Ciência e Razão
Poemas neste tema
Bocage
Soneto Ditado na Agonia
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura;
Conheço agora já quão vã figura,
Em prosa e verso fez meu louco intento:
Musa!... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura.
Eu me arrependo; a língua quasi fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:
Outro Aretino fui... a santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!.
Mário Cesariny
Eu, Sempre
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.
Mário Cesariny
Paulo Leminski
Acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido
Marcolino Candeias
Breve Discurso aos Meus Amigos
que juntos fizemos a maqueta de um novo mundo
meus amigos de pândega meus amigos das touradas da minha adolescência
que uns aos outros nos embriagámos de tanta esperança.
Oh meus amigos de café de cerveja gelada e coração fervente
que resolvíamos a paz e a guerra e inventávamos a justiça social
todos os meus amigos das artes que sonhávamos até ao clímax da fúria
a utopia suprema
e expurgámos do mal todo o universo para o fazer só de beleza.
Meus amigos da ciência
que em serões enchíamos de generosidade as retortas do progresso
em que inventámos novas energias e as novas maravilhas do paraíso terrestre
e por que não
dos meus amigos os melhor penteadinhos das ideias então apenas futuros
hoje consagrados já vedetas mesmo fragatas e cruzadores da política
-- se é que na política meu Deus aqui pra nós o Senhor acha que?
Ah todos os meus amigos sem falhar nenhum
intelectuais semi para-intelectuais e sindicalistas
quantos quintais de verbo imolámos ao porvir.
Meus amigos todos do mundo inteiro que nunca conheci que nem hei de conhecer
meus inimigos e mesmo os menos amigos
toda a charanga da imprensa escrita e da falada
e mais a do cochicho e a do dizquedizque também.
Todos.
Ah meus amigos meus inimigos
nós que inventámos a computação de bolso e o laser
nós que viajamos no imo do invisível
nós que fazemos a carambola com neutrões
nós que manipulamos a ADN como um castelo de Lego
nós mesmos que bordejamos as costas do cosmos
nós os que glorificamos
nós os que descreditamos
nós os que desacreditámos da democracia
e quisemos o mundo livre e melhor
nós que gravamos no perfeito absoluto da matéria
a perpetuidade do Hino à Alegria
nós que operámos tanta maravilha.
Nós que fazemos Jugoslávias e permitimos Somálias e Timore
e que incubámos novas suásticas
sob a asa da nossa inconsciência.
Nós que por lucro e desleixo fazemos marés negras
e por conveniência e hipocrisia
ousámos admitir que dos falos fumegantes da indústria
era Juno mesma que se ejaculava
em jactos de progresso sobre as nações da Terra.
Nós que criamos as chuvas ácidas
cuspindo para o ar nossa arrogância
nós que satisfeitos e inconsequentes
multiquotidianamente abrimos a porta do frigorífico
e que de higiénicos tanto apertámos o desodorizante
que mesmo daqui debaixo
rasgámos as cuecas de S. Pedro.
Nós que nem mesmo já precisamos de alma
para sermos humanos e imortais.
Nós que já nem de nós mesmos conseguimos dizer as maravilhas.
Nós operámos o inoperável
e arrotando à glória de Deus realizámos o impossível.
Hermes Fontes
A Guerra
dos Atletas, dos Sábios, dos Artistas,
todos os vôos para a Perfeição,
todas as lutas imortais da Terra
— esforço ingênuo! sacrifício vão! —
entre os rubros tentáculos da Guerra
as gerações desaparecerão.
Ícaro pôs sua Asa ao serviço da Morte;
ao serviço da Morte, a vela de Jasão
leva de leste a oeste,
leva de sul a norte,
as forças com que excede a cólera celeste
e se iguala ao Relâmpago e ao Trovão:
Último doloroso anátema da Terra!
Último crime, a Guerra!
Último eclipse da Alma e da Razão!
Mata, em dias, a Fome;
a Peste mata, em horas.
Mas, a guerra, em momentos,
desfaz cidades e devasta as floras,
milhares de homens válidos consome,
afronta os céus, arrasa os monumentos,
e vai, de aldeia a aldeia, a todos os países,
enche a Terra, enche o Céu com seu hálito impuro,
revolve a crosta, desce aos báratros do Oceano
e a cinza dos heróis e a dor dos infelizes
espalha no horizonte do Futuro,
para incentivo de ódio ao Coração humano,
para semente negra às guerras porvindouras
que pulverizarão apriscos e lavouras,
templos em esplendor, vales em floração:
Último doloroso anátema da Terra!
