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Fernando Namora

Fernando Namora

Noite

Ó noite,
coalhada nas formas de um corpo de mulher
vago e belo e voluptuoso
num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos e quedos.

Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
deixai que os caminhos da noite,
cegos e rectos como o destino,
suspensos como uma nuvem,
sejam os caminhos dos poetas
que lhes decoraram o nome.
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
esconde a vida no seio de uma estrela
e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

2 635
Olavo Bilac

Olavo Bilac

As Cartomantes

OS JORNAIS PUBLICARAM, há dias, uma longa lista de nomes de homens e de mulheres, — principalmente de mulheres, — que se dedicam ao estudo e à prática da quiromancia, da cartomancia, do sonambulismo, e não sei se também da lampadomancia, da alectoromancia, da hidromancia, e de outras das inumeráveis subciências em que se divide a grande ciência da mântica, a cujos sacerdotes Severiano de Rezende dá o nome, admiravelmente bem achado, de "Charlatas do Além".

Parece que a polícia, depois de organizar o catálogo estatístico dessa gente, vai persegui-Ia sem piedade, devassando-lhe os antros proféticos, varejando-lhe as cavernas sibilinas, vascolejando-lhe as criptas misteriosas, opondo ao Tarô o Código e à trípode de Delfos o banco dos réus.

Dir-se-á, sem maior exame, encarando a cousa pela rama, que a polícia se vai assim empenhar num simples e fácil trabalho de saneamento moral, perseguindo algumas dúzias de exploradores da credulidade pública, com o mesmo direito com que persegue os passadores do "conto do vigário" ou de notas falsas.

Não há tal. O que a polícia vai fazer é pôr a sua mão imprudente numa tradição multissecular, numa eterna e indestrutível mentira, criada pelo medo ou pela curiosidade dos primeiros homens, e sustentada pela irremediável tolice de todos os outros que lhes sucederam e lhes hão de suceder no gozo e no sofrimento dos bens e dos males da vida. Querer destruir uma mentira, que há de viver perpetuamente, e combater uma tolice, contra a qual nunca se há de achar remédio, — é a preocupação mais vã de quantas podemos ter neste mundo vão. E desde já podemos lamentar que a polícia vá perder nesse trabalho ingrato e inútil um tempo preciosíssimo, que poderia ser benéfica e providencialmente aproveitado em outras empresas muito mais fáceis e urgentes.

A superstição é velha e eterna como a inteligência.

Que fez a inteligência, assim que desabrochou, como uma flor luminosa, no primeiro cérebro humano? Quis saber o que era ela própria, e o que era a humanidade, e o que era a Terra, e o que era o universo. E endereçou então a tudo essa grande pergunta ansiosa e dolorosa, que ainda não teve resposta...

Naturalmente, a primeira interrogação foi dirigida ao céu distante e profundo, onde os astros esplendem, na sua eterna viagem, cegando-nos com o seu brilho e intrigando-nos com o seu segredo inatingível; nasceu assim a astrologia. Depois, a pergunta foi dirigida pelo homem a si mesmo, aos seus pensamentos, aos mistérios da sua vida fisiológica: aos sonhos, às linhas da mão, à configuração da face, à faculdade da visão, à loucura, à epilepsia, ao sonambulismo. Depois, o eterno curioso interrogou os acidentes físicos do meio que o cercava: o fogo, a luz, o ar, o curso dos rios, a inquietação do oceano, as correrias das nuvens pelo céu. Passou depois a investigar todo o reino animal: e foi assim que se fundou a classe dos arúspices que procuravam ler o futuro nas entranhas dos animais, no vôo dos pássaros, no rastejar dos répteis, no canto dos galos, nos círculos que as aves de rapina traçam no céu, no grunhir dos bácoros; depois chegou a vez do reino vegetal, do reino mineral: examinavam-se a forma e a direção dos ramos, o barulho dos galhos sacudidos pelo vento, a forma e a estrutura das folhas e das flores, o peso e o brilho das pedras preciosas, o fulgor e a dureza dos metais; fundou-se uma ciência, a aleuromancia, sobre o estudo da farinha! o âmbar foi adorado como uma divindade! e milhões e milhões de cérebros arderam e estouraram no trabalho vão de criar a pedra filosofal!

