Ciência e Razão
Regina Souza Vieira
O Desconhecido, esse Gigante
da descoberta
vai além da inteligência
prega peças de espanto
ocupa nosso pensamento
É um prazer gostoso
faz que me sinta grande
penetra neste universo
em que o ego se expande
querendo se conhecer.
Nele ficando imerso
esquecido de seu viver
descobrir é aprender
no novo se conhecer
Nele, se tornando maior
Levado pelo mundo
enigma do desconhecido
O homem se torna gênio
Com o grande parecido.
Tudo pela descoberta
ânsia de ao outro chegar
caminho de se descobrir
Vontade de vivenciar
nessa trilha do encantado
Outros mundos desbravar.
Maurício B. Moisés
Fotografia
Torna a fotografia uma natureza morta.
Mesmo assim ambas são belas,
Pois uma é a nossa vida,
E a outra a lembrança dela.
Maria Braga Horta
Infância
sigo os teus passos na manhã
do teu ofício e meus deveres.
Ora encurtas teus passos, me esperando,
ora apresso os meus passos e te alcanço.
O importante é que se combinem como o corpo
e a sombra, e não importa qual dos dois
tem que ceder para acertar o compasso.
No percurso me ensinas uma flor
pousada como um pássaro num ramo
ou me explicas os pássaros no vôo
e me respondes o porquê das coisas.
Por quê? — vou sempre perguntando.
E descubro que atrás de cada mistério
há outro mistério e outro mistério.
Mistérios que nenhum de nós jamais desvendará.
Ninguém.
O homem poderá descobrir o universo,
voar entre as estrelas,
mas jamais descobrirá o que deseja descobrir.
Mas tudo se aclara, enfim, quando chegamos.
Esquecidos os mistérios,
enfrentamos a nossa lúcida rotina:
a tua — a de ensinar,
a minha — esta miscelânea de pequenos deveres
e grandes interesses,
esta vontade de descobrir o mundo
e inventar o céu.
Salpico o chão da escola com a água
de uma garrafa de rolha recortada;
varro, espano, encho de água a grande talha de barro
vermelho.
Enquanto isso, lá fora, as crianças em fila cantam.
II
Desço correndo
o morro-do-meio:
o sol me ofusca e o sangue do nariz salpica
o meu vestido branco.
Só consigo parar ao pé da ponte.
Lá vem seu Totonho-benzedor rodeado de gente
e seu Totonho e a gente que o rodeia
me rodeia.
Um lenço branco se tinge de vermelho
sob meu nariz.
Seu Totonho benze e diz:
"Mais vale o poder de Deus
do que o poder deste mal."
Uma prima me leva e empresta outro vestido.
Saio de azul da casa
e entro na venda de seu Roldão:
— Mamãe mandou buscar uma réstia de cebolas.
Havia poesia no sol, no morro, na ponte,
naquele deslumbramento de liberdade
na descida do morro,
no sentimento de importância de ver o povo
aglomerado em volta da menina
que veio voando com asas brancas
salpicadas de sangue.
De volta, passo a passo, subo o morro.
Ninguém mais nas janelas ou na rua.
Trago a réstia de cebolas como uma coroa de louros
conquistada no escuro.
Almandrade
II
a lógica
invade
a língua
disparidades
não faz
insiste
inquebrável
ao menos
não diz
a razão
é um pensamento
sem saída.
Augusto dos Anjos
À Mesa Cedo à sofreguidão do estômago
De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,
Antegozando a ensangüentada presa,
Rodeado pelas moscas repugnantes,
Para comer meus próprios semelhantes
Eis-me sentado à mesa!
Como porções de carne morta... Ai! Como
Os que, como eu, têm carne; com este assomo
Que a espécie humana em comer carne tem!...
Como! E pois que a Razão não me reprime,
Possa a Terra vingar-se do meu crime
Comendo-me também
Castro Alves
PELAS SOMBRAS
Cest que je suis frappé du doute.
