Poemas neste tema
Ética e Moral
Matheus Tonello
O Show da Vida
Abrem-se as cortinas, o show vai começar,
Não é só o dia que amanhece, com ele vem as marionetes incansáveis,
Controladas pela força básica da vida;
Todos os gestos, ações, movimentos, nada é nosso
Somos manipulados por um destino, seja ele bom ou ruim...
Nossas lágrimas, nossos risos são puramente encomendados,
Para dar vida ao espetáculo
O show tem momentos de dor, paixão, tristeza e encantamento,
Há momentos em que a emoção é tão forte,
Que nos dá a nítida impressão de estarmos
VIVOS!
O que temos a fazer? E a felicidade?
Talvez não sejamos o mais feliz possível,
Mas diante das circunstâncias inconstantes de vida e
morte,
Acondicionaremos a felicidade a uma palavra muito importante,
FÉ!
Não é só o dia que amanhece, com ele vem as marionetes incansáveis,
Controladas pela força básica da vida;
Todos os gestos, ações, movimentos, nada é nosso
Somos manipulados por um destino, seja ele bom ou ruim...
Nossas lágrimas, nossos risos são puramente encomendados,
Para dar vida ao espetáculo
O show tem momentos de dor, paixão, tristeza e encantamento,
Há momentos em que a emoção é tão forte,
Que nos dá a nítida impressão de estarmos
VIVOS!
O que temos a fazer? E a felicidade?
Talvez não sejamos o mais feliz possível,
Mas diante das circunstâncias inconstantes de vida e
morte,
Acondicionaremos a felicidade a uma palavra muito importante,
FÉ!
926
Frank O'Hara
Canção (Estará sujo)
Estará sujo
como se parece sujo
é o que você pensa na cidade
será que só parece sujo
é o que você pensa na cidade
você não se recusa a respirar recusa
alguém chega com um belo dum mau caráter
parece atraente. será mesmo. sim muito
ele é tão atraente quanto mau caráter. será. sim
é o que você pensa na cidade
passe seus dedos por sua mente sem musgo
isto não é um pensamento é fuligem
e você tira muita sujeira das pessoas
será menos mau o caráter. não. melhora constantemente.
você não se recusa a respirar recusa
Is it dirty
does it look dirty
that's what you think of in the city
does it just seem dirty
that's what you think of in the city
you don't refuse to breathe do you
someone comes along with a very bad character
he seems attractive. is he really. yes very
he's attractive as his character is bad. is it. yes
that's what you think of in the city
run your finger along your no-moss mind
that's not a thought that's soot
and you take a lot of dirt off someone
is the character less bad. no. it improves constantly
you don't refuse to breathe do you
(tradução de Ricardo Domeneck)
841
Marina Colasanti
NA CORTE DE HAAKON
Para bem degolar
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
1 118
Marina Colasanti
AMISH COUNTRY
Neste país em que as roupas
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
1 181
Emílio de Menezes
O D E
Este é o ranzinza-mor, porém no bom sentido.
Monta guarda à pureza e à precisão do idioma.
É o espectro do imbecil, o horror do presumido;
Contra ele a arraia miúda o ódio que tem não doma.
Geninhos da Garnier, geniões de ar sucumbido,
Poetinhas de salão, poetarrões de redoma
Que deturpam a língua, ai deles! é sabido:
O cacete é aforismo e a cacetada é axioma.
Mas este foge a lei (que aliás é conceituosa)
De que a crítica faz só aquele que, perverso,
De produzir, o orgulho e a delícia não goza.
De pena o bico atroz, no vernáculo, imerso,
Se a sabe esmerilhar, sabe polir a prosa,
Se o sabe criticar, sabe compor o verso.
Publicado no livro Mortalhas: os deuses em ceroulas (1924).
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 198
Monta guarda à pureza e à precisão do idioma.
É o espectro do imbecil, o horror do presumido;
Contra ele a arraia miúda o ódio que tem não doma.
Geninhos da Garnier, geniões de ar sucumbido,
Poetinhas de salão, poetarrões de redoma
Que deturpam a língua, ai deles! é sabido:
O cacete é aforismo e a cacetada é axioma.
