Poemas neste tema

Dinheiro e Riqueza

Alexei Bueno

Alexei Bueno

OrÆ MaritimÆ

Este é o tempo das barcaças.
O mar sempre resta! O mar
É a massa de modelar
Do vento fazer desgraças.

Ah! que profunda alegria!
Vontade de comer ervas!
Pastar! Nova fantasia!
Erguer as salas das servas!

Sim! Pastar! Grama molhada
Onde brilha verde o sol!
Cuspir ostras de um farol
Numa barba almirantada!

Adeus! Irei pelos campos
Mordendo a grama com ardor
No meio dos pirilampos
Qual Nabucodonosor.

Destroçarei com meus dentes
As ovelhas desgarradas
E os pastores nas estradas
Me caçarão descontentes.

Mas sem me achar. Pois ao mar
já terei saltado então
Soltando gritos pelo ar
Como um pássaro poltrão.

Até que chegue a um navio
E urrando cheio de rum
Mate a todos, um por um,
Até deixá-lo vazio.

Então me dirijo a um porto,
Contrato a ralé da escória
E em capitão meio torto
Me sagro cheio de glória!

Pelos mares e oceanos
Baleia Bêbada é o barco!
O terror prepara o charco
Do pântano dos meus planos!

Mil cascos são abordados!
Embebedam-se os bebês!
Os varões viram varados!
E as damas lutam com seis!

Junto o ouro, o ouro, o ouro!
Os homens andam na prancha
E a minha pele se mancha
Das cores do meu tesouro!

O sol é dourado! O sol
É uma moeda afinal
Que ofusca, e que no arrebol
Tomba em seu cofre de sal!

A luz! A luz é a vida!
Mas a sinistra caterva
Só quer beber, e me enerva
Dançando entenebrecida.

Pulando do alto dos mastros
Como macacos no azul
E vomitando nos astros
Ondas de prata e paul.

Bebem, bebem noite e dia,
Vagalhões de vinho e gim
E só lhes surge no fim
Uma nenhuma alegria.

Enquanto a escutar o baque
De cada grogue que rola
Fazendo as contas do saque
Minha alma se enche de cola.

Imóvel, noites a fio,
Escriturando o tesouro
Enquanto como um besouro
Voa zunindo o navio.

Mas não! Não foi para isto
Que fugi de toda a terra!
Estranha estátua de Cristo
Largada nos chãos da guerra!

Não! Surge o sol. É a aurora!
Com um grito, armado de um pau,
Vou surrando toda a nau
Jogando os homens pra fora!

Pela borda! Urra! É a alegria!
Todos caem! Lá na água
Os tubarões neste dia
Não sentirão qualquer mágoa!

Jogo o resto deles! Lanço
Um lampião no paiol!
Tudo explode! Rumo ao sol
Como um foguete eu avanço!

Vou voando, enquanto chove
Minha gorda arca roubada
Sobre o mar que se comove,
Como uma chuva dourada!

Subo. Subo. O sol se amplia.
Desmaio. Acordo caindo
No continente, e ele rindo
Abre a bocarra sadia.

Vou tombar bem numa igreja!
Os fiéis, sem compreender,
Rezando, temem que eu seja
Um anjo, e choram, por crer!

Surro todos eles. Corro
Para o campo. Atrás de mim
Ferozes, com o seu mastim,
Vêm já os pastores de gorro.

Depois os donos do barco,
E os parentes dos saqueados,
E os outros, de amor bem parco,
Surgem por todos os lados!

Querem todos me pegar!
Vêm correndo! Chegam perto!
Mas como um monstro desperto
Eu paro e grito a babar!

Vôo em cima deles! Chuto
Suas cabeças sem nada!
Quebro, espanco, e como um bruto
Fujo da terra empestada!

Fujo, idiota e feliz,
Para o sol, o sol, o sol,
Que ri como um grande atol
De dentes de ouro e de giz!

Fujo, correndo, a alma fora,
Sorrindo, o eleito do dia,
Até chegar aonde mora
A eterna e interna alegria!

Em busca de algo, o futuro,
Que ri porque vai viver
E já boceja a se erguer
Enquanto me olha do escuro

Chegando lá, e escarrando
No que houve antes, e assim
Gargalhando, e vos rasgando,
Vida e versos. Logo: Fim!

