Poemas neste tema

Dinheiro e Riqueza

Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Resposta difícil

Avô e neto, amor nos olhos, vi
Pelas ruas alegres da cidade
Os extremos da vida se tocavam
Coração novo e velho ambos pulsavam
O pulsar doce da felicidade.

Defronte a uma vitrine os dois pararam
E os olhos do garoto namoraram
Um namoro gosto e demorado
Com uma bola vestida der listrado
Que derramava cor na exposição.

E olhos buliçosos, o Netuno
Fitando o olhar baço do velhinho
Voz aflita lhe fez esse pedido:
Compre essa bola, meu avô, pra mim
Olhe pra ela, não é bonitinha ?
Procure aí um dinheiro no seu bolso
Pergunte o preço, depressa, àquele moço
Eu me amarro, vovô, em futebol.

E o velho, que era rico de pobreza
Mas do metal que compra muito pobre
Só tinha de abastança o coração
E a alma, sem tamanho, pura e nobre.

Perdeu, então, a fala de repente
Procurou-a. Inútil seu intento
Só encontrou pra responder ao neto
Um orvalhar de olhos bem discreto
E a fala muda de seu pensamento

801
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Nom Sei No Mundo Outro Homem Tam Coitado

Nom sei no mundo outro homem tam coitado
com'hoj'eu vivo, de quantos eu sei;
e, meus amigos, por Deus, que farei
eu, sem conselho, desaconselhado?
Ca mia senhor nom me quer fazer bem
senom por algo; eu nom lhi dou rem,
nem poss'haver que lhi dê, mal pecado.

E, meus amigos, mal dia foi nado,
pois esta dona sempre tant'amei,
des que a vi, quanto vos eu direi:
quant'eu mais pud'- e nom hei dela grado;
e diz que sempre me terrá em vil
atá que barate um maravedil,
e mais d'um soldo nom hei baratado.

E vej'aqui outros eu, desemparado,
que ham seu bem, que sempr'eu desejei,
por senhos soldos, e gram pesar hei,
por quanto dizem que é mal mercado;
ca, se eu podesse mercar assi
com esta dona, que eu por meu mal vi,
log'eu seria guarid'e cobrado

de quant'afã por ela hei levado.
637
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Elvir', a Capa Velha Dest'aqui

Elvir', a capa velha dest'aqui,
que te vendess'um judeu corretor,
e ficou contig'outra mui peior,
Elvir', a capa velha, que t'eu vi;
ca, queres sempre por dinheiros dar
a melhor capa e queres leixar
a capa velha, Elvira, pera ti.

Por que te fiqu', assi Deus ti perdom,
a capa velh', Elvira, que trager
nom quer nulh'home mais, dás a vender
melhor capa velha doutra sazom.
Elvira, nunc'a ti capa darám,
ca ficas, destas capas que ti dam,
com as mais usadas no cabeçom.

E a capa, velh'Elvira, mi pesou,
porque nom é já pera cas d'el-rei
a capa velh', Elvira, que eu sei
muit'usa[da] que contigo ficou:
ca pera corte sei que nom val rem
a capa, velh'Elvira, que já tem
pouco cabelo, tam muito s'usou.
546
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Dom Estêvam, Oí Por Vós Dizer

Dom Estêvam, oí por vós dizer,
d'ũa molher que queredes gram bem,
que é guardada, que, por nulha rem,
non'a podedes, amigo, veer;
e al oí, de que hei gram pesar:
que quant'houvestes, todo no logar
u ela é, fostes i despender.

E pois ficastes probe, sem haver,
nom veedes ca fezestes mal sem?
Siquer a gente a gram mal vo-lo tem,
por irdes tal molher gram bem querer,
que nunca vistes riir nem falar;
e, por molher tam guardada, ficar
vos vej'eu pobr'e sem conhocer.

E nom veedes, home pecador,
qual est o mundo e estes que i som?
Nem conhocedes, mesquinho, que nom
se pagam já de quem faz o peior?
E gram sandice d'hom'é, por oir
bem da molher guardada, que nom vir,
d'ir despender quant'há por seu amor.

E bem vos faç', amigo, sabedor
que andaredes, por esta razom,
per portas alheas mui gram sazom:
por que fostes querer bem tal senhor,
per que sodes tornad'em pam pedir?
E as guardas nom se querem partir
de vós, e guardam-na por en melhor.
679
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

RONDEAU — I swore my love should never fall

I swore my love should never fall
For her, the one entrancing she;
I promised marriage, I recall,
And said none was more dear to me.
But soon this love began to fall,
And all her joy was turned to gall;
Till from the beak there came a call
To mind me that in times of glee
                                I swore.