Mas este foge a lei (que aliás é conceituosa)
De que a crítica faz só aquele que, perverso,
De produzir, o orgulho e a delícia não goza.
De pena o bico atroz, no vernáculo, imerso,
Se a sabe esmerilhar, sabe polir a prosa,
Se o sabe criticar, sabe compor o verso.
Publicado no livro Mortalhas: os deuses em ceroulas (1924).
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 198
1 340
Gerardo Mello Mourão
Era uma vez
Era uma vez
Maria Alves Feitosa, da raça de minha avó, e era mulher de Francisco Feitosa
e o marido amava
as violas doces e as aguardentes ásperas
e Maria, quando rezava suas novenas na igreja — conta Leonardo — tinha por costume
mandar os grupos de escravas, que eram as cantoras,
entoarem cânticos da igreja até a casa de sua residência e uma tarde
no momento em que partiam da igreja
e as negras começavam o cântico
veio Francisco embriagado e esbofeteou o rosto de Dona Maria Feitosa e as negras
como sapo quando se bate nágua
calaram-se e pararam: e a senhora
ordenou-lhes marchassem e cantassem: não fora nada,
sendo por seu marido, não era agravo e o vigor
dos machos é sempre doce ao coração das fêmeas
na raça dos Mourões
e entre alcova e templo ao tom das ladainhas e ao canto das escravas
aprendemos o touro e as raparigas aprendem
o arrebatado amor e Mariana
mulher de Eufrásio, senhor do Cococi
mandou surrar e tonsurar a rapariga
e o Capitão-Mor puxou da bota uma faca aparelhada de prata e lavada de sangue e sempre
a morte se nutriu do amor
e o vigário do Cococi excomungou o Coronel: surrara, debaixo do altar-mor
onde se escondera,
O vilão que ousara versos a Joana, sua irmã, da raça dos Mourões e só
para alcova de Mourões eleita
e o Bispo de Olinda retirou-lhe a excomunhão:
matasse feras em vez de matar homens
e os Feitosa entravam a galope na cidade
com uma onça sangrenta na garupa e um deles
matou noventa e seis onças sem armadilhas, sem armas de fogo, sem mundéu,
sem gangorra e sem curral
apenas com sua faca de Pajeú e os três cachorros Elefante,
Corujo e Mosquete:
na boca da última delas deixou o couro da cabeça e o escravo fiel
deixou a mão, a faca encravada e a implacável morte
tanto me atendem à cítara
como à ponta do punhal
e Leonor ficou viúva e um dia
a casa de Leonor amanheceu fechada
e Leonor havia desaparecido
e Leonor era — conta Leonardo — uma viúva nova e muito formosa depois se soube:
fora raptada pelo Major Eufrásio Feitosa e por ele situada numa casa em um alto
e ainda hoje ali se chama
o Alto de Sa Leonor e os montes
e os rios e as devezas e as várzeas
guardam, da Serra da Joaninha ao Riacho do Sangue,
o nome com que os machos
nomearam amor e nomearam morte
no país dos Mourões
tanto me atendem à citara
como à ponta do punhal,
tanto a meu punho se deitam
os vencidos na macega
como a meu canto as mulheres
na ribanceira do rio:
explica, Maria Helena,
como esta doçura é forte
e o vigor desta bravura:
chama a princesa e estremeçam
seus seios na minha mão:
não sou Teseu nem Orfeu,
os dois são Mello Mourão.
Nünca houve nesta raça
homem não raparigueiro
e nela não se conhece
uma casada infiel:
no couro dos Mourões sobeja o macho
a ti domava a citara
a outras o músculo.
... deixa-me pastar a erva em tua mão.
E tu,
que não morres de mim, vives de mim
a ti e só a ti
ofereci a melodia a um tempo
de citara e de músculo e só tu
saberias dizer o contraponto
do canto que inventei aos teus ouvidos
e à doçura
de sua força
arrebatada no meu lombo e no êxtase
ela acenderá no crepúsculo
a estrela da manhã:
sob o ventre pentélicon
pentagrama de ouro!
