Lista de Poemas
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Neste Dia de Mar E Nevoeiro
É tão próximo o teu rosto.
São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses.
Aquelas aves que tinham
Uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Maria Natália Teotónio Pereira
O sol e o vento da canção
Agora jaz no silêncio terrestre
Oculta na ressurreição
Porque em seu viver nascia
Porque estando era procura
Sua imagem permanece
Não passada mas futura
Sempre que rio e confio
E passo além do meu pranto
A sua presença irrompe
Erguida em nós como canto
Aquela que agora jaz
Como semente no chão
Ergue no vento seu riso
Transpõe a destruição
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Casa
A morte caminha no sossego do jardim
A vida sussurrada na folhagem
Subitamente quebrou-se não é minha
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Super-Homem
— Encontrei-o na rua ia sozinho
Não via a dor nem a pedra nem o vento
Sua loucura e sua irrealidade
Lhe serviam de espelho e de alimento
Sophia de Mello Breyner Andresen
São Tiago de Compostela
A São Tiago não irei
Como turista. Irei
— Se puder — como peregrino
Tocarei a pedra e rezarei
Os padre-nossos da conta como um campesino
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Assim pudesse o poema
Ter doçura de trigo
O seu brilho polido
A mesma humildade
Assim pudesse o poema
Como a pedra esculpida
Do pórtico antigo
Ter em si próprio a mesma
Compacta alegria
Cereal claridade
Ante o voo de ave
Do espírito que ergue
Os pilares da nave
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ali, Então
À sombra do cipreste e da videira
Olhando o longo tremular do mar
Num silêncio de luas e de trigo
(Como se a morte a dor o tempo e a sorte
Não nos tivessem nunca acontecido)
Em nossas mãos a pausa há-de poisar
Como o luar que poisa nas videiras
E em frente ao longo tremular do mar
Num perfume de vinho e de roseiras
A sombra da videira há-de poisar
Em nossas mãos e havemos de habitar
O silêncio das luas e do trigo
No instante ameaçado e prometido
E os poemas serão o próprio ar
— Canto do ser inteiro e reunido —
Tudo será tão próximo do mar
Como o primeiro dia conhecido
Sophia de Mello Breyner Andresen
Se Alguém Passa Agora Nos Areais
Diz,
Em gestos plenos e naturais,
Tudo o que eu, tão em vão, perdidamente quis.
Susana Thénon
Não é um Poema
os corpos são os mesmos,
as palavras voam para o desluzido,
as ideias de cadáver antigo.
Isto não é um poema:
é um ataque de raiva,
raiva pelos olhos ocos,
pelas palavras torpes
que digo e que me dizem,
por baixar a cabeça
para ratos,
para cérebros cheios de mijo,
para mortos persistentes
que interrompem o ar do jardim.
Isto não é um poema:
é um pontapé universal,
um soco no estômago do céu,
uma enorme náusea
vermelha
como era o sangue antes de ser água.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Jardim E a Noite
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua,
Ó grande noite solitária e sonhadora.
Entre os canteiros cercados de buxo
Sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
E os meus gestos foram gestos de bruxedo.
Foram os gestos dessa encantação,
Que devia acordar do seu inquieto sono
A terra negra dos canteiros
E os meus sonhos sepultados
Vivos e inteiros.
Mas sob o peso dos narcisos floridos
Calou-se a terra,
E sob o peso dos frutos ressequidos
Do presente
Calaram-se os meus sonhos perdidos.
Entre os canteiros cercados de buxo,
Enquanto subia e caía a água do repuxo,
Murmurei as palavras em que outrora
Para mim sempre existia
O gesto dum impulso.
Palavras que eu despi da sua literatura,
Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
De fórmulas de magia.
Docemente a sonhar entre a folhagem
A noite solitária e pura
Continuou distante e inatingível
Sem me deixar penetrar no seu segredo.
E eu senti quebrar-se, cair desfeita,
A minha ânsia carregada de impossível,
Contra a sua harmonia perfeita.
Tomei nas minhas mãos a sombra escura
E embalei o silêncio nos meus ombros.
Tudo em minha volta estava vivo
Mas nada pôde acordar dos seus escombros
O meu grande êxtase perdido.
Só o vento passou pesado e quente
E à sua volta todo o jardim cantou
E a água do tanque tremendo
Se maravilhou
Em círculos, longamente.
Susana Thénon
Aqui, Agora
a alegria se espalha
como o pólen
e que há tempos
os homens se erguem
como jardins definitivos.
Mas eu vivo aqui e agora
onde tudo é horrível
e tem dentes
e velhas unhas petrificadas.
Aqui e agora,
onde o ar sufoca
e o medo é impune.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noite
Branca de mil silêncios, negra de astros,
Com desertos de sombra e luar, dança
Imperceptível em gestos quietos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Em Minha Frente Caminhas
Pesado do teu desejo,
Pesado da tua graça,
E as tuas mãos tocam as coisas que hão-de vir
E a sua sombra cobre a tua face.
E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda apaga
Os meus frágeis gestos de alegria.
E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda quebra
A minha vida.
Às vezes todo o dia o teu sorriso
Está presente em cada coisa:
No fundo dos espelhos e nos vidros,
No vermelho das rosas e nos astros.
E através dessa presença caminho em delírio
Para o grande cintilar dos teus desastres
Onde me quero destruir.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ó Noite, Flor Acesa, Quem Te Colhe?
Sou eu que em ti me deixo anoitecer,
Ou o gesto preciso que te escolhe
Na flor dum outro ser?
Sophia de Mello Breyner Andresen
Madrugada
Quando mar e céu na mesma cor se azulam
E são mais claras as luzes dos barcos pescadores
E para além de insânias e rumores
A nossa vida se vê extasiada
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Deuses
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nostalgia Sem Nome da Paisagem
Secreto murmurar de cada imagem,
Que na escuridão se ergue e caminha.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Evadir-Me, Esquecer-Me, Regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lua
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtases suspensa.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Porque Foram Quebrados Os Teus Gestos?
Quem te cercou de muros e de abismos?
Quem desviou na noite os teus caminhos?
Quem derramou no chão os teus segredos?
Sophia de Mello Breyner Andresen
Meio-Dia
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo
Parece bater palmas.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Dia
Não deixes que te desviem
Um poema emerge tão jovem tão antigo
Que nem sabes desde quando em ti vivia
Sophia de Mello Breyner Andresen
A ti eu canto
A ti eu canto e a mais ninguém,
Principe estranho por quem
Chamam as horas obscuras de delírio.
Senhor dos bailados, negro lírio
A ti eu canto e a mais ninguém.
Misto de ideal e lixo,
Semideus e semebicho
Fabuloso, mágico e lendário
E mais real do que as vozes da rua,
Em tudo a ti próprio contrário.
A tua luz é um sol escuro
E a tua sombra sempre da luz ao lado
Éo céu mais negro e mais sem lua
Mas o mais constelado.
E a ti eu canto e a mais ninguém,
Príncipe estranho, senhor dos bailados,
À luz dos lumes apagados.
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Dia do mar", pág. 30 | Edições Ática, 1974
Sophia de Mello Breyner Andresen
Corpo
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro vivido
Contra a pureza inteira dos teus ombros.
Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.
Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.
Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Em Nome
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei
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