At court all men she did enthrall,
Myself was left no room to crawl;
She won the case. When I did see
Five thousand was the hellish fee,
Why — hang it — then, confound it all,
                                I swore.
1 328
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Um Cavaleiro, Fi'de Clerigom

Um cavaleiro, fi'de clerigom,
que nom há em sa terra nulha rem,
por quant'está com seu senhor mui bom,
por tanto se nom quer já conhocer
a quem sab'onde vem e onde nom,
e leixa-vos em gram conta põer.

E pois xe vos em tam gram conta pom
porque encaro sol lhi nom convém
contra quem sabe ond'est e onde nom
é seu barnag'e tod'o seu poder,
e faz creent'a quantos aqui som
que val mui mais que nom dev'a valer.

El se quer muit', a seu poder, honrar,
ca se quer por mais fidalgo meter
de quantos há em tod'aquel logar,
u seu padre bem a missa cantou;
e nom quer já por parente colher
um seu sobrinho, que aqui chegou.
601
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Quer'eu Gram Bem a Mia Senhor

Quer'eu gram bem a mia senhor
polo seu mui bom parecer;
e, porque me nom quer veer
pobre, lhi quer'eu já melhor:
ca diz que, mentr'eu alg'houver,
que nunca já será molher
que mi queira por en peior.

Conselha-me mia senhor,
como se houvess'a levar
de mim algo, pois mi o achar;
e diz-mi-o ela, com sabor
que houvess'eu algo de meu,
ca diz que tant'é come seu,
pois que mi há por entendedor.
394
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Bem sei que tudo é natural

Bem sei que tudo é natural
Mas ainda tenho coração...

Boa noite e merda!...
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)

Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar

Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.

Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim, era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)

O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebezinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.

Bem se sabe é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos).
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.
1 402
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tens vontade de comprar

Tens vontade de comprar
O que vês só porque o viste.
Só a tenho de chorar
Porque só compro o ser triste.
1 206
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Maior Garcia Vi Tam Pobr'ogano

Maior Garcia vi tam pobr'ogano,
que nunca tam pobr'outra molher vi:
que, se nom fosse o arcediano,
nom havia que deitar sobre si;
ar cobrou pois sobr'ela o daiam;
e por aquelo que lh'antr'ambos dam,
and'ela toda coberta de pano.
623
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Já Lhi Nunca Pediram

Já lhi nunca pediram
o castel'a Dom Foam;
ca nom tinha el de pam
       senom quanto queria;
e foi-o vender, de pram,
       com mínguas que havia.

Por que lh'ides [a]poer
culpa [por] non'[o] teer?
Ca nom tinha que comer
       senom quanto queria;
e foi-o entom vender
       com mínguas que havia.

Travam-lhi mui sem razom
a home de tal coraçom:
"Em fronteira de Leon",
       diz, "com quen'o terria?"
E foi-o vender entom
       com mínguas que havia.

Dizem que lh'a el mais val
esto que diz, ca nom al:
"Em cabo de Portugal",
       diz, "com quen'o terria?"
E vende[u]-o entom mal
       com mínguas que havia.
892
Judas Isgorogota

Judas Isgorogota

Mercador de Escravas

Sonhei que eu era um mercador de escravas
Com tenda armada em Bombaim
E mil peças à vista: — umas eslavas,
Outras, filhas do Nilo e de Pekim;
Umas ebúrneas, de madeixas flavas,
Outras, de ébano vivo de Benin...

E eram de ver-se os cem tapetes raros
Vindos da Pérsia, e as peles de Astrakan,
Por sobre os quais os marajás preclaros
Vinham sentar-se no incontido afã
De, na nudez daqueles corpos claros,
Seus olhos embebedar de glória vã...

Vinham depois os néscios traficantes,
Uns do Mediterrâneo, outros do Sul,
A conduzir, de regiões distantes,
Tudo o que havia sob o céu azul:
Ricas peças de Espanha, delirantes,
E rapinas de Argel e de Estambul...

Enquanto, em meio àquele oceano ardente,
— Seios trementes, colos de cetim,
Ancas de róseos tons, inteiramente,
Cinzeladas espáduas de marfim,
O ouro, quando em mancheia reluzente,
Era mais do que tudo para mim...

Mas, um dia te vi: — eras morena,
Trêmula a voz, angustioso o olhar,
E no róseo da boca, mui pequena,
Feito de dentes lindos, um colar...
E os dois seios tão puros, que era pena
Que lábio humano fosse ali pousar...