Maria Alves Feitosa, da raça de minha avó, e era mulher de Francisco Feitosa
e o marido amava
as violas doces e as aguardentes ásperas
e Maria, quando rezava suas novenas na igreja — conta Leonardo — tinha por costume
mandar os grupos de escravas, que eram as cantoras,
entoarem cânticos da igreja até a casa de sua residência e uma tarde
no momento em que partiam da igreja
e as negras começavam o cântico
veio Francisco embriagado e esbofeteou o rosto de Dona Maria Feitosa e as negras
como sapo quando se bate nágua
calaram-se e pararam: e a senhora
ordenou-lhes marchassem e cantassem: não fora nada,
sendo por seu marido, não era agravo e o vigor
dos machos é sempre doce ao coração das fêmeas
na raça dos Mourões
e entre alcova e templo ao tom das ladainhas e ao canto das escravas
aprendemos o touro e as raparigas aprendem
o arrebatado amor e Mariana
mulher de Eufrásio, senhor do Cococi
mandou surrar e tonsurar a rapariga
e o Capitão-Mor puxou da bota uma faca aparelhada de prata e lavada de sangue e sempre
a morte se nutriu do amor
e o vigário do Cococi excomungou o Coronel: surrara, debaixo do altar-mor
onde se escondera,
O vilão que ousara versos a Joana, sua irmã, da raça dos Mourões e só
para alcova de Mourões eleita
e o Bispo de Olinda retirou-lhe a excomunhão:
matasse feras em vez de matar homens
e os Feitosa entravam a galope na cidade
com uma onça sangrenta na garupa e um deles
matou noventa e seis onças sem armadilhas, sem armas de fogo, sem mundéu,
sem gangorra e sem curral
apenas com sua faca de Pajeú e os três cachorros Elefante,
Corujo e Mosquete:
na boca da última delas deixou o couro da cabeça e o escravo fiel
deixou a mão, a faca encravada e a implacável morte
tanto me atendem à cítara
como à ponta do punhal
e Leonor ficou viúva e um dia
a casa de Leonor amanheceu fechada
e Leonor havia desaparecido
e Leonor era — conta Leonardo — uma viúva nova e muito formosa depois se soube:
fora raptada pelo Major Eufrásio Feitosa e por ele situada numa casa em um alto
e ainda hoje ali se chama
o Alto de Sa Leonor e os montes
e os rios e as devezas e as várzeas
guardam, da Serra da Joaninha ao Riacho do Sangue,
o nome com que os machos
nomearam amor e nomearam morte
no país dos Mourões
tanto me atendem à citara
como à ponta do punhal,
tanto a meu punho se deitam
os vencidos na macega
como a meu canto as mulheres
na ribanceira do rio:
explica, Maria Helena,
como esta doçura é forte
e o vigor desta bravura:
chama a princesa e estremeçam
seus seios na minha mão:
não sou Teseu nem Orfeu,
os dois são Mello Mourão.
Nünca houve nesta raça
homem não raparigueiro
e nela não se conhece
uma casada infiel:
no couro dos Mourões sobeja o macho
a ti domava a citara
a outras o músculo.
... deixa-me pastar a erva em tua mão.
E tu,
que não morres de mim, vives de mim
a ti e só a ti
ofereci a melodia a um tempo
de citara e de músculo e só tu
saberias dizer o contraponto
do canto que inventei aos teus ouvidos
e à doçura
de sua força
arrebatada no meu lombo e no êxtase
ela acenderá no crepúsculo
a estrela da manhã:
sob o ventre pentélicon
pentagrama de ouro!
1 362
Marina Colasanti
ATRÁS DO TRONCO
Toda vez que o nome do meu pai
ou essa expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra
disse ele
é impossivel saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou se sequer estava
atrás do tronco.
ou essa expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra
disse ele
é impossivel saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou se sequer estava
atrás do tronco.
1 136
Manuel Bandeira
Jaime Cortesão
Honra ao que, bom português,
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.
568
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Erram todos – judeus, cristãos,
Erram todos – judeus, cristãos,
muçulmanos e masdeístas:
A humanidade segue duas seitas:
Uma: pensadores sem religião,
Outra: religiosos sem cabeça.
