Ética e Moral
Antonio Roberval Miketen
Mendes y el Toreo Redondo
milímetro a milímetro,
el tejido de pétalos
a las agujas más finas.
Tejer, tejer, tejer.
Tejer el toro en rosa,
sin ceder el terreno
exacto al matador.
En la lisura de la seda,
en un corte de vislumbre,
deslizar en la muleta
la pureza de la lumbre.
Retener en la suerte el toro,
dar la vena en los dedos,
trayendo el cuero al cuerpo
sin el corte del miedo.
En la finura de la aguja,
aunque la sangre se hiele,
retener la rosa oscura
en el pétalo de la piel.
En el toreo redondo,
verterse en sangre y sal,
tejiéndose en la rosa
de rojo fatal.
Milímetro a milímetro,
ceder, ceder, ceder.
Ceder hasta el límite
de sentirse morir.
Antonio Roberval Miketen
Oportunidad de la Rosa
El Canto de João Moura
EI torero gritaba del centro de la arena
y el caballo danzaba del fondo del miedo.
II
Picasso deseaba pintar una plaza
de toros del tamaño natural, exacto,
con Miuras de picos de agujas, talladas
por sobre la brillantez de negras montañas.
En los paneles del pintor se avecinan agüeros:
en Guernica pintó Él el triunfo dei toro?
Repara que las arenas son rosas humanas
listas para romperse en la furia de la sangre.
Si el sueño de Picasso no fuese un absurdo,
Manolete, con certeza, en su traje de luces,
recordando a Linares, se daría al toro:
haría Él, otra vez, la faena de la rosa?
III
Por qué ponemos en el toro la evidencia de la espera,
en ese palomo de la suerte, inocente en ser fiera?
IV
En el momento en que el cuerpo se viste de luces
el calor de las mortajas aumenta la desnudez.
V
Tragedia de "YIYO"
En la mortal lacerada del clavo en la carne
del torero brotaba la belleza brutal.
VI
Veré el día en que el toro tendrá su suerte,
en la flor del vientre falso de osada verónica?
Antônio Massa
Instruções para se Encerar um Homem
- aquele desnecessário infeliz -
seja varrido
cuidadosamente
dos pés a cabeça
e lhe sejam guardados
seu egoísmo
orgulho
cinismo
apanhados no caminho
numa caixa acima de sua nuca
deve-se então ir ao cume
e encerá-lo
da cabeça à barriga,
começando no seu bom senso
e seguindo pela sua astúcia
no estômago
deve-se erguer a esperança
a qual você encontrará sendo digerida
pelo racionalismo natural, porém idiota.
prosseguir até os pés
encerando muito bem sua humildade
encontrada nos joelhos
espera-se que seque
e segue-se polindo
dos pés à cabeça
todo o homem
ao chegar ao topo,
deve-se abrir a caixa
e sujar o homem com seu
conteúdo
é quando
depois de ofuscada a cera
teremos um homem
perfeito
Henriqueta Lisboa
Denúncia
— ó vendaval —
voam velozes e ferozes
à caça de carne humana.
Olhos de abutre
fisgam de rua em rua
alguma oferta de acaso.
Rindo brancura de dentes
mil poderes aceleram
rumo à vítima entrevista.
O mundo que lhes pertence
tomam ao revés — de assalto.
Sangram
despedaçam
matam
E ombros erguidos prosseguem
vitoriosos pressurosos
para os aplausos da seita.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
Henriqueta Lisboa
Em Sobressalto
cada vez mais terríveis.
Brotam da terra pelos poros
entram pela janela em silvos ásperos
fazem pilha no chão em letras tortas
caem das nuvens em mortalhas.
E já são outras realidades apostas
ao retoque dos memorandos
às interpretações da ribalta
ao sortilégio da casa dos contos
ao ruminar dos bois — fuga e refúgio.
Em confronto são dúbias
precipitam-se acotovelam-se
em contramarcha se repelem.
Na deturpação do humano
anunciam com alvoroço
através de pinças de fogo
em cartazes de gelo
— o suicídio da multidão em nome de Deus
— o império do vício em nome da Arte
— o sequestro do juiz em prol da Justiça
— o arremesso de touros em via pública
para a alegria dos que se salvam.
Recuso-me a acreditar nas notícias
mas elas se impõem de cátedra
com implacável desfaçatez
talvez para convencer-nos
de que somos todos culpados.
Agem assim como tóxicos
impunemente sorvidos
nas delongas do tédio.
