Poemas neste tema

Ciência e Razão

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Ciência Das Canções

a Alberto de Lacerda
A ciência das canções
o saber alegre
a vitória dos olhos sobre o rosto
o calmo suporte dum entusiasmo perpétuo
a tua nova medida que te pesa no futuro
o pequenino grão de fogo sob a cinza de vários anos
sustentando esta aurora ainda por nascer
dedos que desenhados fazem o gesto
da fluida pressão fraternal

Brusco passado liso no lago dum momento
que se renova incessante
ó brilhante segredo exterior
que ninho mais claro que o meu corpo em repouso
liberto de todas as esperas desesperadas
passado futuro
o mesmo círculo calmo
que o rubro núcleo do desejo liberto
irradia
1 124
Edmundo de Bettencourt

Edmundo de Bettencourt

A Máquina Prisioneira

A máquina acabava o dia a mastigar
e aos poucos os dentes lhe caíam
perdendo-se na espuma do ar negro,
ondulante, da fábrica.

Um desejo insubmisso
de cercar os átomos gigantes
vinha encher um braço
donde surgia um corpo
lacerado
sangrento!
e donde surgia um braço
cheio de sangue novo
que libertava a máquina!
A sorrir desdentada
a máquina adormecia...

953
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Carta Para Um Amigo Com Um Problema Doméstico:

Olá Carl:
não se preocupe por sua esposa ter fugido de você
ela simplesmente não te entendia.
um pneu me furou hoje na autoestrada
e tive que trocar a roda com uns cheira-
dores voando em seus Maseratis soprando vento na minha
bunda.
o principal é você simplesmente tocar sua vida
e seguir fazendo aquilo que você precisa fazer, ou melhor –
aquilo que você quer fazer.

eu estava no consultório do dentista esses dias
e li uma publicação médica
e ela dizia
que você só precisa
viver até o ano 2020 d.C. e aí
se você tiver dinheiro suficiente
quando seu corpo morrer será possível transplantar seu
cérebro num corpo sem carne que te dá
visão e movimento – tipo você pode pedalar uma
bicicleta ou qualquer coisa do tipo e você também
não perderá tempo urinando ou defe-
cando ou comendo – você só ganha um
tanquinho de sangue no alto da cabeça pra encher
mais ou menos uma vez por mês – é uma espécie de óleo
pro cérebro.
e não se preocupe, tem até sexo, dizem,
só que é um pouco diferente (haha) você pode
ficar metendo até ela implorar pra você parar!
(ela só vai te largar por não aguentar mais
em vez de querer mais.)
esse é o lance do transplante sem carne.

mas tem outra alternativa: eles podem
transplantar o seu cérebro num corpo vivo
cujo cérebro foi retirado de modo a
abrir espaço para o seu.
só que o custo para isso será mais
proibitivo
pois eles terão de localizar um corpo,
um corpo vivo em algum lugar
num hospício digamos ou numa prisão ou
nas ruas em algum lugar – talvez um sequestro –
e embora esses corpos venham a ser melhores,
mais realistas, eles não vão durar tanto quanto
o corpo sem carne que pode funcionar por uns
500 anos antes de exigir troca.
então é tudo uma questão de escolha, daquilo que
você gosta, ou daquilo que você pode bancar.

quando você entra no corpo ele não vai
durar tanto assim – eles dizem uns 110 anos lá por
2020 d.C. – e aí você terá de encontrar
uma reposição de corpo vivo (de novo) ou optar por um
dos trecos sem carne.
em geral, como dão a entender nesse artigo que eu li
no consultório do meu dentista, se você não for tão rico
você pega o treco sem carne mas
se continuar muito bem de capital você
vai pegando o corpo-vivo repetidas vezes.
(os modelos de corpo-vivo têm certas vantagens
pois você será capaz de enganar a maioria do pessoal
da rua e também
a vida sexual é mais realista embora
mais curta.)

Carl, não estou passando a coisa exatamente como
estava escrita mas estou traduzindo todo aquele
lero-lero médico em algo que nós
possamos entender,
mas você acha que dentistas deveriam ter esse tipo de
merda
repousando em suas mesas?
de todo modo, provavelmente quando você receber esta carta
a sua patroa estará de volta com você.

de todo modo, Carl, continuei lendo
e o cara depois dizia que
em ambos os transplantes de cérebro no
corpo vivo e no corpo sem carne
outra coisa ocorreria com as pessoas que
tivessem dinheiro suficiente pra fazer os truques de transferência:
o computadorizado conhecimento dos séculos seria
introduzido no cérebro – e pra onde quer que você quisesse ir
você poderia ir – você seria capaz de pintar como
Rembrandt ou Picasso,
conquistar como César. você poderia fazer todas as coisas
que esses e outros como eles haviam feito
só que melhor.
você seria mais brilhante do que Einstein –
haveria pouquíssimo que você não poderia fazer
e talvez o corpo mais próximo de você
pudesse fazê-lo.

