Poemas neste tema

Ética e Moral

Reynaldo Jardim

Reynaldo Jardim

Receituário

De que fel preparava
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?
703
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Ala Beneficente

e me jogaram num porão por 3 dias
e era um lugar muito escuro, e parecia que
todo mundo era louco lá embaixo e isso,
pelo menos, me mantinha feliz. mas volta e meia
um grande filho da mãe que se autodenominava
“Booboo Cullers, o grandão das Avenidas!”
vinha se meter, quero dizer ele saía de sua cama
e ele era enorme e doido e eu estava fraco, muito,
e ele batia nos outros pacientes com seus punhos,
mas eu sempre dava um jeito de rechaçá-lo
eu pegava meu jarro de água
levantava pra trás com a mão esquerda, praguejava fazendo mira.
Boo desistia.

depois de despacharem 6 mortos
um por causas naturais
5 pelas mãos do fabuloso Booboo Cullers
o grandão das Avenidas,
amarraram o enorme Booboo
com grande dificuldade,
e eu fiquei olhando enquanto os guardas batiam nele
no rosto e na barriga e na genitália até que ele
parou de gritar e cedeu
e eu sorri e me dei conta do que significava
a palavra Humanismo
apenas o máximo de conforto para o máximo número de humanos,
o que no meu entender era
muito bacana.
1 025
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Outro

Às vezes, na hora trêmula em que os espaços desmancham-se em neblina
E a gaze da noite se esgarça suspensa na bruma dormente
Eu sinto sobre o meu ser uma presença estranha que me faz despertar
angustiado
E me faz debruçar à janela sondando os véus que se emaranham dentre as
folhas...
Fico... e muita vez os meus olhos se desprendem misteriosamente das
minhas órbitas
E presos a mim vão penetrando a noite e eu vou me sentindo encher da
visão que os leva.
V ozes e imagens chegam a mim, mas eu inda sou e por isso não vejo
V ozes enfermas chegam a mim — são como vozes de mães e de irmãs
chorando
Corpos nus de crianças, seios estrangulados, bocas opressas na última
angústia
Mulheres passando atônitas, espectros confusos, diluídos como as visões
lacrimosas.
E de repente eu sou arrancado como um grito e parto e penetro em meus
olhos
E estou sobre o ponto mais alto, sobre o abismo que desce para a aurora que
sobe
Onde na hora extrema o rio humano se despeja vertiginosamente e de onde
surgirá
Lívido e descarnado, quando o pálido sangue do Sol morrendo escorrer da
face verde das montanhas.

Mas por que estranho desígnio foi diferente a angústia daquela manhã
tristíssima
Por que não vieram até mim as lamentações de todas as madrugadas
Por que quando eu caminhei para o sofrimento, foi o meu sofrimento que
[eu vi estendido sobre as coisas como a morte?
Ai de mim! a piedade ferira o meu coração e eu era o mais desamparado
O consolo estava nas minhas palavras e eu era o único inconsolável
A riqueza estivera nas minhas mãos e eu era pobre como os olhos dos
cegos...
Na solidão absoluta de mil léguas foi o meu corpo que eu vi acorrentado ao
pântano infinito
Foi a minha boca que eu vi se abrindo ao beijo da água ulcerada de flores
leprosas.
Dormiam sapos sobre a podridão das vitórias moribundas
E vapores úmidos subiam fétidos como as exalações dos campos de guerra.
Eu estava só como o homem sem Deus no meio do tempo e sobre minha
cabeça pairavam as aves da maldição
E a vastidão desolada era grande demais para os meus pobres gritos de
agonia.
De fora eu vi e senti medo — como que um ávido polvo me prendia os pés
ao fundo da lama
Eu gritei para o miserável que erguesse os braços e buscasse a
[música que estava no pântano e na pele desfeita das flores intumescidas
Mas ele já nada parecia ouvir — era como o mau ladrão crucificado.

