Poemas neste tema
Ciência e Razão
Emiliano Perneta
Metamorfoses
A Mme. Georgine Mongruel.
Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.
Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.
Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...
Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.
Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.
Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...
Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 614
Carlos Drummond de Andrade
Inventor
Entre Deus, que comanda,
e guris, que obedecem,
entre aulas a dar
o mês inteiro, a vida inteira, a inteira eternidade
(não cresça o Brasil afastado da ciência,
nem do Senhor acima de toda ciência)
e sob a esperança do Paraíso,
o padre português, no confessionário,
antes que o pecador
debulhe seus pecados
indaga:
“Quantas vezes mexeste no pirulito?”.
Finda a obrigação,
recolhe-se ao quarto ascético,
dedica-se ao aperfeiçoamento
de sua invenção, o ovoscópio,
que identifica os ovos chocos
e os separa dos bons,
assim como Deus, no Juízo Final,
vai separar as almas santas e as corruptas.
e guris, que obedecem,
entre aulas a dar
o mês inteiro, a vida inteira, a inteira eternidade
(não cresça o Brasil afastado da ciência,
nem do Senhor acima de toda ciência)
e sob a esperança do Paraíso,
o padre português, no confessionário,
antes que o pecador
debulhe seus pecados
indaga:
“Quantas vezes mexeste no pirulito?”.
Finda a obrigação,
recolhe-se ao quarto ascético,
dedica-se ao aperfeiçoamento
de sua invenção, o ovoscópio,
que identifica os ovos chocos
e os separa dos bons,
assim como Deus, no Juízo Final,
vai separar as almas santas e as corruptas.
1 124
Sebastião Uchoa Leite
Fragmentos Cósmicos
Todo sistema tende
A um grau crescente de desordem
Onde depositar
O lixo cósmico?
Informação é matéria prima
A paciência é elástica
Inflar bem lento e explodir
Como no Big Bang
1990
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
A um grau crescente de desordem
Onde depositar
O lixo cósmico?
Informação é matéria prima
A paciência é elástica
Inflar bem lento e explodir
Como no Big Bang
1990
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
1 284
Sebastião Uchoa Leite
Digitações
A poética é uma máquina
Há um código central
Em que se digita ANULA
É a máquina do nada
Que anda ao contrário
Da sua meta
A repetição é a morte
Noutro código lateral
Digita-se ENTRA
E os cupins invadem o quarto
1990
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
Há um código central
Em que se digita ANULA
É a máquina do nada
Que anda ao contrário
Da sua meta
A repetição é a morte
Noutro código lateral
Digita-se ENTRA
E os cupins invadem o quarto
1990
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
3 246
Sebastião Uchoa Leite
As Categorias Límpidas
Constroem tocas em margens de córregos
e riachos, e passam quase toda a vida
na água em busca de larvas e insetos e
cutucam sedimentos de aluvião com os
bicos. Os machos têm espora afiada e
oca nos calcanhares, que se liga a uma
glândula venenosa na coxa. Os organis-
mos ovíparos formam ovos no corpo e
óvulos muito protoplasmáticos onde o pla-
no de clivagem não consegue penetrar
e dividir a extremidade vegetativa, ou
seja, a clivagem meroblástica caracteri-
za vertebrados terrestres répteis ou pás-
saros. Caldwell enfatizou o caráter rep-
tiliano desses mamíferos paradoxais, mas
navegadores europeus por muito tempo
foram ludibriados por taxidermistas chine-
ses e por costuras de cabeças e troncos
de macacos às partes traseiras de peixes.
Porém não se conseguiu achar emendas
ou costuras. O enigma interno sendo ainda
maior, contudo, os primeiros evolucionis-
tas franceses insistiram em que a anato-
mia não podia mentir: os ovos, eles bra-
davam, acabarão por serem encontra-
dos um dia (naquele tempo ainda não se
encontrara glândulas mamárias). Saint-
Hilaire manteve acesa a chama da ovi-
paridade. Caldwell solucionou um misté-
rio específico, intensificando, porém, o
problema geral. A natureza clamava pe-
las categorias límpidas, pois é impossí-
vel vencer num mundo assim: ou se é um
primitivo prima facie ou especializado
por uma simplicidade implícita e oculta.
1991
Poema integrante da série Informes.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
e riachos, e passam quase toda a vida
na água em busca de larvas e insetos e
cutucam sedimentos de aluvião com os
bicos. Os machos têm espora afiada e
oca nos calcanhares, que se liga a uma
glândula venenosa na coxa. Os organis-
mos ovíparos formam ovos no corpo e
óvulos muito protoplasmáticos onde o pla-
no de clivagem não consegue penetrar
e dividir a extremidade vegetativa, ou
seja, a clivagem meroblástica caracteri-
za vertebrados terrestres répteis ou pás-
saros. Caldwell enfatizou o caráter rep-
tiliano desses mamíferos paradoxais, mas
navegadores europeus por muito tempo
foram ludibriados por taxidermistas chine-
ses e por costuras de cabeças e troncos
de macacos às partes traseiras de peixes.