nesse ponto a coisa fica um tanto desconcertante –
o cara prossegue
ele é tipo um daqueles caras em seus
Maseratis cheirados; ele prossegue dizendo
numa linguagem um tanto técnica e obscura que
isso não é Ficção Científica
isso é a abertura de uma porta de horror e assombro
nunca antes especulada e ele diz que a
Última Guerra do Homem se dará entre os ricos
transplantados computadorizados e os não ricos que são
os Muitos
que afinal se ressentirão da sacanagem de terem sido excluídos da
imortalidade
e os ricos vão querer proteger o que é deles
para sempre
e
que
no final
os ricos computadorizados vão ganhar a última
Guerra do Homem (e da
Mulher)

depois ele diz que a subsequente Nova
Guerra tomará forma com os
Imortais lutando contra os Imortais
e o que sucederá será um
acontecimento
exemplar
de modo que o Tempo tal como o conhecemos
entrega os pontos.

mas que bela loucura, não é mesmo,
Carl?
eu gostaria de dizer
que à luz de tudo isso
que a sua esposa fugir não significa
grande coisa
mas eu sei que significa
só pensei em te mostrar
como outras coisas poderiam acontecer.

enquanto isso, as coisas não estão boas aqui
tampouco.
seu amigão,
Hank
1 036
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Nova Canção (Sem Rei) de Tule

Há muito, há muito, muito tempo,
um Rei de Tule, apaixonado,
jogou ao mar a taça de ouro
em que bebera todo o amor.
E Goethe fez uma canção
desse amor e dessa áurea copa
que o pobre Nerval traduziu
(il la vit tourner dans l’eau noire…)
e mais Gounod e mais Berlioz
espalharam pelos teatros
líricos, o nosso inclusive.
Foi há tanto, nevoso tempo!
Já não se jogam taças de ouro
numa varanda sobre o mar
nem em qualquer outro lugar.
E Tule é outra. Mas que vejo?
Que objeto é esse lançado
às profundas do Mar de Baffin,
quando até as óperas mudam
de tom, em seu texto eletrônico?
Nem é um só, mas três ou quatro
alfaias de um rei dolorido
a desfazer-se de lembranças
inefáveis, no fim da vida?
E é ouro mesmo? Não: plutônio
(o duzentos e trinta e nove)
e urânio, seu irmão-primo
(o duzentos e trinta e cinco),
tão juntos como outrora juntos
em amoroso contubérnio
o rei e sua amada estavam.
Sob a blindagem protetora,
o idílio desses elementos
é de infernal doçura, mas
cuidado: se o detonador
detona, o mundo vira caco
ou pó de caco, pois amor
com tal potência em megatons
é antes símbolo de morte
do que uma rima para flor.
Focas em pânico: “Por que
nos remetem para depósito
esses invólucros letais
seguidos de uma caixa negra
com cabalísticos sinais,
se nenhum crime cometemos
em nossas solidões claustrais?”
Esquimós repetem em coro
a angústia das focas, o medo:
“Ninguém pode viver tranquilo
nem ao menos neste degredo?
Que presente é este, sem dó,
agredindo a paz do esquimó?”
“Calma, filhinhos” — uma Voz,
ressoando não se sabe de onde,
esclarece, pede desculpas:
“Foi apenas um acidente
em treinamento de rotina,
que dia e noite, mês a mês,
ano a ano, nossos motores
(oito) dos B-Cinquenta e Dois
vêm fazendo no mar das nuvens
com esses mimosos engenhos
tão amoráveis e perfeitos
e de prodigiosos efeitos
para o fim de lembrar ao Homem
que viver é graça precária
dependente de nosso arbítrio,
e portanto não facilite
se não quer converter-se em cinzas
sem sequer urna cinerária.
São bombas, sim, mas bombas bentas
pelo nosso santo desejo
de dirigir bem este mundo:
já não espada de justiça
nem lanterna do entendimento,
nem quimeras que a mente atiça
e se esfumam no vão do vento.
Fiquem quietas, amigas focas,
caros esquimós, bocca chiusa:
não se mexam em suas tocas,
que não é hora de alaúza”.
Disse a Voz. Seu ensinamento
verruma os arcanos gelados
para atingir a consciência
dos mínimos seres terrestres.
Ninguém mais joga copa de ouro
ao mar, nem há mais Rei de Tule.
Mas, de vez em quando, uma bomba
(ou três ou quatro) se diverte
fazendo o úmido trajeto.
Goethe também já não existe
para compor sua canção,
nem Nerval, nem os mestres músicos
dos velhos tempos do Oitocentos.
Então, este simples escriba,
claudicante na versiprosa,
eis que tentou versiprosar
mais um caso de bomba ao mar.
26/01/1968
643
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Estou Em Minha Casa

Estou em minha casa
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?

Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.

Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.

Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.

Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.

Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
995
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Novo Homem

O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não objeto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
“Nove meses, eu?
Nem nove minutos”.
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia saecula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?,
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.
17/12/1967
1 200
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

As metades do corpo

Marianne
   Moore
apreciava animais

e atletas
   em igual
escala. Motivo: o

"estilo"
  das duas
espécies citadas

    "é, prova
        -velmente,
desleixado"; uns e
 
    outros, dis
        -se Miss
Moore numa entre

  -vista,
       alcançam a
"exatidão" devido

   à prática
       que "as
metades do corpo",

    neles (nos
         animais
e nos atletas que

     possuem
         um estilo),
adquiriram

"para se
    contra
-balançarem".
412
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Tago-Sako-Kosaka

Tago-Sako-Kosaka
vem da noite de Tóquio
atucanar-me a cuca.
Mas que cometa é este
que, flagrado na exata,
sua órbita me tapa
e não se vê de fato
nem tico de cometa
no azul-noturno mato?

Tago-Sako-Kosaka,
estrela de Belém
(dizem uns), e eu ataco:
por favor, a que vem
essa estrela tão tarda,
anunciar o quê?
por quê? de graça? a quem?
É anúncio, batata,
Tago-Sako-Kosaka?

Vem um outro Messias
no rumo de outra cruz
e é nela pregado,
ou de um poste, aqui mesmo,
Nova Iguaçu talvez?
Como apurar se o morto
era apenas um louco,
e louco é ver na estrela
um bilhete divino?

Tago-Sako-Kosaka
vende um novo automóvel
veloxsiderobárbaro?
uma nova mulher
sem falhas de motor,
ortografia e sexo?
vende novas crianças
de urânioplac, imunes
ao palavrão e ao tóxico?

Vem ao mundo contar
que surge a nova era
para os homens, enfim,
e tudo que era injusto
e tudo que era infame
a um sopro se espedaça
que nem folha de inhame,
e a nova realidade
é beleza e verdade?

Ou vem, quem sabe, estrela
de pavoroso augúrio,
comunicar o termo
da experiência terrestre:
tudo falhou, e resta
ao falido cientista
(oculto) arrebentar
de uma só martelada
a retorta e a cobaia?

Tago (três sábios), Sako
e Kosaka percebem
o susto que nos pregam
descobrindo esse astro?
E tão maroto é ele,
cometa ou o quer que seja
no espaço que negreja,
que nem se mostra à vista
nem dá pelota ou pista?

Sobre nós, sobre nosso
destino obscuro passa
o cometa nipônico,
todo mistério, e lança
a turbação e o pânico:
é signo de esperança?
correio de desgraça?
Ou mera promoção
de rádios do Japão?

E fico, a noite inteira,
interrogando a treva,
o guarda, a vizinhança:
Onde o cometa? sua
cabeleira não vejo.
Há de ser um cometa
da polícia secreta,
e nessas profundezas
é bom que eu não me meta.
24/01/1970
1 163
Antônio Carlos Secchin

Antônio Carlos Secchin

Nos passos do poeta-viajante, João Cabral de Mello Neto

O jornalista José Castello procura no longo itinerário
percorrido por João Cabral de Melo Neto durante 40
anos a chave para compreender as emoções do homem
arredio e a sua obra, feita de concisão e racionalidade.