Oh, não estivesse ele tão longe de meus pés e eu o calcaria como um verme
Não fosse minha náusea e eu o iria matar no seu martírio
Não existisse a minha incompreensão e eu lhe desfaria a carne entre meus
dedos.
Porque a sua vida está presa à minha e é preciso que eu me liberte
Porque ele é o desespero vão que mata a serenidade que quer brotar em
mim
Porque as suas úlceras doem numa carne que não é a dele.
Mas algum dia quando ele estiver dormindo eu esquecerei tudo e afrontarei
o pântano.
Mesmo que pereça eu o esmagarei como uma víbora e o afogarei na lama
podre
E se eu voltar eu sei que as visões passadas não mais povoarão os meus
olhos distantes
Eu sei que terei forças para comer a terra e ficar escorrendo em sangue

como as árvores
Parado diante da beleza, agasalhando os príncipes e os monges, na
contemplação da poesia eterna.
1 241
Antônio Ribeiro dos Santos

Antônio Ribeiro dos Santos

Epístola

Assim é, assim é, ó Serra amigo,
Homens desnaturais, filhos ingratos
Ao leite que mamaram, desmandados
Despeitam nossa língua veneranda:
Querem deixá-la a rústica gentalha,
Ou qual velha entrevada aposentá-la
No hospital dos inválidos. Não falam
Já nossos moços português, só parlam
Ou línguas estrangeiras, que mal sabem,
Ou um dialecto informe, nunca ouvido,
De português e de francês meado.
Assim se educam no colégio os moços,
Assim se fala em público teatro,
Assim nos vêm de fora parolando
Mancebos viajantes, que aprenderam
Quatro termos da moda, vinte frases
De estrangeiro romance mal trazidas.
Se assim se desaforam, certo em breve
Acaba o luso idioma, nem mais podem
Entender-nos a nós, nem nós a eles.
Neste transtorno, em que isto vai, depressa
Ficará a mesquinha língua, outrora
Tão tratada em civil cortejo, e rica,
Ora pobre, e deserta e montesinha,
D'urzes e tojo e cardos abafada;
E cedo em seu lugar já só veremos
O fanado nasal francês reinando:
Que estranha servidão! se ainda agora
O cabeludo godo dominasse
Sobre o trono de Espanha, se inda agora
O feroz agareno nos pisasse
As frescas ribas do sagrado Tejo,
Fora menos desar tomar a língua
Dos fortes vencedores; porém sendo
Nós outros livres de nações estranhas,
Sendo senhores do solar nativo,
É mui grande sandice e desgoverno
Pagar a estranhas línguas alcavala.
Mas tu, com alguns poucos amadores
Das coisas pátrias, que já poucos vejo,
Que conheces melhor do que eu os dotes
Da lusitana língua veneranda,
Sua riqueza e majestade e brios,
E o jus que tem a se manter no trono,
Farás, com teu exemplo ilustre e claro,
Que ela seja mantida e respeitada
Nas doutas obras, que lá estás compondo.
600
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Os Que Dizem Que Veem Bem E Mal

Os que dizem que veem bem e mal
[e]nas aves e d'agoirar pre[i]t'ham,
querem corvo seestro quando vam
algur entrar; e digo-lhis eu al:
que Iésu Cristo nom me perdom
se ant'eu nom queria um capom
que um gram corvo carnaçal.

E o que diz que é mui sabedor
d'agoir'e d'aves, quand'algur quer ir,
quer corvo seestro sempr'ao partir;
e por en dig'eu a Nostro Senhor
que El[e] me dê, cada u chegar,
capom cevado pera meu jantar
e dê o corvo ao agoirador.

Ca eu sei bem as aves conhoscer
e com patela gorda mais me praz
que com bulhafre, voutre, nem viaraz,
que me nom pode[m] bem nem mal fazer;
e o agoirador torpe que diz
que mais val o corvo que a perdiz,
nunca o Deus leixe melhor escolher.
469
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Amigo, Veestes-M'um Di'aqui

Amigo, veestes-m'um di'aqui
rogar dum preit'e nom vos fig'en rem
porque cuidava que nom era bem;
mais, pois vos já tant'aficades i,
       fazê-lo quer'e nom farei end'al,
       mais vós guardade mi e vós de mal.