Último crime — a Guerra!
Último eclipse da Alma e da Razão!
(...)
Publicado no livro Epopéia da Vida (1917). Poema integrante da série Lutas Malditas.
In: FONTES, Hermes. Poesias escolhidas. Sel. e pref. Oliveira e Silva. Rio de Janeiro: Epasa, 1944. p.136-137. (Coleção de lirismo brasileiro
Fernando Pessoa
NATAL
Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo Deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.
(Contemporânea, nº 6, Dezembro de 1922)
Fernando Pessoa
A palidez do dia é levemente dourada.
O sol de Inverno faz luzir como orvalho as curvas
Dos troncos de ramos secos.
O frio leve treme.
Desterrado da pátria antiquíssima da minha
Crença, consolado só por pensar nos deuses,
Aqueço-me trémulo
A outro sol do que este.
O sol que havia sobre o Parténon e a Acrópole
O que alumiava os passos lentos e graves
De Aristóteles falando.
Mas Epicuro melhor
Me fala, com a sua cariciosa voz terrestre
Tendo para os deuses uma atitude também de deus,
Sereno e vendo a vida
À distância a que está.
19/06/1914
Bocage
Já Bocage não sou!
Meu astro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse pura!
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:
Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!
Jorge de Sena
NOÇÕES DE LINGUISTICA
entre eles. Não os mais pequenos só
mas os maiores também e conversando
com os mais pequenos. Não nasceram cá,
todos cresceram tendo nos ouvidos
o português. Mas em inglês conversam,
não apenas serão americanos: dissolveram-se,
dissolvem-se num mar que não é deles.
Venham falar-me dos mistérios da poesia,
das tradições de uma linguagem, de uma raça,
daquilo que se não diz com menos que a experiência
de um povo e de uma língua. Bestas.
As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem
esquecidas noutras, morrem todos os dias
na gaguez daqueles que as herdaram:
e são tão imortais que meia dúzia de anos
as suprime da boca dissolvida
ao peso de outra raça, outra cultura.
Tão metafísicas, tão intraduzíveis,
que se derretem assim, não nos altos céus,
mas na caca quotidiana de outras.
Vladimir Maiakovski
A Plenos Pulmões
Manuel António Pina
Teoria das cordas
Não era isso que eu queria dizer,
queria dizer que na alma
(tu é que falaste na alma),
no fundo da alma, e no fundo
da ideia de alma, há talvez
alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve,
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio,
a memória, a minha voz acordada,
a tua mão que deixou tombar o livro
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente,
um vazio no vazio, vagamente ciente
de si, não haver resposta
nem segredo.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 289 | Assírio & Alvim, 2012
Euclides da Cunha
Estrelas
apesar da vertiginosa velocidade da luz, elas se
apagam e continuam a brilhar durante séculos.
Morrem os mundos...Silenciosa e escura,
Eterna noite cinge-os. Mudas, frias,
Nas luminosas solidões da cultura
Erguem-se, assim, necrópoles sombrias...
Mas, pra nós, di-lo a ciência, além perdura
A vida, e expande as rútilas magias..
Pelos séclos emfora a luz fulgura
Traçando-lhes as órbitas vazias.
Meus ideais! extinta claridade —
Mortos, rompeis, fantásticos e insanos,
Da minhalma e revolta imensidade...
E sois ainda todos os enganos
E toda a luz e toda mocidade
Desta velhice trágica aos vinte anos..
Se acaso uma alma se fotografasse
De sorte que, nos mesmos negativos,
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face
E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos...Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse,
Mesmo em ligeiros traços fugitivos:
Amigo, tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando — deste grupo bem no meio —
Que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
Destes sujeitos é precisamente
o mais triste, o mais pálido, o mais feio.
João Cabral de Melo Neto
Catar Feijão
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco
Adélia Prado
O Modo Poético
e o vento balança as placas numeradas
na cabeceira das covas e bate
um calor amarelo sobre inscrições e lápides,
e quando se olha os retratos e se consegue
dizer com límpida voz:
ele gostava deste terno branco
e quando se entra na fila das viúvas,
batendo papo e cabo de sombrinha,
é que a poeira misericordiosa recobriu coisa e dor,
deu o retoque final.
