Ciência e Razão
Bastos Tigre
Ouvir estrelas
que estás beirando a maluquice extrema.
No entanto o certo é que não perco o ensejo
De ouvi-las nos programas de cinema.
Não perco fita; e dir-vos-ei sem pejo
que mais eu gozo se escabroso é o tema.
Uma boca de estrela dando beijo
é, meu amigo, assunto p’ra um poema.
Direis agora: Mas, enfim, meu caro,
As estrelas que dizem? Que sentido
têm suas frases de sabor tão raro?
Amigo, aprende inglês para entendê-las,
Pois só sabendo inglês se tem ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.
Juó Bananére
Uvi Strella
Vucê stá maluco! e io ti diró intanto,
Chi p'ra iscuitalas moltas veiz livanto,
I vô dá una spiada na gianella.
I passo as notte acunversáno c'oella,
Inguanto che as otra lá d'un canto
Stó mi spiano. I o sol come un briglianto
Nasce. Oglio p'ru çeu: — Cadê strella?!
Direis intó: — Ó migno inlustre amigo!
O chi é chi as strellas ti dizia
Quano illas viéro acunversá contigo?
E io ti diró: — Studi p'ra intedela,
Pois só chi giá studô Astrolomia
É capaiz de intendê ista strella.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966
NOTA: Paródia do soneto "XIII", da série Via-Láctea, do livro POESIAS (1888), de Olavo Bilac, conhecido como "Ouvir Estrelas
Lucy Teixeira
Elegia Fundamental
os fundamentos de tua lógica
são cimentados de lâminas vivas,
Voraz, Vastíssima, cujos pé não vejo,
as tuas normas
em que ventre ou motor se organizaram?,
pura dilaceração continuada.
Obsessão cantando o seu nome ininterrupto,
nunca verei a tua face,
negra e fulgurante,
vagarosa e veloz,
impiedosa coisa inabalável
que me namora a coisa mais esplêndida;
ainda não, prestidigitadora,
a divertir-se já com o que me foi
suave raiz cujo perfume queimo
neste campo onde se luta uma lembrança.
Começa o teu sigilado festim,
enquanto as correias do ar,
sustentam o pavilhão onde ficamos
cada vez menos acariciados
e gradualmente aturdidos.
Começa o teu discurso, dragão,
e cresta, e cresta
onde em nós é que dói.
.........................................................
Pela manhã
ergue-se o ervatário
indo colher no campo
vagas ervas medicinais.
Colhe a luz do teu sorriso,
plantador cujas mãos,
cobertas de anéis de areia
agora possuem a Terra.
Matilde Campilho
Notícias Escrevinhadas Na Beira de Estrada
Nuno Júdice
O mecanismo romântico da fragmentação
de tanta luz poída nos bolsos da alma?
A simplicidade incomoda-me.
Nos poemas que deixar,
mais do que no discurso fluente que fundou o Cubo,
o perfil de adaga do amarelo,
afirmarei o gosto amargo de quem cedeu ao poético.
Apesar disto, dois meses depois, as florestas arderam.
Quando um corpo se encaminha para a grande margem da loucura
só dois tiros de noite impedem o acender do fogo.
Acabado de escrever o que, saí de casa;
a passo atravessei a rua, sem olhar para o lado esquerdo,
encostei-me à montra do infinito e pedi:
-Uma caixa de fósforos.
Ao acender o cigarro eu acendia o horizonte;
e, por detrás dele, a própria face oculta da Terra!
Nuno Júdice | "O Mecanismo Romântico da Fragmentação", pág. 41- Livro vencedor do Prémio Pablo Neruda - 1973 | Editorial Inova, Porto, 1973
Fernando Pessoa
Guia-me a só razão.
Não me deram mais guia.
Alumia-me em vão?
Só ela me alumia.
Tivesse quem criou
O mundo desejado
Que eu fosse outro que sou,
Ter-me-ia outro criado.
Deu-me olhos para ver.
Olho, vejo, acredito.
Como ousarei dizer:
«Cego, fora eu bendito»?