Vós dizedes que o que meu mal for
nom queredes, e bem pode seer,
pero nom quix vosso rogo fazer;
mais, pois end'havedes tam gram sabor,
       fazê-lo quer'e nom farei end'al,
       mais vós guardade-mi e vós de mal.

Bem sabedes como falámos nós
e me vós rogastes o que m'eu sei
e non'o fiz, mais com pavor que hei
de perder eu, amigo, contra vós,
       fazê-lo quer'e nom farei end'al,
       mais vós guardade-mi e vós de mal.

E se vós fordes amigo leal,
guardaredes vossa senhor de mal.
565
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Nom Hei Eu Poder do Meu Amigo

Nom hei eu poder do meu amigo
partir, amigas, de mi querer bem,
e, pero m'eu queixo, prol nom mi tem,
e quando lh'eu rogo muit'e digo
       que se parta de mi tal bem querer,
       tanto mi val come nom lho dizer.

Se mi quer falar, digo-lh'eu logo
que mi nom fale, ca mi vem gram mal
de sa fala, mais mui pouco mi val;
e quando lh'eu digo muit'e rogo
       que se parta de mi tal bem querer,
       tanto mi val come nom lho dizer.

Sempre mi pesa com sa companha,
porque hei medo de mi crecer prez
com el, com'outra vegada já fez;
e, pero lhi dig'em mui gram sanha
       que se parta de mi tal bem querer,
       tanto mi val come nom lho dizer.
596
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

O Meu Amigo, Forçado D'amor

O meu amigo, forçado d'amor,
pois agora comigo quer viver
ũa sazom, se o puder fazer,
nom dórmia já mentre comigo for,
       ca daquel tempo que migo guarir
       atanto perderá quanto dormir.

E quem bem quer [o] seu tempo passar
u é com sa senhor, nom dorme rem;
e meu amigo, pois pera mi vem,
nom dórmia já mentre migo morar,
       ca daquel tempo que migo guarir
       atanto perderá quanto dormir.

E, se lh'aprouguer de dormir alá
u el é, prazer-mi-á, per bõa fé,
pero dormir tempo perdud[o] é,
mais per meu grad'aqui nom dormirá,
       ca daquel tempo que migo guarir
       atanto perderá quanto dormir.

E, depois que s[e] el de mim partir,
tanto dórmia quanto quiser dormir.
641
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Bolhas Mornas Na Água

o que eu gosto
é quando estou na banheira
e peido
e esse peido é tão podre
que posso sentir o fedor
dele
subindo pela água.

o prazer do poder:
Mahatma Gandhi morrendo.
a íris travestida.

o amor é maravilhoso
mas o fedor das vísceras
também é,
a manifestação das partes
ocultas.
o peido. a bosta. a morte de
um pulmão.

anéis na banheira, anéis de merda em privadas
touros moribundos arrastados pelo pó mexicano
Benito Mussolini e sua puta Claretta
sendo pendurados pelos calcanhares
e rasgados em pedaços pela multidão –
essas coisas têm glória mais suave
do que qualquer Cristo com Seus
ferimentos perfeitamente situados.

eu li (e já não sei em que lado
foi) que na revolução russa
eles pegavam um homem, talhavam, pregavam
parte de seu intestino numa árvore
e o forçavam a correr em volta
dessa árvore, enrolando seus intestinos no
tronco. não sou sádico. eu provavelmente
choraria se tivesse de ver isso, provavelmente ficaria louco.
mas sei sim que somos bem mais do que
pensamos que somos
muito embora os românticos
se concentrem no ódio/e ou/amor do
coração.

um peido na banheira contém toda uma
história essencial da raça humana.
o amor é tão maravilhoso.
o peido também.
especialmente o meu.
touros moribundos sendo arrastados pelo pó
mexicano e eu na banheira
olhando uma lâmpada de 60 watts e me sentindo numa boa.
1 041
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Diz Meu Amigo Que, U Nom Jaz Al

Diz meu amigo que, u nom jaz al,
morre, ca nom pod'haver bem de mi,
e queixa-se-me muito e diz assi:
que o mat'eu e que faço mui mal;
       mais onde tem el que o mato eu?
       Se el morr'é por lh'eu nom dar o meu.