Tudo foi inútil; mas a inteligência não desesperou. Não há século que não veja nascer uma nova religião; e as superstições, suas filhas, nascem todos os dias, — e às vezes nascem por si mesmas, espontaneamente, por um processo de autocriação; há ateus, ateus convencidos, inimigos e negadores de todas as religiões, e, entretanto, profundamente supersticiosos: não crêem em Jeová, nem em Brahma, nem em Júpiter, nem em Ísis, — mas crêem na fatalidade da concorrência de 13 convivas à mesa, ou na influência do mau-olhado dos jettatores, ou na ascendência nefasta dos sapatos que se deixam no chão com a sola para cima.

Há quem pense que, com o progredir da civilização, diminui o número dos supersticiosos. Completa ilusão. Nunca houve tantos supersticiosos e tantas superstições como agora. A civilização causa o naufrágio e a bancarrota das religiões, mas não aplaca esta sede de saber e esta ânsia de compreender que ainda não foram satisfeitas. Morrem e sucedem-se as religiões, mas não se altera o instinto religioso; reformam-se as superstições, mas a Superstição é eterna.

Todos nós costumamos rir das crendices... É um riso exterior e postiço, com que mascaramos o nosso medo. É de crer que, para não perder o seu ganha-pão, os delegados de polícia, obedecendo às ordens do chefe, varejem as casas das cartomantes; muitos deles, porém, cumprirão esse dever com um certo terror. E até o chefe... quem sabe que superstições terá o chefe? a investidura de tão alto cargo não destrói dentro da alma de um homem as estratificações de preconceitos que séculos e séculos de humanidade e de fraqueza têm deposto nas almas de todos os homens.

Eu, por mim, confesso que não creio na ciência das cartomantes. Mas...

Foi há muitos anos, — há 22 ou 23 anos, se me não engano. Fui consultar Madama X, cartomante famosa, que tinha a sua trípode assentada num sobradinho da rua de São José. Não sei por que lá fui: provavelmente para rir dela... Subi uma escada íngreme, andei por um corredor escuro, bati a uma porta, entrei em uma saleta quase sem luz. E, ocupando uma vastíssima poltrona, vi a profetisa; quarentona gorda e vermelha, de mãos papudas e colo enorme estalando o corpete. Recebeu-me com um sorriso cativante, e indagou logo o que ali me levava: — tinha perdido alguma cousa? ia casar? queria conhecer o autor de alguma carta anônima?... Expliquei que não: queria conhecer o meu futuro, queria espiar por uma fresta dessa janela sempre fechada que deita para o porvir. Ela examinou, primeiro, as linhas da minha mão esquerda, palpou-me longamente as falangetas, — e, tomando o baralho, misturou as cartas, remexeu-as, estendeu-as em leque sobre a mesa, — e, antes de falar do meu futuro, começou a falar do meu passado.

Não posso aqui reproduzir tudo quanto me disse. Vinte e dois anos de vida varrem na memória da gente cousas tão sérias, que pareciam eternas!... como não hão de varrer futilidades e tolices? Lembra-me só que a anafada senhora me disse tantas cousas falsas e absurdas, que desatei a rir perdidamente.

Ela, apoplética, indignou-se. Labaredas de cólera crepitaram nos seus olhos, entre as pálpebras gordas. Mas conteve-se, antegozando a vingança: e, fixando os olhos nos meus, principiou a falar do meu futuro. Já eu não ria... O futuro!... todo o terror, toda a curiosidade, todo o sofrimento da ignorância dos meus brutíssimos avós do período mioceno despertavam na minha alma: e foi com um frio agudo na medula que eu ouvi a profecia tremenda. Combinando as revelações do Tarô com uma cerra interrupção da linha da vida na palma da minha mão, disse-me a sacerdotisa da rua de s. José: "O senhor há de morrer de morte violenta: desastre, assassinato ou suicídio!"