A busca de notícias é um mórbido
caminhar para a cruz
Sem embargo as procuro com empenho
na expectativa tantas vezes vã
de que à noite se mudem
na reparação no contraveneno
das notícias colhidas pela manhã.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
Raniere Rodrigues dos Santos
O Indesejável
Mas sei o horror
Que é a guerra.
Gente chora,
Gente grita,
Gente enlouquece,
Gente se vê no inferno.
A guerra,
Não traz alegria.
Só traumas.
Gente paralítica,
Gente cega,
Gente muda,
Gente sem vida.
Lutar por petróleo
Que todos
Um pouco desfrutam.
Gente egoísta,
Gente horrorosa,
Gente burra,
Gente diabólica.
Lutar pela paz
Que todos Precisam.
Gente boa,
Gente amorosa,
Gente simples, Gente de Deus.
Gabriela Mistral
A casa
em brancura quieta de nata,
e em quatro muros que mostram sua cor azul
dando brilhos, a cerâmica.
Este é o sal, este o azeite
e ao centro o Pão que quase fala.
Ouro mais lindo que ouro do Pão
não está nem em fruta nem em retama,
e do seu cheiro de espiga e forno
uma fortuna que nunca sacia.
O partimos, filhinho, juntos,
com dedos duros e palma branda,
e tu o olhas assombrada
de terra preta que dá flor branca.
Abaixada a mão de comer,
que tua mãe também a abaixa.
Os trigos, filho, são do ar,
e são do sol e da enxada;
porém este Pão "cara de Deus"*
não chega as mesas das casas;
e se outras crianças não o tem,
melhor, meu filho, não o tocares,
e não tomá-lo melhor seria
com mão e mão envergonhadas
*No Chile, o povo chama ao pão de "cara de Deus"
Luís Guimarães Júnior
Londres
Nos pardos mantos d'uma névoa estranha,
A Cidade opulenta em cuja entranha
Rasteja a fome como um verme enorme.
Dos lampeões à dúbia claridade,
Passam, repassam vultos cautelosos:
Este procura no mistério os gozos,
Procura aquele um pão, na realidade.
Contra o cais solitário o rio escuro
Geme convulso e espuma,—e novamente
Volta a gemer, de encontro ao velho muro;
Retine o oiro:—vela a Indústria ingente,
Cresce a miséria, e aumenta o vício impuro...
Oh milionária Londres indigente!
Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
André de Figueiredo Mascarenhas
Soneto
Nas distâncias igual do ocaso à Aurora,
Diógenes, que o raio não ignora,
Com uma Luz pelas ruas discorria.
Que pretende essa estranha fantasia,
Ou que queres Diógenes agora,
Que essa Luz te descubra, que em tal hora
Não to mostre melhor a Luz do dia?
Mas se buscas um homem porventura,
Em quem nada condenes, nada acuses,
Bem que o vejas à Luz, que tudo apura.
Esse deixa farol, da Luz não uses,
Que como o homem capaz tem sorte escura,
Não se costuma achar nunca com Luzes.
Luiza Amélia de Queiroz
O homem não ama
Jamais o seu peito mais duro que o aço,
Palpita a não ser a louca ambição.
Supõe-se - orgulhoso - que é soberano,
Que todas as belas vassalas lhe são!
Mais falso que a brisa que as flores bafeja,
Se mil forem belas... a mil finge amar...
Assim um já disse, e assim fazem todos,
Embora não queiram jamais confessar,
Cruéis, como Nero, são todos os homens!
Ateiam as chamas de ardente paixão,
Depois... observam, sorrindo, os estragos...
E dizem, cobardes! que têm coração!!
(De Flores Incultas, 1875)
Antero Coelho Neto
Eu Aprendi a Dizer Sim
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.
Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.
Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.
Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.
Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.
E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.