Tem guisad'em muitas vezes morrer,
se el morrer cada que lh'eu nom der
do meu rem, senom quando m'eu quiser,
e diz que o mato a mal fazer;
       mais onde tem el que o mato eu?
       Se el morr'é por lh'eu nom dar o meu.

Diz que tam muito é coitado d'amor
que rem de morte non'o tornará
porque nom houve bem de mim nem há,
e diz-m'el: "[E] matades-me, senhor!";
       mais onde tem el que o mato eu?
       Se el morr'é por lh'eu nom dar o meu.

E assanha-xi-m'el, mais bem sei eu
que a sanha toda é sobre lo meu.
658
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Nom Vos Sabedes, Amigo, Guardar

Nom vos sabedes, amigo, guardar
de vos saberem, por vosso mal sem,
como me vós sabedes muit'amar,
nem a gram coita que vos por mi vem;
       e quero-vos end'eu desenganar:
       se souberem que mi queredes bem,
       quite sodes de nunca mi falar.

Per nulha rem nom me posso quitar
de falar vosc'e sempre me temi
de mi o saberem, ca m'ham d'alongar
de vós, se o souberem, des ali;
       e quero-vos end'eu desenganar:
       se souberem que mi queredes bem,
       quite sodes de nunca mi falar.

Do que me guarda tal é seu cuidar:
que amades, amig', outra senhor;
ca, se a verdade poder osmar,
nunca ver[r]edes jamais u eu for;
       e quero-vos end'eu desenganar:
       se souberem que mi queredes bem,
       quite sodes de nunca mi falar.

E se havedes gram coita d'amor,
havê-la-edes per mi [mui] maior,
ca de longi mi vos farám catar.
259
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Mia Madre, Pois [A]Tal É Vosso Sem

Mia madre, pois [a]tal é vosso sem
que eu que[i]ra mal a quem mi quer bem
e me vós roguedes muito por en,
dized'ora, por Deus que pod'e val,
pois eu mal quiser a quem mi quer bem,
       se querrei bem a quem mi quiser mal.

Dizedes-mi que, se eu mal quiser
a meu amigo, que mi gram bem quer,
que faredes sempre quant'eu disser,
mais venh'or'a que mi digades al:
pois hei de querer mal a quem mi bem quer
       se querrei bem a quem mi quiser mal.

Muito mi será grave de sofrer
d'haver quem mi quer bem mal a querer,
e vós, madre, mandades-mi-o fazer,
mais faço-vos ũa pregunt'atal:
pois quem mi quer bem hei mal a querer,
       se querrei bem a quem mi quiser mal.

Se assi for, por mi podem dizer
que eu fui a que semeou o sal.
535
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Voss'amigo Quer-Vos Sas Dõas Dar

Voss'amigo quer-vos sas dõas dar,
amiga, e quero-vos dizer al:
dizem-mi que lhas queredes filhar;
e dized'ora, por Deus, ũa rem:
se lhi filhardes sas dõas ou al,
       que diredes por lhi nom fazer bem?

Vós nom seredes tam sem conhocer,
se lhi filhardes nulha rem do seu,
que lhi nom hajades bem a fazer;
e venh'ora preguntar-vos por en:
se lhi filhardes nulha rem do seu,
       que diredes por lhi nom fazer bem?

El punhará muit', e fará razom,
de lhas filhardes, quando vo-las der,
e vós ou lhas filharedes ou nom;
e dized'ora qual é vosso sem:
se lhi filhardes quanto vos el der,
       que diredes por lhi nom fazer bem?

Ou bem filhade quanto vos el der
e fazede bem quanto x'el quiser,

ou nom filhedes, com sem, nulha rem
nem lhi façades nunca nẽum bem.
324
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Diz, Amiga, o Que Mi Gram Bem Quer

Diz, amiga, o que mi gram bem quer
que nunca mais mi rem demandará,
sol que lh'ouça quanto dizer quiser,
e, mentre viver, que me servirá;
       e vedes ora com'é sabedor:
       que, pois que lh'eu tod'este bem fezer,
       log'el querrá que lhi faça melhor.

