiz mal porque o nom fiz.
Ali u comigo falou
do casamento seu e d'al,
em que mi falou muit'e mal,
que de razões i monstrou
per que lhi trobass'; e nom quis
e fiz mal porque o nom fiz.
E sempre m'eu mal acharei
porque lh'eu entom nom trobei;
ca se lh'entom trobara ali,
vingara-me do que lh'oí.
disse ũa cousa que eu sei,
andand'aqui em cas d'el-rei,
bõa razom mi deu de pram
per que lhi trobass'; e nom quis,
e fiz mal porque o nom fiz.
Falou migo o que quis falar
e com outros mui sem razom;
e do que nos i diss'entom
bõa razom mi per foi dar
per que lhi trobass'; e nom quis
e fiz mal porque o nom fiz.
Ali u comigo falou
do casamento seu e d'al,
em que mi falou muit'e mal,
que de razões i monstrou
per que lhi trobass'; e nom quis
e fiz mal porque o nom fiz.
E sempre m'eu mal acharei
porque lh'eu entom nom trobei;
ca se lh'entom trobara ali,
vingara-me do que lh'oí.
658
D. Dinis
Deus! Com'ora Perdeu Joam Simiom
Deus! Com'ora perdeu Joam Simiom
três bestas - nom vi de maior cajom,
nem perdudas nunca tam sem razom:
ca, teendo-as sãas e vivas
e bem sangradas com [boa] sazom,
morrerom-lhi toda[s] com olivas.
Des aquel[e] dia em que naci
nunca bestas assi perdudas vi,
ca as fez ant'el sangrar ante si;
e ante que saíssem daquel mês,
per com'eu a Joam Simiom oí,
com olivas morrerom todas três.
Ben'as cuidara de morte guardar
todas três, quando as fez[o] sangrar;
mais havia-lhas o Dem'a levar,
pois se par [a]tal cajom perderom;
e Joam Simiom quer-s'ora matar
porque lhi com olivas morrerom.
três bestas - nom vi de maior cajom,
nem perdudas nunca tam sem razom:
ca, teendo-as sãas e vivas
e bem sangradas com [boa] sazom,
morrerom-lhi toda[s] com olivas.
Des aquel[e] dia em que naci
nunca bestas assi perdudas vi,
ca as fez ant'el sangrar ante si;
e ante que saíssem daquel mês,
per com'eu a Joam Simiom oí,
com olivas morrerom todas três.
Ben'as cuidara de morte guardar
todas três, quando as fez[o] sangrar;
mais havia-lhas o Dem'a levar,
pois se par [a]tal cajom perderom;
e Joam Simiom quer-s'ora matar
porque lhi com olivas morrerom.
657
D. Dinis
U Noutro Dia Seve Dom Foam
U noutro dia seve Dom Foam
a mi começou gram noj'a crecer
de muitas cousas que lh'oí dizer.
Diss'el: "- Ir-m'-ei ca já se deitar ham".
E dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
E muit'enfadado de seu parlar
sevi gram peça, se mi valha Deus,
e tosquiavam estes olhos meus.
E quand'el disse "Ir-me quer'eu deitar",
[lh]e dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
El seve muit'e diss'e parfiou
e a mim creceu gram nojo por en
e nom soub'el se x'era mal se bem.
E quand'el disse "Já m'eu deitar vou",
dixi-lh'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
a mi começou gram noj'a crecer
de muitas cousas que lh'oí dizer.
Diss'el: "- Ir-m'-ei ca já se deitar ham".
E dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
E muit'enfadado de seu parlar
sevi gram peça, se mi valha Deus,
e tosquiavam estes olhos meus.
E quand'el disse "Ir-me quer'eu deitar",
[lh]e dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
El seve muit'e diss'e parfiou
e a mim creceu gram nojo por en
e nom soub'el se x'era mal se bem.
E quand'el disse "Já m'eu deitar vou",
dixi-lh'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
803
D. Dinis
Disse-M'hoj'um Cavaleiro
Disse-m'hoj'um cavaleiro
que jazia feramente
um seu amigo doente
e buscava-lhi lorbaga;
dixi-lh'eu: - Seguramente
come-o praga por praga
que el muitas vezes disse,
per essa per que o come,
quantas en nunca diss'homem;
e o que disse ben'o paga,
ca, come cam que há fome,
comeo praga por praga
que el muitas vezes disse;
e jaz ora o astroso
mui doent'e mui nojoso
e com medo per si caga,
ca, come lobo ravioso,
come-o praga por praga.
que jazia feramente
um seu amigo doente
e buscava-lhi lorbaga;
dixi-lh'eu: - Seguramente
come-o praga por praga
que el muitas vezes disse,
per essa per que o come,
quantas en nunca diss'homem;
e o que disse ben'o paga,
ca, come cam que há fome,
comeo praga por praga
que el muitas vezes disse;
e jaz ora o astroso
mui doent'e mui nojoso
e com medo per si caga,
ca, come lobo ravioso,
come-o praga por praga.
690
Estêvão da Guarda
A Um Corretor Que Vi
A um corretor que vi
vender panos, que conhoci,
com penas veiras, diss'assi:
- Da molher som de Dom Foam.
E disse-m'el: - Vendem quant'ham,
el e aquesta sa molher:
ham-no mester, ham-no mester!
E diss'eu: - Ficará em cós
sem estes panos do ver grós;
mais pois que os tragedes vós
a vender e par seu talam?
E disse-m'el: - Sei eu, de pram,
per ela, quanto vos disser:
ham-no mester, ham-no mester!
E diss'eu: - Grav'é de creer
que eles, com mêngua d'haver,
mandem taes panos vender,
por quam pouco por eles dam.
E disse-m'el: - Per com'estam,
el e aquesta sa molher,
ham-no mester, ham-no mester!
vender panos, que conhoci,
com penas veiras, diss'assi:
- Da molher som de Dom Foam.
E disse-m'el: - Vendem quant'ham,
el e aquesta sa molher:
ham-no mester, ham-no mester!
E diss'eu: - Ficará em cós
sem estes panos do ver grós;
mais pois que os tragedes vós
a vender e par seu talam?
E disse-m'el: - Sei eu, de pram,
per ela, quanto vos disser:
ham-no mester, ham-no mester!
E diss'eu: - Grav'é de creer
que eles, com mêngua d'haver,
mandem taes panos vender,
por quam pouco por eles dam.
E disse-m'el: - Per com'estam,
el e aquesta sa molher,
ham-no mester, ham-no mester!
703
Herberto Helder
17
como de facto dia a dia sinto que morro muito,
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
568
Estêvão da Guarda
Um Cavaleiro Me Diss'em Baldom
Um cavaleiro me diss'em baldom
que me queria põer eiceiçom
mui agravada, come home cru.
E dixi-lh'entom como vos direi:
- Si mi a poserdes, tal vo-la porrei,
que a sençades bem atá o cu.
E disse-m'el: - Eiceiçom tenh'eu já
tal que vos ponha, que vos custará
mais que quanto val aqueste meu mu.
E dixi-lh'eu: - Poilo nom tenh'em al:
se mi a poserdes, porrei-vo-la tal,
que a sençades bem atá o cu.
- Tal eiceiçom vos tenh'eu de põer -
diss'el a mim - per que do voss'haver
vos custe tanto que fiquedes nu.
E dixi-lh'eu: - Coraçom de judeu,
se mi a poserdes, tal vos porrei eu,
que a sençades bem atá o cu.
que me queria põer eiceiçom
mui agravada, come home cru.
E dixi-lh'entom como vos direi:
- Si mi a poserdes, tal vo-la porrei,
que a sençades bem atá o cu.
E disse-m'el: - Eiceiçom tenh'eu já
tal que vos ponha, que vos custará
mais que quanto val aqueste meu mu.
E dixi-lh'eu: - Poilo nom tenh'em al:
se mi a poserdes, porrei-vo-la tal,
que a sençades bem atá o cu.
- Tal eiceiçom vos tenh'eu de põer -
diss'el a mim - per que do voss'haver
vos custe tanto que fiquedes nu.
E dixi-lh'eu: - Coraçom de judeu,
se mi a poserdes, tal vos porrei eu,
que a sençades bem atá o cu.
351
Charles Bukowski
A Captura
que nojo, ele disse,
puxando o negócio da água,
o que é isso?
