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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

HINO A PÃ

HINO A PÃ

(Mestre Therion)

Vibra do cio subtil da luz,
Meu homem e afã
Vem turbulento da noite a flux
De Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além
Vem da Sicília e da Arcádia vem!
Vem como Baco, com fauno e fera
E ninfa e sátiro à tua beira,
Num asno lácteo, do mar sem fim,
A mim, a mim!
Vem com Apolo, nupcial na brisa
(Pegureira e pitonisa),
Vem com Artemis, leve e estranha,
E a coxa branca, Deus lindo, banha
Ao luar do bosque, em marmóreo monte,
Manhã malhada da âmbrea fonte!
Mergulha o roxo da prece ardente
No ádito rubro, no laço quente,
A alma que aterra em olhos de azul
O ver errar teu capricho êxul
No bosque enredo, nos nás que espalma
A árvore viva que é espírito e alma
E corpo e mente - do mar sem fim
(Iô Pã! Iô Pã!),
Diabo ou deus, vem a mim, a mim!
Meu homem e afã!
Vem com trombeta estridente e fina
Pela colina!
Vem com tambor a rufar à beira
Da primavera!
Com frautas e avenas vem sem conto!
Não estou eu pronto?
Eu, que espero e me estorço e luto
Com ar sem ramos onde não nutro
Meu corpo, lasso do abraço em vão,
Áspide aguda, forte leão –
Vem, está fazia
Minha carne, fria
Do cio sozinho da demonia.
À espada corta o que ata e dói,
Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!
Dá-me o sinal do Olho Aberto,
E da coxa áspera o toque erecto,
Ó Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã.,
Sou homem e afã:
Faze o teu querer sem vontade vã,
Deus grande! Meu Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Despertei na dobra
Do aperto da cobra.
A águia rasga com garra e fauce;
Os deuses vão-se;
As feras vêm. Iô Pã! A matado,
Vou no corno levado
Do Unicornado.
Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
Sou teu, teu homem e teu afã,
Cabra das tuas, ouro, deus, clara
Carne em teu osso, flor na tua vara.
Com patas de aço os rochedos roço
De solstício severo a equinócio.
E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
Sempiterno, mundo sem termo,
Homem, homúnculo, ménade, afã,
Na força de Pã.
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!


Fernando Pessoa


O "Hino a Pã" é uma tradução do "Hymn to Pan", do prefácio do livro "Magick in Theory and Practice", de Aleister Crowley. A tradução foi publicada na revista "Presença" em Outubro de 1931.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O rastro breve que das ervas moles

O rastro breve que das ervas moles
Ergue o pé findo, o eco que oco coa,
A sombra que se adumbra,
O branco que a nau larga –
Nem maior nem melhor deixa a alma às almas,
O ido aos indos. A lembrança esquece.
Mortos, inda morremos.
Lídia, somos só nossos.


25/01/1928 (Presença, nº 10, 15 de Março de 1928)
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

14 - Não me importo com as rimas. Raras vezes

Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento...

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João Rasteiro

João Rasteiro

Deus, ecce deus

“Penso no que o medo vai ter
e tenho medo que é justamente
o que o medo quer”
Alexandre O’Neill



Rubro soltou-se o vírus.
O medo aspira o corpo
para dentro dos bofes da palavra.
Asfixia as coronárias.
Enxerto-me na rendição à luz
e “penso no que o medo vai ter”.
A garganta busca a rosa.
               *
Dias cerrados mesmo a deus.
Poemas brancos, por inaugurar.
Veneno, de cal virgem.
Nossa débil e última guarida.
               *
À submissão da sombra a língua
larga os rebentos.
Assédio das casas mudas.
Onde escavar a saída?
               *
Espiga, Deus!
Entre as duras colunas de um vírus
e não receies a sua insolência.
Espiga, Deus!


Março, 2020
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Como quem, roçando um arco às vezes

Como quem, roçando um arco às vezes
Por um violino, ao acaso,
Súbito som excessivamente belo e saudoso
Ouve-se, e não se pode encontrar outra vez,

Às vezes, sou certos gestos súbitos do Momento,
Gemo inspiradas sensações...
E são um tédio repentino à cor e à hora das coisas
E uma lamúria e longínqua paixão de não estar no mundo.
Árvores longínquas que esperam por mim desde Deus...
Paisagens mais perto da alma... Ou são grande pálios
Em procissões interminavelmente a mesma...
Levando-me num triunfo de coisa nenhuma, sonolento e voluptuoso,
E perdido fico no Tempo como um momento em que se não pensa em nada...