Porém não se conseguiu achar emendas
ou costuras. O enigma interno sendo ainda
maior, contudo, os primeiros evolucionis-
tas franceses insistiram em que a anato-
mia não podia mentir: os ovos, eles bra-
davam, acabarão por serem encontra-
dos um dia (naquele tempo ainda não se
encontrara glândulas mamárias). Saint-
Hilaire manteve acesa a chama da ovi-
paridade. Caldwell solucionou um misté-
rio específico, intensificando, porém, o
problema geral. A natureza clamava pe-
las categorias límpidas, pois é impossí-
vel vencer num mundo assim: ou se é um
primitivo prima facie ou especializado
por uma simplicidade implícita e oculta.
1991
Poema integrante da série Informes.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
1 205
Carlos Drummond de Andrade
Os Charadistas
Passam a vida lenta decifrando
novíssimas,
sincopadas,
logogrifos.
Mandam soluções para o Almanaque Bertrand
e quedam à espera do navio de Lisboa que não vem,
não atracará nunca no Rio Doce,
trazendo em nova edição os nomes dos aficionados
triunfadores.
Chega a besta rústica do Correio.
Na mala, do volume encharcado de chuva,
não salta nenhuma vitória para a cidade,
salvo no ano esplendoroso de 1909
em que Juquinha Gago tirou menção honrosa.
Pobre (rico?) de mim,
que nunca fui além das cartas enigmáticas,
sem conclusão e sem prêmio,
mas também não sou nunca derrotado.
novíssimas,
sincopadas,
logogrifos.
Mandam soluções para o Almanaque Bertrand
e quedam à espera do navio de Lisboa que não vem,
não atracará nunca no Rio Doce,
trazendo em nova edição os nomes dos aficionados
triunfadores.
Chega a besta rústica do Correio.
Na mala, do volume encharcado de chuva,
não salta nenhuma vitória para a cidade,
salvo no ano esplendoroso de 1909
em que Juquinha Gago tirou menção honrosa.
Pobre (rico?) de mim,
que nunca fui além das cartas enigmáticas,
sem conclusão e sem prêmio,
mas também não sou nunca derrotado.
577
Carlos Drummond de Andrade
Mestre
Arduíno Bolivar, o teu latim
não foi, não foi perdido para mim.
Muito aprendi contigo: a vida é um verso
sem sentido talvez, mas com que música!
não foi, não foi perdido para mim.
Muito aprendi contigo: a vida é um verso
sem sentido talvez, mas com que música!
1 425
Carlos Drummond de Andrade
Craque
Segundo half-time.
Declina a tarde sobre o match
indefinido.
O Instituto Fundamental envolve o adversário.
A taça já é sua, questão de minutos.
Mas Abgar, certeiro, irrompe
de cabeçada,
conquista o triunfo para o deprimido
team confuso do Colégio Arnaldo.
Olha aí o Instituto siderado!
Despe Abgar o atlético uniforme,
simples recolhe-se ao salão de estudo
para burilar um dolorido
soneto quinhentista:
Em vão apuro a minha fortitude,
Senhora, por vencer o meu amor…
Declina a tarde sobre o match
indefinido.
O Instituto Fundamental envolve o adversário.
A taça já é sua, questão de minutos.
Mas Abgar, certeiro, irrompe
de cabeçada,
conquista o triunfo para o deprimido
team confuso do Colégio Arnaldo.
Olha aí o Instituto siderado!
Despe Abgar o atlético uniforme,
simples recolhe-se ao salão de estudo
para burilar um dolorido
soneto quinhentista:
Em vão apuro a minha fortitude,
Senhora, por vencer o meu amor…
600
Carlos Drummond de Andrade
Figuras
O Meirinho, o Meirão. Um é craque na bola,
o outro, caricaturista. A vontade que sinto
de ter nascido J. Carlos e vencê-lo.
Dos três irmãos Lins, Ivan ainda não conhece
Auguste Comte e já se mostra sábio.
Capanema, o estudante
três vezes estudante, e completo.
O completo vadio,
ignoro se sou. Sei que não sei
estudar, e isto é grave. Jamais aprenderei.
Vou rasgando papéis pelo pátio varrido.
Todos riem baixinho. Volto-me,
pressentimento.
Atrás de mim Padre Piquet vem, passo a passo,
pousa em meu ombro a punição.
o outro, caricaturista. A vontade que sinto
de ter nascido J. Carlos e vencê-lo.
Dos três irmãos Lins, Ivan ainda não conhece
Auguste Comte e já se mostra sábio.
Capanema, o estudante
três vezes estudante, e completo.
O completo vadio,
ignoro se sou. Sei que não sei
estudar, e isto é grave. Jamais aprenderei.
Vou rasgando papéis pelo pátio varrido.
Todos riem baixinho. Volto-me,
pressentimento.
Atrás de mim Padre Piquet vem, passo a passo,
pousa em meu ombro a punição.
1 067
Carlos Drummond de Andrade
A Norma E o Domingo
Comportei-me mal,
perdi o domingo.