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse um cara junto a nós no píer,
é um Papa-Terra Voador.
um cara que passava disse,
é um da Esquadrilha Fandango sem as tiras.
apanhamos o gancho e erguemos a coisa que se
peidou toda. era cinzenta e coberta de pelos
e gorda e fedia a meia velha.
ela começou a andar pelo píer e nós a seguimos.
comeu um cachorro-quente e um bolo tomados das mãos de
uma garotinha. então ela saltou de súbito num carrossel
e montou um cavalo malhado. ela desabou perto do fim e
rolou sobre a serragem.
nós a apanhamos.
glub, ela disse, glub.
então ela voltou a cruzar o píer.
uma enorme multidão nos seguia enquanto caminhávamos.
deve ser uma jogada publicitária, disse alguém,
é um homem numa roupa de borracha.
então enquanto caminhava por ali a coisa começou a respirar
com dificuldade. caiu sobre as
próprias costas e começou a se debater.
alguém derramou um copo de cerveja sobre sua cabeça.
glub, ela fazia, glub.
depois disso morreu.
rolamos a coisa até a beirada do píer e a empurramos
de volta para as águas. ficamos vendo-a afundar e sumir.
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse o outro cara, é um Papa-Terra Voador.
não, disse o outro entendido, é um da Esquadrilha Fandango
sem as tiras.
então cada um de nós tomou seu rumo em meio à tarde de agosto.
puxando o negócio da água,
o que é isso?
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse um cara junto a nós no píer,
é um Papa-Terra Voador.
um cara que passava disse,
é um da Esquadrilha Fandango sem as tiras.
apanhamos o gancho e erguemos a coisa que se
peidou toda. era cinzenta e coberta de pelos
e gorda e fedia a meia velha.
ela começou a andar pelo píer e nós a seguimos.
comeu um cachorro-quente e um bolo tomados das mãos de
uma garotinha. então ela saltou de súbito num carrossel
e montou um cavalo malhado. ela desabou perto do fim e
rolou sobre a serragem.
nós a apanhamos.
glub, ela disse, glub.
então ela voltou a cruzar o píer.
uma enorme multidão nos seguia enquanto caminhávamos.
deve ser uma jogada publicitária, disse alguém,
é um homem numa roupa de borracha.
então enquanto caminhava por ali a coisa começou a respirar
com dificuldade. caiu sobre as
próprias costas e começou a se debater.
alguém derramou um copo de cerveja sobre sua cabeça.
glub, ela fazia, glub.
depois disso morreu.
rolamos a coisa até a beirada do píer e a empurramos
de volta para as águas. ficamos vendo-a afundar e sumir.
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse o outro cara, é um Papa-Terra Voador.
não, disse o outro entendido, é um da Esquadrilha Fandango
sem as tiras.
então cada um de nós tomou seu rumo em meio à tarde de agosto.
639
Herberto Helder
Teoria Sentada - Iii
A minha idade é assim —verde, sentada.
Tocando para baixo as raízes da eternidade.
Um grande número de meses sem muitas saídas,
soando
estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.
A minha idade espera, enquanto abre
os seus candeeiros. Idade
de uma voracidade masculina.
Cega.
Parada.
Algumas mãos fixam-se à sua volta.
Idade que ainda canta com a boca
dobrada. As semanas caminham para diante
comum espírito dentro.
Mergulham na sua solidão, e aparecem
batendo contra a luz.
E uma idade com sangue prendendo
as folhas. Terrível. Mexendo
no lugar do silêncio.
Idade sem amor bloqueada pelo êxtase
do tempo. Fria.
Com a cor imensa de um símbolo.
Eu trabalho nas luzes antigas, em frente
das ondas da noite. Bato a pedra
dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.
E uma raiz séca, canta-se
no calor. É uma idade cor da salsa.
Amarga. Imagino
dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.
Procuro uma imagem dura.
Estou sentado, e falo da ironia de onde
uma rosa se levanta pelo ar.
A idade é uma vileza espalhada
no léxico. Em sua densidade quebram-se
os dedos. Está sentada.
Os poentes ciclistas passam sem barulho.
Passam animais de púrpura.
Passam pedregulhos de treva.
É para a frente que as águas escorregam.
Idade que a candura da vida sufoca,
idade agachada, atenta
à sua ciência. Que imita por um lado
as nações celestes. Que imita
por um lado a terra
quente.
Trabalhando, nua, diante da noite.
Tocando para baixo as raízes da eternidade.
Um grande número de meses sem muitas saídas,
soando
estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.
A minha idade espera, enquanto abre
os seus candeeiros. Idade
de uma voracidade masculina.
Cega.
Parada.
Algumas mãos fixam-se à sua volta.
Idade que ainda canta com a boca
dobrada. As semanas caminham para diante
comum espírito dentro.
Mergulham na sua solidão, e aparecem
batendo contra a luz.
E uma idade com sangue prendendo
as folhas. Terrível. Mexendo
no lugar do silêncio.
Idade sem amor bloqueada pelo êxtase
do tempo. Fria.
Com a cor imensa de um símbolo.
Eu trabalho nas luzes antigas, em frente
das ondas da noite. Bato a pedra
dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.
E uma raiz séca, canta-se
no calor. É uma idade cor da salsa.
Amarga. Imagino
dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.
Procuro uma imagem dura.
Estou sentado, e falo da ironia de onde
uma rosa se levanta pelo ar.
A idade é uma vileza espalhada
no léxico. Em sua densidade quebram-se
os dedos. Está sentada.
Os poentes ciclistas passam sem barulho.
Passam animais de púrpura.
Passam pedregulhos de treva.
É para a frente que as águas escorregam.
Idade que a candura da vida sufoca,
idade agachada, atenta
à sua ciência. Que imita por um lado
as nações celestes. Que imita
por um lado a terra
quente.
Trabalhando, nua, diante da noite.
622
Estêvão da Guarda
Pois Cata Per U M'espeite
Pois cata per u m'espeite
com sas razões d'engano
e me quer meter a dano,
por end', antes que mo deite,
deitar quer'eu todavia
o ma[s]tique a Dom Macia.
Pois me tenta de tal provo,
per que m'há já esperado,
eu, com'home de recado,
em véspera d'Ano Novo,
deitar quer'eu todavia
o ma[s]tique a Dom Macia.
E pois ele, às primeiras,
quer de mim levar o meu,
come engador judeu,
em vésperas de Janeiras,
deitar quer'eu todavia
o ma[s]tique a Dom Macia.
com sas razões d'engano
e me quer meter a dano,
por end', antes que mo deite,
deitar quer'eu todavia
o ma[s]tique a Dom Macia.
Pois me tenta de tal provo,
per que m'há já esperado,
eu, com'home de recado,
em véspera d'Ano Novo,
deitar quer'eu todavia
o ma[s]tique a Dom Macia.
E pois ele, às primeiras,
quer de mim levar o meu,
come engador judeu,
em vésperas de Janeiras,
deitar quer'eu todavia
o ma[s]tique a Dom Macia.
542
Charles Bukowski
Blues do Leito de Morte
se você não consegue suportar o calor, ele diz, saia da
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
1 128
Charles Bukowski
Risada Literária
escute, cara, não fale sobre os poemas que você
mandou, a gente não recebeu nada,
somos muito cuidadosos com manuscritos
nós os assamos
queimamos
rimos deles
vomitamos neles
derrubamos cerveja sobre eles
mas geralmente os
devolvemos
eles são
tão
inanes.
ah, nós acreditamos na Arte,
precisamos dela
com certeza,
mas, você sabe, há muita gente
(a maioria das pessoas)
brincando e fornicando com as
Artes
que apenas superlotam o palco
com sua generosa e implacável
e vigorosa
mediocridade.
nossa assinatura é de $4 ao ano.
por favor, leia nossa revista antes de enviar qualquer
material.
mandou, a gente não recebeu nada,
somos muito cuidadosos com manuscritos
nós os assamos
queimamos
rimos deles
vomitamos neles
derrubamos cerveja sobre eles
mas geralmente os
devolvemos
eles são
tão
inanes.
ah, nós acreditamos na Arte,
precisamos dela
com certeza,
mas, você sabe, há muita gente
(a maioria das pessoas)
brincando e fornicando com as
Artes
que apenas superlotam o palco
com sua generosa e implacável
e vigorosa
mediocridade.
nossa assinatura é de $4 ao ano.
por favor, leia nossa revista antes de enviar qualquer
material.
1 047
António Ramos Rosa
Um Riso Canta No Fogo
Um riso canta no fogo
na cumplicidade das mãos
a grande paz dum segredo
Os olhos vêem a neve
Sobre o silêncio do fogo
a palma doce da mão
E contra a noite que avança
todo o fogo do segredo
na cumplicidade das mãos
a grande paz dum segredo
Os olhos vêem a neve
Sobre o silêncio do fogo
a palma doce da mão
E contra a noite que avança
todo o fogo do segredo
693
Charles Bukowski
Viciado Em Cavalo
nós trabalhávamos em banquetas lado a lado.
ele era negro e eu era branco
mas não é uma história racial –
nós éramos camaradas de apostas em cavalo
e ficávamos ali sentados enfiando cartas
a noite toda e por horas extras.
nossos olhos pareciam olhos de drogados:
estávamos viciados em Cavalo.
pelas 2 da manhã eu dava um salto e jogava minhas cartas todas no chão,
“ah, jesus!”, eu gritava, “ah, jesus cristo!”