Mui bem cuid'eu que com mentira vem,
pero jura que mi nom quer mentir,
mais diz que fale conmig', e por en,
mentre viver, nom mi quer al pedir;
       e vedes ora com'é sabedor:
       que, pois que lh'eu tod'este bem fezer,
       log'el querrá que lhi faça melhor.

Gram pavor hei nom me queira enganar,
pero diz el que nom quer al de mim
senom falar mig', e mais demandar,
mentre viver, nom [mi] quer des ali;
       e vedes ora com'é sabedor:
       que, pois que lh'eu tod'este bem fezer,
       log'el querrá que lhi faça melhor.

E esto será mentr'o mundo for:
quant'home mais houver ou acabar,
tanto d'haver mais haverá sabor.

Mais id', amiga, vós, por meu amor,
conmig'ali u m'el quiser falar,
ca mal mi venha, se lh'eu soa for.
286
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Feijão Com Chili

pendurem-nos de cabeça pra baixo pela noite
abundante,
queimem seus filhos e molestem suas colheitas,
cortem as gargantas de suas esposas,
fuzilem seus cães, porcos e criados;
o que não matarem, escravizem;
vossos políticos farão de vocês heróis,
tribunais internacionais julgarão
vossas vítimas culpadas;
vocês serão homenageados, ganharão medalhas,
pensões, vilas à beira do rio
com direito a escolher mulheres
pré-prostitutas;
os padres abrirão as portas de Deus
pra vocês.

o importante é a vitória,
sempre foi;
vocês serão enobrecidos,
serão promovidos como humildes e
bondosos conquistadores
e vocês vão acreditar nisso.

o que isso significa é que a mente humana
não está pronta ainda
então vocês reivindicarão uma vitória pelo
espírito humano.

uma garganta cortada não pode responder.
um cão morto não pode morder.

vocês venceram.
proclamem a decência.
609
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema de Milhões

nós morávamos num hotel perto de um
terreno baldio
onde alguém estava cultivando um
jardim
que incluía uns longos
talos de milho
e nós saímos do bar da esquina
às duas da manhã
e começamos a caminhar
na direção de casa
e quando chegamos ao terreno
baldio ela disse “eu quero uns
milhos!”
e eu fui atrás dela e
falei “merda, esse troço
não tá maduro ainda...”
“sim, tá sim... eu preciso
comer uns milhos...”
estávamos sempre famintos e
ela começou a rasgar
umas espigas de milho e
metê-las dentro da bolsa
e pela gola da blusa e
eu corri os olhos pela rua e
vi a viatura se aproximando
e falei “é a polícia,
corre!”
eles vinham de luz vermelha acesa
e nós corremos rumo ao nosso
apartamento, descemos pela
entrada da frente...
“parem ou eu atiro!”
e descemos a escada até
o elevador do subsolo
que calhou de estar nos esperando
e fechamos as portas e
apertamos o botão #4
enquanto eles ficavam lá
pressionando botões. nós
saímos e deixamos as portas
do elevador abertas, corremos para o
nosso apartamento, entramos, trancamos a porta
e ficamos sentados no escuro
escutando e bebendo vinho
barato. ouvimos os caras lá fora
perambulando. eles afinal
desistiram mas deixamos as luzes
desligadas e ela ferveu as espigas de
milho, ficamos no escuro por
muito tempo escutando as espigas
de milho ferverem e bebendo o
vinho barato. tiramos o milho
da água e tentamos comê-lo. ainda não
estava desenvolvido, nós mordiscávamos
assassinatos, abortos da
natureza.
“eu falei que essa merda não tava no ponto”,
eu disse.
“tá no ponto”, ela disse, “pelo amor
de Deus, come!”
“já tentei”, eu disse, “Deus Nosso Senhor sabe
como tentei...”
“fique feliz de ter esse milho”, ela disse,
“fique feliz de me ter também.”
“o milho tá verde”, eu disse, “verde que nem
as lagartas em abril...”
“ele tá bom, bom, esse milho tá bom”,
ela disse
e começou a jogar espigas em mim.
eu joguei as espigas de volta.
terminamos o vinho e fomos dormir.
de manhã quando acordamos havia
umas minúsculas espiguinhas de milho por tudo
no tapete, no sofá e nas cadeiras.
“de onde veio essa porcaria?”, ela perguntou.
“o Gigante Verde da lata de ervilha”, falei, “cagou pra nós
um tonel cheio.”
“nesse mundo”, ela disse, “uma garota nunca
sabe o que vai ver quando
acordar.”
“algo duro”, eu respondi, “é melhor
do que nada.”
ela se levantou e tomou banho e eu me
virei e voltei a dormir.
1 052
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Que Mui de Grad'eu Faria