20/11/1914
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

20 - O Tejo é mais belo

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêm em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.


07/03/1914 (Athena, nº 4, Janeiro de 1925)
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

31 de Outubro

No rádio do posto de gasolina, tocou uma canção que falava de Prometeu. Do estoicismo de Prometeu. Tanto quanto sei, nas últimas aulas de história e geografia, Prometeu foi quase o deus que mais acreditou na humanidade. Quase. Há outro. Mas P, aquele malandro, roubou o fogo do chefão para levá-lo aos mortais. Por causa disso foi amarrado à uma rocha por toda eternidade. Ha lá, agora não é hora para falar de castigos, muito menos de castigos que envolvam abraços aos rochedos. Íamos ficar horas discutindo arbitragem e as diferentes tonalidades de um cartão vermelho. Quem acredita num castigo, também acredita na chegada das setenta alegrias. Alguns acham isso, outros não. Hoje não é dia pra isso. Estoicismo. Hoje é a tarde em que noventa e dois corpos foram achados no deserto. Silêncio. Entre o Nigér e a Algéria vão tantos quilômetros de distância, deus. Hoje era aniversário do Dummond. Tinha aquele poema sobre a chuva e sobre o nome que toda mulher leva cozido no veludo, principalmente eu. Tinha aquele poema sobre o bonde que não veio, aquele poema sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas e, mais do que tudo, aquele, o amor. Carlos, você é telúrico. A noite passando em você e os recalques se sublimando. Lá dentro um barulho inefável: rezas, vitrolas, santos que se persignam. Anúncios do melhor sabão, um barulho que ninguém sabe de que, o quê. Você é a palmeira. Você é o grito que ninguém ouviu no teatro. Hoje é o dia que o terremoto atingiu Taiwan. Seis ponto seis, sabe-se lá em que escala. Sabe-se lá quantos fogos, quantas ondas de quarenta metros, quantos alicerces dobrados como se dobram as pernas dos grilos no outono norueguês. Em português não lhe chamamos Taiwan, sempre lhe chamamos Ilha Formosa. Faz parte dos quatro tigres asiáticos e, por falar nisso, acho que é sempre tempo de falar nisso, uma vez conheci um santo que não parava de repetir o mantra: “I never saw so many tigers”. Claro que isso não aconteceu no elevador de um hotel na Flórida, mas por causa dos movimentos das placas tectônicas, o mundo cada dia se aproxima mais do mundo. Só falta o verão aproximar-se mais do verão. Diabos. Faz um frio danado outra vez. O Lou Reed morreu essa semana. Naquele último retrato em branco e negro, ele tinha o punho todo cerrado, cabelo todo desalinhado, as orelhas como sempre do tamanho de um planeta. Acho que há um time qualquer se formando para além de nós. Um time de reis e profetas de orelhas grandes jogando as bolas por cima de nossas cabeças. Laurie Anderson, a mulher de Lou, escreveu uma nota para a secção de obituários de um pequeno jornal a serviço da comunidade de East Hampton. Que outono mais bonito, foi assim que ela começou. Que outono mais bonito e tudo brilha e aquela incrível luz suave. Desculpe o meu inglês, mas “Lou was a Tai-Chi master and spent his last days here, being happy and dazzled by the beauty and power and softness of nature.” Um príncipe, foi o que ela lhe chamou, um príncipe e um boxeur. Prometeu regenerava-se durante a noite, rosto encostado na umidade do rochedo, estômago aberto pelos pássaros. É assim que um deus faz um homem, é assim que deus faz valente. Os Red Socks ganharam o campeonato. 6 a 1. Mas ainda me falta saber tanta coisa sobre o baseball. Sei de um dono de bar que está disposto a explicar tudo. Até lá guardo a imagem daquele bastão sendo lançado até a arquibancada e caindo aos pés de um homem que chorou. Sempre achei que os Red Socks eram uma espécie de Botafogo norte-americano, portanto vai alegria. A Índia está no caminho para Marte. No próximo dia 5 é lançada a nave espacial que vai abrir as hostes àquela que é a primeira missão interplanetária indiana. Eles esperam que o bicho entre arrastando fogo até o planeta vermelho lá para setembro do ano que vem. Eu espero que o bicho leve no bolso o recadinho do Ray Bradbury dobrado em quatro partes, aquela onde ele explica assim: “É bom renovar o espanto da gente, disse o filósofo. As viagens no espaço fizeram-nos a todos, de novo, crianças.” Em Maputo, como se isto no mundo fosse um castelo de cartas que afinal só quer cair na paz, aconteceu aquela que já chamam a maior manifestação não-governamental do que há memória. Na ilha formosa a temperatura agora é de, exatamente, 24 graus. O Carlos se fosse vivo fazia 111 anos. Obrigada homem, obrigada. “O amor é isto que você está vendo”.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PSIQUETIPIA (OU PSICOTIPIA)