Leão Júnior
Tempo Tempo
não goza, em seu cabedal,
o saber de um tempo argüido:
seu irônico juízo
no que investiga retorna
e o que investiga é retorno
do que então se parodia
do que então potencializa
um saber examinar-se
no outro que está do outro
sem imagem conferida
mas que pressupõe ao pôr
radicais inexistências
sob metódico senso
de crítica e de raciocínio
para então comprometer
a base — seu fundamento —
do círculo que vira dia
que se vive sem teoria
o que lhe permite ser tempo
é não contar sua história
é não ter sequer história
é ser o avesso da história
a própria falta — seu ser
de insuportável sentido —
satura de perdas a vida
e a explode como história
aí é preciso viver
de sobrevida aparente
nas sobras do apalavrado
reconduzido ao vazio
e nesta sede excluída
do homem desprende-se o tempo
demolindo o quê de si
sobrevive em seus sistemas
que permanecem percursos
de quebras fendas rupturas
são como um não-rio
os afluentes do tempo
(faz flutuar periódicas
minas de água parada)
que cai por brutas clivagens
como evidências sem fala
ou conflui estimulando
econômicas miragens
que precipitam o invisível
nas influências do visto
e trazem a forma adiante
das margens que nos espiam
sem olhar antecipando
múltiplos fluxos sem rio
é de poesia que
o tempo se alimenta
de sua força estratégica
sua premente ameaça
pois quanto mais fortifica
com mais defesas desata
e obriga ao tempo o adiante
de formas desmoronadas
obriga a viagem das horas
às suas fronteiras perdidas
a descobrir demasiados
possíveis de não rendição
mal começada a jornada
chegam arquitetos do não
tem o passado uma fome
do retomo do que falta
fome de raiz-além
desse longo ignorado
e rumina arruinando
a forma não digerida
tem a fome de uma espera
por horizonte não vindo
se morde o passo do onde
se gera a fome do tempo
enquanto rumina o presente
escape por entre os dentes
quando céu e terra se fizeram uno
o grande tempo moldou todas as coisas
de uma só vez
aos homens transmitiu a técnica
de não esperar
nenhum posterior, absoluto ou relativo
se pressupôs:
a consciência das clepisidras e das ampulhetas
desapareceu
perderam-se as sucessões e os recortes
irreversivelmente
o grande tempo fundiu os homens
na geografia do outro
e já não houve marcas de propriedade
e já não houve Estados
quando céu e terra se fizeram uno
o presente pôde ser lembrado
os configurados do tempo
marinheiros e megáricos
na volta não viram a margem
fazer porto no outro lado
fazer com poucos relógios
este contorno marinho
por lençóis curvos de água
canais de vida ou de linho
(mil canais de travessia
não chegam ao tempo visado
se o ângulo em que se projetam
não vaga em tua memória
se não te apreendem no agora
rasgos de incertos indícios)
a paciência da tribo
faz que dorme
faz que sonhem seus conceitos vagos
com cristais
quase nada extrai da falta
de origem ou fim
a paciência da tribo
retira-se do tempo com malas e bagagens
e põe-se a salvo
como duração e morte
quase nada deixa
de sua imprópria matéria
sem horizonte indagado
a paciência da tribo não se acaba
talvez porque seu puro escape
dispense o eterno
como os cristais às datas
no instante do bote
o tempo masca
não marcha
como os cadetes do colégio militar
a cobra-macha do tempo
não bate os calcanhares que não tem
nem se perfila ou bate continência
a cobra-marcha do tempo apenas rumina
o seu azul pairado
sobre alas, sobre balas.
no instante exato do bote
a cobra do tempo fuma
e o verde desfile dos passos para sempre
passa
como uma falta de ser
se imagina desejada
ou quanto a letra se quer
mais lida se mais apagada
a consciência propaga
sua força de abafada
que mal ultrapassa a falha
escandaliza o que falta
e perturba porque gasta
a razão da ultrapassagem
ao propagar o querer
doutras forças sufocadas
que mais apagadas se avivam
como letras desejadas
de uma escrita em que falta
tua imagem recortada
tua vida recordada
Por um apagado de charge
o único tempo é o tempo
que fora de si inexiste
como existe o que expulsa
de sua reserva incontente
expulsa do homem o ganho
ou pior, contabiliza
sua fome de um ser tempo
de ter no tempo o seu prumo
e este homem sem divisas
quer do tempo seu insumo
cobra incentivos e lucros
por vida a mais de consumo
mas o tempo acerta o trato
desconhecendo o rumo
quem rói de ti os fantasmas
de que se cobre a razão
lendo o antes da memória
que escapa à imaginação