( João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma José Castello Rocco, 184 páginas R$ 17,50)
A vida de João Cabral é um livro fechado, e que a custo se deixa entreabrir. Vista de fora - o ângulo preferido do poeta - apresenta tantos atrativos quanto a lista telefônica dos habitantes da Antuérpia. Visitá-la por dentro foi a dura tarefa que se impôs José Castello: extrair da pétrea resistência cabralina algum material propício à construção de uma biografia. É notória a aversão do poeta a tudo que se abeira do confessional. Sua obra deseja camuflar a presença do sujeito pela fixação ostensiva em realidades que lhe sejam fisicamente externas. Agrada-lhe deixar fluir a matéria a fim de ocultar-se em suas dobras e quinas - poesia de quem necessita clamar pelo visível para postar-se, invisível, à sua sombra.
Esse "homem sem alma" atraiu seu biógrafo pela miragem (frustrada, como qualquer miragem) de, afinal, esclarecer como foi possível extrair tanta poesia de um manancial de vida tão contido e distante. É sedutora a hipótese de Castello: não, não se trata de um homem sem alma. Seu esforço para sufocá-la demonstraria, pelo avesso, a existência de um mundo informe e subjetivo, cujo desesperado exorcismo a aparente frieza do verso procuraria efetuar. O biógrafo, numa argumentação persuasiva, não se furta à tentação do "psicanalisar" o biografado, chegando mesmo a falar em "cura" do poeta através da matéria concreta, uma vez que o imaterial seria a fonte de sua angústia. "O sintoma que o atormenta (...) é o medo do incontrolável", afirma à página 23. Após um prefácio em que expôs afetos e temores, Castello controla o ímpeto de privilegiar suas próprias oscilações e concede primazia à elaboração de uma espécie de biografia intelectual do poeta. Seu discurso deriva para um tom mais impessoal, reforçado pela estratgica utilização do presente como tempo narrativo. Assim, o relato reveste de certo distanciamento uma série de episódios já em si afastados do caráter espetacular que a expectativa do leitor, em geral, associa à vida dos grandes artistas.
O biografado ideal seria aquele que cedesse ao apelo implícito dos versos de Berceo, escolhidos por João Cabral para epígrafe de "O rio" (1954): "Quero que componhamos eu e tu uma prosa" - amistosa cumplicidade transformada em texto tramado a duas vozes. Provavelmente não terá sido essa a experiência de Castello na maioria dos 20 encontros que teve com Cabral entre março e dezembro de 1991. Diversos depoimentos concedidos à imprensa foram, no juízo do biógrafo, fontes tão fundamentais para a feitura do livro quanto as 30 horas de entrevista que colheu do poeta. José Castello desfaz, com bastante coragem e algum lamento, a imagem de que pudesse ter sido ungido à condição de interlocutor privilegiado, situando-se, antes, como atento ouvinte e leitor, inclusive de outros leitores cabralinos.
No longo prefácio, o autor se dedica a examinar o ambiente de penumbra e desânimo que cerca o poeta, e sua irreprimível vocação centrífuga, na tentativa de desalojar-se do incômodo de si mesmo e de tornar-se apenas um foco de pura percepção do outro, daquilo que lhe é exterior. O primeiro capítulo reconstitui a infância em Pernambuco, os anos de formação do poeta e sua vinda para o Rio de Janeiro. Já nesta quadra surgem nomes da literatura brasileira que ocuparão para sempre lugar privilegiado no círculo de relações de Cabral: Augusto Frederico Schmidt, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade e, sobretudo, Vinícius de Moraes, a quem, por mais de uma vez, e por evidentes contrastes (de natureza pessoal e poética), Castello se refere como o "anti-Cabral" por excelência. O segundo capítulo relata a presença avassaladora da Espanha na vida e na obra do poeta, desde os primórdios da experiência em Barcelona a partir de 1947 até um retorno fugaz e algo desencantado em 1994.
Poeta voltou ao Brasil em 1986
João Cabral é definido por José Castello como um homem sob o signo da viagem permanente, "trânsfuga que jamais cessa de fugir", mesmo que a fuga conduza "sempre ao ponto de retorno, pois todo viajante é refém de sua origem"; por aí se pode explicar, em sua obra, a obsessiva analogia Pernambuco/Espanha. O capítulo 3 relata as demais experiências estrangeiras, eventualmente atreladas a reincidências hispânicas, além do retorno compulsório de João Cabral ao Brasil nos anos 50, afastado que fora do Itamaraty sob suspeição de envolvimento com o comunismo. O capítulo seguinte retoma a linha mais interpretativa e menos factual do prefácio, e o epílogo retrata as últimas incursões diplomáticas do poeta, bem como o seu regresso definitivo ao Rio, em 1986. Encerrado o périplo, constatamos que apenas dois lugares, praticamente, não conseguiram despertá-lo para a poesia: o Paraguai e o Rio de Janeiro.
O homem sem alma não traça a vida palpitante de um indivíduo, nem o amplo painel de uma geração. Anti-lírico, João Cabral se quer também antibiografável. Em diversas ocasiões revela desprezo ou antipatia pelo gênero, pelo risco de, nele, a vida sobrepor-se à obra. Paradoxalmente, Cabral nunca se esquivou de conceder entrevistas, que, de certa forma, acabaram por configurar-lhe um nítido perfil. Curiosa tensão entre eximir-se e exibir-se: o poeta expõe-se na prosa da entrevista, e se eclipsa na voz do verso. Como todo criador, Cabral revela o melhor de si naquilo que mais sutilmente resguarda. Na certeira observação do biógrafo, "a verdade, se existe, está na poesia. Jamais fora dela". Por isso, enfatizemos a seriedade e a importância do trabalho realizado por José Castello, mas sem esquecer de levar suas próprias palavras à última consequência: pela poesia, a vida de João Cabral é um livro aberto, e que muito dificilmente se deixará fechar.
Antonio Carlos Secchin é autor de João Cabral: a poesia do menos (Livraria Duas Cidades). Editou os Primeiros poemas de João Cabral (Faculdade de Letras da UFRJ) e organizou os Melhores poemas de João Cabral (Global)
Trechos
1 - Recife
A paisagem nordestina, desenhada em luz lancinante, dissolve rapidamente o luto. O Capibaribe, mesmo sujo, é majestoso. Ao longo de suas águas desfilam areeiros, vacarias, olarias, pescadores e catadores de caranguejos; personagens que povoam as primeiras lembranças de nosso viajante, como figuras pinceladas em uma tela virgem. A visão féerica da seca, que dará o tom de sua obra poética, ainda está distante. A natureza, aqui, é razoável. Comedida, mas generosa, ela abre os espaços de que o homem necessita para viver. A margem do rio está decorada por coqueiros, oitizeiros, mangueiras, sapotizeiros. A miséria fica exposta na fachada dos casebres instáveis e revestidos por lama negra. Há, entre eles, casarões coloniais erguidos com a arrogância de castelos e capelinhas onde a fé toma ares de confeito. E muitos quintais sombrios, armados para o rio e não para a rua, em que a exuberância da natureza se confunde com os dejetos da miséria.
2 Barcelona
Se não está manejando sua prensa, Cabral se concentra em uma só atividade: percorrer Barcelona com a ansiedade própria de um descobridor. O que deseja encontrar? Isso não importa, pois o poeta aceita o que a cidade tiver para lhe oferecer. Devora todos os livros que pode comprar sobre a Catalunha e se entrega a caminhadas de ida e volta pela calle Grandia e pelo paseo de Gracia, onde fica a Livraria Ler, que logo se torna sua favorita. Entre as prateleiras dessa livraria conhece uma figura-chave em sua primeira temporada espanhola: o poeta Joan Edoardo Cirlot é um poeta ligado ao surrealismo, autor de um importante dicionário de símbolos e muito chegado a André Breton, a quem sempre visita em Paris. Por meio dele, Cabral s
1 124
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Versos Negros (Mas Nem Tanto)