PSIQUETIPIA (OU PSICOTIPIA)


Símbolos. Tudo símbolos...
Se calhar, tudo é símbolos...
Serás tu um símbolo também?

Olho, desterrado de ti, as tuas mãos brancas
Postas, com boas maneiras inglesas, sobre a toalha da mesa,
Pessoas independentes de ti...
Olho-as: também serão símbolos?
Então todo o mundo é símbolo e magia?
Se calhar é...
E porque não há-de ser?

Símbolos...
Estou cansado de pensar...
Ergo finalmente os olhos para os teus olhos que me olham.
Sorris, sabendo bem em que eu estava pensando...

Meu Deus! e não sabes...
Eu pensava nos símbolos...
Respondo fielmente à tua conversa por cima da mesa...
«It was very strange, wasn't it?»
«Awfully strange. And how did it end?»
«Well, it didn't end. It never does, you know.»
Sim, you know... Eu sei...
Sim, eu sei...
É o mal dos símbolos, you know.
Yes, I know.
Conversa perfeitamente natural... Mas os símbolos?
Não tiro os olhos de tuas mãos... Quem são elas?
Meu Deus! Os símbolos... Os símbolos...


07/11/1933
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Notícias Escrevinhadas Na Beira de Estrada

Não sou de choro fácil a não ser quando descubro qualquer coisa muito interessante sobre ácido desoxirribonucleico. Ou quando acho uma carta que fale sobre a descoberta de um novo modelo para a estrutura do ácido desoxirribonucleico, uma carta que termine com “muito amor, papai”. Francis Crick achou o desenho do ADN e escreveu a seu filho só para dizer que “nossa estrutura é muito bonita”. Estrutura, foi o que ele falou. Antes de despedir-se ainda disse: ” Quando você chegar em casa vou-te mostrar o modelo”. Isso não esqueça os dois pacotes de leite, já agora passe a comprar pão, guarde o resto do dinheiro para seus caramelos, e quando você chegar eu te mostro o mecanismo copiador básico a partir do qual a vida vem da vida. Não sou de choro fácil mas um composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos me comove. Cromossomas me animam, ribossomas me espantam. A divisão celular não me deixa dormir, e olha que eu moro bem no meio da montanha. De vez em quando vejo passar os aviões, mas isso nunca acontece de madrugada — a noite se guarda toda para o infinito silêncio. Algumas vezes, durante o apuramento das estrelas, penso nos santos que protegem os pilotos. Amelia Earhart disse que não casaria a não ser que fosse assinada uma tabela de condições e essas condições implicavam a possível fuga a qualquer momento.” I cannot gurantee to endure at all times the confinements of even an attractive cage”. Vai passarinho. Soube de uma canção cujo refrão dizia I would die for you, fiquei pensando que mais de metade das canções do mundo dizem isso mas eu nunca entendi isso. Negócio de amor e morte, credo. Lá na escola eles ensinavam que amor são sete vidas multiplicadas, então acho que amor é o contrário do fim. Sei lá, o mundo está mudando tanto. Não sou de choro fácil a não ser quando penso em determinados milagres que ainda não aconteceram. Meu time ganhou por três a dois. O maior banco norte-americano errou, e errou em muitos milhões. Ninguém chegou a falar do aniversário do Superman, e isso também conta como erro. Faltam seis dias para a Primavera, está tendo uma contagem comunitária na aldeia mais próxima daqui. Acho que está chegando a hora do sossego, e que muita alegria vai pintar por aí. Acho que uma palavra é muito mais bonita do que uma carabina, mas não sei se vem ao caso. Nenhuma palavra quer ferir outras palavras: nem desoxirribonucleico, nem montanha, nem canção. Todos esses conceitos têm os seus sinónimos simplificados, veja só, ácido desoxirribonucleico e ADN são exatamente a mesma coisa, e o resto das palavras você acha. É tudo uma questão de amor e prisma, por favor não abra os canhões. Quando Amelia Earhart morreu continuava casada com Putnam — suspeito que ela deve ter visto rostos incríveis nas estrelas. Que coisa mais linda esse ácido despenteado, caramba. Olhei com mais atenção o desenho da estrutura e descobri: a raça humana é toda brilho.
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António Ribeiro Chiado