Paguei à cartomante, sorrindo, — com o sorriso exterior dos fortes, — e saí. Mas, ao descer a escada, vim pisando cautelosamente os degraus com medo de alguma queda. No largo da Carioca, esperei que passasse um bond que ainda vinha longe. Aproximou-se um cão: encolhi-me. Vi um andaime: afastei-me... E assim vivi alguns meses, sempre sorrindo da profecia, e sempre pensando nela. Já lá se vão 22 ou 23 anos! ainda não me assassinaram, nunca me vi a braços com um desastre sério, e nunca pensei (como espero que nunca hei de pensar) no suicídio. Mas, às vezes, —
6 130
Martim Soares

Martim Soares

Pero Rodrigues, da vossa mulher

Esta outra cantiga fez a Pero Rodrigues Grongelete de sua mulher que havia prez que lhe fazia torto

Pero Rodrigues, da vossa mulher,
não acrediteis no mal que vos digam.
Tenho eu a certeza que muito vos quer.
Quem tal não disser quer fazer intriga.
Sabei que outro dia quando eu a fodia,
enquanto gozava, pelo que dizia,
muito me mostrava que era vossa amiga.

Se vos deu o céu mulher tão leal,
que vos não agaste qualquer picardia,
pois mente quem dela vos for dizer mal.
Sabei que lhe ouvi jurar outro dia
que vos estimava mais do que a ninguém;
e para mostrar quanto vos quer bem,
fodendo comigo assim me dizia.

Português antigo

Pero Rodriguiz, da vossa molher
nom creades mal que vos home diga,
ca entend'eu dela que bem vos quer,
e quem end'al disser, dirá nemiga;
e direi-vos em que lho entendi:
em outro dia, quando a fodi,
mostrou-xi-mi muito por voss'amiga.

Pois vos Deus deu bõa molher leal,
nom tenhades per nulha jograria
de vos nulh'home dela dizer mal,
ca lh'oí eu jurar em outro dia
ca vos queria melhor doutra rem;
e, por veerdes ca vos quer gram bem,
nom sacou ende mi, que a fodia.
4 306
José Agostinho Baptista

José Agostinho Baptista

Da Nossa Morte

Da Nossa Morte

Agora é tarde.
Ninguém responde às cartas que escrevi e
atirei ao mar,
quando pensei que um dia serias como esse
marinheiro que num sonho antigo abençoava
o filho e depois partia nas asas do albatroz.
Agora é tarde.
Ninguém responde à sombria música dos meus
punhos golpeando a cadeira vazia,a mesa,as
folhas em branco onde uma única palavra se
aproxima,
manejando as suas armas-
três letras,três sinais de fogo.
Agora é tarde.
Ninguém cala os tempestuosos rios no fundo
dos meus olhos,
quando penso nos vermes,nas viscosidades
que te procuram através do cetim.

1 699
Conceição da Costa Neves

Conceição da Costa Neves

Distâncias

Dos meus aos teus braços
o caminho é bem curto.
Nossas bocas fazem o encontro
do desejo incontido e longo.
Depois, tudo é posse louca.
Músculos, carinho, seiva.
Paixão da carne que transvasa
nas vontades de todos os tempos.
Terminou. Músculos lassos. Vontades esgotadas.
É longo agora o caminho dos meus
para os teus braços.

1 427
Olavo Bilac

Olavo Bilac

Como quisesse livre ser

XXXII

Como quisesse livre ser, deixando
As paragens natais, espaço em fora,
A ave, ao bafejo tépido da aurora,
Abriu as asas e partiu cantando.

Estranhos climas, longes céus, cortando
Nuvens e nuvens, percorreu: e, agora
Que morre o sol, suspende o vôo, e chora,
E chora, a vida antiga recordando ...

E logo, o olhar volvendo compungido
Atrás, volta saudosa do carinho,
Do calor da primeira habitação...

Assim por largo tempo andei perdido:
— Ali! que alegria ver de novo o ninho,
Ver-te, e beijar-te a pequenina mão!

3 488
Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

No corpo

De que vale tentar reconstruir com palavras
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?

O sonho na boca, o incêndio na cama.
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

4 219
Stéphane Mallarmé

Stéphane Mallarmé

Brise Marine

Brise Marine

La chair est triste, hélas! et jai lu tous les livres.

Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres

Dêtre parmi lécume inconnue et les cieux!

Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux

Ne retiendra ce cœur qui dans la mer se trempe

O nuits! ni la clarté déserte de ma lampe

Sur le vide papier que la blancheur défend

Et ni la jeune femme allaitant son enfant.

Je partirai! Steamer balançant ta mâture,

Lève lancre pour une exotique nature!

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,

Croit encore à ladieu suprême des mouchoirs!

Et, peut-être, les mâts, invitant les orages

Sont-ils de ceux quun vent penche sur les naufrages

Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...

Mais, ô mon cœur, entends le chant des matelots!

3 285
Luís de Camões

Luís de Camões

Posto me tem Fortuna em tal estado

Posto me tem Fortuna em tal estado,
E tanto a seus pés me tem rendido!
Não tenho que perder já, de perdido;
Não tenho que mudar já, de mudado.

Todo o bem pera mim é acabado;
Daqui dou o viver já por vivido;
Que, aonde o mal é tão conhecido,
Também o viver mais será escusado,

Se me basta querer, a morte quero,
Que bem outra esperança não convém;
E curarei um mal com outro mal.

E, pois do bem tão pouco bem espero,
Já que o mal este só remédio tem,
Não me culpem em querer remédio tal.

6 780
Setsuko Geni Oyakawa

Setsuko Geni Oyakawa

Haicai

Chuva fina
Alheio no canteiro
O gerânio brilha

Pétalas de seda
Flutuam, fazem festa
Borboletas

2 315
Luís Veiga Leitão

Luís Veiga Leitão

Acompanhamento Lírico

Desceu a nuvem. E de vale em vale
a manhã ficou pálida suspensa
Árvores lama fronte de quem pensa
vestem de branco um branco glacial
Como flecha de lume no vitral
também minha alma que brilhou intensa
novamente afogou sua presença
no fundo de uma túnica irreal
E levo-a
pelo mar fora pelo mar da névoa
sob o silêncio úmido profundo
em cujas mãos de lágrimas deponho
o mutilado corpo do teu sonho
corpo sem asas de voar no mundo

1 433
Abel Pereira

Abel Pereira

Haicai

Na estrada deserta,
um simples cair de folhas
quebrou o silêncio.

Aquelas lanternas
ziguezagueando nos montes...
Quantos vaga-lumes!

2 468
Machado de Assis

Machado de Assis

No Alto

O poeta chegara ao alto da montanha,
E quando ia a descer a vertente do oeste,
Viu uma cousa estranha,
Uma figura má.

Então, volvendo o olhar ao subtil, ao celeste,
Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha,
Num tom medroso e agreste
Pergunta o que será.

Como se perde no ar um som festivo e doce,
Ou bem como se fosse
Um pensamento vão,

Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta.
Para descer a encosta
O outro lhe deu a mão.

4 855
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

DEUS

Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.

Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.

6 210
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Mulheres de preto

Há muito que são velhas, vestidas
de preto até à alma.

Contra o muro
defendem-se do sol de pedra;
ao lume
furtam-se ao frio do mundo.

Ainda têm nome? Ninguém
pergunta, ninguém responde.

A língua, pedra também.


de Rente ao Dizer
7 672
Fernando Pinto do Amaral

Fernando Pinto do Amaral

Fronteira

É doce
a tentação do labirinto
assim que o sono chega e se propaga
ao contorno das coisas. mal as sinto
quando confundo a onda sempre vaga

deste falso cansaço que regressa
ao som da minha estranha e dócil fala
cada vez mais submersa como essa
pequena luz da rua que resvala

plo interior da noite. É quase um sonho
A respirar lá fora enquanto o quarto
se dilui na fronteira que transponho
e afoga a consciência de onde parto

agora sem direito nem avesso
no incerto momento em que adormeço.

