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Giselle del Pino

Giselle del Pino

Quatro Partes

São quatro
os elementos,
São quatro os pontos cardeais,
E os ventos,
E os mistérios
E os cantos.

São quatro tentativas de acertar:
Quatro positivas,
Quatro negativas.
A luta é na terra,
Na água,
No fogo
E no ar.

Quem vencerá?
Os encantamentos?
A palavra?
A espada?
A emoção?
Sou dividida em quatro partes,
Em quatro partes naturais:
Cabeça, tronco, membros
E coração.

Se a terra levar meus membros,
A água lavará minha ilusão.
Se o fogo queimar minha cabeça,
O ar levará minha alma.
Em qual dos cantos firmarei
Minha vida?
Qual elemento conduzirá
Minha ação?
Fica preso o conduzido
Pelo sopro da razão.

851
Jonas da Silva

Jonas da Silva

Paisagens da Carne

O teu corpo lirial, do alvor de Sete-estrelo,
É uma verde floresta em cuja sombra e solo
Passam deusas pagãs de aljava a tiracolo,
Há rouxinóis de aroma em teu loiro cabelo.

Muita vez sob a ação de infernal pesadelo
Se transforma o teu vulto em paisagens do polo
E cuido ver na alvura hibernal do teu colo
A refração do luar nas montanhas de gelo.

E na alucinação de apaixonado creio
Ver dois ursos, do Sol aos mortiços lampejos,
Dois ursos de rubis nos botões do teu seio.

E do gelo polar entre as pratas e espelhos
Vejo ao longe os viris esquimaus dos meus beijos
Lança em punho, em caçada a esses ursos vermelhos

886
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Um sossego mais largo

Um sossego mais largo
Que o esquecimento dos homens
Me seja a morte
Como um veleiro abandonado
No silêncio do mar;
Como, antes do Tempo,
Como, depois do Tempo,
O não haver ninguém para o contar

Como não ter existido
Me seja a morte!
Mas não já

1 916
Maranhão Sobrinho

Maranhão Sobrinho

Satã

Nas margens de cristal do Danúbio do sonho,
cromadas de rubis, de pérolas purpúreas,
vê-se o imenso solar sonolento e medonho
do dragão infernal das Princesas espúrias...

Guarda o nobre portal de alabastro tristonho
desse antigo solar, de malditas luxúrias,
em que fulge o brasão heráldico do sonho
não sei quantas legiões de duendes e fúrias!

Sobre o mármore azul das colunas austeras,
que, em noivados de luz, o luar engrinalda
brilha o vivo cristal de alígeras quimeras...

Velam desse dragão o oriental tesoiro,
sobre um trono de rei, de maciça esmeralda,
dois soberbos leões, de grandes patas de oiro...

2 321
Aníbal Raposo

Aníbal Raposo

Poema na Madrugada

Tu e eu na mesma hélice
Tu, muitas espiras acima
Que voas mais alto...
Cirandas à volta da lua feiticeira
Com as tuas asas de fogo
Incendeias-me o corpo
E em torrentes e lava
O meu amor flui
E como ela,
Em desespero,
Procura o mar...

Deixa-me dançar contigo uma dança índia
À volta da fogueira
Do nosso encantamento.
Deixa-me enlouquecer ao ritmo
Dum batuque africano
Transposto para um terreiro da Baía.
Deixa-me sentir os sortilégios
De Oxúm e de Oxalá.
Deitar, na praia, flores a Iemanjá.
Adorar a mãe Terra
Sentir-lhe o cheiro
Depois de uma chuvada de Agosto.
Eu quero ser, ao mesmo tempo,
Vinho e mosto.
Madrugada, sol nascente,
Entardecer e sol posto.

Curare.
Veneno na ponta da zarabatana.
Réstia de lucidez em mente insana.

Canta comigo irmã
A cantiga da terra prenhe.
Enforquemos as vaidades
Em gravatas ridículas
Confeccionadas em boa seda
E vendidas por um moderno bufarinheiro
Junto à catedral de Milão.

Deixa-me fundear nas tuas angras.
Ser o teu pirata argelino de estimação.
O teu bandeirante,
Buscando a esmeralda perdida
No meio do sertão.

