Poemas neste tema
Dinheiro e Riqueza
Lalla Romano
O outono é um rei que dá sua última festa
Desbotaram-se os tapizes e os brocados
se desfazem, lânguido é o lampejar
dos ouros
mas que importa?
pois que o rei a cada um já deu sua quota
distribuiu os frutos e as sementes
e desta riqueza é hora agora de gozar:
Nada será guardado
na solidão
do recolhimento e na pobreza deseja o rei
esperar a morte
:
L'autunno è un re che dà l'ultima festa
Sono stinti gli arazzi e ormai consunti
i bei broccati, languido è il brillìo
degli ori
ma che importa?
poichè già diede il re a ciascuno il suo
distribuì i frutti e le seminagioni
e di questa ricchezza ora si goda:
Nulla sarà riposto
in solitario
raccoglimento e in povertà la morte
vuole aspettare il re
se desfazem, lânguido é o lampejar
dos ouros
mas que importa?
pois que o rei a cada um já deu sua quota
distribuiu os frutos e as sementes
e desta riqueza é hora agora de gozar:
Nada será guardado
na solidão
do recolhimento e na pobreza deseja o rei
esperar a morte
:
L'autunno è un re che dà l'ultima festa
Sono stinti gli arazzi e ormai consunti
i bei broccati, languido è il brillìo
degli ori
ma che importa?
poichè già diede il re a ciascuno il suo
distribuì i frutti e le seminagioni
e di questa ricchezza ora si goda:
Nulla sarà riposto
in solitario
raccoglimento e in povertà la morte
vuole aspettare il re
816
Edimilson de Almeida Pereira
Ouro Preto - Roteiro de Interpretação
Ao contemplar o barroco das igrejas
e a rouquidão do ouro, o visitante olhar
não funde o corpo ao tempo: outeiros
tão escuros e não compreende o silêncio
de um totem antes jamais percebido.
O barroco não é o cansaço do ouro
mas o direito do explorado corpo.
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Ô Lapassi & Outros ritmos de ouvido. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1990. p.60. (Coleção Prêmio de Literatura UFMG
e a rouquidão do ouro, o visitante olhar
não funde o corpo ao tempo: outeiros
tão escuros e não compreende o silêncio
de um totem antes jamais percebido.
O barroco não é o cansaço do ouro
mas o direito do explorado corpo.
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Ô Lapassi & Outros ritmos de ouvido. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1990. p.60. (Coleção Prêmio de Literatura UFMG
1 039
Sousa Caldas
As Aves, Noite Filosófica
(...)
Ali a terra com perene vida
Do seio liberal desaferrolha
Riquezas mil, que o Lusitano avaro
Ou mal conhece, ou mal aproveitando,
Esconde com ciúme ao Mundo inteiro.
Ali, ó dor!... ó minha Pátria amada!
A Ignorância firmou seu rude assento,
E com hálito inerte tudo dana,
Os erros difundindo, e da verdade
O clarão ofuscando luminoso.
Ali servil temor, e abatimento
Os corações briosos amortece,
E enquanto a Natureza desenhava
De outro Éden as campinas deleitosas,
A estúpida Ambição com mão mesquinha
Transtornou seu magnífico projeto,
E só parece aparelhar abrigo
Às aves, que do dia se arreceiam,
E procuram da Noite a sombra triste.
(...)
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
Ali a terra com perene vida
Do seio liberal desaferrolha
Riquezas mil, que o Lusitano avaro
Ou mal conhece, ou mal aproveitando,
Esconde com ciúme ao Mundo inteiro.
Ali, ó dor!... ó minha Pátria amada!
A Ignorância firmou seu rude assento,
E com hálito inerte tudo dana,
Os erros difundindo, e da verdade
O clarão ofuscando luminoso.
Ali servil temor, e abatimento
Os corações briosos amortece,
E enquanto a Natureza desenhava
De outro Éden as campinas deleitosas,
A estúpida Ambição com mão mesquinha
Transtornou seu magnífico projeto,
E só parece aparelhar abrigo
Às aves, que do dia se arreceiam,
E procuram da Noite a sombra triste.
(...)
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
1 444
Otaviano Hudson
O Operário
(Fragmentos)
Sobre uma velha enxerga repousa o operário
Doente, sem recursos, exposto ao abandono,
Do leito à cabeceira os filhos recostando-se,
Extorcem-se de fome.