que examina pela falta
as marcas da contradição
que ousa escritos vazios
sobre raspas predatórias
quem desconcentra a razão
para firmá-la no instável
como solta resistência
que se faz tão maleável
que nenhuma norma nova
fixa a ferida da margem
a tinta encarnada do teu
manuscrito sem história
se entranha na letra como
palavra arrancada à traça
se entranha em calar dobrado
como história dos silêncios
que a letra arranca aos pedaços
desta carne de azurado
a tinta dos manuscritos
come a tua mão pesada
com gratos garfos que vexam
o menos papel do prato
para abrir com suas chaves
o trauma de novos achados
escrevo palavras que calam
o meu objeto é o tempo
não fala
mas guarda em si monumentos
que sem vestígios
abalam
e o seu mudo testamento
fende infinito o fragmento
que age
escrevo à margem do efeito
leitor da ávida ausência
que apaga
e não consulto memórias
meu dicionário é o átimo
que indaga
deixa se possível um oco
para que o tempo arrebente
tuas mordaças sem corpo
o teu silêncio de ovo
teu fio sem interior
que tece os teus desenlaces
com mordidas ou amarras
famintas da tua nudez
derrama o rigor do silêncio
na veia oblíqua do novo
os tempos geraram os tempos
que geram de si os tempos
que geram os tempos de novo
como uma trama bastarda
os laços de parentesco
perdido no que se ligam
tecem o mito e a fenda
saber de que é feito o tempo
desses tempos sem história
é ter por familiares
homônimos desconhecidos
que no entanto evoluem
no seu poder de expurgar
incógnitas biografias
nos interiores das bibliotecas
o teu vizinho vive os anos vinte
um de meia-idade atrás de ti
parte uma galáxia
nos interiores da rua
cada palavra circula
com reais multiplicados
pelos becos mais dispersos
das páginas e
António Osório
Cântico do Filho Maior
Cresce, filho!
Entre as duras colunas da morte
e não temas a sua altivez
Cresce, filho!
e deixa ferver o teu sangue difícil
na retorta de todos os amores
Cresce, filho!
e canta em dó maior os teus cânticos
sem temor às dissonâncias
Cresce, filho!
e planta se preciso tua semente no granito
porque se a irrigares de vigílias e suores
ela se fará em larga palma
que será baliza para os pássaros
receberá a visita das abelhas
e ajudará o vento a reger as suas orquestras.
Cresce, filho!
e faz de tua face uma lança
de tuas mãos um arado
de teus olhos uma chama
para construir da terra berço e templo
aos homens que estão em ti guardados.
Gláucia Lemos
Sonetos das Mãos
Não há de ser da tua mão esguia
que me virão o lanho e a ferida.
Não há de ser a tua, a que esvazia
as emoções guardadas pouco a pouco.
Nem há de ser das tuas mãos em prece
que esperarei as bênçãos de uma vida.
Chega-se ao bem - se um dia se merece -
pelo amor que se deu sem buscar troco.
Se há quem quer para mim o gosto amargo
que não me venha da tua boca o trago
a envenenar a mais meus longos dias.
Que não venha, jamais, punhal daninho
da tua destra! Cuidarás que o espinho
não esteja ele em tuas mãos esguias!
08.07.96
Gláucia Lemos
Outrem
e os que atiram flores nos teus braços.
Os que semeiam cardos nos teus passos
e há quem aposte a vida em teu desgosto.
Seja um sorriso o teu único laço.
Saiba Deus se ele expressa bem teu gosto.
Não há limites para o que for posto
pelo silêncio de quem tens nos braços.
Olha pra quem põe luzes no teu rosto...
Descobre quem aposta em teu desgosto...
Teu amigo pode ser teu mal maior.
Que te guardes de crer na humana fala.
Anjos e demos numa mesma igualha
repartem dor e riso a teu redor.
11.07.96
Carlos Nejar
Mora Judicial
no armário do século.
Nenhum juiz sentenciava
esta causa
de perdas civis.
Aos poucos
o fogo do feito
extinguiu-se:
os interesses
mudaram os fechos,
as trancas da porta.
Mudaram
de casa e de horta.
Uma ninhada de codornizes
se alojou no processo
entre boninas e raízes.
Na justiça
só a flor do tempo
vinga.
Não há migrações de pássaros,
apesar de serem terras arrendadas
ao céu, ao sol, à chuva.
E o homem
obtém do litígio
a derrubada de árvores.
Nunca
a derrubada do mal
— sua guerra púnica.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
Sosigenes Costa
Índio Bom é Índio Morto
pensamento natural
de quem se apossou do porto
desta Índia Ocidental.
O cristão é que é a bondade.
Vivo ou morto. É natural.
Na estrita fidelidade
a Cristo e a seu ideal,
o seu sonho de bondade
é espalhar a caridade,
a pureza e a santidade
nesta Índia Ocidental.