1 236
Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

Tirem leite de pedra

Tirem leite de pedra,
extraiam ouro da merda,
nenhuma esquerda ecoa
nada providencia a sombra boa
neste calor da porra, do primeiro
pau-brasil não sobrou sequer o talo
o cepo seco, nenhuma urina insípida
ativa a latrina neste país de pus
e súlfur, aqui é o cu do judas
é onde o vento faz a curva
onde não há cura pro mal, só
carnaval, há curra pra cultura
o show da vida, a mídia burra
a língua culta contra a fala chula
é pau na bunda da turba, é pica
sifilítica pro boquete dos
banguelas “the horror – a merda
– the horror – a merda”
domingos no parque com pique-
niques de alpiste – “é triste” –
farinha e água e mais nada
aqui é o parque da gentalha
ávida por favores e dádivas
terra brasilis sob o piche
nem ave-maria ou reza pra virgem
salvam este projeto inexequível
democracia de cu é rola, no
planalto a apoteose da sandice
onde tudo que existe é alpiste
farinha e água e mais nada
alguma boa intenção resiste?
é, amigos, é triste
691
Tomás Antônio Gonzaga

Tomás Antônio Gonzaga

Carta 5a

Em que se contam as desordens feitas nas
festas, que se celebraram nos desposórios de nosso
Sereníssimo Infante com a Sereníssima Infanta de
Portugal

(...)

Enquanto, Doroteu, a nossa Chile
Em toda a parte tinha à flor da terra
Extensas, e abundantes minas de oiro;
Enquanto os Taberneiros ajuntavam
Imenso cabedal em poucos anos,
Sem terem nas Tabernas fedorentas
Outros mais sortimentos, que não fossem
Os queijos, a cachaça, e o negro fumo,
E sobre as parteleiras poucos frascos;
Enquanto enfim as negras quitandeiras
À custa dos Amigos só trajavam
Vermelhas capas de galões cobertas,
De galacês, e tissos, ricas saias:
Então, prezado Amigo, em qualquer festa
Tirava liberal o bom Senado
Dos cofres chapeados grossas barras.
Chegaram tais despesas à notícia
Do Rei prudente, que a virtude preza;
E vendo, que estas rendas gastavam
Em touros, Cavalhadas, e Comédias,
Aplicar-se podendo a cousas santas;
Ordena providente, que os Senados
Nos dias, em que devem mostrar gosto
Pelas Reais fortunas, se moderem,
E só façam cantar no Templo os Hinos,
Com que se dão aos Céus as justas graças.

Ah! meu bom Doroteu, que feliz fora
Esta vasta Conquista, se os seus Chefes
Com as leis dos Monarcas se ajustaram!
Mas alguns não presumem ser vassalos;
Só julgam, que os Decretos dos Augustos
Têm força de Decretos, quando ligam
Os braços dos mais homens, que eles mandam;
Mas nunca, quando ligam os seus braços.

(...)

À força do temor o bom Senado
Constância já não tem; afroxa, e cede.
Somente se disputa sobre o modo
De ajuntar-se o dinheiro, com que possa
Suprir tamanho gasto o grande Alberga.
Uns dizem, que das rendas do Senado
Tiradas as despesas, nada sobra.
Os outros acrescentam, que se devem
Parcelas numerosas impagáveis
Às consternadas amas dos expostos.
Uns ralham, outros ralham; mas que importa?
(...)

Imagem - 00170001


Publicado no livro Cartas Chilenas (1845).

In: GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas chilenas. Introd. cronol. notas e estabelecimento de texto Joaci Pereira Furtado. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.115-120. (Retratos do Brasil, 1
1 912
Renato Rezende

Renato Rezende

Pimentões Perfeitos

Num supermercado de um bairro pobre
vi uma bancada de pimentões amarelos,
ainda bons, saborosos
mas feios, amassados, alguns muito pequenos,
outros tortos,
diferentes dos pimentões plenos e perfeitos
mas encerados
dos Supermercados Eldorado.

Quando olhei para as pessoas notei
que são como os pimentões que comem.