“o quê o quê?”, meu camarada perguntava.
eu ficava ali parado com um cigarro queimando meus lábios:
“ah, jesus do céu, eu saquei! eu saquei! ah, jesus do céu,
é tão simples! me veio do nada! por que é que eu nunca tinha pensado?”
“o que é?”, ele perguntava, “me conta.”
então o supervisor vinha ver:
“Bukowski, qual é o maldito problema com você? cuide da sua estante! você
enlouqueceu?”
eu ficava ali parado e acendia calmamente um novo cigarro:
“escuta, bebê, cai fora! você me irrita! vou ser o primeiro a te contar, bebê,
meus dias de trabalho aqui estão definitivamente contados! eu saquei! eu realmente saquei
agora!”
“seus dias de trabalho aqui, Bukowski, estão definitivamente contados! agora cuide da sua estante e
pare de gritar!”
eu olhava pra ele como um cocô de cachorro e pegava o rumo da
latrina. por que é que eu não tinha pensado antes? eu ia comprar uma casa em Hollywood
Hills, beber e trepar a noite toda, ficar na jogatina o dia
todo.
então eu voltava, calmo.
ficava tudo bem até 4 da manhã e aí meu camarada dava um salto
jogando a correspondência pela estante toda:
“está tudo acabado! está tudo acabado! eu saquei! ah, meu deus, eu saquei!
é tão simples! tudo que você precisa fazer é pegar o cavalo que...”
“sim, sim?”, eu perguntava.
e o supervisor vinha correndo de novo
e perguntava ao meu camarada:
“e agora qual é o maldito problema com você? tá louco também?”
“escuta, cara, sai fora! tira essa cara da minha cara
ou eu te tiro no tapa!”
“tá me ameaçando, cara?”
“eu tô te dizendo, já era pra mim esse emprego! agora sai
fora!”
nós corríamos ao hipódromo no dia seguinte pra cair matando
mas de noite já estávamos de volta em nossas banquetas postais, como
sempre. sem dúvida, não faz muito sentido trabalhar a 20 ou 30 pratas por noite
quando você perde 50 pratas por dia. ele largou primeiro e eu logo
larguei atrás. vejo ele na pista todos os dias agora.
a esposa cuida dele. “eu finalmente aperfeiçoei minha jogada”, ele me diz.
“claro”, eu digo e me afasto pensando, esse filho da puta é realmente louco,
então vou até o guichê de 5 pela vitória pra apostar no meu esquema mais recente,
basta pegar a média de velocidade, acrescentar os 2 primeiros números na coluna de
dinheiro recebido, aí você...
ele era negro e eu era branco
mas não é uma história racial –
nós éramos camaradas de apostas em cavalo
e ficávamos ali sentados enfiando cartas
a noite toda e por horas extras.
nossos olhos pareciam olhos de drogados:
estávamos viciados em Cavalo.
pelas 2 da manhã eu dava um salto e jogava minhas cartas todas no chão,
“ah, jesus!”, eu gritava, “ah, jesus cristo!”
“o quê o quê?”, meu camarada perguntava.
eu ficava ali parado com um cigarro queimando meus lábios:
“ah, jesus do céu, eu saquei! eu saquei! ah, jesus do céu,
é tão simples! me veio do nada! por que é que eu nunca tinha pensado?”
“o que é?”, ele perguntava, “me conta.”
então o supervisor vinha ver:
“Bukowski, qual é o maldito problema com você? cuide da sua estante! você
enlouqueceu?”
eu ficava ali parado e acendia calmamente um novo cigarro:
“escuta, bebê, cai fora! você me irrita! vou ser o primeiro a te contar, bebê,
meus dias de trabalho aqui estão definitivamente contados! eu saquei! eu realmente saquei
agora!”
“seus dias de trabalho aqui, Bukowski, estão definitivamente contados! agora cuide da sua estante e
pare de gritar!”
eu olhava pra ele como um cocô de cachorro e pegava o rumo da
latrina. por que é que eu não tinha pensado antes? eu ia comprar uma casa em Hollywood
Hills, beber e trepar a noite toda, ficar na jogatina o dia
todo.
então eu voltava, calmo.
ficava tudo bem até 4 da manhã e aí meu camarada dava um salto
jogando a correspondência pela estante toda:
“está tudo acabado! está tudo acabado! eu saquei! ah, meu deus, eu saquei!
é tão simples! tudo que você precisa fazer é pegar o cavalo que...”
“sim, sim?”, eu perguntava.
e o supervisor vinha correndo de novo
e perguntava ao meu camarada:
“e agora qual é o maldito problema com você? tá louco também?”
“escuta, cara, sai fora! tira essa cara da minha cara
ou eu te tiro no tapa!”
“tá me ameaçando, cara?”
“eu tô te dizendo, já era pra mim esse emprego! agora sai
fora!”
nós corríamos ao hipódromo no dia seguinte pra cair matando
mas de noite já estávamos de volta em nossas banquetas postais, como
sempre. sem dúvida, não faz muito sentido trabalhar a 20 ou 30 pratas por noite
quando você perde 50 pratas por dia. ele largou primeiro e eu logo
larguei atrás. vejo ele na pista todos os dias agora.
a esposa cuida dele. “eu finalmente aperfeiçoei minha jogada”, ele me diz.
“claro”, eu digo e me afasto pensando, esse filho da puta é realmente louco,
então vou até o guichê de 5 pela vitória pra apostar no meu esquema mais recente,
basta pegar a média de velocidade, acrescentar os 2 primeiros números na coluna de
dinheiro recebido, aí você...
1 139
Charles Bukowski
Simples Assim
uma das mais lindas loiras do cinema
inacreditáveis seios quadris pernas cintura
tudo,
naquele acidente de carro
a cabeça dela instantaneamente arrancada do
corpo –
simples assim –
lá se foi a cabeça rolando pelo acostamento da
estrada,
batom nos lábios, sobrancelhas delineadas, pó bronzeador aplicado,
bandana nos cabelos, ela foi rolando
como uma bola de vôlei
e o corpo ficou sentado no carro
com aqueles seios quadris pernas cintura,
tudo,
e no necrotério eles juntaram a cabeça de novo,
costuraram a cabeça
de volta,
deus do céu, disse o cara com a linha,
que desperdício.
aí ele saiu e foi pedir um hambúrguer, batata frita
e 2 xícaras de café,
preto.
inacreditáveis seios quadris pernas cintura
tudo,
naquele acidente de carro
a cabeça dela instantaneamente arrancada do
corpo –
simples assim –
lá se foi a cabeça rolando pelo acostamento da
estrada,
batom nos lábios, sobrancelhas delineadas, pó bronzeador aplicado,
bandana nos cabelos, ela foi rolando
como uma bola de vôlei
e o corpo ficou sentado no carro
com aqueles seios quadris pernas cintura,
tudo,
e no necrotério eles juntaram a cabeça de novo,
costuraram a cabeça
de volta,
deus do céu, disse o cara com a linha,
que desperdício.
aí ele saiu e foi pedir um hambúrguer, batata frita
e 2 xícaras de café,
preto.
1 159
Reynaldo Jardim
O bom cabrito não berra
- O bom cabrito não berra,
o bom malandro não estrila,
o bom aluno não erra,
o bom humor desopila,
o bom cantador não teme
nem o Martinho da Vila.
- O bom cabrito não berra
porque não tem berrador.
O bom malandro não estila
porque sabe que o amor
consegue tudo o que quer,
cachaça, pão e mulher
na medida, peso e cor.
- O bom aluno não erra
e errando é que se aprende.
O erro de não errar
é que nunca se compreende
os erros de quem acerta
comprando o que não se vende,
vendendo que não se compra,
apagando o que se acende,
acendendo o que se apaga
sem nunca dizer: depende.
- O bom humor desopila
se for melhor, faz pensar
porque mantém chama viva
a verdade popular.
Coelho, Pato ou Galinha
humorista de verdade
nunca se há de chamar.
O melhor humor responde
Pelo nome de Jaguar.*
- O bom cantador não teme
porque se temer não canta.
E se cantar desafina
o som preso na garganta.
E o povo logo atina
com o medo do cantador
que em vez de cantar a vida
canta sua própria dor.