2 036
Capinan

Capinan

Narciso

Enquanto nos atormentam as furiosas serpentes da

solidão
Eu sei de ti, como nenhum menino sabe de si mesmo
E te salvo da sombra de todos os teus espelhos
De onde emergem intactas as imagens claras da

compaixão
E cai no fundo das águas o céu do verão
Frutas vermelhas amadurecem o peco desejo
Há um cardume de ânsias mergulhadas no peito
Estás com ar transfigurado, a insone paixão
Nunca abandona o insondável aquário
E disfarças como ontem o inevitável beijo
Anunciando a Narciso seu adiado naufrágio

1 472
Sousândrade

Sousândrade

O Guesa - Canto Terceiro

As balseiras na luz resplandeciam —
oh! que formoso dia de verão!
Dragão dos mares, — na asa lhe rugiam
Vagas, no bojo indômito vulcão!
Sombrio, no convés, o Guesa errante
De um para outro lado passeava
Mudo, inquieto, rápido, inconstante,
E em desalinho o manto que trajava.
A fronte mais que nunca aflita, branca
E pálida, os cabelos em desordem,
Qual o que sonhos alta noite espanca,
"Acordem, olhos meus, dizia, acordem!"
E de través, espavorido olhando
Com olhos chamejantes da loucura,
Propendia pra as bordas, se alegrando
Ante a espuma que rindo-se murmura:
Sorrindo, qual quem da onda cristalina
Pressentia surgirem louras filhas;
Fitando olhos no sol, que já sinclina,
E rindo, rindo ao perpassar das ilhas.
— Está ele assombrado?... Porém, certo
Dentro lhe idéia vária tumultua:
Fala de aparições que há no deserto,
Sobre as lagoas ao clarão da lua.

Imagens do ar, suaves, flutuantes,
Ou deliradas, do alcantil sonoro,
Cria nossa alma; imagens arrogantes,
Ou qual aquela, que há de riso e choro:
Uma imagem fatal (para o ocidente,
Para os campos formosos dáureas gemas,
O sol, cingida a fronte de diademas,
índio e belo atravessa lentamente):
Estrela de carvão, astro apagado
Prende-se mal seguro, vivo e cego,
Na abóbada dos céus, — negro morcego
Estende as asas no ar equilibrado.

7 735
Juscelino Vieira Mendes

Juscelino Vieira Mendes

Curvas perigosas

"E aconteceu à hora da tarde que Davi se levantou do seu leito,
e andava passeando no terraço do casal real, e viu do terraço
a uma mulher que se estava lavando; e era esta mulher mui
formosa à vista" – II Samuel 11: 1-27

A água desce
vagarosamente
sobre um corpo quente
gota em gota

absorvente que envolve
como quem se delicia
em barco à deriva

em rio calmo
de curvas perigosas.

902
Mário Cesariny

Mário Cesariny

uma certa quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro

3 392
Alexandre Dáskalos

Alexandre Dáskalos

Só me restam

e agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz - esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.

Os deuses não assistiram a isto.
1 263
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VI. OS COLOMBOS

Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.

6 924
Luís de Camões

Luís de Camões

Se tanta pena tenho merecida

Se tanta pena tenho merecida
Em pago de sofrer tantas durezas,
Provai, Senhora, em mim vossas cruezas,
Que aqui tendes u~a alma oferecida.

Nela experimentai, se sois servida,
Desprezos, desfavores e asperezas,
Que mores sofrimentos e firmezas
Sustentarei na guerra desta vida.

Mas contra vosso olhos quais serão?
Forçado é que tudo se lhe renda,
Mas porei por escudo o coração.

Porque, em tão dura e áspera contenda,
ƒÉ bem que, pois não acho defensão,
Com me meter nas lanças me defenda.

4 802
Luís de Camões

Luís de Camões

No mundo quis o Tempo que se achasse

No mundo quis um tempo que se achasse
o bem que por acerto ou sorte vinha;
e, por experimentar que dita tinha,
quis que a Fortuna em mim se experimentasse.

Mas por que meu destino me mostrasse
que nem ter esperanças me convinha,
nunca nesta tão longa vida minha
cousa me deixou ver que desejasse.

Mudando andei costume, terra e estado,
por ver se se mudava a sorte dura;
a vida pus nas mãos de um leve lenho.

Mas (segundo o que o Céu me tem mostrado)
já sei que deste meu buscar ventura,
achado tenho já, que não a tenho.
5 178