Como o olhar, a razão
Deus me deu, para ver
Para além da visão –
Olhar de conhecer.
Se ver é enganar-me,
Pensar um descaminho,
Não sei. Deus os quis dar-me
Por verdade e caminho.
02/01/1932
Newton de Freitas
Amo a Luz
Deixai! Nem que a chuva inunde este campo em redor;
Nem que o vento frio açoite o meu corpo cansado;
Nem que a luz me beije demoradamente.
Eu amo a luz que é ósculo de Deus;
A luz, que é ciência e liberdade!
Sorrio à noite quando um raio de luar
Vem enfeitar o meu sono,
intruso que salta pela minha janela
Porque sabe, talvez, que eu tenho a alma grande
E adoro as ilusões abençoadas.
Quando eu estiver morrendo, direi como Goethe
"Mais luz", e os que me assistirem hão de abrir as janelas
Senão eu os amaldiçoarei no derradeiro instante.
Mas quem sabe como será o meu momento final?
Quem sabe se haverá sol na minha última hora?
Deixai que a luz invada o meu quarto todinho;
A luz que é o beijo de Deus a tocar-me nos olhos,
A luz que traz a poesia para os meus sonhos,
Deixai que a luz espante esta minha tristeza.
Cacaso
Estilos de Época
os irmãos Concretos
H. e A. consanguíneos
e por afinidade D.P.,
um trio bem informado:
dado é a palavra dado
E foi assim que a poesia
deu lugar à tautologia
(e ao elogio à coisa dada)
em sutil lance de dados:
se o triângulo é concreto
já sabemos: tem 3 lados.
Publicado no livro Grupo Escolar (1974). Poema integrante da série 2a. Lição: Rachados e Perdidos.
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.106
NOTA: Referência aos poetas Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, signatários do 'Plano Piloto para Poesia Concreta' (1958); ao verso 'flor é a palavra flor', de João Cabral de Melo Neto ("Antiode"); Ao poema "Um Lance de Dados", de Mallarm
Natália Correia
I
no gesto e penúltimo o homem
compenetra-se funcionário
da sua adiada escória.
Da bomba o guincho de giz
no quadro preto da memória
pontos de sangue em nossos ii
HISTÓRIA aos quadradinhos ora
o bípede era uma vez
não identificado objecto
um não saber que fazer
de não ser propriamente insecto
com conta aberta em Andrómeda
e uísque em Vésper por anestésico.
Oh cosmonauta! comichão
de não encontrares teu cemitério.
Mundo imundo como o mundo
homem bilião de formigas
suando o cimento de cidades
por mísseis interrompidas.
Presente como lixo varrido
pela vassoura do adiante
pressa de mãos que estrangulam
uma criança no volante
homem como autopintando
pelas trevas do teu ofício
de te ganhares aos viciados
dados de seres só homem por vício.
Homem aflição de teres alma
alma como pombo-correio
quem vem pousar na tua linha
sem que tu saibas porque veio
lógica como paragógica
arrogância que rumina a ruína
ardidas pinhas do pinheiro europa
queimada lã da ovelha hiroxima
fumegante palha da ásia
na boca da mula américa
rato da rússia roendo o mapa.
Terra insolentemente esférica
saibro da carne desvividacom que o homem seu sorriso faz.
No mostrador das carícias
falta um minuto para o caos.
de Mátria(1968)
José Miguel Silva
Colheita de 98
uma garrafa de maduro tinto do Ribatejo.
Se o rótulo não mente, estou perante
um vinho de cor granada, um corpo excelente,
sabor e aroma muito acentuados,
com alguma evolução e persistência.
Talvez não seja o Bem, a Beleza, a Verdade,
mas é melhor do que a minha vida incorpórea,
caprichosa, sem evolução,
de cor avinagrada e aroma nenhum.
Além disso é garantido por testes laboratoriais,
enquanto eu - quem me garante o quê?
Sebastião da Rocha Pita
Soneto
[Mudou o Sol o Berço refulgente,
[ou fez Berço do Túmulo arrogante
[galhardo onde se punha agonizante
[com luz no Ocaso, e sombras no Oriente.