- Se o bom cabrito não berra
de berrar eu sou capaz.
Se o bom malandro não estrila
passo o malandro pra trás.
Se o bom aluno não erra
eu não erro muito mais.
Se o bom cantador não teme
de temer eu sou capaz.
o bom malandro não estrila,
o bom aluno não erra,
o bom humor desopila,
o bom cantador não teme
nem o Martinho da Vila.
- O bom cabrito não berra
porque não tem berrador.
O bom malandro não estila
porque sabe que o amor
consegue tudo o que quer,
cachaça, pão e mulher
na medida, peso e cor.
- O bom aluno não erra
e errando é que se aprende.
O erro de não errar
é que nunca se compreende
os erros de quem acerta
comprando o que não se vende,
vendendo que não se compra,
apagando o que se acende,
acendendo o que se apaga
sem nunca dizer: depende.
- O bom humor desopila
se for melhor, faz pensar
porque mantém chama viva
a verdade popular.
Coelho, Pato ou Galinha
humorista de verdade
nunca se há de chamar.
O melhor humor responde
Pelo nome de Jaguar.*
- O bom cantador não teme
porque se temer não canta.
E se cantar desafina
o som preso na garganta.
E o povo logo atina
com o medo do cantador
que em vez de cantar a vida
canta sua própria dor.
- Se o bom cabrito não berra
de berrar eu sou capaz.
Se o bom malandro não estrila
passo o malandro pra trás.
Se o bom aluno não erra
eu não erro muito mais.
Se o bom cantador não teme
de temer eu sou capaz.
782
Charles Bukowski
Que Se Foda
que se fodam os censores
e se foda o joe rabisco
e que o se foda se foda
e se foda você
e me foda eu
e se foda o pé de mirtilo
e um pote de maionese
e se foda o refrigerador
e o padre
e os 3 dentes da última freira
e se foda a banheira
e se fodam as torneiras
e se foda a minha garrafa de cerveja
(mas tome cuidado)
que se foda a espiral
e a névoa poluída
e os calçamentos
e os calendários
e os poetas e os bispos e os reis e
os presidentes e os prefeitos e os vereadores
e os bombeiros e os policiais
e as revistas e os jornais e os sacos de
papel marrom
e o mar fedorento
e os preços que sobem e os desempregados
e escadas de corda
e vesículas biliares
e médicos desdenhosos e assistentes hospitalares e enfermeiras
queridas
e se foda a coisa toda,
você sabe.
ponha mãos à obra.
bote pra fora
e comece.
e se foda o joe rabisco
e que o se foda se foda
e se foda você
e me foda eu
e se foda o pé de mirtilo
e um pote de maionese
e se foda o refrigerador
e o padre
e os 3 dentes da última freira
e se foda a banheira
e se fodam as torneiras
e se foda a minha garrafa de cerveja
(mas tome cuidado)
que se foda a espiral
e a névoa poluída
e os calçamentos
e os calendários
e os poetas e os bispos e os reis e
os presidentes e os prefeitos e os vereadores
e os bombeiros e os policiais
e as revistas e os jornais e os sacos de
papel marrom
e o mar fedorento
e os preços que sobem e os desempregados
e escadas de corda
e vesículas biliares
e médicos desdenhosos e assistentes hospitalares e enfermeiras
queridas
e se foda a coisa toda,
você sabe.
ponha mãos à obra.
bote pra fora
e comece.
1 600
Charles Bukowski
A Lésbica
(dedicado a todas elas)
eu estava sentado no meu sofá certa noite,
como de costume, de cueca e camiseta,
bebendo cerveja e sem pensar em grande coisa
quando houve uma batida na porta –
“uuh huuu! uuh huuu!”
que diabo agora?, pensei.
“uuh huuu! uuh huuu!”
“o que é?”, perguntei.
“consegui uma magrinha! consegui uma magrinha pra você!”
uma magrinha?
o som era de voz feminina.
“espera um minuto”, pedi.
fui até o banheiro, vesti uma camisa rasgada e
minhas calças chino sujas. então saí e abri a
porta.
era a lésbica que morava nos fundos.
“comprei uma magrinha pra você”, ela disse.
“ah é?”
ela estava de suéter justinho e short,
ela ligou o luar.
“tá vendo? perdi 9 quilos! você gostou?”
“entra”, eu falei.
ela sentou na cadeira diante de mim e
cruzou as pernas.
“não conta pra senhoria que eu vim aqui.”
“não se preocupe”, falei.
e ela cruzou as pernas no outro sentido. as pernas tinham
grandes machucados roxos por todo lado. fiquei imaginando quem
os teria botado ali.
ela falou e fez perguntas, falou e fez perguntas –
quem era aquela mulher que veio aqui com a garotinha? a minha garotinha, era
a minha garotinha? sim, mas elas não moravam aqui. puxa, que legal.
o pai dela a sustentava, o pai lhe dava um monte de dinheiro, o pai era um
cara legal. aquela pintura na parede era minha? sim, era. ela entendia um pouco de
Arte – ela disse. eu tinha uma namorada? o que é que eu fazia quando eu não estava dormindo?
ela falou e fez perguntas, falou e fez perguntas. eu estava entediado,
completamente aéreo.
na minha juventude
eu achava que podia alterar a natureza,
mas uma lésbica tinha mostrado ser pura madeira –
madeira com olho de nó –
e a outra
(eu tentei duas vezes)
tinha quase me matado,
correndo atrás de mim por três lances de escada e
por meio
Bunker Hill.
aquela diante de mim se levantou
se aproximou, então esfregou os seios na minha
cara –
“não quer um pouquinho, não?”
“hmm hmm.”
ela apontou para um troninho no canto –
“você ainda usa aquilo?”
“ah sim. pinica um pouco as minhas nádegas mas me traz
boas lembranças...”
“boa noite!” ela correu até a porta, abriu, bateu
com força.
“boa noite”, eu
disse, e aí terminei minha garrafa de cerveja, pensando,
qual será o problema com
ela hoje?
*
depois teve um homem com perninhas minúsculas correndo lá
atrás. ele tinha um corpo comprido, e aquelas perninhas minúsculas
começavam onde estariam os joelhos de um homem comum
e o cara ia correndo com aquelas perninhas minúsculas
levando cestas de comida para a lésbica lá atrás.
minha nossa, tem algo de errado com aquele pobre sujeitinho,
pensei.
o senhorio o escorraçou de lá certa manhã pelas 5 horas
“ei! que diabo cê tá fazendo aí em cima? some
daqui!”
“eu trouxe comida pra ela! eu trouxe comida pra ela!”
“some daqui!”
o senhorio correu atrás dele pela entrada da garagem. “você tá lá em cima todo
santo dia às 3 da manhã. eu tô ficando de saco cheio! você não dorme nunca?
qual é o maldito problema com as suas pernas?”
“eu durmo! eu durmo! eu trabalho de noite!”
eles passaram correndo pela minha janela.
“você trabalha de noite? qual é maldito problema com você? por que você não arranja um emprego
durante o dia?”
o perninhas apenas seguiu correndo. ele fez uma curva rápida contornando uma cerca viva e subiu a
rua. o senhorio gritou atrás dele:
“idiota desgraçado! você não sabe que ela é sapatão? que diabo você vai fazer com uma
sapatão?”
não houve resposta, é
claro.
*
depois o sujeito do pátio contíguo, um cara tendendo um pouco pro lado
subnormal, herdou 20 mil
dólares. quando eu vi já estava escutando a voz da lésbica
lá dentro. as paredes eram bem finas.
deus, ela ficou de joelhos e esfregou todos os
pisos. e não parava de sair pela porta dos fundos com o
lixo. ele devia estar com um ano de lixo acumulado lá
dentro. toda vez que ela corria pelos fundos a porta de tela
batia – bam! bam! bam!, deve ter batido 70 vezes em uma
hora e meia. ela estava mostrando para ele.
meu quarto era contíguo ao deles. de noite eu escutava o cara comendo
ela. não havia muita ação. meio morto. só um corpo em
movimento. adivinha qual.
poucos dias depois a lésbica começou a dar ordens –
vindo da cozinha –
“ah não, garoto! de pé! de pé! você não pode ir pra cama a essa hora
do dia! não vou arrumar a sua cama duas vezes!”
e uma semana depois acabou. não voltei a escutar a voz dela.
ela estava de novo na casa dela nos fundos.
eu estava parado na minha varanda um dia pensando a respeito –
pobre coitada. por que é que ela não arranja uma namorada? não tenho preconceito, não
tenho nada contra nenhuma lésbica, não senhor! Safo por exemplo. eu não
tinha nada contra Safo
tampouco.
aí levantei o rosto e lá vinha ela pela
entrada da garagem, era tarde demais para fugir pra dentro
de casa. fiquei bem quieto, tentando ser parte da varanda.
ela se aproximou com seu short branco e o pescoço curvado como um abutre e
aí me viu e fez um som incrível:
“yawk!”