716
Fernando Pessoa
Com teu gesto pintado e exagerado
Com teu gesto pintado e exagerado
E o teu prolixo modo de sorrir
E o teu olhar, sob o torpor copado
Da expressão, veludineo em dirigir
Tu nada sabes do essencial pecado
E uma inocência (...) vem luzir
Como uma luz de azeite em descampado
No teu gesto ensinado a conseguir.
Porque a análise é a vera perversão...
O único vício é rebuscar a alma,
Dor a dor, sensação a sensação...
Tu, a exterior, que mal tens na alma oca?
Nada... Ai de nós de quem a vida é calma.
E quem é que fica dentro ... (Abre a tua boca!)
E o teu prolixo modo de sorrir
E o teu olhar, sob o torpor copado
Da expressão, veludineo em dirigir
Tu nada sabes do essencial pecado
E uma inocência (...) vem luzir
Como uma luz de azeite em descampado
No teu gesto ensinado a conseguir.
Porque a análise é a vera perversão...
O único vício é rebuscar a alma,
Dor a dor, sensação a sensação...
Tu, a exterior, que mal tens na alma oca?
Nada... Ai de nós de quem a vida é calma.
E quem é que fica dentro ... (Abre a tua boca!)
1 057
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Agora imperam esta fé e esta crença
Agora imperam esta fé e esta crença
Até que por outras sejam vencidas.
Homem, temes só com homens vivas,
Dessarte escolhes viver com lendas.
620
Mário Pederneiras
Caminho Errado
(fragmento)
Eu preferia ter nascido
Um pesado burguês redondo e manso,
Alimentado e rude;
Desses que vivem a vender saúde,
Cuja vida, incolor e sem sentido,
É um cômodo vale de descanso.
Dos que da farta messe dos acervos
Sentimentais, que lhes parecem fúteis,
E o gozo de viver tornam lerdo, enfadonho
Suprimem logo, por banais e inúteis,
O Sonho,
O Coração e os Nervos.
E assim vazios,
Só com o bem-estar e o asco
Dos outros bens, que o ouro lhes trouxe,
Vão por largos e plácidos desvios
Seguindo a vida, qual se a Vida fosse
A secular Estrada de Damasco.
Sem perceber, nem distinguir aspectos
De Luz, de Cor, que só parecem turvos
A seus olhos parados;
Que vivem como bem-aventurados
E que se são internamente curvos,
Nunca deixam de ser externamente retos.
Felizes os que assim nasceram
E que da Vida a perigosa aléia
Percorrem toda sem um desaponto ...
Viver assim... Sem Deus e sem Idéia,
Ou ter um Deus que receberam pronto
Idéias que os outros conceberam.
A esses não estorva o passo,
A almejada ração de uma alegria...
Não distinguem a Cor do Sol e do Mormaço.
E o Dia... é sempre o mesmo Dia.
Eu preferia ter nascido
Um pesado burguês redondo e manso,
Alimentado e rude;
Desses que vivem a vender saúde,
Cuja vida, incolor e sem sentido,
É um cômodo vale de descanso.
Dos que da farta messe dos acervos
Sentimentais, que lhes parecem fúteis,
E o gozo de viver tornam lerdo, enfadonho
Suprimem logo, por banais e inúteis,
O Sonho,
O Coração e os Nervos.
E assim vazios,
Só com o bem-estar e o asco
Dos outros bens, que o ouro lhes trouxe,
Vão por largos e plácidos desvios
Seguindo a vida, qual se a Vida fosse
A secular Estrada de Damasco.
Sem perceber, nem distinguir aspectos
De Luz, de Cor, que só parecem turvos
A seus olhos parados;
Que vivem como bem-aventurados
E que se são internamente curvos,
Nunca deixam de ser externamente retos.
Felizes os que assim nasceram
E que da Vida a perigosa aléia
Percorrem toda sem um desaponto ...
Viver assim... Sem Deus e sem Idéia,
Ou ter um Deus que receberam pronto
Idéias que os outros conceberam.
A esses não estorva o passo,
A almejada ração de uma alegria...
Não distinguem a Cor do Sol e do Mormaço.