"Papai um pão — papai — exclamam esses lábios
Que a taça do infortúnio estréiam no libar,
"Papai, mamãe é má, o pão mamãe esconde-o,
Pede-lhe o pão — oh! pai!"
E a mulher infeliz, vertendo amaras lágrimas
Como louca vagueia opressa pela dor;
E aos céus conforto roga, ao desespero alívio
Implorando-o debalde!
Quantas vezes, oh! Deus abriu ela o armário
Contemplando-o vazio! e quantas a lareira
Sem nada mais achar, exclama genuflexa:
— Protege-nos oh Deus!
Enquanto atordoado o triste proletário
Revolve-se a gemer e sem poder dormir,
Os míseros filhinhos famintos e esquálidos
Lastimam-se chorando.
A noite desenrola a negra enorme túnica
Sobre áureos palácios e tristes pardieiros,
Em uns quê de folguedos, em outros quê de angústias
Travam-se à sua sombra!
Ai, quanto dissabor esmaga o operário
Quer no leito dolente ou ainda na oficina,
Quanto escárnio, meu Deus, às faces arremessa
Estúpida vaidade!
Tragando humilhações, exposto às intempéries,
À fome, frio, chuvas e outras mil agruras,
Eis do mais inditoso, infeliz operário
Horribile existência!
Novos Sísifos a rolar inglórios
O seixo enorme de um trabalho insano,
Quando tombam no leito — uma trindade abraça —
Miséria, escárnio e dores!
As mãos cheias de calos, as mãos que nobilita
Na lima, no martelo, na serra e na bigorna,
Colhem palhetas de ouro e como as conchas níveas
Pródigas emergem pérolas!
Letras, artes, comércio, indústrias e ciências
Não prescindem do braço invicto do trabalho,
E quando a pátria ultrajam, lá corre o operário
Defende-a te morrer!
Honrando do progresso o prefulgente lábaro,
Na vanguarda marchai dos grandes combatentes
Até que um dia reconquisteis impávidos,
Libérrimos direitos.
O sol que doura os montes espraia os raios ígneos,
Beijando as vossas frontes ungidas de suor;
Quando amortece a flama, no horizonte atufa-se,
Saúda-te operários
Sobre uma velha enxerga repousa o operário
Doente, sem recursos, exposto ao abandono,
Do leito à cabeceira os filhos recostando-se,
Extorcem-se de fome.
"Papai um pão — papai — exclamam esses lábios
Que a taça do infortúnio estréiam no libar,
"Papai, mamãe é má, o pão mamãe esconde-o,
Pede-lhe o pão — oh! pai!"
E a mulher infeliz, vertendo amaras lágrimas
Como louca vagueia opressa pela dor;
E aos céus conforto roga, ao desespero alívio
Implorando-o debalde!
Quantas vezes, oh! Deus abriu ela o armário
Contemplando-o vazio! e quantas a lareira
Sem nada mais achar, exclama genuflexa:
— Protege-nos oh Deus!
Enquanto atordoado o triste proletário
Revolve-se a gemer e sem poder dormir,
Os míseros filhinhos famintos e esquálidos
Lastimam-se chorando.
A noite desenrola a negra enorme túnica
Sobre áureos palácios e tristes pardieiros,
Em uns quê de folguedos, em outros quê de angústias
Travam-se à sua sombra!
Ai, quanto dissabor esmaga o operário
Quer no leito dolente ou ainda na oficina,
Quanto escárnio, meu Deus, às faces arremessa
Estúpida vaidade!
Tragando humilhações, exposto às intempéries,
À fome, frio, chuvas e outras mil agruras,
Eis do mais inditoso, infeliz operário
Horribile existência!
Novos Sísifos a rolar inglórios
O seixo enorme de um trabalho insano,
Quando tombam no leito — uma trindade abraça —
Miséria, escárnio e dores!
As mãos cheias de calos, as mãos que nobilita
Na lima, no martelo, na serra e na bigorna,
Colhem palhetas de ouro e como as conchas níveas
Pródigas emergem pérolas!
Letras, artes, comércio, indústrias e ciências
Não prescindem do braço invicto do trabalho,
E quando a pátria ultrajam, lá corre o operário
Defende-a te morrer!