“bom dia”, eu disse.
“yawk!”, ela fez de novo.
caramba, pensei, ela acha que eu sou um pássaro. entrei às pressas na minha casa e
fechei a porta, espiei pelas
cortinas. ela estava lá fora respirando
forte. então ela começou a abanar os braços pra cima e pra baixo, fazendo
“yawk! yawk! yawk!”
ela pirou, eu
pensei.
então lentamente lentamente ela começou a subir pelo
ar.
ah não, pensei.
ela estava um metro acima da cerca viva,
abanando o ar – os seios quicando tristemente,
as pernas gigantes dando coices
procurando apoio no
ar. aí ela subiu, mais e
mais alto. ela estava acima dos prédios residenciais, subindo
pela névoa poluída de Los Angeles. então ela pairou sobre o Sunset Boulevard
bem alto acima do Banco Crocker-Citizens, e
então vi outro objeto que vinha voando do
sul. ele parecia ser só corpo com umas perninhas curtas
atrás. aí eles voaram um ao
encontro do outro. quando vi os dois se abraçando em pleno ar
eu me virei, entrei na cozinha e
baixei todas as
cortinas.
e esperei pelo fim do
mundo.
minha cabeça ressoava como um sino
e eu comecei a chorar.
eu estava sentado no meu sofá certa noite,
como de costume, de cueca e camiseta,
bebendo cerveja e sem pensar em grande coisa
quando houve uma batida na porta –
“uuh huuu! uuh huuu!”
que diabo agora?, pensei.
“uuh huuu! uuh huuu!”
“o que é?”, perguntei.
“consegui uma magrinha! consegui uma magrinha pra você!”
uma magrinha?
o som era de voz feminina.
“espera um minuto”, pedi.
fui até o banheiro, vesti uma camisa rasgada e
minhas calças chino sujas. então saí e abri a
porta.
era a lésbica que morava nos fundos.
“comprei uma magrinha pra você”, ela disse.
“ah é?”
ela estava de suéter justinho e short,
ela ligou o luar.
“tá vendo? perdi 9 quilos! você gostou?”
“entra”, eu falei.
ela sentou na cadeira diante de mim e
cruzou as pernas.
“não conta pra senhoria que eu vim aqui.”
“não se preocupe”, falei.
e ela cruzou as pernas no outro sentido. as pernas tinham
grandes machucados roxos por todo lado. fiquei imaginando quem
os teria botado ali.
ela falou e fez perguntas, falou e fez perguntas –
quem era aquela mulher que veio aqui com a garotinha? a minha garotinha, era
a minha garotinha? sim, mas elas não moravam aqui. puxa, que legal.
o pai dela a sustentava, o pai lhe dava um monte de dinheiro, o pai era um
cara legal. aquela pintura na parede era minha? sim, era. ela entendia um pouco de
Arte – ela disse. eu tinha uma namorada? o que é que eu fazia quando eu não estava dormindo?
ela falou e fez perguntas, falou e fez perguntas. eu estava entediado,
completamente aéreo.
na minha juventude
eu achava que podia alterar a natureza,
mas uma lésbica tinha mostrado ser pura madeira –
madeira com olho de nó –
e a outra
(eu tentei duas vezes)
tinha quase me matado,
correndo atrás de mim por três lances de escada e
por meio
Bunker Hill.
aquela diante de mim se levantou
se aproximou, então esfregou os seios na minha
cara –
“não quer um pouquinho, não?”
“hmm hmm.”
ela apontou para um troninho no canto –
“você ainda usa aquilo?”
“ah sim. pinica um pouco as minhas nádegas mas me traz
boas lembranças...”
“boa noite!” ela correu até a porta, abriu, bateu
com força.
“boa noite”, eu
disse, e aí terminei minha garrafa de cerveja, pensando,
qual será o problema com
ela hoje?
*
depois teve um homem com perninhas minúsculas correndo lá
atrás. ele tinha um corpo comprido, e aquelas perninhas minúsculas
começavam onde estariam os joelhos de um homem comum
e o cara ia correndo com aquelas perninhas minúsculas
levando cestas de comida para a lésbica lá atrás.
minha nossa, tem algo de errado com aquele pobre sujeitinho,
pensei.
o senhorio o escorraçou de lá certa manhã pelas 5 horas
“ei! que diabo cê tá fazendo aí em cima? some
daqui!”
“eu trouxe comida pra ela! eu trouxe comida pra ela!”
“some daqui!”
o senhorio correu atrás dele pela entrada da garagem. “você tá lá em cima todo
santo dia às 3 da manhã. eu tô ficando de saco cheio! você não dorme nunca?
qual é o maldito problema com as suas pernas?”
“eu durmo! eu durmo! eu trabalho de noite!”
eles passaram correndo pela minha janela.
“você trabalha de noite? qual é maldito problema com você? por que você não arranja um emprego
durante o dia?”
o perninhas apenas seguiu correndo. ele fez uma curva rápida contornando uma cerca viva e subiu a
rua. o senhorio gritou atrás dele:
“idiota desgraçado! você não sabe que ela é sapatão? que diabo você vai fazer com uma
sapatão?”
não houve resposta, é
claro.
*
depois o sujeito do pátio contíguo, um cara tendendo um pouco pro lado
subnormal, herdou 20 mil
dólares. quando eu vi já estava escutando a voz da lésbica
lá dentro. as paredes eram bem finas.
deus, ela ficou de joelhos e esfregou todos os
pisos. e não parava de sair pela porta dos fundos com o
lixo. ele devia estar com um ano de lixo acumulado lá
dentro. toda vez que ela corria pelos fundos a porta de tela
batia – bam! bam! bam!, deve ter batido 70 vezes em uma
hora e meia. ela estava mostrando para ele.
meu quarto era contíguo ao deles. de noite eu escutava o cara comendo
ela. não havia muita ação. meio morto. só um corpo em
movimento. adivinha qual.
poucos dias depois a lésbica começou a dar ordens –
vindo da cozinha –
“ah não, garoto! de pé! de pé! você não pode ir pra cama a essa hora
do dia! não vou arrumar a sua cama duas vezes!”
e uma semana depois acabou. não voltei a escutar a voz dela.
ela estava de novo na casa dela nos fundos.
eu estava parado na minha varanda um dia pensando a respeito –
pobre coitada. por que é que ela não arranja uma namorada? não tenho preconceito, não
tenho nada contra nenhuma lésbica, não senhor! Safo por exemplo. eu não
tinha nada contra Safo
tampouco.
aí levantei o rosto e lá vinha ela pela
entrada da garagem, era tarde demais para fugir pra dentro
de casa. fiquei bem quieto, tentando ser parte da varanda.
ela se aproximou com seu short branco e o pescoço curvado como um abutre e
aí me viu e fez um som incrível:
“yawk!”
“bom dia”, eu disse.
“yawk!”, ela fez de novo.
caramba, pensei, ela acha que eu sou um pássaro. entrei às pressas na minha casa e
fechei a porta, espiei pelas
cortinas. ela estava lá fora respirando
forte. então ela começou a abanar os braços pra cima e pra baixo, fazendo
“yawk! yawk! yawk!”
ela pirou, eu
pensei.
então lentamente lentamente ela começou a subir pelo
ar.
ah não, pensei.
ela estava um metro acima da cerca viva,
abanando o ar – os seios quicando tristemente,
as pernas gigantes dando coices
procurando apoio no
ar. aí ela subiu, mais e
mais alto. ela estava acima dos prédios residenciais, subindo
pela névoa poluída de Los Angeles. então ela pairou sobre o Sunset Boulevard
bem alto acima do Banco Crocker-Citizens, e
então vi outro objeto que vinha voando do
sul. ele parecia ser só corpo com umas perninhas curtas
atrás. aí eles voaram um ao
encontro do outro. quando vi os dois se abraçando em pleno ar
eu me virei, entrei na cozinha e
baixei todas as
cortinas.
e esperei pelo fim do
mundo.
minha cabeça ressoava como um sino
e eu comecei a chorar.