Que mui de grad'eu faria
prazer ao meu amigo,
amiga, bem vo-lo digo,
mais log[o] em aquel dia
       nom leixará el, amiga,
       nulh'home a que o nom diga.

Faria-lho mui de grado,
porque sei que me deseja,
mais, se guisar u me veja
e lhi fezer seu mandado,
       nom leixará el, amiga,
       nulh'hom'a que o nom diga.

Tam coitado por mi anda
que nom há paz nem mesura;
pero se eu, per ventura,
fezer todo quant'el manda,
       nom leixará el, amiga,
       nulh'hom'a que o nom diga.

Dizedor é de nemiga
e dirá-o log', amiga.
554
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Quer Meu Amigo de Mi Um Preito

Quer meu amigo de mi um preito
que el já muitas vezes quisera:
que lhi faça bem; e já temp'era,
mas, como quer que seja meu feito,
       farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
       mais nom tam cedo com'el querria.

E digam-lhi por mi que nom tenha
que lho vou eu por mal demorando,
ca el anda-se de mi queixando,
mais, como quer que depois [mi] venha,
       farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
       mais nom tam cedo com'el querria.

El é por mi atam namorado
e meu amor o traj'assi louco
que se nom pod'atender um pouco,
mais, tanto que eu haja guisado,
       farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
       mais nom tam cedo com'el querria.

E, como quer que fosse, el querria
haver já bem de mim todavia.

E bem sei del que nom cataria
o que m'end'a mim depois verria.
571
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Brancos

eles que são brancos e os que não são eles
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se

1 042
Egito Gonçalves

Egito Gonçalves

Sitiados

Esta cidade é a última cidade...
Os muros derruídos estão cercados:
Os canhões troam através dos mapas.

Nossa imagem, revelada pelas montras,
Passeia pelas ruas de mãos dadas...
Somos a última trincheira valiosa.

Unidos, trituramos os assaltos
E renovamos o cristal da esperança.

Os ruídos emolduram-te o sorriso,
Pura mensagem, prenhe de um futuro
Isolado de poeiras e de lágrimas.

1 698
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Nova Canção (Sem Rei) de Tule