São Paulo, 2 de outubro 1992
983
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

Milena

gosto quando milena fala
dos homens
que comeu durante a noite

é a única voz soante
nesta cantina de repartição

onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril

sem a voz de milena
o café desce amargo
884
Al Berto

Al Berto

percorro todo

percorro todos os teus buracos inúteis...alastra-me em redor do coração uma dor de sangue, o asfalto cobre-se de luzes alucinantes e solidão
da noite ecoam passos, nas ruas desertas ficam à solta os animais lendários da minha bebedeira
lutam comigo até de manhã, morrem à beira da minha boca

e conheço o amargo pão da tua sol/dadura, o ouro líquido que não chega para enriquecer um homem
o mar tem a solidão dos teus ais...medonhos ais, que persistem para lá da demorada insónia
o sol tornou-se rubro e cospe flores que provocam o sono, e o esquecimento
1 802
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Piazza della Signora

Ora, pobres sempre houve, senhor.
E todos sabemos, foi assim ordenado,
que não há mal que não venha por bem.
Muito mesquinhos seríamos nós,
muito egoístas, se não nos alegrasse
que do nosso suor tenha nascido a arte
de gastar dinheiro, para que dentro
de cem ou mil anos também os nossos
descendentes possam ter o direito de
cagar sentados, ouvir música de câmara
ou sair do dentista com um sorriso
nos dentes. Se valeu a pena o sacrifício?
Isso nem se pergunta. Pessoalmente,
só lamento não ter podido dar mais
do que uma vida, mas era a única que tinha,
e morro, por isso, de consciência tranquila.
1 000
Renato Rezende

Renato Rezende

O Mendigo

Sou o mendigo
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.


Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
1 020
Daniel Jonas

Daniel Jonas

UMA SAISON NOS INFERNOS

Tudo é breve: um deus,
o plâncton, o ferro.
O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.

A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:

Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
731 1
Chico Buarque

Chico Buarque

O meu guri

Chico Buarque 1981

Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta conrrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega no morro ocom o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço de mais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo, de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri

3 190
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Sacrifiquei sem nenhum remorso

Sacrifiquei sem nenhum remorso
os talheres de prata, o açúcar e os licores franceses.
Contudo, não precisei de empurrar nenhuma velha
para avançar na fila.
Quando apanhei o caminho certo,
a sorte abriu, sem hesitar, as pernas.
A partir daí foi fácil:
hoje, um ovo, amanhã, uma vaca.
Tudo isso, no pantanal do Oeste,
bem longe das grandes metrópoles
e do brilho das montras,
mas onde aprendi a cultivar a leveza
e a ouvir o canto do galo
que, por estes lados da madrugada,
tanto serve de despertador
como para a canja.
818
Renato Rezende

Renato Rezende

] Corpo [

Partindo do princípio, eu desisto
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.

Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.

Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.

Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.

As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe

e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém

para ser oco, novo, fogo, ouro:

UM CORPO DEVORA O OUTRO
1 006
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Too big to fail

Como pode um investimento tão fiável
garantir este rendimento crescente, numa
diária distribuição de beijos e outras mais-
valias, ainda por cima livres de impostos?

Embora confiasse na tua competência
para criar valor, confesso que não esperava
tanto quando decidi aplicar nos teus títulos
sensíveis os meus parcos activos emocionais.

O mais estranho no mundo actual, é ser este
um negócio sem perdedores, aparentemente
imune ao nervosismo das tuas acções
ou às flutuações do meu comércio libidinal.

O meu único receio é que despertemos
a inveja dos deuses, no Olimpo de Bruxelas,
e que Mercado, o monstruoso titã, decida
baixar para lixo o "rating" da nossa relação,

deixando-nos sem crédito na praça romanesca
e em "default" o coração. Mas não sejamos
pessimistas. Aliás, ambos sabemos que Cupido
nos ampara com sua mão invisível. E mesmo

que entrássemos ambos em depressão, tenho
a certeza de que o Estado português nos daria
todo o apoio, concordando que um amor como
este é simplesmente demasiado grande para falir.
1 284
Renato Rezende

Renato Rezende

Luz

quero sangue, sangue, de ouro
quero bosta, bosta, de ouro
quero porra, porra, de ouro
quero corpo, corpo, de ouro
sangue bosta porra corpo
corpo corpo corpo corpo
corpo ouro corpo ouro
ouro ouro ouro ouro
ouro ouro ouro ouro
1 159
José Miguel Silva

José Miguel Silva

O Grande Circo de Montekarl

Não gosto especialmente de circo, mas como não há
mais nada e uma pessoa tem de se entreter com alguma
coisa, cá vim. Confesso que me atraiu sobretudo o número
da Grande Conflagração do Capitalismo, anunciado
em letras vermelhas no cartaz. A questão que se põe é:
a que horas começa? Pergunto, ninguém sabe.