E o Dia... é sempre o mesmo Dia.
1 210
Carolina Vigna Prado
Custos
Você ainda se surpreende. Mérito meu.
Você ainda gosta. Mérito seu.
Custo a compreender sua lógica, se é que existe uma.
Custo a compreender minhas razões. Elas não existem.
Enquanto isso,
você pensa em custos.
Tenho a absoluta certeza de nossa temporalidade.
Me irrito com o desperdício.
Me falta a paciência, me falta tempo.
O tempo é pouco, sempre será.
A consciência da morte não me desespera, apenas me apressa.
Não temos tempo. Nunca o teremos.
Não bastamos.
Seu egocentrismo exacerbado destrói seu prazer.
E você pensa em custos.
Custos.
Que custos?
Não somos únicos.
Não somos os melhores.
Nunca o seremos.
Você ainda gosta. Mérito seu.
Custo a compreender sua lógica, se é que existe uma.
Custo a compreender minhas razões. Elas não existem.
Enquanto isso,
você pensa em custos.
Tenho a absoluta certeza de nossa temporalidade.
Me irrito com o desperdício.
Me falta a paciência, me falta tempo.
O tempo é pouco, sempre será.
A consciência da morte não me desespera, apenas me apressa.
Não temos tempo. Nunca o teremos.
Não bastamos.
Seu egocentrismo exacerbado destrói seu prazer.
E você pensa em custos.
Custos.
Que custos?
Não somos únicos.
Não somos os melhores.
Nunca o seremos.
792
Cláudio Murilo
Fora do Jogo
— Um alienado — apostrofam.
Não matou nem mandou matar,
não foi fiel à sua classe
(burguesa)
nem participou de mitins
comitês,
sindicatos.
Não assinou listas de adesão.
Não se solidarizou nem com a direita
nem com a esquerda.
Não foi servil com os poderosos do dia.
Não pendurou retratos,
não hasteou bandeiras,
não recebeu comendas.
Viveu fora do jogo,
sonhando uma Ideologia
que não se corrompesse com o atrito da Realidade.
Não matou nem mandou matar,
não foi fiel à sua classe
(burguesa)
nem participou de mitins
comitês,
sindicatos.
Não assinou listas de adesão.
Não se solidarizou nem com a direita
nem com a esquerda.
Não foi servil com os poderosos do dia.
Não pendurou retratos,
não hasteou bandeiras,
não recebeu comendas.
Viveu fora do jogo,
sonhando uma Ideologia
que não se corrompesse com o atrito da Realidade.
737
Cláudio Murilo
Impunidade
O barão especializou-se em conversas inúteis
e telegramas.
Ganhou muito dinheiro com as guerras púnicas
e a desigualdade social.
Levou uma existência de pasteizinhos de queijo
e taças de hidromel.
Aposentou-se
e viveu dos juros, sem tocar no capital.
Ninguém o castigou, nem Deus nem os homens.
e telegramas.
Ganhou muito dinheiro com as guerras púnicas
e a desigualdade social.
Levou uma existência de pasteizinhos de queijo
e taças de hidromel.
Aposentou-se
e viveu dos juros, sem tocar no capital.
Ninguém o castigou, nem Deus nem os homens.
735
José Maria da Costa e Silva
A Corila
Vês, Corila, aquela rosa
Emulando a cor da aurora
Quando, Febo a porta abrindo,
Leda sai do Ganges fora? ...
Que maior valor tivera,
Quão mais grata fora à gente,
Se natura não a armasse
De um espinho tão pungente ...
Sua púrpura esmaltando
De seu folhame o verdor,
E nos ares difundindo
Seu aroma encantador,
Convidaram-te a colhê-la,
Mas teu dedo alabastrino
Rasgado com dor penosa
Verteu veio purpurino:
Eis, Corila, o teu retrato,
Pois se és rosa na beleza,
Tens também de rosa espinhos
Nos desdéns e na fereza.
Ah! Muda esse gênio esquivo,
Que requinta a formosura
Exalar de quando em quando
Um suspiro de ternura.
À formosa, em cujos olhos
Não arde o fogo do amor,
Eu prefiro a muda estátua,
Que formou destro escultor.