Posso saber tudo
das ciências todas,
dar quinau em aula,
espantar a sábios
professores mil:
comportei-me mal,
não saio domingo.
Fico vendo mosca
zanzar e zombar
de minha prisão.
Um azul bocejo
derrama-se leve
em pó de fubá
no pátio deserto.
Não há futebol,
não quero leitura,
conversa não quero,
vai-se meu domingo.
Lá fora a cidade
é mais provocante
e seu pálio aberto
recobre ignorantes
dóceis ao preceito.
Que aventura doida
no domingo livre
estarão desfiando,
enquanto eu sozinho
contemplo escorrer
a lesma infindável
do meu não domingo?
Digo nomes feios
(calado, está visto).
Não vá ser-me imposta
a perda total
de quantos domingos
Deus for programando
em Minas Gerais.
Abomino a ordem
que confisca tempo,
que confisca vida
e ensaia tão cedo
a prisão perpétua
do comportamento.
perdi o domingo.
Posso saber tudo
das ciências todas,
dar quinau em aula,
espantar a sábios
professores mil:
comportei-me mal,
não saio domingo.
Fico vendo mosca
zanzar e zombar
de minha prisão.
Um azul bocejo
derrama-se leve
em pó de fubá
no pátio deserto.
Não há futebol,
não quero leitura,
conversa não quero,
vai-se meu domingo.
Lá fora a cidade
é mais provocante
e seu pálio aberto
recobre ignorantes
dóceis ao preceito.
Que aventura doida
no domingo livre
estarão desfiando,
enquanto eu sozinho
contemplo escorrer
a lesma infindável
do meu não domingo?
Digo nomes feios
(calado, está visto).
Não vá ser-me imposta
a perda total
de quantos domingos
Deus for programando
em Minas Gerais.
Abomino a ordem
que confisca tempo,
que confisca vida
e ensaia tão cedo
a prisão perpétua
do comportamento.
1 533
Carlos Drummond de Andrade
Aula de Francês
Cette Hélène qui trouble et l’Europe et l’Asie,
mas o professor é distraído,
não vê que a classe inteira se aliena
das severas belezas de Racine.
Cochicham, trocam bilhetes e risadas.
Este desenha a eterna moça nua
que em algum país existe, e nunca viu.
Outro some debaixo da carteira.
Os bárbaros. Será que vale a pena
ofertar o sublime a estes selvagens?
O Professor Arduíno Bolivar
fecha a cara, abre o livro.
Ele não os despreza. Ama-os até.
Podem fazer o que quiserem.
Ele navega só, em mar antigo,
a doce navegação de estar sozinho.
Tine a campainha.
Acabou a viagem, no fragor
de carteiras e pés.
O professor regressa ao rígido
sistema métrico decimal das ruas de Belo Horizonte.
mas o professor é distraído,
não vê que a classe inteira se aliena
das severas belezas de Racine.
Cochicham, trocam bilhetes e risadas.
Este desenha a eterna moça nua
que em algum país existe, e nunca viu.
Outro some debaixo da carteira.
Os bárbaros. Será que vale a pena
ofertar o sublime a estes selvagens?
O Professor Arduíno Bolivar
fecha a cara, abre o livro.
Ele não os despreza. Ama-os até.
Podem fazer o que quiserem.
Ele navega só, em mar antigo,
a doce navegação de estar sozinho.
Tine a campainha.
Acabou a viagem, no fragor
de carteiras e pés.
O professor regressa ao rígido
sistema métrico decimal das ruas de Belo Horizonte.
1 031
Carlos Drummond de Andrade
Aula de Português
A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.
A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.
Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.
A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.
Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.
2 844
Carlos Drummond de Andrade
Aula de Alemão
Baixo, retaco, primitivo,
Irmão Paulo, encarregado da livraria
e do ensino de Goethe a principiantes,
leu um único livro em sua vida:
Arte de Dar Cascudos,
que ele pratica bem, mas não ensina.
Os lábios assustados ficam mudos
para sempre, em germânico.
Irmão Paulo, encarregado da livraria
e do ensino de Goethe a principiantes,
leu um único livro em sua vida:
Arte de Dar Cascudos,
que ele pratica bem, mas não ensina.
Os lábios assustados ficam mudos
para sempre, em germânico.
1 121
Carlos Drummond de Andrade
Programa
Que vais fazer no dia de saída?
Acaso vais reinventar a vida?
Dizendo adeus a negras matemáticas,
nunca mais voltar ao colégio férreo?
Montar em pelo o macho Trintapatas
e galopar no rumo do Insondável?
Buscar destino de cigano ou pária,
livre pra lá da Serra do Curral?
Vais procurar o que é vedado e chama:
a pedra, o som, o signo, a senha, o sumo?
— Vou visitar os tios e os padrinhos.
Vou chateá-los e chatear-me, apenas.
(Preceito Dez, das Tábuas da Família.)
Acaso vais reinventar a vida?
Dizendo adeus a negras matemáticas,
nunca mais voltar ao colégio férreo?
Montar em pelo o macho Trintapatas
e galopar no rumo do Insondável?