Há muito, há muito, muito tempo,
um Rei de Tule, apaixonado,
jogou ao mar a taça de ouro
em que bebera todo o amor.
E Goethe fez uma canção
desse amor e dessa áurea copa
que o pobre Nerval traduziu
(il la vit tourner dans l’eau noire…)
e mais Gounod e mais Berlioz
espalharam pelos teatros
líricos, o nosso inclusive.
Foi há tanto, nevoso tempo!
Já não se jogam taças de ouro
numa varanda sobre o mar
nem em qualquer outro lugar.
E Tule é outra. Mas que vejo?
Que objeto é esse lançado
às profundas do Mar de Baffin,
quando até as óperas mudam
de tom, em seu texto eletrônico?
Nem é um só, mas três ou quatro
alfaias de um rei dolorido
a desfazer-se de lembranças
inefáveis, no fim da vida?
E é ouro mesmo? Não: plutônio
(o duzentos e trinta e nove)
e urânio, seu irmão-primo
(o duzentos e trinta e cinco),
tão juntos como outrora juntos
em amoroso contubérnio
o rei e sua amada estavam.
Sob a blindagem protetora,
o idílio desses elementos
é de infernal doçura, mas
cuidado: se o detonador
detona, o mundo vira caco
ou pó de caco, pois amor
com tal potência em megatons
é antes símbolo de morte
do que uma rima para flor.
Focas em pânico: “Por que
nos remetem para depósito
esses invólucros letais
seguidos de uma caixa negra
com cabalísticos sinais,
se nenhum crime cometemos
em nossas solidões claustrais?”
Esquimós repetem em coro
a angústia das focas, o medo:
“Ninguém pode viver tranquilo
nem ao menos neste degredo?
Que presente é este, sem dó,
agredindo a paz do esquimó?”
“Calma, filhinhos” — uma Voz,
ressoando não se sabe de onde,
esclarece, pede desculpas:
“Foi apenas um acidente
em treinamento de rotina,
que dia e noite, mês a mês,
ano a ano, nossos motores
(oito) dos B-Cinquenta e Dois
vêm fazendo no mar das nuvens
com esses mimosos engenhos
tão amoráveis e perfeitos
e de prodigiosos efeitos
para o fim de lembrar ao Homem
que viver é graça precária
dependente de nosso arbítrio,
e portanto não facilite
se não quer converter-se em cinzas
sem sequer urna cinerária.
São bombas, sim, mas bombas bentas
pelo nosso santo desejo
de dirigir bem este mundo:
já não espada de justiça
nem lanterna do entendimento,
nem quimeras que a mente atiça
e se esfumam no vão do vento.
Fiquem quietas, amigas focas,
caros esquimós, bocca chiusa:
não se mexam em suas tocas,
que não é hora de alaúza”.
Disse a Voz. Seu ensinamento
verruma os arcanos gelados
para atingir a consciência
dos mínimos seres terrestres.
Ninguém mais joga copa de ouro
ao mar, nem há mais Rei de Tule.
Mas, de vez em quando, uma bomba
(ou três ou quatro) se diverte
fazendo o úmido trajeto.
Goethe também já não existe
para compor sua canção,
nem Nerval, nem os mestres músicos
dos velhos tempos do Oitocentos.
Então, este simples escriba,
claudicante na versiprosa,
eis que tentou versiprosar
mais um caso de bomba ao mar.
26/01/1968
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Egito Gonçalves

Egito Gonçalves

Sobre os Poemas

1
Há poetas que constróem o mundo nos cafés,
outros que o fazem no claro-escuro
entre as prisões e os intervalos.

Há poetas que aguardam cartas de apresentação
nem eles sabem para onde:
para a vida que falhou?, para a manteiga
que lhes foi negada?

Mas todos têm um sonho, todos
se esforçam por valer o pão que amassam
— lançam seu delicado peso na balança.

Eles sabem, esses poetas,
que nada é eterno e imutável.

2
Tal a "Cadeia de Santo Onofre:
Copie o texto: envie a cinco amigos"...
há poetas que se multiplicam, fendem
a vaga limite, impedem o suicídio,
explicam a vida, argamassam
dedicação e raiva.

Girassóis, rodam sobre si mesmos,
indicam o ponto onde a luz se abre.

3
Há poetas cuja poesia reagrupa, fornece
uma canção à cidade, martela
os que dormem alheios, move-se
silenciosamente ao jeito das estátuas.

Pacífica vaca ruminando na linha do rumo;
rosto impreciso solidificando breve;
tênue tinta azul no papel claro ...

Os poetas têm
como os peles-vermelhas do cinema
o seu fumo e os seus cobertores.

4
Há poetas que renegam cartas
de apresentação para o arrivismo;
recusam a mão ao salário da trampa;
não enfeixam o nome e a desonra
nos telegramas do medo.

Enquanto bebem o café um histrião noturno
arenga; executa o seu número; recebe
por nova pirueta uma ajuda de custo.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Novo Homem

O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não objeto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
“Nove meses, eu?
Nem nove minutos”.
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia saecula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?,
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.
17/12/1967
1 202
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Morto de Mênfis

A arma branca
e o alvo preto
não cabem
no soneto.

A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.

Fica no ar
o som
do verbo matar.

Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.

Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.

O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.

Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.

Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,

borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.

Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror

da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.

(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)

O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.

O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.

O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.

Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?

É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?

As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.

Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,

em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.

A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.

Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.

O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
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