Ao levantar, muito cuidado, amigo.
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.

Pise somente no ar, mas com cautela.
Uma pesquisa sábia nos revela
esta triste verdade: o ar dá câncer.

À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry: dão câncer.

O banho de chuveiro? Não tomá-lo.
O de imersão, também. Sinto informá-lo
do despacho londrino: água dá câncer.

Não se vista, meu caro ou minha cara.
Um cientista famoso eis que declara:
na roupa, qualquer roupa, dorme o câncer.

A nudez, por igual, não recomendo,
a fim de prevenir um mal tremendo:
sábado se apurou que o nu dá câncer.

Rumo ao batente, agora. Antes, porém,
permita que eu indague: o amigo tem
um carrinho? Que azar. Carro dá câncer.

E coletivo, nem se fala. Em massa
aumenta a perspectiva de desgraça.
No ônibus, no avião, viaja o câncer.

Invente um novo meio de transporte
para ir ao trabalho, e não à morte…
Mas sabe que o trabalho já dá câncer?

Isso mesmo: afirmou-me com certeza
uma nega com o nome de Teresa
que dar duro é uma fábrica de câncer.

Pare de trabalhar enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.

Dormir? Talvez. Ou antes, nem pensar.
Em sonho, pelo que ouço murmurar,
é quando mais solerte chega o câncer.

O amor, então, é a grande solução?
Amor, fonte de vida… Essa é que não.
Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.

Viva, contudo, sem ficar nervoso,
mas sabendo que é muito perigoso
(lá disse o Rosa) e que viver dá câncer.

Já que você nasceu… Ah, não sabia
deste resumo da sabedoria?
Nascer, mero sinônimo de câncer.

Resta morrer, por precaução? Nem isto.
Veja, no céu, o aviso trismegisto:
no mundo de hoje, até morrer dá câncer.

Viva, portanto, amigo. Viva, viva
de qualquer jeito, na esperança viva
de que o câncer há de morrer de câncer.

Ou morrerá — melhor — pela coragem
de enfrentarmos o horror desta linguagem
que faz do câncer dor maior que o câncer.