[Não morre agora o Sol, quer diferente
[no Aspecto, se na vida semelhante
[no Oriente nascer menos flamante,
[e renascer mais belo no Ocidente.
[Fênix de raios a uma, e outra parte
[O comunica os incêndios, e fulgores,
[porém com diferença hoje os reparte.
[Nasce lá no Oriente só em ardores,
[no Ocidente a ilustrar Ciência, e Arte
[renasce em luzes, vive em resplendores.
Marina Tsvetaeva
Poetas
O poeta – começa a falar de longe.
Ao poeta – a fala leva-o longe.
Por planetas,agoiros, buracos de fábulas
Sinuosas Entre sim e não, mesmo
Ao lançar-se do campanário fará
Um rodeio Porque a roda dos cometas –
É a rota dos poetas. Com os elos dispersos
Da causalidade– se liga! Com a fronte
Virada ao alto – te desespera! Não constam
Do calendário os eclipses do poeta.
É aquele que baralha as cartas, ilude
O peso e a medida, o que faz perguntas
Interrompendo a professora, é aquele
Que desbarata o Kant.
É ele quem, no pétreo caixão das Bastilhas,
Se ergue como árvore em toda a sua beleza.
Aquele de quem se perdem sempre as pegadas,
É aquele comboio que toda a gente
Perde -
Porque a rota dos cometas
É a rota dos poetas: queimando sem calor,
Arrancando sem semear – explodir, romper –
O teu rumo, a tua curva de crinas,
Não consta do calendário!
8 de
Abril de 1923
(tradução
de Nina Guerra e Filipe Guerra)
Carlos Drummond de Andrade
Diante das Fotos de Evandro Teixeira
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo sob a luz,
e dois olhos não são bastantes
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.
É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das figuras.
Fotografia — é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência,
cristal do tempo no papel.
Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como a exorcizar?
Marcas da enchente e do despejo,
o cadáver insepultável,
o colchão atirado ao vento,
a lodosa, podre favela,
o mendigo de Nova York
a moça em flor no Jóquei Clube.
Garrincha e Nureyev, dança
de dois destinos, mães de santo
na praia-templo de Ipanema,
a dama estranha de Ouro Preto,
a dor da América Latina,
mitos não são, pois que são fotos.
Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo
a viajar, a surpreender
a tormentosa vida do homem
e a esperança a brotar das cinzas.
Fahed Daher
Drogado
de viver,
mas como?
Apenas protestando no que existe?
e insiste
que este modelo de viver não é legal!
"Vagal!""
Quer reformar o mundo aos seus conceitos...
Direitos?
Que direitos você quer?
De andar solto pelo mundo sem destino
e deitar
a qualquer tempo com uma mulher...
Stop! Pare! Pense um só minuto:
O puto
é o que perdeu o campo da auto estima
e acusa
o mundo que lhe impõe uma recusa...
Cabelo "pank",
camisa desbotada,,
a " tchurma", a droga
o resto é só cagada...
Se o mundo está errado?
Sabe lá se o certo é ser tarado...
E o segredo pra nossa inteligência
do que é a vida e o que é a evolução
que nos tirou do espaço
no ato da criação?!
Se está errado ou não, na sua opinião,...
Sua visão do mundo ,
com olhos vesgos da alma,,
com múltiplas visões que fogem
de toda realidade
pôr certo que o confundem
e enquanto vai,se afunda,
não vê toda a sujeira,
da própria bunda.
Não será pela sua indisciplina
em cada esquina,
bebendo e se drogando
que o mundo ,ao seu querer, vai se mudando.
Houve mudanças sim,
pêlos séculos e séculos, no esforço
de filósofos,cientistas e de reis,
no esforço da pesquisa e do trabalho,
não pelo paspalho
no qual você se faz
carregando no crânio imbeciloide,
pouco neurônio
e muito espermatozoide.
Pare e pense em Pasteur,em em Ghandi ,em Buda
em Braile em Jesus Cristo
e peça ajuda
aos espíritos que estão à sua roda,
dos seus pais,talvez,dos seus avós.