E ao fim, voltando a mim, naquele sonho,
Eu, mercador, vi que era tarde já...
E tu te foste, como um sol risonho,
Para o estranho país de um marajá...
E desde então, onde os meus olhos ponho,
Luz que os faça felizes já não há...
E foi assim que, alucinado, um dia
Passei a ser escravo da ilusão
E a minha tenda e o mais que possuía
Abandonei, ao léu, lá no Industão...
É que ao vender-te, mercador, havia
Mercadejado o próprio coração!

1 256
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

De Longas Vias, Mui Longas Mentiras

"De longas vias, mui longas mentiras":
este verv'antig[o] é verdadeiro,
ca um ric'hom'achei eu mentireiro,
indo de Valedolide pera Toledo:
achei sas mentiras, entrant'a Olmedo,
e[m] sa repost[e] e seu pousadeiro.

Aquestas som as que el enviara,
sem as outras que com el [i] ficarom,
de que paga os que o aguardarom,
há gram sazom; e demais seus amigos
pagará delas, e seus enmiigos,
ca tal est el, que nunca lhi menguarom,

nem minguarám, ca mui bem as barata
de mui gram terra que tem, bem parada,
de que lhi nom tolhe nulh'home nada;
[e] gram dereit'é, ca el nunca erra:
dá-lhis mentiras, em paz e em guerra,
a seus cavaleiros, por sa soldada.
731
José Afonso

José Afonso

Quem diz que é pela rainha

Quem diz que é pela rainha
Nem precisa de mais nada
Embora seja ladrão
Pode roubar à vontade
Todos lhe apertam a mão
É homem de sociedade

Acima da pobre gente
Subiu quem tem bons padrinhos
De colarinhos gomados
Perfumando os ministérios
É dono dos homens sérios
Ninguém lhe vai aos costados

1 499
Lara de Lemos

Lara de Lemos

Conta Corrente

Para Wanda Maria

CRÉDITO DÉBITO

O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco

Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:

além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina

além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.

além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.

SALDO

só o domado viver.
Mais nada.


Poema integrante da série Adaga Lavrada.

In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
1 545
Afonso X

Afonso X

O Que Foi Passar a Serra

O que foi passar a serra
e nom quis servir a terra,
é ora, entrant'a guerra,
       que faroneja?
Pois el agora tam muit'erra,
       maldito seja!

O que levou os dinheiros
e nom troux'os cavaleiros,
é por nom ir nos primeiros
       que faroneja?
Pois que vem cõn'os prostumeiros,
       maldito seja!

O que filhou gram soldada
e nunca fez cavalgada,
é por nom ir a Graada
       que faroneja?
Se é ric'hom'ou há mesnada,
       maldito seja!

O que meteu na taleiga
pouc'haver e muita meiga,
é por nom entrar na Veiga
       que faroneja?
Pois chus mol é [el] que manteiga,
       maldito seja!
881
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Garcia López D'elfaro

Garcia López d'Elfaro,
direi-vos que m'agravece:
que vosso dom é mui caro
e vosso dom é rafece.
       O vosso dom é mui caro pera quen'o há d'haver,
       o vosso dom é rafec[e] a quen'o há de vender.

Por caros teemos panos
que home pedir nom ousa;
e, poilos tragem dous anos
rafeces som, por tal cousa.
       O vosso dom é mui caro pera quen'o há d'haver,
       o vosso dom é rafec[e] a quen'o há de vender.

Esto nunca eu cuidara:
que ũa cousa senlheira
podesse seer [tam] cara
e rafec'em tal maneira.
       O vosso dom é mui caro pera quen'o há d'haver,
       o vosso dom é rafec[e] a quen'o há de vender.
629
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Eu Bem Me Cuidava Que Er'avoleza

Eu bem me cuidava que er'avoleza
d'o cavaleiro mancebo seer
escasso muit'e de guardar haver;
mais vej'ora que val muit'escasseza:
ca um cavaleiro sei eu vilam
e torp'e brav[o] e mal barragam,
pero tod'esto lh'encobr'escasseza.
707
Pero da Ponte

Pero da Ponte

D'um Tal Ric'home Vos Quero Contar

D'um tal ric'home vos quero contar
que noutro dia a Segóvia chegou,
de como foi a vila refeçar,
pois o ric'home na vila entrou:
ca o manjar que ante davam i
por dez soldos ou por maravedi,
log'esse dia cinc soldos tornou.