Buscar destino de cigano ou pária,
livre pra lá da Serra do Curral?
Vais procurar o que é vedado e chama:
a pedra, o som, o signo, a senha, o sumo?
— Vou visitar os tios e os padrinhos.
Vou chateá-los e chatear-me, apenas.
(Preceito Dez, das Tábuas da Família.)
1 077
Maurício Batarce
Sonhos de Um Poeta
Palavras soltas surgem ao vento.
Em um turbilhão confuso de letras
O poeta acompanha o passar do tempo.
O poeta não racionaliza as palavras,
Não raciocina, sente...
Os sonhadores gostariam de escrever neve
Mas não sabem como se escreve.
Sonham com o campo
Para sentir seu aroma;
Imaginam o horizonte
Mas não o encontram no distante...
São narrados nesse momento
Apenas dissentimentos.
Uma voz ecoa ao vento...
O poeta pega carona nas ondas
E envereda-se para o fim do tapete azul...
Em um turbilhão confuso de letras
O poeta acompanha o passar do tempo.
O poeta não racionaliza as palavras,
Não raciocina, sente...
Os sonhadores gostariam de escrever neve
Mas não sabem como se escreve.
Sonham com o campo
Para sentir seu aroma;
Imaginam o horizonte
Mas não o encontram no distante...
São narrados nesse momento
Apenas dissentimentos.
Uma voz ecoa ao vento...
O poeta pega carona nas ondas
E envereda-se para o fim do tapete azul...
720
Roberto Pontes
Teletipo 1957
hoje eclodiu a chama
o oriente cavalga o cosmos
seu cavalo sputnik
vai sem chouto
a 7 mil km por segundo
rompe a barra magnética
o cinto atmosférico
abre a cortina do espectro
e proclama nova era
o oriente cavalga o cosmos
seu cavalo sputnik
vai sem chouto
a 7 mil km por segundo
rompe a barra magnética
o cinto atmosférico
abre a cortina do espectro
e proclama nova era
1 013
Sophia de Mello Breyner Andresen
Persona
Mitológica personagem — parece
Um falcão do Egipto
Sob seu lógico discurso permanece
Intacto o não dito
Mas algo de falcão nele se inscreve
Hieróglifo indecifrável
E o deus que ele foi ou nele esteve
Desarticula seu olhar instável
Um falcão do Egipto
Sob seu lógico discurso permanece
Intacto o não dito
Mas algo de falcão nele se inscreve
Hieróglifo indecifrável
E o deus que ele foi ou nele esteve
Desarticula seu olhar instável
1 698
Antonio Risério
Um Poema é um poema é um poema?
Saudades de Mario Faustino. Não temos hoje uma crítica textual
que se disponha a examinar culturalmente questões culturais. Em
vez da densidade histórica, da abrangência contextual ou da
espessura ensaística, o que nos servem, na bandeja da imprensa,
são flores falsas, brotos de safadeza sibilina, trazidas das coxias
em que se disputa o "poder literário" e em que personagens pouco
ou nada interessantes se esforçam para exercer minimandarinatos
culturalmente irrelevantes.
Vejam o que se fala hoje da criação poética no Brasil.
É um quadro curioso. Os poetas tipográficos resolveram defender
com unhas e dentes a sua baia escritural. Por quê? Porque estão
se sentindo ameaçados. E assim desferem pontapés capengas
em duas direções. De uma parte, afirmam que letra de música
não é poesia —logo, à lata de lixo com Assis Valente,
Dorival Caymmi, Humberto Teixeira, Noel Rosa, Caetano Veloso e Chico Buarque,
entre muitos outros.
De outra parte, declaram que a visualidade da escrita, no horizonte da
poesia, é algo que só pode ser cultivado e praticado por
Augusto de Campos —e que o melhor que eu e Arnaldo Antunes (entre outros
mais) temos a fazer é enfiar o computador no saco. O que sobra,
então? A poesia tipográfica, é claro.
Os argumentos são tolos —e seus representantes, também. De
um modo geral, ficamos à mercê de baboseiras que se estendem
de achismos quase cândidos a ascherismos sub-haroldianos. É
aí que se ouriçam e enristam armas os tolentinos e bonvicinos
em promoção.
Atacando a lírica da música popular brasileira e decretando
a impossibilidade da existência de uma "poesia visual" (monopólio
de Augusto de Campos), eles limpara o terreno apenas para, claro, eles
mesmos. É compreensível. Durante muito tempo, e apesar das
profecias de Walter Benjamin e Viclímir Khlébnikov, o reino
da poesia tipográfica, carta marcada da modernidade ocidental, se
pensou como único e eterno.
Mas vamos por partes. O problema com a poesia da música popular,
que parecia superado a partir da década de 70, não merece
maiores comentários. Se vamos excluir as "lyrics" do tabuleiro,
atiremos fora gregos, provençais e elizabetanos. E qual o problema
com a música popular? Como já dizia o supracitado Faustino,
a poesia é um pássaro versátil e bem pouco esnobe,
capaz de fazer o seu ninho em qualquer canto. E a relação
poesia-canto é sublinhada sem exclusivismos, nos mais diversos sistemas
culturais. A estética verbal dos índios kuikuro, por exemplo,
distingue entre poesia da fala, da fala cantada e do canto. É a
música que transfigura o que há de bom e belo na fala comum.