Emulando a cor da aurora
Quando, Febo a porta abrindo,
Leda sai do Ganges fora? ...
Que maior valor tivera,
Quão mais grata fora à gente,
Se natura não a armasse
De um espinho tão pungente ...
Sua púrpura esmaltando
De seu folhame o verdor,
E nos ares difundindo
Seu aroma encantador,
Convidaram-te a colhê-la,
Mas teu dedo alabastrino
Rasgado com dor penosa
Verteu veio purpurino:
Eis, Corila, o teu retrato,
Pois se és rosa na beleza,
Tens também de rosa espinhos
Nos desdéns e na fereza.
Ah! Muda esse gênio esquivo,
Que requinta a formosura
Exalar de quando em quando
Um suspiro de ternura.
À formosa, em cujos olhos
Não arde o fogo do amor,
Eu prefiro a muda estátua,
Que formou destro escultor.
882
Cunha Santos Filho
Cirrose Azul
São os testículos de Deus que agora arranco
na marcha em que não marcho pois sou manco
na mesa em que me esfumo no vinho do mal
rolo-me por mim, que sou barranco
choro de beber, choro e me tranco
que nem o olho aceita o choro do chacal
Porque quis eu dar outro murro em Cristo
com toda alma danada de um Buda misto
e ser punido, hoje, por não ter pais
se nem sequer é minha roupa e eu nem visto
quero ser homem — sou apenas quisto
quero ser carne — sou só cicatriz
Não tive a vez do azul quando do gozo
a mim foi dada a queda, nunca o pouso
e outros retesaram-me no chão
assim, ó vil cantiga que eu nem ouso
nesta cama de gato é que eu repouso
ferreado da violenta compulsão
Não irei longe. É certo, me esfarinho
o séquito do demo é o eu sozinho
o eu, ou 10, milhões mamando a paz
— por tantas vezes destruí meu ninho
sou como inseto que alagado em vinho
afoga, arqueja, sofre e bebe mais
Tridente, fogo, rastro de cometa
o mundo onde estou é uma maleta
trancada aos ais das mães e aos ais dos pais
vivo de espirros — gripe de escopeta
entregador de horror, eu estafeta
que desde que se foi, não foi jamais
Bebo meu sangue seco na tigela — e frio —
tantos se juntam pra eu ser vazio
tantos se aninham pra me reverter
eu, que de um só, após, me fiz um trio
durmo em mim mesmo e choro enquanto rio
de ver meu próprio riso apodrecer
..................................................................
Mas há um cão distante que poreja
há uma lombriga douro que me beija
e alguém que ri falido de tormento
há uma carne sem sal, que de sal seja
que eu me mudei pra um balde de cerveja
e fiz de um copo meu apartamento.
na marcha em que não marcho pois sou manco
na mesa em que me esfumo no vinho do mal
rolo-me por mim, que sou barranco
choro de beber, choro e me tranco
que nem o olho aceita o choro do chacal
Porque quis eu dar outro murro em Cristo
com toda alma danada de um Buda misto
e ser punido, hoje, por não ter pais
se nem sequer é minha roupa e eu nem visto
quero ser homem — sou apenas quisto
quero ser carne — sou só cicatriz
Não tive a vez do azul quando do gozo
a mim foi dada a queda, nunca o pouso
e outros retesaram-me no chão
assim, ó vil cantiga que eu nem ouso
nesta cama de gato é que eu repouso
ferreado da violenta compulsão
Não irei longe. É certo, me esfarinho
o séquito do demo é o eu sozinho
o eu, ou 10, milhões mamando a paz
— por tantas vezes destruí meu ninho
sou como inseto que alagado em vinho
afoga, arqueja, sofre e bebe mais
Tridente, fogo, rastro de cometa
o mundo onde estou é uma maleta
trancada aos ais das mães e aos ais dos pais
vivo de espirros — gripe de escopeta
entregador de horror, eu estafeta
que desde que se foi, não foi jamais
Bebo meu sangue seco na tigela — e frio —
tantos se juntam pra eu ser vazio
tantos se aninham pra me reverter
eu, que de um só, após, me fiz um trio
durmo em mim mesmo e choro enquanto rio
de ver meu próprio riso apodrecer
..................................................................