Eu quero ser o desatino da tua insónia.
A tua noite mal dormida.
A tua cicatriz, a tua ferida,
Cauterizada com ferros ardentes.
Quero ser o teu ranger de dentes
Ante o desespero da miséria...
O teu grilo falante.
O espinho da tua rosa triunfante.

Deixa-me caboucar o sonho.
Construir castelos quiméricos.
Inventar outra arquitectura.
Redonda.
Quero esperar por ti
Na paragem do autocarro
Que vai partir, já
Para Nova Deli.

Quero ser uma luzinha ténue
Na via láctea nocturna
Desta vida favelada.
Rocinha!
Rio e margem,
Voo picado
Pedra Bonita, pivete.
(Glória ao escrete!)
O poder está
Na ponta do canivete!
Ipanema...
Saravah! Irmão Vinícius
Poetinha do amor e do vício.

Aqui estou!
Dou-te razão:
A inspiração continua a estar
Bem no fundo do copo
E da alma.

Salvé musa minha
Habitante da ilha irmã.
Continuas a ser o meu luzeiro,
Estrela da manhã.
Por ti adoro Baco.
Por ti versejo.
Por ti faço charadas,
Num desejo
De te ter mais perto.
Sem ti sou um navio no deserto.
O profeta do caos.
Caruso a cantar na ópera de Manaus.
O porco nos joelhos do visionário Klaus Kinsky
Na epopeia de Fritz Carraldo.
O caldo
Da loucura...

Pura...

Heroína...

Menina...

Lua...

945
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Os astros nascem

Os astros nascem,
Crescem e morrem
Sem aflição,
Por isso correm
Sem que perguntem
Pra onde vão.

O fácil espaço
Foi-lhes materno
Ventre fecundo;
Nasci num quarto,
Nasci dum parto
E foi magoando
Que vim ao mundo.

Nasci rasgando
Quem me sonhava
Antes que mesmo
Me concebesse;
Não sei dum astro,
Tão impiedoso,
Que ao espaço agravos
Tamanhos desse!

Nasci rompendo
Quem me continha
No grácil ventre
Desfigurado,
Como um sacrário
Vaso sagrado!

Mãos impacientes
De me tocarem
Logo estendia
Quem eu magoava
E ensanguentava
Quando nascia!

Nascença de astros
Não tem valor:
Que o fácil espaço
Pare-os sem dor.

2 042
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Tu, Baby, ao leres um dia

Tu, Baby, ao leres um dia
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -

Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.

Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!

1 948
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Se flores jamais me deres

Se flores jamais me deres,
Se eu rir e tu não rires,
Se quando eu chegar fugires
Ninguém dirá que me queres!

Se tu ocultar puderes
O que há nesses olhos teus
E que é tão igual nos meus
Ninguém dirá que me queres!

Se alguma vez tu puseres
A minha mão tua mão
Sem que estremeças, então
Ninguém dirá que me queres!

E se o que te dei me deres
A minha trança e três flores
Não pode haver mais rumores
Ninguém dirá que me queres!

1 952
Nelson Motta

Nelson Motta

barato zen

louco de fumo diante da tv
contemplo a tela iluminada e penso
na ânsia de criar, de ir adiante
que tantome consome e angustia
e sinto que a vida não se faz
somente pela ação e movimento
enquantome abrigo em meu silêncio
e deixo que a tv me hipnotize
nesse momento tonto e inativo
nada é urgente, nada é necessário
além de aceitar serenamente
a hora de não ser
e de ser nada.

não tendo mais
tempo nem saco
para tanto papo
o príncipe de saudades
do tempo em que era sapo.

951
R. Petit

R. Petit

Deixem!

Deixem que eu viva ao léu como um rochedo
Sobre a praia sem fim: ermo, esquecido,
Frio, imóvel, tristonho, adormecido,
Como se fosse a imagem de um segredo.

Deixem que viva assim como o arvoredo
Da margem de uma estrada, aos céus erguido,
Que o viandante ao passar, fere, sem medo,
Rouba um galho! e se afasta distraído.

Que eu seja a sombra humilde dos ascetas.
Deixem que eu sofra!... A dor em que me inundo,
Trila na voz da lira dos Poetas.

Se eu vivo entre emoções e fantasias,
Pois deixem que eu me acabe pelo mundo,
Em soluços, em preces e harmonias...