Se foi para emitir tolices que Tolentino se educou com governantas e preceptores
europeus, teria sido melhor ir ao Xingu.
Bobagem, também, pensar que uma determinada forma poética
se cristalizou, no interior da "Galáxia de Gutenberg", para durar
por todos os tempos. Esse tipo de fantasia canônica não resiste
ao mais breve exame histórico. O padrão da poesia "vers libre"
impressa (alinhamento pela esquerda, margem direita irregular, letras dispostas
linearmente da esquerda para a direita e passagem de uma linha a outra
no sentido alto-baixo, o conjunto aparecendo como um bloco tipográfico
colado no branco da página) pode ser várias coisas, menos
eterno.
Deixando de parte padrões extra-europeus, para nos limitar à
cultura poética do Ocidente, devemos dizer que, mesmo nesse âmbito,
o cânone é obviamente histórico. Não existia
em tempos medievais, já não era cultivado por Blake e está
longe de reinar sozinho, na esquina entressecular em que nos encontramos.
Na verdade, os discursos que querem reduzir a poesia a um dos formatos
que ela assumiu, ao longo de sua trajetória histórica, indicam
nada mais que a crescente ansiedade de literatos conservadores (sejam tolentinos
ou bonvicinos) diante das transmutações formais que atualmente
presenciamos. E, em consequência, diante da impossibilidade de sustentar
o caráter único ou mesmo a hegemonia do modelo gráfico
que esses mesmos literatos elegeram para o fazer poético.
Mas o fato é que a arte da palavra é anterior ao espaço
gráfico gutemberguiano —e sobreviverá a este. Se a invenção
da máquina de escrever marcou a escrita poética a partir
das últimas décadas do século 19, como evitar que
o computador e seus programas gráfico-visuais não a marquem
igualmente, e ainda com mais intensidade, na virada do século 20
para o 21?
Só alguém enceguecido pelo afã irracional de defender
a sua baia escritural, frente à proliferação de signos
e formas de nossa circunstância histórico-cultural, pode pretender
que a materialização do poético somente seja viável
por meio do "medium" gutemberguiano. O computador, a holografia e o vídeo
estão aí, ao nosso dispor. Para quem quiser (e souber) usá-los.
É apenas tolo tentar bloquear o acesso de "designers" da linguagem
às novas tecnologias de inscrição sígnica.
E mais: não só a poesia concreta, quando nasceu, foi acusada
de "repetição" (o "caligrama"!), como Augusto de Campos,
antes que ser único e inimitável, pertence, como ele mesmo
é o primeiro a saber, a uma longa e rica tradição
planetária.
E, aliás, o que é mesmo que essas pessoas nos apresentam?
Nada digno de nota. Bruno Tolentino é um
empulhador, aproveitando-se da falta de organicidade da vida
cultural brasileira para enfiar azeitonas marketeiras nas empadas que passam
à sua frente. Nelson Ascher é um
crítico mediano (sub-candido, sub-haroldo) e um versejador de oitava
categoria. Os desinformados de sempre comem gato por lebre,
claro. Mas há quem saiba distinguir as coisas.
Na verdade, Tolentino é um subfilhote do
eruditismo alienado, ansioso por se travestir em porta-voz da alta cultura.
Com sucesso, já que estamos onde estamos. Mas, no caso, talvez eu
esteja alvejando pacas fáceis, já que Bonvicino
é um oportunista patológico, e Tolentino traz
a mente e o coração infectados. Seja como for, se a dieta
vai de Bonvicino a Tolentino, estamos, no mínimo, pessimamente servidos.
Ora, que Tolentino e Bonvicino (com seu escudeiro Nelson Ascher) explorem
a escrita tradicional.
E o façam da melhor maneira possível. Mas não queiram
nos proibir de cantar, ou de navegar nas águas luminosas da escrita
multimídia. A quirografia, a tipografia e a infografia são
tecnologias ou tecnologizações da palavra. E, assim como
o canto não cessou diante da barra do tipógrafo, também
não vai se furtar a introduzir perturbações nas redes
hipertextuais que agora se desenham e se ramificam por todo o planeta.
A poesia não nasceu em função do suporte de celulose,
mas como palavra-evento —ou, Homero na ponta da língua, palavra
alada.
Antonio Risério é poeta e antropólogo, autor de,
entre outros, "Textos e Tribos" (Imago, 1993), "Avant-Garde na Bahia" (Instituto
Lina Bo e P.M. Bardi, 1995) e "Fetiche" (Fundação Casa de
Jorge Amado, 1996).
(in Caderno Mais, Folha de São Paulo, 28.04.96)
Fantástico, Ascher fala de bem de Risério!