Honrando do progresso o prefulgente lábaro,
Na vanguarda marchai dos grandes combatentes
Até que um dia reconquisteis impávidos,
Libérrimos direitos.
O sol que doura os montes espraia os raios ígneos,
Beijando as vossas frontes ungidas de suor;
Quando amortece a flama, no horizonte atufa-se,
Saúda-te operários
518
Iacyr Anderson Freitas
Um Caminho Urge
quanto não haveria de consumir-se
para a ostentação e o claustro
dias voados no albume
céus voados
e um vento que não quer
deixar os livros
quanto não haveria de consumir-se
para quedar assim
sobre a mesa
farto
de si
e de toda e qualquer iniqüidade
dias voados céus de alheia estirpe
abancai-vos nestes campos
eis que um caminho urge
sozinho
sob o escuro da flora
para a ostentação e o claustro
dias voados no albume
céus voados
e um vento que não quer
deixar os livros
quanto não haveria de consumir-se
para quedar assim
sobre a mesa
farto
de si
e de toda e qualquer iniqüidade
dias voados céus de alheia estirpe
abancai-vos nestes campos
eis que um caminho urge
sozinho
sob o escuro da flora
819
João Alexandre Júnior
Flúvio-Cosmo-Variantes
Há um mini-Jesus Cristo
inútil em minha cela
enquanto as apostas dobram:
— trinta dinheiros
na Besta do Apocalipse!
Passeio na dominical monotonia
pelos corredores do jornal:
— um Messias eletrônico
engenha novos furos
no cinturão de Von Hallen
em defesa da segurança nacional
da gravidez telúrica.
Maiakovsky reclama direitos autorais
(a verdade leninista
continua a mais vendida).
Nova estrela-arauto
reformula o comercial do Salvador
e em cadeia via Intelstar
anuncia à Aldeia Global:
...Pioneer acusa! ...Pioneer acusa!
Júpiter, a Outra Terra Prometida
...e a estrela é a salvação.
Clandestina felicidade de Clarisse,
sem rosto, branca, choca um ovo,
sem cor, sem promessa,
de síntese marxista.
Poesia faz Manchete
e os Campos abstratos
são o radical secreto do amor-tese
(fez-se do Paulo a síntese de mendigo).
inútil em minha cela
enquanto as apostas dobram:
— trinta dinheiros
na Besta do Apocalipse!
Passeio na dominical monotonia
pelos corredores do jornal:
— um Messias eletrônico
engenha novos furos
no cinturão de Von Hallen
em defesa da segurança nacional
da gravidez telúrica.
Maiakovsky reclama direitos autorais
(a verdade leninista
continua a mais vendida).
Nova estrela-arauto
reformula o comercial do Salvador
e em cadeia via Intelstar
anuncia à Aldeia Global:
...Pioneer acusa! ...Pioneer acusa!
Júpiter, a Outra Terra Prometida
...e a estrela é a salvação.
Clandestina felicidade de Clarisse,
sem rosto, branca, choca um ovo,
sem cor, sem promessa,
de síntese marxista.
Poesia faz Manchete
e os Campos abstratos
são o radical secreto do amor-tese
(fez-se do Paulo a síntese de mendigo).
739
Jaime Gralheiro
Fernão Mendes Pinto
Somos um povo de saltadores/poetas.
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
1 393
Myriam Fraga
Banquete
O vinho
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
1 111
Edgar Allan Poe
Epigram for Wall Street
I'll tell you a plan for gaining wealth,
Better than banking, trade or leases —
Take a bank note and fold it up,
And then you will find your money in creases!
This wonderful plan, without danger or loss,
Keeps your cash in your hands, where nothing can trouble it;
And every time that you fold it across,
'Tis as plain as the light of the day that you double it!
1845
Better than banking, trade or leases —
Take a bank note and fold it up,
And then you will find your money in creases!
This wonderful plan, without danger or loss,
Keeps your cash in your hands, where nothing can trouble it;
And every time that you fold it across,
'Tis as plain as the light of the day that you double it!
1845
1 170
Jorge Luis Borges
El alquimista
Lento en el alba un joven que han gastado
la larga reflexión y las avaras
vigilias considera ensimismado
los insomnes braseros y alquitaras.