Cest que létoile de la foi
Néclaire plus ma noire route.
Tout est abime autour de moi!
La Morvonnais
Senhor! A noite é brava... a praia é toda escolhos.
Ladram na escuridão das Circes as cadelas...
As lívidas marés atiram, a meus olhos,
Cadáveres, que riem à face das estrelas!
Da garça do oceano as ensopadas penas
O mórbido suor enxugam-me da testa.
Na aresta do rochedo o pé se firma apenas...
No entanto ouço do abismo a rugidora festa! ...
Nas orlas de meu manto o vendaval senrola. . .
Como invisível destra açoita as faces minhas...
Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola...
"Quem foi?" perguntam rindo as solidões marinhas.
Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante.
A treva me assoberba... O Deus! dá-me um clarão!
————
E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:
"Acende, ó Viajor! — o facho da Razão!"
...........................................................................
Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma
Pode a flama subir brilhante, loura, eterna;
Mas quando os vendavais, rugindo, passam nalma,
Quem pode resguardar a trêmula lanterna?
Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada
Bateu-me contra o rosto... e se abismou na treva,
Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada
A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva.
Quem fez a gruta — escura, o pirilampo cria!
Quem fez a noite — azul, inventa a estrela clara!
Na fronte do oceano — acende uma ardentia!
Com o floco do Santelmo — a tempestade aclara!
Mas ai! Que a treva interna — a dúvida constante —
Deixaste assoberbar-me em funda escuridão! ...
E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:
"Acende, ó Viajor! a Fé no coração!..."
Pablo Neruda
Agora Sabemos
a noite,
todo o mês sabemos,
todo o ano sabemos.
Noutro tempo o homem
esteve ilhado,
o prazer tapava-lhe os ouvidos,
o céu o reclamava,
chamava-o
o inferno,
e ademais
era obscura
a geografia humana.
Não podia afirmar com precisão
se eram homens
os outros,
os homens das ilhas,
os remotos,
aqueles que de repente
mostravam num dente de elefante
tanta sabedoria
como a porta de uma catedral.
Mas
lá longe
entre nuvens e fumaça,
as colônias,
os vegetais mesmos
se confundiam
com a pele dos sáurios.
Agora
tudo
é diferente.
Pobre amigo,
sabes,
sabes que o homem existe.
Cada dia
te pedem uma assinatura
para arrancar um ser vivente
de um cárcere vivente,
e oprimido
vais conhecendo
os subterrâneos da geografia.
Sabes, sabemos,
cada dia sabemos,
dormindo conhecemos:
já é impossível
cobrir-nos os ouvidos
com o céu.
A terra nos visita
na manhã
e nos dá o desjejum:
sangue e aurora,
trevas ou edifício,
guerra ou agricultura,
e há que escolher, amigo,
cada dia,
sabendo agora,
sabendo melhor agora
onde estão colocadas
tanto a nova vida
como a velha morte.
Majela Colares
A Sombra da Mão
fogo
nau
e firmamento...
mentes de enxofre
olhos de laser
anjos de aço circundam a órbita
pairam no ar
bailam no ar
o céu é cinza
os homens, loucos, caem vorazmente
decepcionados com a sua própria crença
desesperados
recorrem, quem sabe, a Shakespeare:
Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio,
do que pode sonhar a nossa vã filosofia.
É tarde.
A humanidade implode graças a sua duvidosa crença
o último grito
(último lamento)
não chega a transcender à sua debilitada existência
não vai além dos seus rudimentares tímpanos
jamais chegará
ao aguçado ouvido do universo.
É tarde.
Muito tarde.
Coisa nenhuma subsiste,
bem dizia Lucrécio,
mas tudo flui.
Uma gota de orvalho
cai cristalina e lentamente
no eterno e abissal azul
a terra move-se
séculos recomeçam...
anjos de aço,
pairam no ar,
bailam no ar...
quousque tanden?
Quousque tanden?