Voltar para o Disseram
Mais Bovincino
que se disponha a examinar culturalmente questões culturais. Em
vez da densidade histórica, da abrangência contextual ou da
espessura ensaística, o que nos servem, na bandeja da imprensa,
são flores falsas, brotos de safadeza sibilina, trazidas das coxias
em que se disputa o "poder literário" e em que personagens pouco
ou nada interessantes se esforçam para exercer minimandarinatos
culturalmente irrelevantes.
Vejam o que se fala hoje da criação poética no Brasil.
É um quadro curioso. Os poetas tipográficos resolveram defender
com unhas e dentes a sua baia escritural. Por quê? Porque estão
se sentindo ameaçados. E assim desferem pontapés capengas
em duas direções. De uma parte, afirmam que letra de música
não é poesia —logo, à lata de lixo com Assis Valente,
Dorival Caymmi, Humberto Teixeira, Noel Rosa, Caetano Veloso e Chico Buarque,
entre muitos outros.
De outra parte, declaram que a visualidade da escrita, no horizonte da
poesia, é algo que só pode ser cultivado e praticado por
Augusto de Campos —e que o melhor que eu e Arnaldo Antunes (entre outros
mais) temos a fazer é enfiar o computador no saco. O que sobra,
então? A poesia tipográfica, é claro.
Os argumentos são tolos —e seus representantes, também. De
um modo geral, ficamos à mercê de baboseiras que se estendem
de achismos quase cândidos a ascherismos sub-haroldianos. É
aí que se ouriçam e enristam armas os tolentinos e bonvicinos
em promoção.
Atacando a lírica da música popular brasileira e decretando
a impossibilidade da existência de uma "poesia visual" (monopólio
de Augusto de Campos), eles limpara o terreno apenas para, claro, eles
mesmos. É compreensível. Durante muito tempo, e apesar das
profecias de Walter Benjamin e Viclímir Khlébnikov, o reino
da poesia tipográfica, carta marcada da modernidade ocidental, se
pensou como único e eterno.
Mas vamos por partes. O problema com a poesia da música popular,
que parecia superado a partir da década de 70, não merece
maiores comentários. Se vamos excluir as "lyrics" do tabuleiro,
atiremos fora gregos, provençais e elizabetanos. E qual o problema
com a música popular? Como já dizia o supracitado Faustino,
a poesia é um pássaro versátil e bem pouco esnobe,
capaz de fazer o seu ninho em qualquer canto. E a relação
poesia-canto é sublinhada sem exclusivismos, nos mais diversos sistemas
culturais. A estética verbal dos índios kuikuro, por exemplo,
distingue entre poesia da fala, da fala cantada e do canto. É a
música que transfigura o que há de bom e belo na fala comum.
Se foi para emitir tolices que Tolentino se educou com governantas e preceptores
europeus, teria sido melhor ir ao Xingu.
Bobagem, também, pensar que uma determinada forma poética
se cristalizou, no interior da "Galáxia de Gutenberg", para durar
por todos os tempos. Esse tipo de fantasia canônica não resiste
ao mais breve exame histórico. O padrão da poesia "vers libre"
impressa (alinhamento pela esquerda, margem direita irregular, letras dispostas
linearmente da esquerda para a direita e passagem de uma linha a outra
no sentido alto-baixo, o conjunto aparecendo como um bloco tipográfico
colado no branco da página) pode ser várias coisas, menos
eterno.
Deixando de parte padrões extra-europeus, para nos limitar à
cultura poética do Ocidente, devemos dizer que, mesmo nesse âmbito,
o cânone é obviamente histórico. Não existia
em tempos medievais, já não era cultivado por Blake e está
longe de reinar sozinho, na esquina entressecular em que nos encontramos.
Na verdade, os discursos que querem reduzir a poesia a um dos formatos
que ela assumiu, ao longo de sua trajetória histórica, indicam
nada mais que a crescente ansiedade de literatos conservadores (sejam tolentinos
ou bonvicinos) diante das transmutações formais que atualmente
presenciamos. E, em consequência, diante da impossibilidade de sustentar
o caráter único ou mesmo a hegemonia do modelo gráfico
que esses mesmos literatos elegeram para o fazer poético.
Mas o fato é que a arte da palavra é anterior ao espaço
gráfico gutemberguiano —e sobreviverá a este. Se a invenção
da máquina de escrever marcou a escrita poética a partir
das últimas décadas do século 19, como evitar que
o computador e seus programas gráfico-visuais não a marquem
igualmente, e ainda com mais intensidade, na virada do século 20
para o 21?
Só alguém enceguecido pelo afã irracional de defender
a sua baia escritural, frente à proliferação de signos
e formas de nossa circunstância histórico-cultural, pode pretender
que a materialização do poético somente seja viável
por meio do "medium" gutemberguiano. O computador, a holografia e o vídeo
estão aí, ao nosso dispor. Para quem quiser (e souber) usá-los.
É apenas tolo tentar bloquear o acesso de "designers" da linguagem
às novas tecnologias de inscrição sígnica.