Pode-se compreender de novo
que esteve tudo certo, o tempo todo
e dizer sem soberba ou horror:
é em sexo, morte e Deus
que eu penso invariavelmente todo dia.
É na presença d’Ele que eu me dispo
e muito mais, d’Ele que não é pudico
e não se ofende com as posições no amor.
Quando tudo se recompõe,
é saltitantes que nos vamos
cuidar de horta e gaiola.
A mala, a cuia, o chapéu
enchem o nosso coração
como uns amados brinquedos reencontrados.
Muito maior que a morte é a vida.
Um poeta sem orgulho é um homem de dores,
muito mais é de alegrias.
A seu cripto modo anuncia,
às vezes, quase inaudível
em delicado código:
‘cuidado, entre as gretas do muro
está nascendo a erva...’
Que a fonte da vida é Deus,
há infinitas maneiras de entender.
Fernando Pessoa
Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
Alexandre Dáskalos
No temporal da revolução
os baús de enxovais
preciosos
das raparigas casadoiras
naufragaram.
Ainda hoje me consolo
com as leituras de Marx.
E, no entanto,
perdi meu enxoval.
Augusto dos Anjos
Os Doentes
Como uma cascavel que se enroscava,
A cidade dos lázaros dormia...
Somente, na metrópole vazia,
Minha cabeça autônoma pensava!
Mordia-me a obsessão má de que havia,
Sob os meus pés, na terra onde eu pisava,
Um fígado doente que sangrava
E uma garganta de orfã que gemia!
Tentava compreender com as conceptivas
Funções do encéfalo as substâncias vivas
Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam...
E via em mim, coberto de desgraças,
O resultado de biliões de raças
Que há muitos anos desapareceram!
Publicado no livro Eu (1912).
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.92. (Ensaios, 32)
NOTA: Poema composto de 9 parte
Teófilo Dias
A Cruz
Tu, que prendeste um dia os braços de Jesus,
Quando neles quis ter a humanidade erguida,
Hás de cair prostrada, exânime abatida.
— Já lambe-te o pedal a devorante luz.
A força, que ao porvir o Grande Ser conduz,
A implacável ciência, a eterna deicida,
Vertendo nova seiva à árvore da vida,
Arrancou-lhe a raiz de onde surgiste, oh cruz!
O pensamento audaz, esquadrinhando os mundos,
Calcinou, sulco a sulco, os germens infecundos
Da divina semente, estéril e vazia.
Podes deixar cair, desanimada, os braços!
— Já não existe um Deus, que veja dos espaços
Teu gesto de terror, de súplica sombria!
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
Joaquim Cardozo
Visão do Último Trem Subindo ao Céu
As locomotivas na rotunda
Olhavam para a noite do pátio da noite, imóveis, silenciosas
— Molossos deitados, dóceis, esperando: os olhos apagados os
[faróis.
Qual seria, seria, qual dentre elas
A que conduziria aquele trem, aquele que era o trem
E o último seria?
Qual delas ouviria a voz do Senhor?
Quando houve um trilo no ar: uma luz brilhou
No ar noturno — carvão do dia —
E uma dentre todas sentiu, de repente,
O alento do calor;
Alento que se estendeu do fogo,
E que lhe veio em sangue ardente,
Em respiração rumorosa de brancos vapores.
Uma dentre elas
Que era preta, violentamente, luzidia;
Que era preta, vagarosamente preta;
Preta e lentamente e luzidia;
Avançando, transpôs o virador;
E foi!
Foi um touro selvagem a princípio
Depois se fez um boi pesado e manso
Correndo as linhas de trilhos: as fitas, os fios, os trilhos de
[linha.
À sua aproximação as agulhas se abriram —
Porteiras de um curral — furos do espaço, aberturas
Para distâncias possíveis... aberturas, costuras
De rápidas passagens em direções ocultas.
Pouco e pouco, mais pouco, pouco a pouco
Ao trem se atrela, ao trem ligando o engate, os freios
Ajustando... ao trem disposto ao longo
Da plataforma — platimorfa, platibanda, alegrete
Canteiro cultivado — florido de gente.
E logo e depois, justo depois ficou imóvel
À espera, no ante-ritmo da espera
No anseio da esperaesperança:
Harmônicos da espera (intervalo! Vocalises do intervalo).
— Foi assim que se fez a composição daquele trem.