Charles Bukowski
Mil Dólares
me dizia que esta era uma aposta garantida.
apostei mil para ganhar.
o cavalo estava cotado em primeiro
nos três quartos de milha.
a campainha tocou e eles
saíram do portão.
meu cavalo virou à esquerda
atravessou correndo a cerca
caiu e
morreu
lá mesmo
com 7/5 no páreo.
quando conto essa história
as pessoas não dizem
nada.
às vezes não há nada a dizer
sobre
a morte.
Marcelo Almeida de Oliveira
Paradoxo racional
material, natural;
resumo, árido número;
amor químico, hormonal;
sem mágica, mito, ou rito;
nem + , nem - ; só = .
E da razão nasce o instinto:
para que respiro, afinal?
certa, reta, vem a resposta:
para satisfazer o animal.
Logo, amo...
rio...
choro...
sinto...
sentir por sentir,
sem razão...
Ah! Tudo é tão lógico!
Marcelo Almeida de Oliveira
Física insana
dualidade onda-partícula;
cruel realidade,
relatividade da felicidade.
Se Erwin soubesse
que quando anoitece
seu gato zumbi anda
pra debaixo de minha cama...
Incertezas quânticas
em minhalma sub-atômica.
Marcelo Almeida de Oliveira
A parte e o todo
ser homem-esperma,
ser mulher-óvulo,
engenheiros-mãos constroem,
lixeiros-intestinos eliminam
lixo-excremento,
comunicações-sinápticas
anunciam guerras-alérgicas,
artistas-cancerígenos.
INDIVÍDUO = TODO
TODO = INDIVÍDUO
Marcelo Almeida de Oliveira
A história se repete
É inútil olhar para trás.
É prudente olhar para o chão.
É emocionante olhar para frente
e tentar vislumbrar as coisas
que aparecem magicamente difusas
dentro da densa névoa.
Quando finalmente se cristalizam,
rapidamente são deixadas para trás.
Que gracinha ...
Ainda nem se preocupou em olhar
um pouco mais acima da bruma espessa
e perceber a cerca alta.
Não adianta, é impossível derrubá-la.
É preciso transpô-la.
Crescer é preciso.
O vermelho não é vermelho, nem é azul.
Um grito não é grito.
Uma pedra não é uma pedra, nem é dura.
O fogo não é fogo, tampouco queima .
Tókio está tão perto de São Paulo
quanto o meu fura-bolo está do cata-piolho.
Tempo não existe. Países não existem.
A ciência da borboleta reina.
Talvez 2 seja diferente de 2.
Talvez o novo átomo seja igual ao antigo,
que é igual ao mais velho,
que é igual ao sol ,
que é igual ao sistema,
que é igual à galáxia,
que é igual ao universo,
que talvez seja o átomo.
Talvez o talvez realmente seja.
Com o peso, o berço se quebra.
Não tão grandes agora, as cercas desmoronam.
Felicidade natural.
Encontramos Deus.
ELE é NÓS.
Marcelo Almeida de Oliveira
Anti- homem
mentira que nos faz humanos,
panos no corpo, amor na cabeça,
certeza de tudo, menos da morte;
mentira, filha e mãe da razão,
convença-me de que não somos apenas macacos carecas.
Charles Bukowski
É Claro
científicos
leva 325 anos para a última
célula do cérebro
detonar-se.
agora eu percebo que
a maioria das garotas
que encontrei em bares
e trouxe para minha casa
estava mentindo sobre
sua
idade.
Ada Ciocci
Ode à palavra
a essência de tua fortaleza,
já que és do cosmo absoluto
e
da troca de idéias entre os homens,
o fundamento.
E, ainda que,
bastando-se,
e,
infinitamente sendo tu,
realidade,
verdade,
ciência,
alma,
corpo,
dogma,
mito,
e,
não tendo infinito,
ocupas lugar primeiro,
na VIDA
António Ramos Rosa
Diz o Objecto E a Imagem Que Não Existe,
diz o elogio do orvalho, a palavra tecida,
órgãos necessários, uma abertura ao lado,
tudo se sobrepõe, se liga na rede destes nomes.