866
Tobias Pinheiro

Tobias Pinheiro

Inconformismo

Fui cair nos teus braços, Poesia,
apenas como um anjo inconformado,
que anda no ócio do sonho noite e dia,
para a doce tortura do pecado.

Quem me viu pelos campos não diria
que o destino da criança foi traçado
e eu plasmaria a dor e a fantasia,
sendo por elas próprias torturado.

Não pensei nestas ânsias de infinito
e hoje, crente de que ninguém me escuta,
ignoro as causas por que vivo aflito.

Sou descrente de tudo a que me apego,
menos de fé, que me impulsiona à luta,
embora eu seja vacilante e cego.

972
Madi

Madi

Oásis

Oásis

Faço do meu amor um oásis
E ele faz dele um deserto
Ao seu lado, vivo como os beduínos
-- morta de sede

1 064
Susana Pestana

Susana Pestana

Huila

África
adormecida
nas pétalas capturadas da vida.
Sonho com o vermelho da terra
Nas cores de um planalto esquecido.
Mãe minha, mostra-me paz
nunca tocada e muita vez prometida.
Afasta essa mão branca
deixa-me dormir
nesta noite violada.

882
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Dos prazeres no céu

Dos prazeres no céu
Que Mahomet promete,
Não trocava sete
Só por este meu.

Ver, enquanto ceio,
Teu olhar, Suzette,
Como se reflecte
No meu copo cheio.

Assim, com certeza,
Por mais que a desdenhe,
Na vida há beleza
Enquanto há champagne.

1 919
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Feliz do que é levado a enterrar

Feliz do que é levado a enterrar,
Tão indiferente como quem nasceu!
Feliz do que não soube desejar,
Feliz, bem mais feliz do que sou eu!

Feliz do que não riu para não chorar,
Feliz do que não teve e não perdeu!
Feliz do que não sofre se ficar,
Feliz do que partiu e não sofreu!

Feliz do que acha bela e vasta a terra!
Feliz do que acredita a fome, a guerra,
Terrores imaginários de crianças!

Feliz do que não ouve o mundo aos gritos,
Feliz! Felizes todos e benditos
Os que Deus fez iguais às pombas mansas

1 790
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Do Canto X:

Pós-Legômenos

lúcida, a procura, mas não há cura,
meus olhos cansaram desses desvairas,
em meu rosto, marcas de descaminhos,
procura não-achada e gran pesar,

na saída do poema, a saída,
mais saída que a cura procurada;
a saída não será volta ao poema,
mas retorno ao ponto de retirada.

e assim, não haverá saída até
desfazer-se este périplo terrestre,
que é um circulo estabelecido,
por que dele não haja como sair.

902
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Enquanto a Chuva Cal…

A chuva cai. O ar fica mole...
Indistinto... ambarino... gris...
E no monótono matiz
Da névoa enovelada bole
A folhagem como a bailar.

Torvelinhai, torrentes do ar!

Cantai, ó bátega chorosa,
As velhas árias funerais.
Minh'alma sofre e sonha e goza
À cantilena dos beirais.

Meu coração está sedento
De tão ardido pelo pranto.
Dai um brando acompanhamento
À canção do meu desencanto.

Volúpia dos abandonados...
Dos sós... — ouvir a água escorrer,
Lavando o tédio dos telhados
Que se sentem envelhecer...

Ó caro ruído embalador,
Terno como a canção das amas!
Canta as baladas que mais amas,
Para embalar a minha dor!

A chuva cai. À chuva aumenta.
Cai, benfazeja, a bom cair!
Contenta as árvores! Contenta
As sementes que vão abrir!

Eu te bendigo, água que inundas!
Ó água amiga das raízes,
Que na mudez das terras fundas
Às vezes são tão infelizes!

E eu te amo! Quer quando fustigas
Ao sopro mau dos vendavais
As grandes árvores antigas,
Quer quando mansamente cais.

É que na tua voz selvagem,
Voz de cortante, álgida mágoa,
Aprendi na cidade a ouvir

Como um eco que vem na aragem
A estrugir, rugir e mugir,
O lamento das quedas d'água!
5 716
Honório Armond

Honório Armond

Palavras a Um Crente

— "Que vem a ser o Bem?" — perguntas. Digo
que nunca, até hoje, francamente, eu pude
entre o joio do mal achar o trigo.
O pecado é irmão-gêmeo da virtude...