1 203
Charles Bukowski
Um Poema Para Mim Mesmo
Charles Bukowski contesta o incontestável
trabalhava nos Correios
assusta pessoas nas ruas
é um neurótico
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski é o Rei dos Poetas Teimosos
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski escreve com dureza e age com medo
age com medo e escreve com dureza
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski tem $90.000 no banco e está
preocupado
Charles Bukowski vai ganhar $20.000 por ano nos
próximos 4 anos e
está preocupado
Charles Bukowski é um bêbado
Charles Bukowski ama sua filha
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski diz que odeia leituras de poesia em público
faz leituras de poesia em público
e tem chiliques quando o cachê é inferior a
$50
Charles Bukowski ganhou uma crítica boa na Der Spiegel
Charles Bukowski foi publicado na Penguin Poetry Series #13
Charles Bukowski acabou de escrever seu primeiro romance
tem dois pares velhos de sapato – um preto, outro marrom
Charles Bukowski foi certa vez casado com uma milionária
Charles Bukowski é conhecido no underground
Charles Bukowski dorme até o meio-dia e sempre acorda de
ressaca
Charles Bukowski foi louvado por Genet e Henry Miller
muita gente rica e bem-sucedida gostaria de ser
Charles Bukowski
Charles Bukowski bebe e conversa com fascistas, revolucionários,
babacas, putas e loucos
Charles Bukowski não gosta de poesia
parece um lutador mas apanha todas as vezes
ele bebe scotch ou vinho
Charles Bukowski foi funcionário dos Correios por onze anos
Charles Bukowski foi carteiro nos Correios por 3 anos
escreveu Notas de um velho safado
que está em livrarias do Canal do Panamá até
Amsterdã
Charles Bukowski se embebeda com professores universitários e os manda
chupar merda;
certa vez bebeu meio litro de uísque num só gole numa festa
para caretas, e o que é que
Charles Bukowski estava fazendo lá?
Charles Bukowski está nos arquivos da Universidade de Santa Barbara
foi o que provocou os tumultos em Isla Vista
Charles Bukowski se deu bem – ele pode foder um gambá numa cloaca
e se sair com um royal flush num furacão texano
quase todo mundo quer ser
Charles Bukowski
se embebedar com
Charles Bukowski
todas as garotas de cabelos pretos com bocetas apertadinhas querem
dar para
Charles Bukowski
até quando ele fala de suicídio
Charles Bukowski sorri e às vezes ri
e quando seus editores lhe dizem
mal chegamos no adiantamento ainda
ou nós não fizemos a nossa tabulação bianual
mas você se deu bem
Charles Bukowski
não se preocupe
e a Penguin Books cobra de
Charles Bukowski 2 libras devidas depois que
a primeira edição se esgotou, mas não se preocupe, nós
faremos uma segunda
edição,
e quando o bebum no sofá cai de cara
e Charles Bukowski tenta botá-lo de volta no sofá
o bebum lhe dá um soco no nariz
Charles Bukowski já teve até uma bibliografia escrita a seu respeito
ou tabulada a seu respeito
ele simplesmente não erra
seu mijo não fede
tudo está ótimo,
ele se embebeda até com seu senhorio e sua
senhoria, todo mundo gosta dele, acha que ele é
só só só...
Charles Bukowski tem ombros caídos
ele dá bicadas em teclas que não respondem ao chamado
sabendo que se deu bem
sabendo que ele é excelente
Charles Bukowski está indo à falência
está falindo
num período de aclamação
num período de professores e editores e boceta
ninguém poderá entender que suas últimas cédulas
estão queimando mais rápido do que
cocô de cachorro encharcado de gasolina F-310
e Marina precisa de sapatos
novos.
claro, ele não entende o
intangível, mas
entende.
Charles Bukowski não tem noção
ele se debruça sobre uma máquina de escrever
bêbado às 3:30 da manhã
que outra pessoa leve a bola
ele está machucado e sua bunda foi
chutada
já era
a noite está se mostrando
Charles Bukowski, querido garoto,
o jogo está terminando e você
jamais passou
do meio-campo,
seu imprestável.
trabalhava nos Correios
assusta pessoas nas ruas
é um neurótico
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski é o Rei dos Poetas Teimosos
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski escreve com dureza e age com medo
age com medo e escreve com dureza
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski tem $90.000 no banco e está
preocupado
Charles Bukowski vai ganhar $20.000 por ano nos
próximos 4 anos e
está preocupado
Charles Bukowski é um bêbado
Charles Bukowski ama sua filha
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski diz que odeia leituras de poesia em público
faz leituras de poesia em público
e tem chiliques quando o cachê é inferior a
$50
Charles Bukowski ganhou uma crítica boa na Der Spiegel
Charles Bukowski foi publicado na Penguin Poetry Series #13
Charles Bukowski acabou de escrever seu primeiro romance
tem dois pares velhos de sapato – um preto, outro marrom
Charles Bukowski foi certa vez casado com uma milionária
Charles Bukowski é conhecido no underground
Charles Bukowski dorme até o meio-dia e sempre acorda de
ressaca
Charles Bukowski foi louvado por Genet e Henry Miller
muita gente rica e bem-sucedida gostaria de ser
Charles Bukowski
Charles Bukowski bebe e conversa com fascistas, revolucionários,
babacas, putas e loucos
Charles Bukowski não gosta de poesia
parece um lutador mas apanha todas as vezes
ele bebe scotch ou vinho
Charles Bukowski foi funcionário dos Correios por onze anos
Charles Bukowski foi carteiro nos Correios por 3 anos
escreveu Notas de um velho safado
que está em livrarias do Canal do Panamá até
Amsterdã
Charles Bukowski se embebeda com professores universitários e os manda
chupar merda;
certa vez bebeu meio litro de uísque num só gole numa festa
para caretas, e o que é que
Charles Bukowski estava fazendo lá?
Charles Bukowski está nos arquivos da Universidade de Santa Barbara
foi o que provocou os tumultos em Isla Vista
Charles Bukowski se deu bem – ele pode foder um gambá numa cloaca
e se sair com um royal flush num furacão texano
quase todo mundo quer ser
Charles Bukowski
se embebedar com
Charles Bukowski
todas as garotas de cabelos pretos com bocetas apertadinhas querem
dar para
Charles Bukowski
até quando ele fala de suicídio
Charles Bukowski sorri e às vezes ri
e quando seus editores lhe dizem
mal chegamos no adiantamento ainda
ou nós não fizemos a nossa tabulação bianual
mas você se deu bem
Charles Bukowski
não se preocupe
e a Penguin Books cobra de
Charles Bukowski 2 libras devidas depois que
a primeira edição se esgotou, mas não se preocupe, nós
faremos uma segunda
edição,
e quando o bebum no sofá cai de cara
e Charles Bukowski tenta botá-lo de volta no sofá
o bebum lhe dá um soco no nariz
Charles Bukowski já teve até uma bibliografia escrita a seu respeito
ou tabulada a seu respeito
ele simplesmente não erra
seu mijo não fede
tudo está ótimo,
ele se embebeda até com seu senhorio e sua
senhoria, todo mundo gosta dele, acha que ele é
só só só...
Charles Bukowski tem ombros caídos
ele dá bicadas em teclas que não respondem ao chamado
sabendo que se deu bem
sabendo que ele é excelente
Charles Bukowski está indo à falência
está falindo
num período de aclamação
num período de professores e editores e boceta
ninguém poderá entender que suas últimas cédulas
estão queimando mais rápido do que
cocô de cachorro encharcado de gasolina F-310
e Marina precisa de sapatos
novos.
claro, ele não entende o
intangível, mas
entende.
Charles Bukowski não tem noção
ele se debruça sobre uma máquina de escrever
bêbado às 3:30 da manhã
que outra pessoa leve a bola
ele está machucado e sua bunda foi
chutada
já era
a noite está se mostrando
Charles Bukowski, querido garoto,
o jogo está terminando e você
jamais passou
do meio-campo,
seu imprestável.
1 005
Charles Bukowski
2 Poemas Imortais
uns 2 poemas imortais por noite
são mais ou menos tudo que me permito
escrever.
é razoável – não há muita competição.
além disso, é mais prazeroso
ficar bêbado
do que durar
para sempre.
é por isso que as pessoas
compram mais bebida alcoólica
do que Shakespeare...
quem não preferiria aprender a
escapar pelo gargalo de uma
garrafa
ou por uma cigarrilha Zig-Zag
perfeitamente enrolada
em vez de um livro?
2 poemas imortais por noite são
suficientes...
quando ouço aqueles saltos altos
estalando pelos degraus da minha
porta...
eu sei que a vida não é feita de papel
e imortalidade
mas daquilo que somos
agora; e enquanto
o corpo dela, os olhos, a alma
vão entrando no
quarto
a máquina de escrever se senta como um mimado e
acabado, muito bem alimentado
cachorro...
nós nos abraçamos
no interior do minúsculo lampejo
de nossas
vidas
enquanto a máquina de escrever
uiva
silenciosamente.
são mais ou menos tudo que me permito
escrever.