Ric'home foi que nos Deus enviou,
que nos nom quis assi desamparar,
que nos a vila assi refeçou,
poilo ric'home veo no logar;
ca nunca eu tam gram miragre vi:
polo açougue refeçar assi,
mentr'o ric'home mandara comprar.

E a Deus devemos graças a dar
deste ric'home que nos presentou,
de mais em ano que era tam car'
com'este foi que ogano passou;
ca, pois este ric'hom'entrou aqui,
nunca maa careza entrou i,
mentr'o ric'home na corte morou.
635
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Noutro Dia, Em Carrion

Noutro dia, em Carrion,
queria[m] um salmom vender,
e chegou i um infançom;
e, tanto que o foi veer,
creceu-lhi del tal coraçom
que diss'a um seu hom'entom:
- Peixota quer'hoj'eu comer.

Ca muit'há já que nom comi
salmom, que sempre desejei;
mais, pois que o ach'ora aqui,
já custa nom recearei,
que hoj'eu nom cômia, de pram,
bem da peixota e do pam,
que muit'há que bem nom ceei.

Mais, pois aqui salmom achei,
querrei hoj'eu mui bem cear,
ca nom sei u mi o acharei,
des que me for deste logar;
e do salmom que ora vi,
ante que x'o levem dali,
vai-m'ũa peixota comprar.

Nom quer'eu custa recear,
pois salmom fresco acho, Sinher!
Mais quero ir bem del assũar
por enviar a mia molher
(que morre por el outrossi)
da balea que vej'aqui;
e depois quite quem poder!
605
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

POEMA DE AMOR EM ESTADO NOVO

Tens o olhar misterioso
Com um jeito nevoento,
Indeciso, duvidoso,
Minha Marta Francisca,
Meu amor, meu orçamento!

A tua face de rosa
Tem o colorido esquivo
De uma nota oficiosa.
Quem dera ter-te em meus braços,
Ó meu saldo positivo!

E o teu cabelo — não choro
Seu regresso ao natural —Abandona o padrão-ouro
Amor, pomba, estrada, porta,
Sindicato nacional!

Não sei por que me desprezas.
Fita-me mais um instante,
Lindo corte nas despesas,
Adorada abolição
Da dívida flutuante!

Com que madrigais mostrar-te
Este amor que é chama viva?
Ouve, escuta: vou chamar-te
Assembleia Nacional
Câmara Corporativa.

Como te amo, como, como,
Meu Acto Colonial!
De amor já quase não como,
Meu Estatuto de Trabalho,
Meu Banco de Portugal!

Meu crédito no estrangeiro!
Meu encaixe — ouro adorado!
Serei sempre o teu romeiro...
Pousa a cabeça em meu ombro,
Ó meu Conselho de Estado!

Ó minha corporativa,
Minha lei de Estado Novo,
Não me sejas mais esquiva!
Meu coração quer guarida
Ó linda Casa do Povo!

União Nacional querida,
Teus olhos enchem de mágoa
A sombra da minha vida
Que passa como uma esquadra
Sobre a energia da água.

Que aristocrático ri,
O teu cabelo em cifrões — Finanças em mise-en-plis! —
Meu activo plebiscito,
Nunca desceste a eleições!

Por isso nunca me escolhes
E a minha esperança é vã.
Nem sequer por dó me acolhes,
Minha imprevidente linda
Civilização cristã!

Bem sei: por estes meus modos
Nunca me podes amar.
Olha, desculpa-mas todas.
Estou seguindo as directrizes
Do professor Salazar.
1 437
Pero da Ponte

Pero da Ponte

D'um Tal Ric'home Ouç'eu Dizer

D'um tal ric'home ouç'eu dizer
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.

De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.

Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.

E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.

Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
716
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Quem Seu Parente Vendia

Quem seu parente vendia,
todo por fazer tesouro,
se xe foss'em corredura
e podesse prender mouro,
       tenho que x'o venderia
       quem seu parente vendia.

Quem seu parente vendia,
bem fidalg'e seu sobrinho,
se tevess'em Santiago
bõa adega de vinho,
       tenho que x'o venderia,
       quem seu parente vendia.

Quem seu parente vendia,
polo poerem no pao,
se pam sobrepost'houvesse,
e lhi chegass'ano mao,
       tenho que x'o venderia,
       quem seu parente vendia.

Quem seu parente vendia,
mui fidalg'e mui loução,
se cavalo sop'houvesse
e lho comprassem por são,
       tenho que x'o venderia,
       quem seu parente vendia.
504
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Em Almoeda Vi Estar

Em almoeda vi estar
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.

E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.

E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.

E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
338