António Ribeiro Chiado

Os caminhos

Os caminhos estarão estendidos pelo chão, e as serras, porque mais cansarão cinquenta homens a pé que um a cavalo.
Estarão os mortos debaixo da terra, e os vivos por um cabo e por outro.
Será tanta a escuridade pelo mundo que todos terão os olhos cerrados quando dormirem.
As chuvas serão tão grandes que não haverá navio que pelo mar não ande a nado.
Os trovões e terramotos serão tantos que, de puro temor, não haverá homem nascido que fique por nascer.
O fogo se tornará mais quente que os banhos das Caldas.
Na terra haverá penedos e seixos mais duros que pedras.
As galinhas pretas porão ovos brancos, pelas grandes mudanças que haverá no mundo.
Todo o malfeitor não sairá da cadeia enquanto nela estiver preso, nem haverá enforcado que chegue com os pés ao chão.
Ficando o dia claro, aparecerá Lisboa em Almada, Badajoz em Elvas, e Evoramonte em Évora.
1 240
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Herberto Helder

Herberto Helder

I A

A uma devagarosa mulher com a boca
do corpo cheia de sangue e a boca
do rosto cheia
de respiração, por cinco dedos meus
esquerdos, na curta duração de tudo,
a curta canção que pulsa
do fundo de si mesma:
a uma devagarosa mulher no mundo.
993
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Coqueiral

A saudade é um batimento que rebenta assim
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca

E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão — terno é o seu rosto

Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.
949
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Rui Costa

Rui Costa

Elegia azul

Clara, como talvez tu antes da última esquina da noite,
uma imagem redonda colava-se aos meus dedos por entre
as folhas de papel que lentamente ardiam. Foram sempre
mais as páginas que juntei do que aquelas de que pude
separar-me, naquele T1 pequeno com vista para Monsanto
e para o teu corpo sempre azul.
Infelizmente, não fora capaz de preparar
o silêncio que sempre se segue a tudo o que
não somos, dirias tu, o rumor de instantes que nos apanha
na canga e nos sugere o vale sem luzes e a varanda grande.
Parado sei que isso é poesia, um sonho, pequenas alucinações
de primavera sem apelo no fundo destas veias e sei também
que continuas a existir e vais ser minha muitas vezes,
como eu quero ser teu intermitentemente em cada lua nossa.
Mas tu sabes como os astros nos pregam partidas ao telefone,
como em certos dias a pique para o sol embatem nas antenas,
e este ligeiro pesadelo é apenas o desconforto baço de saber
que há coisas demasiado belas para não serem tristes.

902
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

I - Quando olho para mim não me percebo.