Pois se souber do trágico brinquedo
que é ver câncer em tudo desta vida,
o câncer vai morrer — morrer de medo.
15/11/1969
658
José Saramago

José Saramago

Nem Sempre a Mesma Rima

Bem couraçado na pele
Não sou eu mas aparência
E se me rasgo e me mostro
Nem assim sou evidência
Porque os acertos de mim
São cartas de paciência
Baralho caído ao chão
Levantado sem prudência
Sobre a mesa verde-negra
Corre um jogo de demência
Passo corto pego e bato
Com um parceiro de ausência
Assim jogava e perdia
Que perder é uma ciência
A que a gente se habitua
Sem temor nem violência
Agora que o vento arrasta
As cartas e os vícios delas
Ficaram-me as mãos libertas
É manhã abro as janelas
1 270
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Sobrevivente

A Cyro dos Anjos
Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema — uma linha que seja — de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a "O Jornal" que ainda
falta muito para atingirmos um nível ra-
zoável de cultura. Mas até lá, felizmente,
estarei morto.

Os homens não melhoraram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.

Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)
3 181
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Mundo Nomeado Ou Descoberta Das Ilhas

Iam de cabo em cabo nomeando
Baías promontórios enseadas:
Encostas e praias surgiam
Como sendo chamadas

E as coisas mergulhadas no sem-nome
Da sua própria ausência regressadas
Uma por uma ao seu nome respondiam
Como sendo criadas
1 362
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Lira

Há uma dúvida que,
há tempos me corrói. . .
O que se passa pela cabeça das pessoas que,
por pura mediocridade,
tentam, em esforços vãos,
mudar a personalidade alheia?
Hoje,
sinto muito por essa mediocridade.
Profundamente atordoado,
este ambiente, agora, causa-me repugnância.
Além de todas as pessoas que me cobram outras personalidades,
como se não me faltasse mais ninguém,
agora, vem-me um tio,
com cismas insanas,
a aborrecer-me.
Um tio!
"Senhor Universal da Razão";
"Rei do Absoluto".
Estas são suas denominações. Auto-denominações.
Que maçada. . .
Vive no obsoleto. . .
Falas de razão,
e eu?
Eu, ouço tudo, e calo.
A razão que pensa ter,
é uma mentira!
E é por isso que na minha lira,
de assuntos fúteis, poucas vezes falo.
Mas, a passagem dos tempos, por vezes assombra-me.
E aprofundado em meus pensamentos,
ponho-me a questionar-me:
A razão. E essa "razão", quando irei por fim segui-la?
NUNCA!!
Nunca, ouviram?!!
De razões cotidianas,
todos estão cheios.
Cheios de nada.
Eu, para vocês miseráveis, posso também ser nada,
mas, ao erguer-me no meu pedestal,
olho-os de cima. Silencioso. . .
E questiono-me novamente:
Quem sou? Para onde vou?
Quem sou? Sei quem sou, e isto já basta;
Para onde vou? Não sei onde estou indo,
nem onde vou chegar,
mas sei que estou no meu caminho, que por si só,
emana uma rutilância análoga à minha vida.
Vida humilde, nesta louca hierarquia.
Vivo com a minha loucura,
mas, a partilhar desta loucura, desta razão,
prefiro apodrecer sozinho,
no silêncio da minha pequenez. . .

707
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Alguns Toureiros

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida.
1 808
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Fez Meu Amigo, Amigas, Seu Cantar

Fez meu amigo, amigas, seu cantar
per bõa fé, em mui boa razom
e sem enfinta, e fez-lhi bom som,
e ũa dona lho quiso filhar;
       mais sei eu bem por quem s'o cantar fez,
       e o cantar já valria ũa vez.

Tanto que lh'eu este cantar oí,
logo lh'eu foi na cima da razom
por quem foi feit'e bem sei por que[m] nom,
e ũa dona o quer pera si;
       mais sei eu bem por quem s'o cantar fez,
       e o cantar já valria ũa vez.

Eno cantar mui bem entendi eu
como foi feito, bem come por quem,
e o cantar é guardado mui bem,
e ũa [dona] o teve por seu;
       mais sei eu bem por quem s'o cantar fez,
       e o cantar já valria ũa vez.
752
José Saramago

José Saramago

Não Há Mais Horizonte

Não há mais horizonte. Outro passo que desse,
Se o limite não fosse esta ruptura,
Era em falso que o dava:
Numa baça cortina indivisível
De espaço e duração.
Aqui se juntarão as paralelas,
E as parábolas em rectas se rebatem.
Não há mais horizonte. O silêncio responde.
É Deus que se enganou e o confessa.
1 109
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Bomba Atômica I

e = mc2
Einstein

Deusa, visão dos céus que me domina
… tu que és mulher e nada mais!
(Deusa, valsa carioca.)