Sabe que el oro, ese Proteo, acecha
bajo cualquier azar, como el destino;
sabe que está en el polvo del camino,
en el arco, en el brazo y en la flecha.
En su oscura visión de un ser secreto
que se oculta en el astro y en el lodo,
late aquel otro sueño de que todo
es agua, que vio Tales de Mileto.
Otra visión habrá; la de un eterno
Dios cuya ubicua faz es cada cosa,
que explicará el geométrico Spinoza
en un libro más arduo que el Averno...
En los vastos confines orientales
del azul palidecen los planetas,
el alquimista piensa en las secretas
leyes que unen planetas y metales.
Y mientras cree tocar enardecido
el oro aquel que matará la Muerte,
Dios, que sabe de alquimia, lo convierte
en polvo, en nadie, en nada y en olvido.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 237 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
la larga reflexión y las avaras
vigilias considera ensimismado
los insomnes braseros y alquitaras.
Sabe que el oro, ese Proteo, acecha
bajo cualquier azar, como el destino;
sabe que está en el polvo del camino,
en el arco, en el brazo y en la flecha.
En su oscura visión de un ser secreto
que se oculta en el astro y en el lodo,
late aquel otro sueño de que todo
es agua, que vio Tales de Mileto.
Otra visión habrá; la de un eterno
Dios cuya ubicua faz es cada cosa,
que explicará el geométrico Spinoza
en un libro más arduo que el Averno...
En los vastos confines orientales
del azul palidecen los planetas,
el alquimista piensa en las secretas
leyes que unen planetas y metales.
Y mientras cree tocar enardecido
el oro aquel que matará la Muerte,
Dios, que sabe de alquimia, lo convierte
en polvo, en nadie, en nada y en olvido.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 237 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 399
Durvalino Filho
O Rei Estava Ensimesmado
O rei estava ensimesmado,
De sua boca nada se ouvia
— nenhuma ordem para hoje,
nenhum enforcamento.
Não foi cobrado o dízimo da noite.
Um escândalo arrebentou na economia
e não foi liberado o pensamento
porque o rei havia-se calado
e o país inteiro adormecia.
O enclausurado urrou por entre as grades.
Mil acidentes com os bóias-frias.
O bispo ficou celerado, possesso
e o diabo rezou a ordem do dia.
Na iniciativa privada
forjaram-se falências desastrosas
com a mudez do rei que só ouvia.
Mataram cães de estimação
em mansões de beira-rio.
Comunidades se desintegraram,
crianças tornaram-se desafio
e a nudez das mulheres
virou prato do dia,
Adeus, véus de Alexandria!
Não houve festas nas periferias
e as mentiras aumentaram em abril.
Até que o rei declarou
num assomo de agonia:
"Nada mudou no Brasil."
De sua boca nada se ouvia
— nenhuma ordem para hoje,
nenhum enforcamento.
Não foi cobrado o dízimo da noite.
Um escândalo arrebentou na economia
e não foi liberado o pensamento
porque o rei havia-se calado
e o país inteiro adormecia.
O enclausurado urrou por entre as grades.
Mil acidentes com os bóias-frias.
O bispo ficou celerado, possesso
e o diabo rezou a ordem do dia.
Na iniciativa privada
forjaram-se falências desastrosas
com a mudez do rei que só ouvia.
Mataram cães de estimação
em mansões de beira-rio.
Comunidades se desintegraram,
crianças tornaram-se desafio
e a nudez das mulheres
virou prato do dia,
Adeus, véus de Alexandria!
Não houve festas nas periferias
e as mentiras aumentaram em abril.
Até que o rei declarou
num assomo de agonia:
"Nada mudou no Brasil."
358
Fernando Pessoa
Cena da Taberna
— Doutor Fausto?
FAUSTO:
Sim.
— O Doutor Fausto?
FAUSTO:
O Doutor Fausto, sim: o que há em sê-lo?
— Nada, confesso-o a rir e acreditara-o
Pois o não vira, mas de vós diziam
Serdes versado em artes e matérias
Do mágico e (...) horror (...)
A rir o digo que vos vejo aqui
Entre nós e bebendo como nós.
FAUSTO:
Sim, assim é; quem como eu vivia
Aparte logra sempre a negra fama
De bruxo... Há em mim cousa que mostre
Conhecimento d'artes vis e negras
Ou sacerdócio escuro de Satan?