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Lisboa, (uns seis a sete meses antes do Opiário) Agosto 1913
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Herberto Helder

Herberto Helder

Agora Se Tivesses Alma Tinhas de Salvá-La, Agora

agora se tivesses alma tinhas de salvá-la, agora
se tivesses génio tinhas de resgatar o pacto, agora
que não tiveste senão quotidiano terás de trazer muita da luz sumida
pelo mundo fora à tua roupa: camisa, calças,
sapatos leves com os pés andando
junto às águas salgadas,
não em cima delas,
com tanta luz no teu passeio distraído pelos acessos à memória,
águas salgadas batidas,
a tua altura medida em espuma contra as fráguas,
agora tens de saber que é falsa,
vens pela babugem como um peixe meio dentro meio fora,
guelras aflitas e o ar enorme à volta para arvoar,
não fossem as barbatanas
971
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Brincando Com Os Dentes do Tubarão

You are the sunshine
of my life
e conversar contigo de manhã
é tão bom
tens o poder do muesli e da
laranja
ou de qualquer fruta de época
for all that matters

Acompanhar teu percurso
natural
é muito bom
falar contigo
sobre tipos de alimentos
também

Neste começo d’hoje
tuas costas negavam
qualquer espécie de outono
Afinal
a ideia de estação
é só um tema ilusional
engendrado por humanos
que nunca puderam desenhar
tua coluna vertebral
a dedo nu

My dear bicho gente
veja lá se sua próxima visita
vem antes da edição fria
do Financial Times.
1 565
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Até As Ruínas Podemos Amar Neste Lugar

Lembro-me muito bem do tal cantor basco
que costumava celebrar a chuva no verão
Não ligava quase nada para as conspirações
que recorrentemente se faziam ouvir
debaixo das arcadas noturnas da cidade
naquela época do intermezzo lunar
Foi já depois do fascismo, um pouco antes
da democracia enfaixada em magnólias
O cantor, as arcadas, o perfume e os disparos
me ensinaram que se deve aproveitar a época
de transição para destrinçar o brilho
As revoluções sempre foram o lugar certo
para a descoberta do sossego:
talvez porque nenhuma casa é segura
talvez porque nenhum corpo é seguro
ou talvez porque depois de encarar uma arma
finalmente seja possível entender
as múltiplas possibilidades de uma arma.
1 182
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Eu Já Escuto Os Teus Sinais

Olhe lá
Eu nunca quis voltar
atrás no tempo
nem por uma vez
A vida já foi muito boa
e muito ruim comigo
com minhas costas
com meus rinscom meus estúpidos
glóbulos vermelhos
com minha melancolia
com minha nacionalidade
A vida já foi mais estúpida
que meus glóbulos vermelhos
Mais doce que a visão do sol
de junho batendo nos joelhos
de um garoto ou de uma mulher
A vida já se serviu de mim
como uma pega
como um garçom
como um respigador
como um profissional
da marcação de fronteiras
Serviu-se de mim
para todos os trabalhos
Quis cuspir-lhe na cara
vezinquando
Mas nunca
por razão nenhuma
quis voltar atrás
no tempo da vida
Pelo contrário
sempre me servi
do tempo dela
para aprender a contar
as partes todas
da futebolada mística
Desta vez é diferente
Escute agora é diferente
Daqui da bancada
dá para ver meio passado
e meio futuro
Me sento sobre o balde
do duro inverno boreal
E enquanto vou esculpindo
o lustroso nada a canivete
Eu vejo os 32 °C no pontão
do Leme (mais cinco graus
se contarmos a temperatura
externa da pedra física)
Sobre o cais estão dançando
alguns astros imperfeitos
Suspeito que são homens
Eles levantam suas plumas
até a garganta do deserto
Sim eu me lembro
Mais de 40 homens
e a banda tocando
uma canção de amor
De repente lá vem vindo
oba de repente lá vem
Estou falando da entrada
da menina na arena
Da entrada dos seus cabelos
na frente de nossas retinas
Estou falando da velocidade
de um bambolê elétrico
rodopiando em torno
de tantos triplos suores
enquanto a banda toca
Olhe lá não procure histórias
estou falando de algum passado
Estou falando do ritmo
de uma estação violenta
E nem por isso impiedosa
É verão no Rio de Janeiro
Daqui deste balde revirado
dá para ver a felicidade
desabando sobre as cabeças
Dá para ver a força santa
do desejo físico imortal
Dá para ver disparos
que arrasam com toda
espécie de nacionalidade
Olhe eu nunca quis trocar
os tempos nem as partes
da partida fundamental
Mas daqui deste balde
dá para ver o assalto
que deu cabo da puta
e do garçom e até mesmo
do barbudo fronteiriço
O crime alegórico
que restaurou a alegria
E portanto veja bem
hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para me sentar
sobre a pedra austral
e ficar assistindo às explosões
dos bambolês polifônicos
entre os dedos de uma mulher
Hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para beijar
a cidade na boca.
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Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Está um rapaz a arder

Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
 Nunca ninguém apagou esse lume.
1 107
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António Ferra

António Ferra

Tatuagem

Ele tem um tigre gravado no braço
ela uma fada colada para sempre
ele uma árvore crescendo nas costas
ela uma ave voando no ventre

ele traz um gato pregado no braço
ela uma rosa bordada no seio
ele um lagarto atrelado à perna
ela uma estrela mesmo no meio

ele mostra a caveira rodeada de rosas
ela ramagens correndo-lhe o corpo
ele uma cobra subindo ao pescoço
ela mensagens de um pássaro morto

Eles pertencem àqueles que posam
entre cardumes azuis e vermelhos
ele com sorte, silêncio e futuro
ela com música a sair dos joelhos

Aqueles que adornam o seu próprio corpo
trazem imagens que alimentam a crença
de serem marcados por quem lhes pintar
um sinal na alma que lhes diga a pertença
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

15 - As quatro canções que seguem

As quatro canções que seguem
Separam-se de tudo o que eu penso,
Mentem a tudo o que eu sinto,
São do contrário do que eu sou...

Escrevi-as estando doente
E por isso elas são naturais
E concordam com aquilo que sinto,
Concordam com aquilo com que não concordam...
Estando doente devo pensar o contrário
Do que penso quando estou são
(Senão não estaria doente),
Devo sentir o contrário do que sinto
Quando sou eu na saúde,
Devo mentir à minha natureza
De criatura que sente de certa maneira...
Devo ser todo doente – ideias e tudo.
Quando estou doente, não estou doente para outra coisa.

Por isso essas canções que me renegam
Não são capazes de me renegar
E são a paisagem da minha alma de noite,
A mesma ao contrário...
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

31 - Se às vezes digo que as flores sorriem

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa coisa séria, um intérprete da Natureza;
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem os estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quando mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam

Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos nocturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,

Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.

Sursum corda! Ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adónis

Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
À tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones.
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica íntima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.

Ocupa de todo a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre.

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todos as direcções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, não quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem em baixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores.
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte...

Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosa em torno de si,
Cruzando-se em todas as direcções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.

Dentro de mim estão presos e atados ao chão
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam.

A chuva como pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direcções!
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Conversa de Fim de Tarde Depois de Três Anos No Exílio

Os garçons empilhando as cadeiras
você me olhando e me pedindo que
fale Por Favor Fale Mas Não Escreva
eu evitando o toque ruim dos ponteiros
do relógio que anuncia a já famosa fuga
de nossos corpos cada um para sua
ponta da cidade — se nosso amor fosse
revólver eu seria o cabo e você a mira
tal como dizia a professora Sofia Jones
é terrível a existência de duas retas
paralelas porque elas nunca se cruzam
e elas apenas se encontram no infinito
a verdade é que nunca nos interessou
a questão do infinito mas o resto
das ideias matemáticas claro que sim
eu na verdade prefiro mais de mil vezes
sua chávena de chá ficando fria sobre a mesa
enquanto você fala sobre raízes quadradas
enquanto você fala sobre ladrões de figos
enquanto você fala sobre o tropeço da baleia
subitamente eu já nem sei sobre o que você fala
porque a forma como seu dente incisivo corta
e suspende toda a beleza da cafetaria
faz com que eu novamente entenda que
pelo sétimo dia é chegada a hora do cuco
e do canto do cuco
portanto eu pego minha bicicleta
e como de costume você faz meu retrato
de cabelo todo desenhado no vento
em jeito de menino que está sempre indo embora
à mesma hora e que amanhã se tudo der certo
voltará à mesma hora para o mesmo amor
a mesma mesa a mesma explosão
com toda a certeza a mesma fuga
porque você e eu a gente é feito de matéria
escorregadia, i.e., manteira, azeite, geleia
e espanto.
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