Francamente, isto nem parece uma produção americana.
Estamos aqui de pé há sei lá quantas horas e nada sai
do ramerrão: entram palhaços, saem palhaços, uns mais
ricos, outros menos, mas todos iguais, todos sem graça.
Já nem os posso ver. E domadores de caniches,
burricos, cantilenas de latão. Isto põe-me doente.

Agora são os comedores de fogo. Que seca do caralho.
Só nos falta um mágico - pronto, para que é que eu falei.
Mais valia ter ficado em casa. Mas a culpa é minha -
bilhetes tão baratos, devia ter desconfiado. Podia tentar sair,
mas como, se nem consigo ver a porta? E sair para onde?
Para o frio da noite? Estamos bem fodidos.
1 008
Marcelo Batalha

Marcelo Batalha

Com desejo

Peão...
Sossego ?
Sem calma : sempre a bola
da vez. Chicote
no couro, à beira,
ao largo - no fio -
do rio
no frio amargo
peneira o ouro.
Fracote não tem vez !
Imola sua alma...
Pelego ?
Peão !

A dama,
virtude
de amor inconteste,
é revolta, chaga,
de paixão quase inerte
que aguarda, por sorte,
que o forte
aborte a guarda,
liberte o peão,
o traga de volta,
e reempreste calor
e plenitude
à cama.

E que, então, os dois,
em comunhão,
rejam os hinos
de um ardoroso balanço,
arfando, no peito,
aquele amar arraigado,
procurado,
saciado: um uno par
satisfeito, quando,
no remanso do gozo,
como meninos, deixam
a obrigação
- e a razão - para depois.

742
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Meia-noite todo dia

Meia-noite todo dia
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.

Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".

Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
905
Beatriz Alcântara

Beatriz Alcântara

Tiradentes

O perfume da dama da noite apouca
séculos de vielas íngremes
tempo cansado de ver subir descer
ruas de pedra vermelha roliça
a entremear-se com outra em lâmina.
O perfume da dama da noite destouca
Lembranças da inconfidência insubmissa
enquanto a igreja no alto de portões cerrados
parece não acreditar por não se ofender
pecados de hoje já por tantos sussurrados.
O perfume da dama da noite touca
a brisa que volteia jardins e casas
candeeiros solitários de chama mortiça
amigos à volta da mesa grande a comer
jantar entre vinho e risos preparado.
O perfume da dama da noite treslouca
quem a vida dos outros cobiça
não aceita pelo amor viver sobre brasas
com os encantos namorados sente desprazer
gemidos a ecoarem no coração angustiado.

990
Argemiro de Paula Garcia Filho

Argemiro de Paula Garcia Filho

Pedido de Desligamento

Senhor CAlex,
por favor não me incomode,
meu correio
anda cheio
de tanta aporrinhação.
Senhor CAlex,
a poesia não me acode
o que eu quero e ter dinheiro
tanto assim que, em fevereiro,
eu trabalho pro patrão.
Senhor CAlex,
que vantagem o senhor leva
em mandar tanta poesia,
a tanta gente, todo dia,
sem receber um tostão?
Senhor CAlex,
quero a vida sempre em treva,
não quero trova,
a poesia não escova
meu bolso sempre sem tostão.

Salvador, 19/12/96

1 001
José Armelim

José Armelim

Augusta

A azáfama é enorme!
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.

950
Cora Coralina

Cora Coralina

O Longínquo Cantar do Carro

(...)