é razoável – não há muita competição.
além disso, é mais prazeroso
ficar bêbado
do que durar
para sempre.
é por isso que as pessoas
compram mais bebida alcoólica
do que Shakespeare...
quem não preferiria aprender a
escapar pelo gargalo de uma
garrafa
ou por uma cigarrilha Zig-Zag
perfeitamente enrolada
em vez de um livro?
2 poemas imortais por noite são
suficientes...
quando ouço aqueles saltos altos
estalando pelos degraus da minha
porta...
eu sei que a vida não é feita de papel
e imortalidade
mas daquilo que somos
agora; e enquanto
o corpo dela, os olhos, a alma
vão entrando no
quarto
a máquina de escrever se senta como um mimado e
acabado, muito bem alimentado
cachorro...
nós nos abraçamos
no interior do minúsculo lampejo
de nossas
vidas
enquanto a máquina de escrever
uiva
silenciosamente.
1 310
Carla Dias
Azul
O que vê, são pedras que o tempo cuidou para que se transformassem numa "obra além da arte".
Obra de arte em si, era tudo o que fosse concebido como resultado de uma ânsia por liberdade.
O que ele assistia, tratava-se da própria liberdade ... extensa e transparente.
As pedras moldavam o corpo de um homem .Cabeça sobre os joelhos,
apoiada,
escondendo-se os vestígios de seu olhar.
Sempre o mesmo homem, curvado sobre si mesmo.
A vida andava confusa e confessava sua fragilidade.
Ele sorriu. Havia descoberto curiosos seres, rebordosos até, alguns com seus largos sorrisos.
Às vezes, as lágrimas invadiam seus olhos ... choravam alguns pela confissão humana de que o tempo desenha sonhos em corações ansiosos.
As palavras não substituíam a estampada beleza da terra, e ele chorava a tolice e mediocridade daqueles que têm medo de jogar-se ao infinito. Brotavam sussurros das "pedras-homem" e eles eram pensamentos.
A poesia vestia a tentativa de redescobrir o infindável desejo de voar!
A liberdade dolorida havia cravado unhas na sua carne de jovem sem rumo. E por mais que ele tentasse, era impossível desviar-se dela, porque a liberdade sorria ... riso jocoso, ironia própria da originalidade ... doce ... venenosa.
Queria ultrapassar.
Ele bebia sua bebida com gosto de nada.
A solidão havia lhe concedido olhos azuis e eles enxergavam além ... olhares distantes e ausentes.
A solidão havia lhe emprestado um enorme desejo de consumi-la e depois, gentil como sempre, ele tentaria livrar-se dela, esperando que viscerais sentimentos o fizessem homem com vida.
Ele não queria ser definido. Queria algo que se esparramasse e se transformasse em "gotas de alma" ... raros toques em suaves peles. Profundos toques em verdadeiras fantasias ... cálidas flores a beira da estrada, de terra.
Amava amar o amor, poética, louca e eternamente. Uma eternidade que provocava sua imaginação ... o espaço ... a cura para o esquecimento e para o tempo era não tê-los!
Águas caiam sobre sua pele queimada por um sol que lhe abria caminho tão sinuoso quanto sua própria busca. Caía sobre seu corpo as águas choradas pelas pedras ... gota a gota, e seu som de sonho, de indefinida cor, de si. E ele escutava sons!
Desejava um fim de tarde, um gosto totalmente novo e que permitisse saborear ... um gosto de presença.
Enquanto o mundo seguia, através de caminhos tão tortuosos, a procura de esquecido orgulho, ele jogava seus pensamentos ao vento, olhando através da janela do quarto, vendo sua ansiedade abrir-se feito leque ...
o abismo estendia suas mãos, sedosas e brancas, tecitura de bálsamo ... o alívio é um engano, uma inesperada ilusão.
E havia aquele que optava pela inerte indiferença.
Ele queria a provocante sensação de existir.
Tocando um segundo de estática fantasia, viu-se sem chão ,
sem precisar deixar marcas na areia branca. Pensou que a "pretensão" sempre foi uma forma de evitar o desejo,
o gosto,
o gozo.
Seus olhos ... azuis ... de quase bucólica tristeza. Seus olhos azuis e sem alicerces, feito o céu, cantavam a alegria de pura beleza e que, de tão mal entendida, era tido feito tristeza. Chamavam de tristeza a alegria dolorida e febril do poeta que é vida. Alegria que, sábia, concedia à ele o gosto do vinho bom, de torpor onírico e lírico gozo ... e a solidão espalhou-se dentro de seu peito, tomando conta do susto que foi a companhia que lhe beijou os olhos. E ficaram as xícaras de café cheias de conhaque, e os cigarros acesos, em sintonia com os primeiros raios de luz de uma manhã gritante, ainda que muda.
O que há entre seu dia e sua noite?
Ele, feito um quadro nascido de um fim de tarde frio, daqueles em que desejamos extrair até a última loucura. A minha frente, outra criação que não é minha, mas leva a minha alma, merece meu sangue, pede pela minha essência. E ele caminha entre campos floridos e campos minados, estilhaçando flores e colando ideais ... explodindo em distintas realidades!
Desdobra-se a imaginação e, um único pôr-do-sol torna-se a luz de todos os dias de uma vida ...
e uma única lua está refletida nas águas que banham seus pés e matam minha sede.
Há um baú cheio de revelações e,
apesar da necessidade de revira-lo,
jogar para for cada peça das vestes da peculiaridade de acordar sem deixar pistas sobre a noite que chega ao fim, ele espera que o coração se aquiete para retornar ao inviolável sono.
E eu,
passo derrubando tudo e tentando escandalizar o óbvio ... escandalizar à mim!
É que eu amo ...
E por amá-lo é que sinto sua presença durante a noite, enquanto olho a escuridão com curiosidade felina. Por amá-lo, consumo um instante de vampirismo alucinante e busco à mim, em paz ... a paz que adormece sobre outro instante.
Sobre a prateleira, aviões simbolizam sua vontade de tocar o céu e sua boca, seca, está a procura de palavras que possam umidecê-la.
Brinca com suas asas metálicas, perdendo-se no tempo de propósito, e deixando pistas para que eu possa encontrá-lo. E a agonia que o toca, tão típica dos que saboreiam a fome por vida, desce pela sua garganta junto com um gole de conhaque, aquecendo e tranqüilizando.
Os aviões sobre a prateleira esboçam sua imaginação ... montanhas minando mistérios
e dias passando enquanto ele desenha seu castelo no ar.
Tem sua roupa de guerreiro guardada e precisa - sente a necessidade rasgar-lhe a carne - reconhecer a vida, ao invés de abandoná-la ao obsoleto.
Então, amo um sonho inquieto,
um homem que vive a caminhar ...
ele corre, vez ou outra, movido pelo desespero que o tédio lhe causa e ensinando que Ícaro pecou ao subestimar o próprio sonho. Alguns sonhos são intocáveis e, por essa razão, querem dizer mais do que o desejo de tocá-los.
Passa por ele uma folha ... voa a tal, quase seca e sem paradeiro.
Ele a pega,
beleza ressequida e de essência medieval,
visão inusitada ... a instantânea fotografia do abandono,
lá está estampada!
Pousam olhos azuis sobre o arco-íris refletido nas águas da cachoeira.
O mar, azul, não tem profundidade tão torpe.
Pousam olhares azuis de "ele"
que ama e confunde-se ao sentir
o beijo que não aconteceu.
Azul ... tão azul é o dia que nasce e comemora a fascinação!
Falta fascínio naqueles que não enxergam a cor do espaço, salpicado de estrelas reluzentes e flutuantes planetas.
O quadro umedece a seca e estéril realidade.
Holofotes deixam pelo caminho a luz azul que sai dos olhos do "menino-homem" de asas escondidas e que esculpiu a imaginação nas pedras desta terra.
Por detrás de um silêncio profundo, de aviões, asas partidas e montanhas envolvidas em mistérios, esconde-se o "ele" a cometer pecados e crimes que não ferem à ninguém, além de si próprio, como se a sentença lhe desse a condição de realizador do exorcismo da solidão e provocasse o próximo passo em direção à si mesmo.
Sua sentença : permanecer preso pelas próprias asas, como todo poeta vive preso ao que sente , e isso explode e morre, unindo num só instante a prisão e a liberdade.
A vida fere e cura.
Voa ... voa "ele", azul e gigante ... tão gigante quanto o ar. Eu o respiro ... respiro porque, somente assim, posso amar corpo e alma de um "menino-homem" que vive do desejo de voar e da sedução das pedras e estradas. Só assim, poderei chegar ao fim de outra tarde ...
tecendo sonhos ...
colhendo luas ....
olhando o céu ... azul.