E, bravo,como heroi de si mesmo,
levante a voz,
olhando para o céu das tempestades,
dos raios ,das eternidades,
e grite com vigor:
Eu quero reviver.Reviverei.!
Sem ser plebeu e sem querer ser rei,
no vigor da minha mocidade,
na angústia de buscar felicidade
achando o amor de Deus,
sendo feliz aqui
Fábio Afonso de Almeida
Derivada
Passo por cubos, quadrados, triÂngulos.
Deslizo por ângulos, cavalgo catetos,
Tropeçando, inábil, em raízes quadradas.
Mas súbito levo um tremendo susto
Quando ao equilibrar em duas paralelas,
Escorrego sem jeito por uma hipérbole
Que se aproxima, sem nunca tocar, a uma reta
E eu me perco nesta aproximação.
Ao me avizinhar cada vez mais,
Sinto uma Vertigem incontrolável
E me afogo no infinito numeral.
Na agonia de nunca chegar,
Prevejo que dali jamais vou sair
E apavorado, solto um berro rouco:
Cristo, estou no inferno ! ! !
Augusto dos Anjos
o Fim das Coisas
Arrancar, num triunfo surpreendente,
Das profundezas do Subconsciente
O milagre estupendo da aeronave!
Rasgue os broncos basaltos negros, cave,
Sôfrego, o solo sáxeo; e, na ânsia ardente
De perscrutar o íntimo do orbe, invente
A lâmpada aflogística de Davi!
Em vão! Contra o poder criador do Sonho
O Fim das Coisas mostra-se medonho,
Como o desaguadouro atro de um rio...
E quando, ao cabo do último milênio,
A humanidade vai pesar seu gênio
Encontra o mundo, que ela encheu, vazio!
Publicado no livro Eu: poesias completas (1920). Poema integrante da série Outras Poesias.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.190. (Ensaios, 32
Affonso Ávila
patrulha ideológica
desestruturou o discurso e embaralhou as letras
te aleart paeto que o pc te recrimina
barroquizou a linguagem e descurou da doutrina
te alaert peota que o sni te investiga
parodiou o sistema e ironizou a política
te alaret poate que o women´slib te corta o genitálio
glosou o objetou sexual e teve orgasmo solitário
te alerat peato que a puc te escanteia
foi tema de mestrado e não quis compor mesa
te areta petoa que a cb não te reedita
gastou muito papel e ouço sangue na tinta
te alrate petao que a abl te indexa
fez enxertos de inglês e sujou a água léxica
te arealt patoe que a cnbb te exorciza
macarronizou o latim e não aprendeu a nova missa
te alatre potae que o esquadrão te desova
traficou palavrinha e não destruiu a prova
te atrela ptoea que o doicodi te herzoga
suspeito sem suspeição e enforcado sem corda
i must be gone and live or stay and die
de O Belo e o Velho, 1987
Herberto Helder
1
Nem música nem cantaria.
Foi-se ver no livro: de um certo ponto de vista de:
terror sentido beleza
acontecera sempre o mesmo — quebram-se os selos aparecem
os prodígios
a puta escarlate ao meio dos cornos da besta
máquinas fatais, abismos, multiplicação de luas
— o inferno! alguém disse: afastem de mim a inocência
eu falo o idioma demoníaco.
Há imagens que se percebem: a do leão às escuras bebendo água
gelada, a imagem de uma pessoa com a mão gloriosa nas chamas
não pára de gritar mas não tira a mão do fogo
compreende-se? como se compreende!
é uma espécie de força absoluta. Há quem pinte cavaleiros luminosos
montados em cavalos azuis. Vão para a guerra, vão matar,
roubar, violar, Deus olha.
Sangue. Quais os problemas? Vermelho e azul, distribuição de formas, a beleza
e os seus segredos — o número, a razão do número
que tudo seja perfeito em coral e cobalto.
O caos nunca impediu nada, foi sempre um alimento inebriante.
O homem não é uma criatura entre mal e bem: falava-se com Deus
porque Deus era potência, Deus era unidade rítmica.