E mais: não só a poesia concreta, quando nasceu, foi acusada
de "repetição" (o "caligrama"!), como Augusto de Campos,
antes que ser único e inimitável, pertence, como ele mesmo
é o primeiro a saber, a uma longa e rica tradição
planetária.
E, aliás, o que é mesmo que essas pessoas nos apresentam?
Nada digno de nota. Bruno Tolentino é um
empulhador, aproveitando-se da falta de organicidade da vida
cultural brasileira para enfiar azeitonas marketeiras nas empadas que passam
à sua frente. Nelson Ascher é um
crítico mediano (sub-candido, sub-haroldo) e um versejador de oitava
categoria. Os desinformados de sempre comem gato por lebre,
claro. Mas há quem saiba distinguir as coisas.
Na verdade, Tolentino é um subfilhote do
eruditismo alienado, ansioso por se travestir em porta-voz da alta cultura.
Com sucesso, já que estamos onde estamos. Mas, no caso, talvez eu
esteja alvejando pacas fáceis, já que Bonvicino
é um oportunista patológico, e Tolentino traz
a mente e o coração infectados. Seja como for, se a dieta
vai de Bonvicino a Tolentino, estamos, no mínimo, pessimamente servidos.
Ora, que Tolentino e Bonvicino (com seu escudeiro Nelson Ascher) explorem
a escrita tradicional.
E o façam da melhor maneira possível. Mas não queiram
nos proibir de cantar, ou de navegar nas águas luminosas da escrita
multimídia. A quirografia, a tipografia e a infografia são
tecnologias ou tecnologizações da palavra. E, assim como
o canto não cessou diante da barra do tipógrafo, também
não vai se furtar a introduzir perturbações nas redes
hipertextuais que agora se desenham e se ramificam por todo o planeta.
A poesia não nasceu em função do suporte de celulose,
mas como palavra-evento —ou, Homero na ponta da língua, palavra
alada.
Antonio Risério é poeta e antropólogo, autor de,
entre outros, "Textos e Tribos" (Imago, 1993), "Avant-Garde na Bahia" (Instituto
Lina Bo e P.M. Bardi, 1995) e "Fetiche" (Fundação Casa de
Jorge Amado, 1996).
(in Caderno Mais, Folha de São Paulo, 28.04.96)
Fantástico, Ascher fala de bem de Risério!
Voltar para o Disseram
Mais Bovincino
1 776
Carlos Drummond de Andrade
Cultura Francesa
Com mestre Emílio aprendi
esse pouco de francês
que deu para ler Jarry.
Murilo, diabo na aula,
tinha gestos impossíveis,
que nem macaco na jaula.
Mestre Emílio, tão severo
não via no último banco
o aluno de moral zero.
Os verbos irregulares
saltavam do meu Halbout,
perdiam-se pelos ares.
Nunca mais os encontrei…
Talvez Brigitte Bardot
me ensinasse o que não sei.
esse pouco de francês
que deu para ler Jarry.
Murilo, diabo na aula,
tinha gestos impossíveis,
que nem macaco na jaula.
Mestre Emílio, tão severo
não via no último banco
o aluno de moral zero.
Os verbos irregulares
saltavam do meu Halbout,
perdiam-se pelos ares.
Nunca mais os encontrei…
Talvez Brigitte Bardot
me ensinasse o que não sei.
896
Mário Donizete Massari
Genética
"ALERTA"
OS JORNAIS AVISAM
"cientista renomado, doutorado,[mestrado,
concursado, trabalhado para servir à[ciência,
conseguiu extraordinário avanço, abrindo
perspectivas futuras e nos legando uma
cômoda posição de alívio"
sua descoberta —
"A FOME NÃO É HEREDITÁRIA"
OS JORNAIS AVISAM
"cientista renomado, doutorado,[mestrado,
concursado, trabalhado para servir à[ciência,
conseguiu extraordinário avanço, abrindo
perspectivas futuras e nos legando uma
cômoda posição de alívio"
sua descoberta —
"A FOME NÃO É HEREDITÁRIA"
842
Mauricio Segall
Venham admirar
Venham,
venham admirar
o mais recente monumento
neoclássico da civilização ocidental
Não tenham medo nem receio
das alvas chaminés marítimas,
vigilantes sentinelas avançadas
que vomitam os rugidos do boulez electrônico.
Atravessem ousadamente
o happening programado
vasto pátio de milagres,
repleto de artistas amadores,
profissionais do subemprego
(não esqueçam a moedinha, por favor)
e adentrem a queixada
do mais recente dos molochs.
Tranquilizem-se com as criancinhas
virgens, puras e rosadas
armadilhas inocentes
entrevistas nas provetas
dos ascéticos e desinfetados
ateliers de cria-cria-criatividade.
Venham, venham ser moídos
pela recepção glacial toda sorrisos
deglutidos pelas entranhas desnudas
e expelidos pelas peristálticas tripas de vidro
do mais novo monstro sagrado da arte
sorvedouro metálico
das multidões famintas
de verbo e cor
de som e espetáculo.
Transatlântico multicolorido
circo travestido
novo templo de aço
digerindo tecnologicamente
séculos de sensibilidade
e anos de orçamento.