— Nada; olhando bem em vós só vejo
Algo de triste que não é tristeza
No vosso rosto e no vosso olhar
Há uma causa a menos ou a mais
Que em outro... Isto vejo, ou me parece.
Perguntastes-me e rindo respondi.
FAUSTO:
Agradeço-vos; traçastes-me retrato
Tão completo de bruxo
Que começo a ter medo de mim mesmo.
— Canta, oh Frederico
Aquela canção doida de beber
Chamada «O Bebedor» ou coisa assim.
FRED:
A do «Bom Bebedor».
OUTRO:
É essa mesmo.
TODOS:
Venha, venha a canção.
FRED:
Lá vai amigos
(e depois)
E oxalá que, ao cantá-la, esquecer possa
Ou antes, não lembrar onde a aprendi.
Criança então era feliz. Lá vai:
Bom bebedor, bebe-me bem
Bebe-me, bom bebedor.
Só uma cousa boa esta vida tem
É o vinho: mira-lh’ a cor!
CORO
A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me, bom bebedor.
Que morra de fome mulher e mãe
Haja vinho, que é o melhor!
CORO
A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
Deixe a guela o vinho lá quando vem
Em lugar dele o estertor.
CORO
A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
A vida sem vinho é um triste horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
O, leite, da parra é melhor que o amor
Bebe-me, bebe-me bom bebedor
CORO
Bom bebedor bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor
Que faz que a mulher ande à gandaia
E a filha seja pior
E a puta da neta levante a saia
Até ao quintal do prior?
O vinho é o mesmo e da mesma cor
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor
CORO
Bom bebedor, bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor.
Bom bebedor, bebe-lhe rijo
Bom bebedor, bebe-lhe bem;
O vinho que dá? Alegria e mijo,
E a vida não vale melhor
E se a vida é isto e a cova um horror
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor.
TODOS:
Bravo! Bravo!
FAUSTO:(saudando)
A quem escreveu essa canção.
Não foi o camarada?
FRED:
Versos, eu?
Nada aprendi-a, e há o tempo. É pouca coisa,
Uma maneira qualquer de berrar.
FAUSTO:
Eu sinto-me irrequieto.
FRED:
Isso é do vinho!
FAUSTO:
Do vinho?
FRED:
Olá se é. A uns dá-lhe assim
A outros doutra maneira. Isso é confuso.
Um velho tio meu que não fazia
Senão beber...
OUTRO:
Fazia bem...
FRED:
Pois esse
Dizia ser indício de saúde
Dar o vinho p'ra bulhas e contendas
«Estar irrequieto» como este lhe chama.
FAUSTO:
Sim.
— O Doutor Fausto?
FAUSTO:
O Doutor Fausto, sim: o que há em sê-lo?
— Nada, confesso-o a rir e acreditara-o
Pois o não vira, mas de vós diziam
Serdes versado em artes e matérias
Do mágico e (...) horror (...)
A rir o digo que vos vejo aqui
Entre nós e bebendo como nós.
FAUSTO:
Sim, assim é; quem como eu vivia
Aparte logra sempre a negra fama
De bruxo... Há em mim cousa que mostre
Conhecimento d'artes vis e negras
Ou sacerdócio escuro de Satan?
— Nada; olhando bem em vós só vejo
Algo de triste que não é tristeza
No vosso rosto e no vosso olhar
Há uma causa a menos ou a mais
Que em outro... Isto vejo, ou me parece.
Perguntastes-me e rindo respondi.
FAUSTO:
Agradeço-vos; traçastes-me retrato
Tão completo de bruxo
Que começo a ter medo de mim mesmo.
— Canta, oh Frederico
Aquela canção doida de beber
Chamada «O Bebedor» ou coisa assim.
FRED:
A do «Bom Bebedor».
OUTRO:
É essa mesmo.
TODOS:
Venha, venha a canção.
FRED:
Lá vai amigos
(e depois)
E oxalá que, ao cantá-la, esquecer possa
Ou antes, não lembrar onde a aprendi.
Criança então era feliz. Lá vai:
Bom bebedor, bebe-me bem
Bebe-me, bom bebedor.