Mas há um cão distante que poreja
há uma lombriga douro que me beija
e alguém que ri falido de tormento
há uma carne sem sal, que de sal seja
que eu me mudei pra um balde de cerveja
e fiz de um copo meu apartamento.
1 137
Crisódio T. Araújo
Reflexos de Timor
Reflexos de Timor
Reflexos da terra há muito deixada
Por tantos e tantos chorada...
Reflexos de um mar sedento de Paz
Corado do sangue de todo o que jaz...
Reflexos de um grito do Monte
Cansado de tanto sofrer...
Reflexos, Reflexos de Timor...
Reflexos de quem clama a Justiça
De um Mundo sem Lei nem Amor!
Reflexos de um Povo que grita
Liberdade, Liberdade, Viva Timor!
Reflexos da terra há muito deixada
Por tantos e tantos chorada...
Reflexos de um mar sedento de Paz
Corado do sangue de todo o que jaz...
Reflexos de um grito do Monte
Cansado de tanto sofrer...
Reflexos, Reflexos de Timor...
Reflexos de quem clama a Justiça
De um Mundo sem Lei nem Amor!
Reflexos de um Povo que grita
Liberdade, Liberdade, Viva Timor!
1 406
Daniel Loureiro
Pra Bom Enten
Em São Paulo o silêncio é vácuo
Em regime militar o silêncio é lei
No campo onde vivi o silêncio é doce
Na bagunça da minha cabeça
o silêncio não existe mais.
Olha a luz
é uma ilusão
Olha o homem
estruturação
Olha a vida
com avidez
Olha o tiro!
e ele ficou ali, estirado.
no enterro
acenderam piras
donde ele renasceu
das próprias cinzas querendo ficar por ali.
Ah! e também havia flores
sempre participantes
das pantes e frantes.
Você me entende
pois pra bom enten
Mas não há bom enten
só há nós e os nós do amor
Tão cantado
Tão falado
Tão pensado
Tão desejado
Tão esquecido
Tão desprezado
Tanta hipocrisia
e a crise ia
continua indo
acho que ligaram na tomada
e tomaram de mim o baú
de cujo fundo saía minha tia
a contar suas histórias...
Mas agora não tenho tempo
se é que alguém tem tempo
O tempo é que tem a gente
bem na palma da mão
e dentre os dedos
Escorri como areia
e as veias inchadas
mostravam cansaço
e o esforço do braço
no espancamento cruel
Sorrindo
Sorri e fui indo
Sorriso lindo
de te ter no meu pensamento
debaixo da janela
no peitoril da sacada
te vejo apoiada
na minha vida
se apóia na minha vida
Em regime militar o silêncio é lei
No campo onde vivi o silêncio é doce
Na bagunça da minha cabeça
o silêncio não existe mais.
Olha a luz
é uma ilusão
Olha o homem
estruturação
Olha a vida
com avidez
Olha o tiro!
e ele ficou ali, estirado.
no enterro
acenderam piras
donde ele renasceu
das próprias cinzas querendo ficar por ali.
Ah! e também havia flores
sempre participantes
das pantes e frantes.
Você me entende
pois pra bom enten
Mas não há bom enten
só há nós e os nós do amor
Tão cantado
Tão falado
Tão pensado
Tão desejado
Tão esquecido
Tão desprezado
Tanta hipocrisia
e a crise ia
continua indo
acho que ligaram na tomada
e tomaram de mim o baú
de cujo fundo saía minha tia
a contar suas histórias...
Mas agora não tenho tempo
se é que alguém tem tempo
O tempo é que tem a gente
bem na palma da mão
e dentre os dedos
Escorri como areia
e as veias inchadas
mostravam cansaço
e o esforço do braço
no espancamento cruel
Sorrindo
Sorri e fui indo
Sorriso lindo
de te ter no meu pensamento
debaixo da janela
no peitoril da sacada
te vejo apoiada
na minha vida
se apóia na minha vida
800
Teresa Bartholomeu
Das Ruas
Boca grande, boca pequena
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
927
Vespasiano Ramos
Samaritana
Piedosa gentil Samaritana:
Venho, de longe, trêmulo, bater
À vossa humilde e plácida cabana,
Pedindo alívio para o meu viver!