Obra de arte em si, era tudo o que fosse concebido como resultado de uma ânsia por liberdade.
O que ele assistia, tratava-se da própria liberdade ... extensa e transparente.
As pedras moldavam o corpo de um homem .Cabeça sobre os joelhos,
apoiada,
escondendo-se os vestígios de seu olhar.
Sempre o mesmo homem, curvado sobre si mesmo.
A vida andava confusa e confessava sua fragilidade.
Ele sorriu. Havia descoberto curiosos seres, rebordosos até, alguns com seus largos sorrisos.
Às vezes, as lágrimas invadiam seus olhos ... choravam alguns pela confissão humana de que o tempo desenha sonhos em corações ansiosos.
As palavras não substituíam a estampada beleza da terra, e ele chorava a tolice e mediocridade daqueles que têm medo de jogar-se ao infinito. Brotavam sussurros das "pedras-homem" e eles eram pensamentos.
A poesia vestia a tentativa de redescobrir o infindável desejo de voar!
A liberdade dolorida havia cravado unhas na sua carne de jovem sem rumo. E por mais que ele tentasse, era impossível desviar-se dela, porque a liberdade sorria ... riso jocoso, ironia própria da originalidade ... doce ... venenosa.
Queria ultrapassar.
Ele bebia sua bebida com gosto de nada.
A solidão havia lhe concedido olhos azuis e eles enxergavam além ... olhares distantes e ausentes.
A solidão havia lhe emprestado um enorme desejo de consumi-la e depois, gentil como sempre, ele tentaria livrar-se dela, esperando que viscerais sentimentos o fizessem homem com vida.
Ele não queria ser definido. Queria algo que se esparramasse e se transformasse em "gotas de alma" ... raros toques em suaves peles. Profundos toques em verdadeiras fantasias ... cálidas flores a beira da estrada, de terra.
Amava amar o amor, poética, louca e eternamente. Uma eternidade que provocava sua imaginação ... o espaço ... a cura para o esquecimento e para o tempo era não tê-los!
Águas caiam sobre sua pele queimada por um sol que lhe abria caminho tão sinuoso quanto sua própria busca. Caía sobre seu corpo as águas choradas pelas pedras ... gota a gota, e seu som de sonho, de indefinida cor, de si. E ele escutava sons!
Desejava um fim de tarde, um gosto totalmente novo e que permitisse saborear ... um gosto de presença.
Enquanto o mundo seguia, através de caminhos tão tortuosos, a procura de esquecido orgulho, ele jogava seus pensamentos ao vento, olhando através da janela do quarto, vendo sua ansiedade abrir-se feito leque ...
o abismo estendia suas mãos, sedosas e brancas, tecitura de bálsamo ... o alívio é um engano, uma inesperada ilusão.
E havia aquele que optava pela inerte indiferença.
Ele queria a provocante sensação de existir.
Tocando um segundo de estática fantasia, viu-se sem chão ,
sem precisar deixar marcas na areia branca. Pensou que a "pretensão" sempre foi uma forma de evitar o desejo,
o gosto,
o gozo.
Seus olhos ... azuis ... de quase bucólica tristeza. Seus olhos azuis e sem alicerces, feito o céu, cantavam a alegria de pura beleza e que, de tão mal entendida, era tido feito tristeza. Chamavam de tristeza a alegria dolorida e febril do poeta que é vida. Alegria que, sábia, concedia à ele o gosto do vinho bom, de torpor onírico e lírico gozo ... e a solidão espalhou-se dentro de seu peito, tomando conta do susto que foi a companhia que lhe beijou os olhos. E ficaram as xícaras de café cheias de conhaque, e os cigarros acesos, em sintonia com os primeiros raios de luz de uma manhã gritante, ainda que muda.
O que há entre seu dia e sua noite?
Ele, feito um quadro nascido de um fim de tarde frio, daqueles em que desejamos extrair até a última loucura. A minha frente, outra criação que não é minha, mas leva a minha alma, merece meu sangue, pede pela minha essência. E ele caminha entre campos floridos e campos minados, estilhaçando flores e colando ideais ... explodindo em distintas realidades!
Desdobra-se a imaginação e, um único pôr-do-sol torna-se a luz de todos os dias de uma vida ...
e uma única lua está refletida nas águas que banham seus pés e matam minha sede.
Há um baú cheio de revelações e,
apesar da necessidade de revira-lo,
jogar para for cada peça das vestes da peculiaridade de acordar sem deixar pistas sobre a noite que chega ao fim, ele espera que o coração se aquiete para retornar ao inviolável sono.
E eu,
passo derrubando tudo e tentando escandalizar o óbvio ... escandalizar à mim!
É que eu amo ...
E por amá-lo é que sinto sua presença durante a noite, enquanto olho a escuridão com curiosidade felina. Por amá-lo, consumo um instante de vampirismo alucinante e busco à mim, em paz ... a paz que adormece sobre outro instante.
Sobre a prateleira, aviões simbolizam sua vontade de tocar o céu e sua boca, seca, está a procura de palavras que possam umidecê-la.
Brinca com suas asas metálicas, perdendo-se no tempo de propósito, e deixando pistas para que eu possa encontrá-lo. E a agonia que o toca, tão típica dos que saboreiam a fome por vida, desce pela sua garganta junto com um gole de conhaque, aquecendo e tranqüilizando.
Os aviões sobre a prateleira esboçam sua imaginação ... montanhas minando mistérios
e dias passando enquanto ele desenha seu castelo no ar.
Tem sua roupa de guerreiro guardada e precisa - sente a necessidade rasgar-lhe a carne - reconhecer a vida, ao invés de abandoná-la ao obsoleto.
Então, amo um sonho inquieto,
um homem que vive a caminhar ...
ele corre, vez ou outra, movido pelo desespero que o tédio lhe causa e ensinando que Ícaro pecou ao subestimar o próprio sonho. Alguns sonhos são intocáveis e, por essa razão, querem dizer mais do que o desejo de tocá-los.
Passa por ele uma folha ... voa a tal, quase seca e sem paradeiro.
Ele a pega,
beleza ressequida e de essência medieval,
visão inusitada ... a instantânea fotografia do abandono,
lá está estampada!
Pousam olhos azuis sobre o arco-íris refletido nas águas da cachoeira.
O mar, azul, não tem profundidade tão torpe.
Pousam olhares azuis de "ele"
que ama e confunde-se ao sentir
o beijo que não aconteceu.
Azul ... tão azul é o dia que nasce e comemora a fascinação!
Falta fascínio naqueles que não enxergam a cor do espaço, salpicado de estrelas reluzentes e flutuantes planetas.
O quadro umedece a seca e estéril realidade.
Holofotes deixam pelo caminho a luz azul que sai dos olhos do "menino-homem" de asas escondidas e que esculpiu a imaginação nas pedras desta terra.
Por detrás de um silêncio profundo, de aviões, asas partidas e montanhas envolvidas em mistérios, esconde-se o "ele" a cometer pecados e crimes que não ferem à ninguém, além de si próprio, como se a sentença lhe desse a condição de realizador do exorcismo da solidão e provocasse o próximo passo em direção à si mesmo.
Sua sentença : permanecer preso pelas próprias asas, como todo poeta vive preso ao que sente , e isso explode e morre, unindo num só instante a prisão e a liberdade.
A vida fere e cura.
Voa ... voa "ele", azul e gigante ... tão gigante quanto o ar. Eu o respiro ... respiro porque, somente assim, posso amar corpo e alma de um "menino-homem" que vive do desejo de voar e da sedução das pedras e estradas. Só assim, poderei chegar ao fim de outra tarde ...
tecendo sonhos ...
colhendo luas ....
olhando o céu ... azul.
1 123
Adélia Prado
Briga No Beco
Encontrei meu marido às três horas da tarde
com uma loura oxidada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mão e palavras
que nunca suspeitei conhecer.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea-ofendida,
uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
Desde então faço milagres.
com uma loura oxidada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mão e palavras
que nunca suspeitei conhecer.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea-ofendida,
uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
Desde então faço milagres.
1 166
Adélia Prado
Fatal
Os moços tão bonitos me doem,
impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma atriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles não me veem
como se me dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros. Não me servem.
Vou esperar que ganhem indecisão. E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.
impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma atriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles não me veem
como se me dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros. Não me servem.
Vou esperar que ganhem indecisão. E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.
1 962
Carlos Drummond de Andrade
Fmi
Ao vento do Parque dançam
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
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