Daquele que era o trem, e o último seria.
Publicado no livro Poesias Completas (1971). Poema composto de onze partes.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.124-125
Franz Kafka
Das Alegorias
Castro Alves
A Visão dos Mortos
ayant été introduit une fois par un
nain dans le Hyffhaese, lempereur
(Barberousse) se leva et lui demanda
si les corbeaux volaient encore autour
de la montagne. Et, sur la réponse
afíirmative du berger, il sécria en
soupirant: i1 faut donc que je dors
encore pendant cent ans"!
H. Heine (Allemagne)
Nas horas tristes que em neblinas densas
A terra envolta num sudário dorme,
E o vento geme na amplidão celeste
- Cúpula imensa dum sepulcro enorme, -
Um grito passa despertando os ares,
Levanta as lousas invisível mão.
Os mortos saltam, poeirentos, lívidos.
Da lua pálida ao fatal clarão.
Do solo adusto do africano Saara
Surge um fantasma com soberbo passo,
Presos os braços, laureada a fronte,
Louco poeta, como fora o Tasso.
Do sul, do norte... do oriente irrompem
Dórias, Siqueiras e Machado então.
Vem Pedro lvo no cavalo negro
Da lua pálida ao fatal clarão.
O Tiradentes sobre o poste erguido
Lá se destaca das cerúleas telas,,
Pelos cabelos a cabeça erguendo,
Que rola sangue, que espadana estrelas.
E o grande Andrada, esse arquiteto ousado,
Que amassa um povo na robusta mão:
O vento agita do tribuno a toga
Da lua pálida ao fatal clarão.
A estátua range... estremecendo move-se
O rei de bronze na deserta praça.
O povo grita: Independência ou Morte!
Vendo soberbo o Imperador, que passa.
Duas coroas seu cavalo pisa,
Mas duas cartas ele traz na mão.
Por guarda de honra tem dous povos livres,
Da lua pálida ao fatal clarão.
Então, no meio de um silêncio lúgubre,
Solta este grito a legião da morte:
"Aonde a terra que talhamos livre,
Aonde o povo que fizemos forte?
Nossas mortalhas o presente inunda
No sangue escravo, que nodoa o chão.
Anchietas, Gracos, vós dormis na orgia,
Da lua pálida ao fatal clarão.
"Brutus renega a tribunícia toga,
O apostlo cospe no Evangelho Santo,
E o Cristo - Povo, no Calvário erguido,
Fita o futuro com sombrio espanto.
Nos ninhos dáguias que nos restam? - Corvos,
Que vendo a pátria se estorcer no chão,
Passam, repassam, como alados crimes,
Da lua pálida ao fatal clarão.
"Oh! é preciso inda esperar cem anos...
Cem anos. . . " brada a legião da morte.
E longe, aos ecos nas quebradas trêmulas,
Sacode o grito soluçando, - o norte.
Sobre os corcéis dos nevoeiros brancos
Pelo infinito a galopar lá vão...
Erguem-se as névoas como pó do espaço
Da lua pálida ao fatal clarão.
Millôr Fernandes
Poesia Matemática
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo otogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?"indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs -
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar,
Uma perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que o Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade.
Cecília Meireles
Máquina Breve
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.
Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.
Gottfried Benn
FRAGMENTOS
descargas de alma,
coagulações do século vinte -
cicatrizes - interrompido curso da aurora do mundo,
as religiões históricas de cinco séculos demolidas,
a ciência; rachas no Parténon,
Planck correu com a sua teoria dos quanta
ao encontro de Kepler e Kierkegaard confundiu tudo -
Mas noites houve que tinham as cores
do pai primigénio, repousadas, fluidas,
irrevogáveis no seu silêncio
de perpassante azul,
cores do introvertido,
e então uma se compunha,
as mãos nos joelhos pousadas,
como um camponês, singela
e ao quieto beber dada
por harmónicas dos servos -
e outras
dadas aos íntimos arquivos,
tensões dos arcos,
pressões de estilizados edifícios
ou demandas do amor.
Crises da expressão e ataques de erotismo:
eis o Homem de hoje,
o interior um vácuo,
o contínuo da personalidade
garantido pelas roupas
que duram dez anos se o tecido é bom.
O resto fragmentos,
semi-tons,
trechos de música nas casas vizinhas,
spirituals, negros ou
Ave-Marias.