Sou perseguido pela sede insana
Do amor que anima e que nos faz sofrer:
Tenho sede demais, Samaritana
Tenho sede demais: quero beber!
Fugis, então, ao mísero que implora
o saciar da sede que o consome,
o saciar da sede que o devora?
Pecais, assim, Samaritana! Vede:
— Filhos, dai de comer a quem tem fome,
Filhos, dai de beber a quem tem sede.
Venho, de longe, trêmulo, bater
À vossa humilde e plácida cabana,
Pedindo alívio para o meu viver!
Sou perseguido pela sede insana
Do amor que anima e que nos faz sofrer:
Tenho sede demais, Samaritana
Tenho sede demais: quero beber!
Fugis, então, ao mísero que implora
o saciar da sede que o consome,
o saciar da sede que o devora?
Pecais, assim, Samaritana! Vede:
— Filhos, dai de comer a quem tem fome,
Filhos, dai de beber a quem tem sede.
2 012
Bernardo de Passos
Quadras Soltas
Pra mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.
O rato mete o focinho
Sem pensar que faz asneira
Depois, ou larga o toucinho,
Ou fica na ratoeira.
Há pessoas muito altas
De nome ilustrado e sério
Porque o oiro tapa as faltas
Da moral e do critério.
Enquanto o homem pensar
Que vale mais que outro homem,
São como os cães a ladrar,
Não deixam comer, nem comem.
Quantas sedas aí vão,
Quantos brancos colarinhos,
São pedacinhos de pão,
Roubados aos pobrezinhos!
Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.
E atingir profundidade,
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.
O rato mete o focinho
Sem pensar que faz asneira
Depois, ou larga o toucinho,
Ou fica na ratoeira.
Há pessoas muito altas
De nome ilustrado e sério
Porque o oiro tapa as faltas
Da moral e do critério.
Enquanto o homem pensar
Que vale mais que outro homem,
São como os cães a ladrar,
Não deixam comer, nem comem.
Quantas sedas aí vão,
Quantos brancos colarinhos,
São pedacinhos de pão,
Roubados aos pobrezinhos!
Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.
2 045
Mailson Furtado Viana
por causa do alvará de funcionamento
as casas
as ruas
cheiravam
fediam
apodreciam
tinham cheiro de feijão às quinze pro meio-dia
cheiro de cigarro às seis e tanto
gosto de sexo depois das dez
fediam ao uso
hoje
são estéreis
sovinam sussurros
se afogam em antidepressivos
se negam morrer
são hipócritas
as ruas
cheiravam
fediam
apodreciam
tinham cheiro de feijão às quinze pro meio-dia
cheiro de cigarro às seis e tanto
gosto de sexo depois das dez
fediam ao uso
hoje
são estéreis
sovinam sussurros
se afogam em antidepressivos
se negam morrer
são hipócritas
752
Carvalho Nogueira
Oração da Noite
— Meu Deus, eu agradeço mais um dia
de vida neste mundo de emoções,
também peço perdão pelos pecados
que cometi, por mais que os evitasse.
E por esses pecados, de joelhos,
perdão suplico, cheio de remorso,
pedindo forças, luzes e talento
para evitá-los quando me tentarem.
Como dissestes que a gente batesse,
que as portas se abririam de repente,
rogo pela felicidade dos meus filhos.
Pelas almas dos maus também eu rogo,
pelos que sofrem, pelos que não sabem
rezar uma palavra de perdão.
de vida neste mundo de emoções,
também peço perdão pelos pecados
que cometi, por mais que os evitasse.
E por esses pecados, de joelhos,
perdão suplico, cheio de remorso,
pedindo forças, luzes e talento
para evitá-los quando me tentarem.
Como dissestes que a gente batesse,
que as portas se abririam de repente,
rogo pela felicidade dos meus filhos.
Pelas almas dos maus também eu rogo,
pelos que sofrem, pelos que não sabem
rezar uma palavra de perdão.
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