A mão sobre as coisas com vida sua, com essa mão reunir as coisas,
refazer as coisas — cada coisa tem a sua aura, cada animal tem
a sua aura, como se pastoreiam as auras!
em transe: eu sou a coisa. Acabou.
Sento-me a conversar com Deus: palavra, música, martelo
uma equação: conversa de ida e volta.
Depois há gente que fala entre si, depois é o medo, depois é o delírio.
Escuta a breve canção dentro de ti. Que diz ela?
Não move as coisas com as suas auras, nem tu nem a tua canção
pertencem ao mundo cheio, alma que sopra.
Nada se liga entre si, Deus não se debruça na canção; destroça
a cadência
— o demoníaco. Já se não vê um degrau
arrancar de outro degrau pelas lentas escadarias de mármore ao fundo.
A canção abandonou o seu espaço contínuo.
Que se pode fazer? — Apenas um encontro de objectos; um degrau, outro
e outro degraus onde ninguém assenta o pé
e depois o outro pé — por onde se não sobe para assistir ao braço que
torcendo
laçasse o corpo todo num umbigo incandescente, por onde ninguém
sobe para sentar-se ao órgão
e discutir em música as proporções? Aquele que disse:
eu tenho a temperatura de Deus — era um louco meteorológico.
Mas se afinal se entende que numa resposta
se oculta uma pergunta do mundo, mas
se afinal a substância
de alguém que pôs a mão no fogo é igual à substância do fogo
enquanto grita. A substância de um homem e de uma estrela; a mesma.
O poder de criar a canção, isso.
Bato na rosácea com o martelo
o rosto onde bate a rosácea roda voltado para cima —
Nuno Júdice
Imagem do mundo
Vejo o mundo. E ao ver as coisas do mundo,
com a sua realidade própria, vejo também
a diversidade que existe em cada coisa,
distinguindo-a, múltipla ou plural.
como se diz. No entanto, o que eu vejo
é sempre igual ao que eu penso
que o mundo é; e tudo se torna
semelhante, dentro deste mundo que é
o meu, e é sempre diferente do mundo que
existe no pensamento de outro. É por isso
que não penso nas coisas do mundo como
se fossem minhas; e que o deixo para os outros,
para que eles façam o mundo como quiserem,
para que seja diferente do meu, quando o
olho, e o que vejo me restitui o mundo
como eu o quero, diferente do mundo que
os outros pensam.
Nuno Júdice | "Geometria variável", 2005
Fernando Pessoa
O vento tem variedade
Nas formas de parecer.
Se vens dizer-me a verdade,
Porque é que ma vens dizer?
Verdades, quem é que as quer?
Se a vida é o que é,
Então está bem o que está.
Para que ir pé ante pé
Até ontem e até já
E até onde nada há?
Enrola o cordão à roda
Do teu dedo sem razão.
Tudo é uma espécie de moda
E acaba na ocasião.
Quem te deu esse cordão?
08/03/1931
Fernando Pessoa
A água de aqui é boa, não é?
Se é! Quantos vinhos que julguei melhores bebi!
A água de aqui — a verdade!
A verdade não — a melhor aparência dela...
Quando, em grandes praças de eu distra[ído],
Apregoam em torno de mim os jornais todos e eu durm[o]
Herberto Helder
I H
— os frutos unidos à sua árvore,
precipícios,
as mãos embriagadas.
E os animais aprofundam-se, encurvam-se os dias,
as pêras brilham,
o teu vestido é grande se te olho devagar.
O teu corpo transmite-se ao vestido.
Penso na glória do teu corpo.
E inclina-se a luz até os dias caírem dentro dos dias invisíveis.
Aterra move-se sobre os lados, ensinas-me
o que não saberei nunca:
a água ronda.
Dentro de uma zona aberta com muita força:
música,
o exercício de uma palavra maior que as outras todas,
e a minha idade — ciência tão mortal onde és
absoluta.
Fernando Pessoa
Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saúde e estupidez!
Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.
Fernando Pessoa
TRAMWAY
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?