Dos céus descendo
Meu Deus eu vejo
De paraquedas?
Uma coisa branca
Como uma forma
De estatuária
Talvez a forma
Do homem primitivo
A costela branca!
Talvez um seio
Despregado à lua
Talvez o anjo
Tutelar cadente
Talvez a Vênus
Nua, de clâmide
Talvez a inversa
Branca pirâmide
Do pensamento
Talvez o troço
De uma coluna
Da eternidade
Apaixonado
Não sei indago
Dizem-me todos
É A BOMBA ATÔMICA.

Vem-me uma angústia.

Quisera tanto
Por um momento
Tê-la em meus braços
A coma ao vento
Descendo nua
Pelos espaços
Descendo branca
Branca e serena
Como um espasmo
Fria e corrupta
Do longo sêmen
Da Via Láctea
Deusa impoluta
O sexo abrupto
Cubo de prata
Mulher ao cubo
Caindo aos súcubos
Intemerata
Carne tão rija
De hormônios vivos
Exacerbada
Que o simples toque
Pode rompê-la
Em cada átomo
Numa explosão
Milhões de vezes
Maior que a força
Contida no ato
Ou que a energia
Que expulsa o feto
Na hora do parto.

II

A bomba atômica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Tão devagar vem caindo
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar...
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar!

Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar
Mas que ao matar mata tudo
Animal e vegetal
Que mata a vida da terra
E mata a vida do ar
Mas que também mata a guerra...
Bomba atômica que aterra!
Pomba atônita da paz!

Pomba tonta, bomba atômica
Tristeza, consolação
Flor puríssima do urânio
Desabrochada no chão
Da cor pálida do helium
E odor de radium fatal
Lœlia mineral carnívora
Radiosa rosa radical.

Nunca mais, oh bomba atômica
Nunca, em tempo algum, jamais
Seja preciso que mates
Onde houve morte demais:
Fique apenas tua imagem
Aterradora miragem
Sobre as grandes catedrais:
Guarda de uma nova era
Arcanjo insigne da paz!

III

Bomba atômica, eu te amo! és pequenina
E branca como a estrela vespertina
E por branca eu te amo, e por donzela
De dois milhões mais bélica e mais bela
Que a donzela de Orleans; eu te amo, deusa
Atroz, visão dos céus que me domina
Da cabeleira loura de platina
E das formas aerodivinais
— Que és mulher, que és mulher e nada mais!
Eu te amo, bomba atômica, que trazes
Numa dança de fogo, envolta em gazes
A desagregação tremenda que espedaça
A matéria em energias materiais!
Oh energia, eu te amo, igual à massa
Pelo quadrado da velocidade
Da luz! alta e violenta potestade
Serena! Meu amor, desce do espaço
Vem dormir, vem dormir no meu regaço
Para te proteger eu me encouraço
De canções e de estrofes magistrais!
Para te defender, levanto o braço
Paro as radiações espaciais
Uno-me aos líderes e aos bardos, uno-me
Ao povo, ao mar e ao céu brado o teu nome
Para te defender, matéria dura
Que és mais linda, mais límpida e mais pura
Que a estrela matutina! Oh bomba atômica
Que emoção não me dá ver-te suspensa
Sobre a massa que vive e se condensa
Sob a luz! Anjo meu, fora preciso
Matar, com tua graça e teu sorriso
Para vencer? Tua enérgica poesia
Fora preciso, oh deslembrada e fria
Para a paz? Tua fragílima epiderme
Em cromáticas brancas de cristais
Rompendo? Oh átomo, oh neutrônio, oh germe
Da união que liberta da miséria!
Oh vida palpitando na matéria
Oh energia que és o que não eras
Quando o primeiro átomo incriado
Fecundou o silêncio das Esferas:
Um olhar de perdão para o passado
Uma anunciação de primaveras!
1 230
Matilde Campilho