Asfixia quase e sem razão alguma. Algum clamor
ao rés do campo, o ruído da água persistente,
no corpo a náusea e o desejo, o atroz ardor,
o perímetro que permite a dimensão da terra.
Diz a água mais lenta na página da terra,
acorda um clamor de paz, uma ordem escura
de insectos, a frescura das ervas e dos nomes.
Acorda, que é o tempo de acordar a razão,
do clamor do vento, do objecto inerte,
e a imagem que existe é a que permanece.
Jorge Luis Borges
El ingenuo
capaces de torcer la más terca fortuna;
hay pisadas humanas que han medido la luna
y el insomnio devasta los años y las millas.
En el azul acechan públicas pesadillas
que entenebran el día. No hay en el orbe una
cosa que no sea otra, o contraria, o ninguna.
A mí sólo me inquietan las sorpresas sencillas.
Me asombra que una llave pueda abrir una puerta,
me asombra que mi mano sea una cosa cierta,
me asombra que del griego la eleática saeta
instantánea no alcance la inalcanzable meta,
me asombra que la espada cruel pueda ser hermosa,
y que la rosa tenga el olor de la rosa.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 449 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Rui Costa
Poema inútil com montanha
Vejo a montanha à minha frente pousada
sobre a água sempre verde, e penso na inutilidade
de tudo o que ela é, e na inutilidade de estar pensando nisto,
quando um pensamento inútil me sugere
que a montanha pode ser
um pormenor pensado por ela
na paisagem do meu próprio peensamento, para
com isto me levar a pensar sobre pensamentos,
e não sobre montanhas, ficando ela, como antes,
pousada na água sempre verde, sem ser
pensada por ninguém.
Rui Costa
Senhora de Londres escolhendo Limões
Não, nem todo o limão é amarelo quando
a mão de alguém o toca e humaniza, pequeno deus
aos tombos do céu de um pensamento manual e
exigente. Às vezes, quando a sede não é muita,
um do fundo é erguido à altura do olhar e então,
por mágica rotação da sorte que nos astros se reflecte,
encontra uma outra luz na mão que o recebe e deposita
em morada assaz prosaica e de plástico. Na vida,
a caminho do futuro que ele nunca saberá onde fica,
o limão continuará a ser inteiro
e o seu sumo continuará a ser sumo,
pela mesma sábia razão por que a história dos homens
é sempre muito maior do que eles.
Fernando Pessoa
12 - If I could carve my poems in wood
By children they would be understood,
So near to the sense things have in God
Are both my poems and children's thought.
For a child knows that logic and meaning
Are only nothing nothing screening,
And a child is one divinely aware
That all things are toys and all things are fair,
That a thimble, a stone and a cotton‑reel
Are things we can quite divinely feel,
And that, if we make men out of those things,
They are really men, not imaginings.
I would therefore l could take my verse
Out of mere ideas and better it worse
To visible carving or drawing or what
My verses could be resembling that.
Then would I be the children's poet,
And, though perhaps I might never know it
With the outer sense that makes life sadder,
In every innocent face made gladder
God would be giving my soul the sense,
Lost back of knowledge, of recompense -
The sense of children more children still
When, acting my poems at their glad will,
They, playing with toys, with legs incurled,
Lightly err the visible world.
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 26
Ser adulto é quase impossível no mundo
só imberbe. Acreditas mais num ficheiro
Microsoft do que nas salmodias da tua avó.
O novo deus do mundo será um adolescente
com jeito para a música e o cabelo a imitar
os heróis da manga. A luz desloca-se com
pressa para chegar antes de envelhecer.
Isabel Câmara
Ilógica
é a Bigorna que o modifica
Fernando Pessoa
O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte
Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa —
Quer verdade, e não sorte.
Como um mendigo a quem é dado o nome
De rei, não come dele, mas do prato
Do rei, minha esperança
Da razão que lia em tê-la se alimenta
E não do que deseja.