Chamas a todos - Meu fraterno amigo!
A tua alma ingênua, meu irmão, se ilude...
Faze como eu que, há muito, já não sigo
fogos-fátuos brilhando na palude...

Leva este mundo tal como é... Mascara
as tuas emoções, o ódio, a alegria,
cerra o teu coração, aguça o olhar,

que hás de ver entre a turba ingrata e ignara
o Mal, que de virtude se fazia,
rir-se de gozo ao ver alguém chorar...

832
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Flor de lapela

Pequeno ser
Que deu prazer,
E ao cabo, num ocaso descorado,
Jaz no passeio, abandonado,
Sem mágoa e sem memória.

Não é diversa a trajectória
Das flores maiores que somos nós

Exibe-nos a Vida na lapela; a glória
Dura o que dura uma manhã de sol. Após,
Esgotada a cor, extinto o perfume,
A mão que nos colheu lança-nos fora,
Pra que nos leve a carroça do estrume
Que vem na madrugada,
Ou, se chover, nos leve a enxurrada

Flor ou bicho
Ou criatura,
Tudo é lixo
Na sepultura.

1 736
Rogaciano Leite Filho

Rogaciano Leite Filho

Trevas do Dia

Na noite do mundo
a nuvem gélida do sonho
percorre meus ossos vazados
trazendo dos corações atômicos
das palavras não ditas
dos circuitos elétricos
das memórias esquecidas
dos braços partidos
das mortes insensíveis
dos olhos vendados
das idéias falidas
dos sentimentos perdidos
das bombas mortais
dos Deuses escondidos
O nascer da morte
no começo do dia.

967
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Que culpa terão as ondas

...Que culpa terão as ondas
Dos movimentos que façam?
São os ventos que as impelem
E sulcos profundos traçam.
Aos ventos quem lhes ordena
Que rasguem rugas no mar?
São as nuvens inquietas
Que os não deixam sossegar.
E as nuvens, almas de névoa,
Porque não param, coitadas?
É que as asas das gaivotas
As trazem desafiadas.
Mas as asas das gaivotas
O cansaço há-de detê-las!
Juraram buscar descanso
Nas pupilas das estrelas.
E como as estrelas estão altas
E não tombam nem se alcançam,
As asas das pobrezinhas
Baldamente se cansam
Baldamente se cansam,
Baldamente palpitam!
As nuvens, por fatalismo,
Logo com elas se agitam;
Os impulsos que elas dão
Arrastam as ventanias;
As vagas arfam nos mares
Em macabras fantasias

Assim as almas inquietas
Prisioneiras de ansiedades,
Mal que se erguem da terra,
Naufragam nas tempestades!

1 755
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Pietá

Já lívido repousa em seu regaço.
Já não escuta, não vê, não ri, não fala.
Aquele que foi Seu filho, Ela o embala
Morto, alheia a tempo e espaço.

O mistério parou no limiar dos assombros.
Dos irados profetas, das rígidas escrituras
Sobra um Deus morto; e os únicos escombros
São a atónita aflição das criaturas.

Eles choram, vários, como vários são
Sua revolta e sua dor. Absorto,
O olhar da Mãe escorre, inútil, no chão.
Ela, o que chora? O Deus parado - ou o filho morto?

3 130
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Acordes gastos

Acordes gastos
De velhos cantos
Doutras deidades,
Riem, nefastos
Das novidades.

Zombam?... Quem sabe
Qual o sentido,
Oculto ou expresso,
Que tem a Esfinge?
Ai quantas vezes
O riso rido
É dor que finge
Ter-se sorrido;
Ou azedume
De ser excedido.

Talvez apenas
Serenidade;
Olhos que fitem,
Desnecessários,
A eternidade.

Nós é que, toscos
De ter sentido
Sua atentatória
Supremacia,
Nos esquecemos
Que os Deuses mortos
Não têm memória
Nem simpatia.

1 979
Nana Corrêa de Lima

Nana Corrêa de Lima

Sonhos de Baú

Sonhos de Baú

Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....

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