Cultura nuclear instantânea
para os telespectadores
extasiados com a prestidigitação
arquitetônica do futuro
inserida a golpes de fórceps
entre os velhos tetos de paris.
Ah! Que saudades dos Halles
sacrificados no altar da especulação,
cujo imenso buraco desnudo
nos faz chorar a má-fé dos homens.
Centro Beaubourg-Pompidou
fruto da megalomania furiosa,
ditadura da nova moda,
agencia central da arte
igreja dos novos templos
ritual da nova liturgia,
computador maldito
piscando eternamente
anunciando a nova
e duradoura alienação.
venham admirar
o mais recente monumento
neoclássico da civilização ocidental
Não tenham medo nem receio
das alvas chaminés marítimas,
vigilantes sentinelas avançadas
que vomitam os rugidos do boulez electrônico.
Atravessem ousadamente
o happening programado
vasto pátio de milagres,
repleto de artistas amadores,
profissionais do subemprego
(não esqueçam a moedinha, por favor)
e adentrem a queixada
do mais recente dos molochs.
Tranquilizem-se com as criancinhas
virgens, puras e rosadas
armadilhas inocentes
entrevistas nas provetas
dos ascéticos e desinfetados
ateliers de cria-cria-criatividade.
Venham, venham ser moídos
pela recepção glacial toda sorrisos
deglutidos pelas entranhas desnudas
e expelidos pelas peristálticas tripas de vidro
do mais novo monstro sagrado da arte
sorvedouro metálico
das multidões famintas
de verbo e cor
de som e espetáculo.
Transatlântico multicolorido
circo travestido
novo templo de aço
digerindo tecnologicamente
séculos de sensibilidade
e anos de orçamento.
Cultura nuclear instantânea
para os telespectadores
extasiados com a prestidigitação
arquitetônica do futuro
inserida a golpes de fórceps
entre os velhos tetos de paris.
Ah! Que saudades dos Halles
sacrificados no altar da especulação,
cujo imenso buraco desnudo
nos faz chorar a má-fé dos homens.
Centro Beaubourg-Pompidou
fruto da megalomania furiosa,
ditadura da nova moda,
agencia central da arte
igreja dos novos templos
ritual da nova liturgia,
computador maldito
piscando eternamente
anunciando a nova
e duradoura alienação.
807
Nauro Machado
Cosa Mentale
Pode-se
viver de pensar?
Saber-se coisa dentre um corpo
Como animal de pensamento?
Do pó não pode haver nada:
Apenas mãos, do pó nascidas,
No pó se chamam mãos...Ó Nada!
Ó esplendoroso Nada em ti
na luz do ser após nascido
para a grande noite depois:
teu corpo é um quarto mobilado
sobre quem dispo o pensamento
de todas as suas gavetas.
Minha memória te destrói
- prego por prego - nos ferrolhos,
para tirar-te inteira ao dentro.
Pode-se viver de pensar:
a matéria atrapalha tudo
pelo hábito de acabar-se.
viver de pensar?
Saber-se coisa dentre um corpo
Como animal de pensamento?
Do pó não pode haver nada:
Apenas mãos, do pó nascidas,
No pó se chamam mãos...Ó Nada!
Ó esplendoroso Nada em ti
na luz do ser após nascido
para a grande noite depois:
teu corpo é um quarto mobilado
sobre quem dispo o pensamento
de todas as suas gavetas.
Minha memória te destrói
- prego por prego - nos ferrolhos,
para tirar-te inteira ao dentro.
Pode-se viver de pensar:
a matéria atrapalha tudo
pelo hábito de acabar-se.
1 291
Paulo Augusto Rodrigues
Diamante
Me assustam as crenças.
O sentimento da certeza
Espanta e
Esconde
Sementes idéias.
Muito me assustam as crenças.
As facetas,
Íntimas,
Se perdem
Ante a grandeza da pedra.
Difícil,
Ver por tantos ângulos,
Quando a gema por si
Ofusca minúcias,
Oculta detalhes,
E esmaga,
Tamanha beleza,
Pequenas verdades.
O sentimento da certeza
Espanta e
Esconde
Sementes idéias.
Muito me assustam as crenças.
As facetas,
Íntimas,
Se perdem
Ante a grandeza da pedra.
Difícil,
Ver por tantos ângulos,
Quando a gema por si
Ofusca minúcias,
Oculta detalhes,
E esmaga,
Tamanha beleza,
Pequenas verdades.
886
Mário Donizete Massari
Genética II
"ALERTA"
OS JORNAIS AVISAM
"cientista renomado
conseguiu incrível feito
unindo genes preciosos
à evolução física do homem"
NOTIFICAÇÃO
Está aberto o caminho
para quem quiser aperfeiçoar
a mentalidade e a vida.
OS JORNAIS AVISAM
"cientista renomado
conseguiu incrível feito
unindo genes preciosos
à evolução física do homem"
NOTIFICAÇÃO
Está aberto o caminho
para quem quiser aperfeiçoar
a mentalidade e a vida.
676