Sonho de luz, em verdade,
sonho de santo e de frade
é o que empolga a cristandade
trazendo para este porto
a armada do Santo Graal.
Mas o índio fica absorto,
vendo esta armada no porto,
ante o ditado fatal:
"Índio bom é índio morto".
Burilado em ouro e jade,
esse conceito fatal
é um ruim verso de jade
da epopéia ocidental.
(1956)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
Domingos Carvalho da Silva
Nós Todos, Cleópatra!
Velhos, mulheres e crianças,
nós todos nos culpamos
pelo teu passado,
pelo teu presente
e pelos dias roxos do futuro!
Os velhos abriram-te o caminho enganoso
das facilidades.
As mulheres empurraram-te com sorrisos malévolos.
As crianças já espiam tuas pernas
sem meias
e pensam nas noites do futuro.
Nós todos, homens válidos, compramos teus sorrisos
baratos,
alisamos teus cabelos dourados na farmácia
e te chamamos Madalena e Cleópatra!
Nós todos, mulher de encantos públicos e notórios,
nós todos temos culpa,
os mortos têm culpa,
os nossos filhos nascerão culpados!
Acompanhamos com esperanças cínicas
a tua decadência, e vimos,
em cada um de teus vestidos,
um preço menor.
Em cada um de teus perfumes,
uma essência pior...
Tripudiamos sobre a tua degradação.
Fomos cúmplices das tuas noitadas babilônicas,
quando eras mais fina
e mais nova!
Nós todos te olharemos com a nossa justa repugnância
e todos negaremos
que nossas mãos um dia te empurraram!
Publicado no livro Bem-amada Ifigênia: poemas (1943).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 198
Juscelino Vieira Mendes
Morreu Sem Constrangimento
"Eu pensei que ciúme era uma idéia. Não é. É uma dor.
Mas eu não me senti, como eles se sentem, num melodrama
da Broadway. Eu não queria matar ninguém. Eu só queria morrer."
Floyd Dell
Houve quem dissesse
que matou e morreu
por amor, como se se pudesse
matar e morrer, aniquilando o eu
Ódio o tornou cego
Impulso do Id é o que restou
Não aceitou o controle do ego
Matou - Não amou!...
Estreitamento da consciência
sobrou apenas sentimento
Agiu sem Providência
e viveu tão pouco tempo
Martirizou-se; tornou-se pura violência
em tórrida manhã de dezembro:
Matou, Morreu, Morremos - Sem Constrangimento...
11 de dezembro de 1995
NOTA:
Morte prematura
No dia 11 de dezembro, Christian Hartmann, 21, matou com seis tiros a ex-namorada Renata Cristina Francisco Alves, 20, e feriu gravemente Winston Goldoni, 23, com quem Renata estava namorando. Depois, se matou com um tiro na boca. Tudo numa sala de computadores da Escola Politécnica da USP. Eles cursavam engenharia macatrônica. Christian e Renata tiveram um relacionamento em 94, e ele já a havia ameaçado de morte.
Folha de São Paulo, página 18, 11/12/95.
António Maria Lisboa
Que Pensar destes Poemas
Que pensar destes poemas: mundo sem classificações, esquemas, meios diversos e opostos de ser e conhecer, de se comportar e fazer comportar, de amar e ser amado, pulverizando as escalas, aparências, arbitrariedades dialécticas do Bem e do Mal, da sua reversibilidade, da sua interconexão? - Porque funde num só corpo: porque contém a Lei e contém o que destrói a Lei, é o Paradoxo a forma do Saber Oculto.
Raquel Nobre Guerra
Aprendi a tranquilidade
com o domínio de um coração baixo.
De me perturbar menos a posição astrológica
de certas palavras no coração do verso.
Houve vezes em que me embaracei na musa
e tanto quis largar-me à doçura desse humor
que me cheguei de cara toda à carcaça
julgando que o bife na mesa fosse meu.
Mas a natureza morta da metáfora
não me deu talho para o poema.
Sei que qualquer aragem me atravessará o corpo
e que a mentira da manhã vai folgando entre nós
como um sol mobilizado para a morte.
Sei, porque me chego para a frente com força
que o poeta transporta um saco de luz
com um coração doente que canta
mas não há verdade nesse coração
que não termine com duas senhoras de negro.
Que não me falhe a pontaria na hora de traçar
uma obra futura para nutrimento do espírito
- essa besta furiosa que nunca chega a ser livre
por muito que fulja e se agite no homem
com mais homens dentro. Que isso seja mais
que cair na tentação de durar por escrito.