Carregar o carro, jungir os bois,
pegar na dispensa da casa grande mantimento para a viagem,
— quatro dias ida e volta, receber a lista das encomendas,
levar bruacas de couro por cima do taboado com os presentes
que a fazenda oferecia a parentes,
era a rotina da vida no Paraíso e nós, jovens, ansiando já pela volta
[do carro,
cartas e jornais do Rio de Janeiro.
Minha mãe era assinante do "Paiz" e para nós vinham os romances
do Gabinete Literário Goiano.
Esperar a volta do carro, imaginar as coisas que viriam da cidade,
tomavam a imaginação desocupada das meninas moças.
Acostumei a ler jornais com a leitura do "Paiz".
Colaboravam Carlos de Laet, Arthur Azevedo, Júlia Lopes de Almeida,
Carmem Dolores.
Meus primeiros escritinhos foram publicados no suplemento desse
[jornal.
Acompanhei, na sua leitura, fatos e acontecimentos universais.
O casamento de Afonso XIII com a princesa de Betenberg,
neta da rainha Vitória, um atentado anarquista,
uma bomba atirada no cortejo nupcial.
E mais todo o desenrolar da guerra russo-japonesa no começo deste
[século,
onde o Japão se revelou potência bélica, vencendo a Rússia.
Muitos meninos nascidos naquele tempo
tiveram o nome de Togo, o grande general japonês
A casa esperava o café. Regrava-se o sal na cozinha.
As mulheres dos moradores também esperavam suas encomendas.
Chita vistosa para vestidos, chinelos para dia santo e domingo.
Pente. Carrinho de linha, agulheiro, peça de algodão Americano.
Salamargo, riscado para camisa de homem. Metros de mescla barata
para o nu dos meninos, lenço ramado pra cabeça.
Alguma ferramenta para o serviço.
A "carrada" tinha que pagar toda esta bagaceira,
às vezes um saldo, mais vezes um "deve" no comércio
para acertar "da outra vez".

Uma festa, apurar o ouvido ao longínquo cantar do carro,
avistado na distância, esperar as novidades que vinham:
cartas, livros e jornais.
Era uma vida para aquela mocidade despreocupada,
pobre e feita de sonhos.

Imagem - 00580006


In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
2 481
Eduardo Alves da Costa

Eduardo Alves da Costa

Poema do Amor Impossível a Candice Bergen

Candice candy
lovely sweet
sexy vamp
Candice Bergen!
Ergo-te um brinde
de erva-doce
como se fosse fino frapê
de LSD.
Musa diva mito
misto de absinto
e creme de hortelã:
sou teu fã.

Faça-se um pôster do teu rosto
para delírio da massa ocidental
de causar inveja ao próprio Mao.
Quem se negaria a trabalhar em dobro
alimentado pelo teu quase-sorriso,
tão monaliso?
Serias meta, recompensa, prêmio-produção
cravado com fitinha multicor
no coração do vencedor.
A indústria nacional ia à falência
de tanta saliência.
Atingiríamos o mais alto índice
de masturbação per capita,
exportaríamos Candices mulatas, olhos azuis.
Quem sabe o exemplo de tua rebeldia
nos libertasse da tirania
do preço, do plano, do lucro?
Serias acessível pelo crediário,
subversiva à ordem dos fatores,
alteração do produto.
Para os mais pudicos,
faríamos santinho com a tua imagem;
te chamariam Maria
— não digo virgem, sei lá...
Ah, não haveria padre que chegasse
ao fim da missa!

(...)


In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 514
Maria Suely de Oliveira

Maria Suely de Oliveira

São Paulo

São Paulo
Vista do chão
É a civilização
É chiclete
Espaguete
Gilete
Papelão
Página internética
Perdida no espaço
Máquina moderna
Fábrica de miséria
Memória de bagaço
De sangue, suor,
Poeira, aço
E pedaço de pão
É a civilização
Megalópole de vida mutante
Espremida no esperma
Do lixo de luxo
Do espigão
É a civilização
Mercadora de entulho
Mendiga de sonho
Caco de ilusão
É a civilização
De São Paulo
Vista do chão

861
Antônio Massa

Antônio Massa

Garimpo

As palmas da face
exibem o peito
calejado
da machada espalmada
no rosto das mãos

e o corpo
estampilha
guarda em si o túnel
sem teto e luz
no final dos porquês

a face quilate
cala-se
ante outra face
a face mate
do tesouro comum

busca infindável
da verdade sempre preciosa
e semi-verdadeira
do garimpo interior

1 047