Só uma cousa boa esta vida tem
É o vinho: mira-lh’ a cor!
CORO
A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me, bom bebedor.
Que morra de fome mulher e mãe
Haja vinho, que é o melhor!
CORO
A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
Deixe a guela o vinho lá quando vem
Em lugar dele o estertor.
CORO
A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
A vida sem vinho é um triste horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
O, leite, da parra é melhor que o amor
Bebe-me, bebe-me bom bebedor
CORO
Bom bebedor bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor
Que faz que a mulher ande à gandaia
E a filha seja pior
E a puta da neta levante a saia
Até ao quintal do prior?
O vinho é o mesmo e da mesma cor
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor
CORO
Bom bebedor, bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor.
Bom bebedor, bebe-lhe rijo
Bom bebedor, bebe-lhe bem;
O vinho que dá? Alegria e mijo,
E a vida não vale melhor
E se a vida é isto e a cova um horror
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor.
TODOS:
Bravo! Bravo!
FAUSTO:(saudando)
A quem escreveu essa canção.
Não foi o camarada?
FRED:
Versos, eu?
Nada aprendi-a, e há o tempo. É pouca coisa,
Uma maneira qualquer de berrar.
FAUSTO:
Eu sinto-me irrequieto.
FRED:
Isso é do vinho!
FAUSTO:
Do vinho?
FRED:
Olá se é. A uns dá-lhe assim
A outros doutra maneira. Isso é confuso.
Um velho tio meu que não fazia
Senão beber...
OUTRO:
Fazia bem...
FRED:
Pois esse
Dizia ser indício de saúde
Dar o vinho p'ra bulhas e contendas
«Estar irrequieto» como este lhe chama.
1 542
Edigar de Alencar
Balada do Cearense
— Mamãe, eu vou pro Amazonas,
não quero ficar aqui,
já estou cansado de tudo,
não suporto essa leseira.
— Meu filho, não diz besteira!
— Mamãe, eu quero embarcar,
vou pro Acre, vou pro diabo,
aqui eu não fico mais,
não posso viver assim,
sem dinheiro, maltrapilho,
isso aqui parece o inferno,
quero ir pro paraíso.
— Meu filho, toma juízo!
— Mamãe, tenha paciência,
vou-me embora pro Amazonas,
que me importa com sezões,
com maleita, com febrões,
aqui eu morro de fome,
não posso mais vender bicho
que a policia prende a gente.
Mamãe, não me dê conselho
que fala pra banda mouca.
— Meu filho, cala essa boca!
— Mamãe, é hoje o meu dia,
preparei minha tipóia,
vou ganhar muito dinheiro,
vou comprar um seringal,
um dia eu volto, mamãe,
e trago a felicidade!
— Nossa Senhora te ajude,
São José seja teu pai!
Vai com Deus, meu filho, vai...
não quero ficar aqui,
já estou cansado de tudo,
não suporto essa leseira.
— Meu filho, não diz besteira!
— Mamãe, eu quero embarcar,
vou pro Acre, vou pro diabo,
aqui eu não fico mais,
não posso viver assim,
sem dinheiro, maltrapilho,
isso aqui parece o inferno,
quero ir pro paraíso.
— Meu filho, toma juízo!
— Mamãe, tenha paciência,
vou-me embora pro Amazonas,
que me importa com sezões,
com maleita, com febrões,
aqui eu morro de fome,
não posso mais vender bicho
que a policia prende a gente.
Mamãe, não me dê conselho
que fala pra banda mouca.
— Meu filho, cala essa boca!
— Mamãe, é hoje o meu dia,
preparei minha tipóia,
vou ganhar muito dinheiro,
vou comprar um seringal,
um dia eu volto, mamãe,
e trago a felicidade!
— Nossa Senhora te ajude,
São José seja teu pai!
Vai com Deus, meu filho, vai...
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Castro Alves
A Canção do Africano
Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto o braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão...
De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez, pr'a não o escutar!
"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
"O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!
"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar...
"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".
O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
P'ra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!
.............................
O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.
E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!
Recife, 1863.
Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986
Sentado na estreita sala,
Junto o braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão...
De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez, pr'a não o escutar!
"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
"O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!
"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar...
"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".
O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
P'ra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!
.............................
O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.
E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!
Recife, 1863.
Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986
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