Matilde Campilho

Veleiro

Bem: as palmeiras brilham mais que o ouro. Walter Benjamin tinha razão sobre os círculos — quanto mais se roda em volta do amor, mais o amor se expande. A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo. Bem, quatrocentos anos depois e você & eu ainda somos uma espécie de Ferris Bueller’s Day Off. Ó, você viu os coros dos meninos na avenida? A alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos, atravessando tudo. A liberdade se faz inteira debaixo da palavra, entre um músico Tang e um jarro de Oaxaca. Os continentes se aproximam docemente e, como você me explicou, o selvagem europeu ainda vai soltar seu esplendor. Acredito muito naquilo que ninguém mais espera, principalmente depois que dei de caras com o dorso da baleia solitária. Todo canto tem um tom, e a maioria dos mamíferos se agrupam pelo reconhecimento de uma musicalidade comum. Sim, o fadista vai escolher o fadista, e as manadas de baleia costumam espalhar seu sopro de cerca de 20 hertz por oceanos infinitos. Em comunhão. Mas imagine você que em 1989 alguém descobriu uma baleia que canta solitária e a 52 hertz — sem primos, sem irmãos, sem melhor amigo, sem ilha onde fazer um pit stop. Ninguém vocaliza sua frequência, ouvido nenhum escuta seus 52 pontos. Há milagres. Depois do surgimento da baleia solitária, depois dos círculos de Benjamin, depois do desdobramento do poema XIX, depois do berlinde de Seymour Glass sendo girado no dedo do jogador de basquete, me diga, como não acreditar no brilho natural que diariamente resplandece no peito da terra? Bem, seu rosto de espanto frente ao sorvete de morango numa tarde de domingo é a manobra que puxa o lustro à pele do planeta. Benzinho, estamos invertendo a poesia de Eliot. Estamos curando o resfriado de Madame Sosostris, e esta coisa da alegria ainda vai dar muito certo. Seja como for, dê por onde der, seguimos usando o colar de pérolas que é feito dos olhos do marinheiro fenício. No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará.
1 441
José Saramago

José Saramago

Mãos Limpas

Do gesto de matar a ambas mãos
O jeito de amassar não é diferente
(Que bom este progresso, que descanso:
O botão da direita dá o pão,
Com o botão da esquerda, facilmente,
Disparo, sem olhar, o foguetão,
E o inimigo alcanço).
1 010
Martha Medeiros

Martha Medeiros

emoção, que traidora você me saiu

emoção, que traidora você me saiu
me desmente assim na frente de todos
me faz tomar atitudes ridículas
que eu sempre detestei e neguei e nem sei


emoção, que maneira de me deixar só
agora estou sem caminho e sem solução
que jeito brusco de expulsar a razão
que sempre me fala, me guia, sei lá


emoção, que bela fera você se mostrou
invade assim sem saber, se atravessa,
domina
me agarra e sacode e balança e me enlaça
e eu já nem sei, sei lá, sou eu
1 091
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Silêncio e escuridão e nada mais

(Amor cidade aberta; lugar comum;)

Edificarei a minha igreja sobre as tuas ruínas

Tenho um coração mortal um coração

fora de si como um marido irado

Dentro da casa se instala

a descomunal traição.

Eu sou aquele que rouba, o marido,

o caluniador, abri-vos portas de ouro...

Que deus me perdoará os meus erros humanistas?

Quebrada a espada já, rota

a Armadura, a Beleza, a Regra (Ó Ciência! Ó Cólera!)

Como escreverei? Sem que palavras? Quem? Qual?



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 20 | Assírio & Alvim, 2012

1 239
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Presepe

Chorava o menino.

Para a mãe, coitada,
Jesus pequenito,
De qualquer maneira
(Mães o sabem...), era
Das entranhas dela
O fruto bendito.
José, seu marido,
Ah esse aceitava,
Carpinteiro simples,
O que Deus mandava.
Conhecia o filho
À que vinha neste
Mundo tão bonito,
Tão mal habitado?
Não que ele temesse
O humano flagício:
O fele o vinagre,
Escárnios, açoites,
O lenho nos ombros,
A lança na ilharga,
A morte na cruz.
Mais do que tudo isso
O amedrontaria
A dor de ser homem,
O horror de ser homem,
— Esse bicho estranho
Que desarrazoa
Muito presumido
De sua razão;
— Esse bicho estranho
Que se agita em vão;
Que tudo deseja
Sabendo que tudo
É o mesmo que nada;
— Esse bicho estranho
Que tortura os que ama;
Que até mata, estúpido,
Ao seu semelhante
No ilusivo intento
De fazer o bem!
Os anjos cantavam
Que o menino viera
Para redimir
O homem — essa absurda
Imagem de Deus!
Mas o jumentinho,
Tão manso e calado
Naquele inefável,
Divino momento,
Ele bem sabia
Que inútil seria
Todo o sofrimento
No Sinédrio, no horto,
Nos cravos da cruz;
Que inútil seria
O fele vinagre
Do bestial flagício;
Ele bem sabia
Que seria inútil
O maior milagre;
Que inútil seria
Todo sacrifício...

1949
997
Daniel Jonas

Daniel Jonas

Poética

Fechar a tampa do abrigo
e respirar
com serena convulsão
lançando o grande dirigível da escrita

depois retesar o arpão
e espremer o choco polvo
seus tentáculos tensos
na placa marmórea
ou na balança

é um negócio violento,
a testa escreve-se, um mundo progride,
decanta-se a bolha do nível,
esgaça-se a gaze

depois da fenomenologia dos petroleiros
a refinaria,
o guarda-nocturno de olhos
na trovoada e solidão
no monitor.
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