Minto, porque cedo ao poder das palavras
o que trago no saco são coisas remendadas
que vou deixando cair.
Se ao menos tivesse dois ou três dentes de ouro
e na lei que me confere vencida a ética
fizesse, como tu, felizes tantas bocas.
Mas aprofundei-me na ocupação da violência
um arzinho de filosofia para empernar meninos
um pai matemático e obsessivo como um poço sombrio
um príncipe melancólico com abalos de amor
por mulheres mais tristes que uma mulher
a correr urgências psiquiátricas para arranjar namoradinho.
Reconheço, no meio disto, a cantiga do bandido.
Se ao menos aprendesse a bravura dos recrutas:
Vá - pago um copo / a quem disser que me ama!
Mas não, garanto e mal este pouco verso
para que o leitor avance dobrado sob mim.
Corrijam-me se estiver errada
mas a razão comovida de tudo
podia começar por aqui.
Agradecer aos destroços, abrir lume,
destinar-lhe estas últimas sete palavras.
Ser convicto enfim mesmo sem saber como.
Raimundo Bento Sotero
Além do mal
Que o ódio é um sentimento tão mesquinho;
Como a vingança, um vegetal daninho
Que viça na aridez de um peito agreste.
Por isso, cada mágoa que me deste,
Uma a uma, fui largando no caminho,
Como a flor que se livra do espinho
Que rebenta do tronco mais silvestre.
A despeito do mal que me causaste,
Já não guardo rancor de minha parte
E em troca dos espinhos te dou flores
E te perdôo os males cometidos,
Que o perdão reconforta os oprimidos
E mata de remorso os opressores.
Cora Coralina
Vida das Lavadeiras
sobre as águas quietas
onde as iaras
vêm dançar à noite...
Não. Mentira.
Façamos versos sem mentir.
— Onde batem roupa
as lavadeiras pobres.
Sombra verde dos morros
no poço fundo
da Carioca
onde as mulheres sem marido
carregadas de necessidades,
mães de muitos filhos
largados pelo mundo
batem roupa nas pedras
lavando a pobreza
sem cantiga, sem toada, sem alegria.
Quero escrever versos verdadeiros.
Por que será, Senhor
que a mentira se insinua
nos meus versos?
Onde vive você, poeta, meu irmão
que faz versos sem mentir?
In: CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. 2. ed. São Paulo: Global, 198
Castro Alves
Jesuítas e Frades
Sobre vós... remembrando a negra lnquisição,
A hidra escura e vil da vil Teocracia,
O Santo Ofício, as provas, o azeite, a gemonia ...
Lisboa, Tours, Sevilha e Nantes na tortura,
Na fogueira Grandier, João Huss na sepultura,
Colombo a soluçar, a gemer Galileu...
De mil autos-da-fé o fumo enchendo o céu...
Que a maldição vos lance a pena do Gaulês
Tendo por tinta a borra das caldeiras de pez...
Que o Germano a sangrar maldiz em férreos hinos.
É justo! . . .
A História cega, aquentando o estilete
Nas brasas que apagar não pôde o Guadalete,
Tem jus de vos marcar com o ferro do labéu,
Como queima o carrasco o ombro nu do réu ...
Mas enquanto existir o grande, o novo mundo,
Ó Filhos de Jesus!... um cântico profundo
Irá vos embalar do sepulcro no solo...
A América por vós reza de pólo a pólo!
Dizei-o, vós, dizei, Tamoios, Guaranis,
Iroqueses, Tapuias, Incas, e Tupis...
A santa abnegação, o heroísmo, a doçura,
O amor paternal, a castidade pura
Destes homens que vinham, envoltos no burel,
A derramar dos lábios o amor — divino mel,
O perdão — óleo santo, a fé — mística luz,
E o Deus da caridade - o pródigo Jesus! ...
Oh! não! Mil vezes não! O poeta Americano
Vos deve sepultar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a Musa inspirada desata!!!
Se aqui houve cativos — eles os libertaram.
Se aqui houve selvagens — eles os educaram.
Se aqui houve fogueiras — eles nelas sofreram.
Se lá carrascos foram — cá mártires morreram.
Em vez do Inquisidor — tivemos a vedeta.
Loiola — aqui foi Nóbrega, Arbues — foi Anchieta!
Oh! Não! Mil vezes nãol O poeta Americano
Vos deve amortalhar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a musa inspirada desata!...