Lista de Poemas

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Neide Archanjo

Neide Archanjo

Não pude ser

Não pude ser
o teu amor perfeito
antes esta ferida.
Por isso para ti
não serei a pele
— poro a poro teu alumbramento —
serei apenas a cicatriz.

Perfeita.

Esculpo a página a lápis
e um cheiro de bosque
então me aparece.
Que a poesia é feita de romãs
daquilo que é eterno
e de tudo que apodrece.

1 336
Emílio Moura

Emílio Moura

Poema

Renasces em ti mesma e por ti mesma.
Movimentas o sonho, a poesia e as aventuras imprevisíveis.
O imponderável é a tua matéria.

A poesia só me visita para que te realizes,
para que eu te sinta e te compreenda.

Que caminhos te prendem,
que ignotas rotas te iluminam?

Uma rosa se forma entre o teu sorriso e a aurora.
De repente,
tudo se torna tão irreal
que te sinto visível.

1 307
Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

Árvores Tristes

Eu, nestes campos, longe do tumulto,
Amo essas tristes árvores que crescem
Por sobre as margens dum arroio oculto,
Ouvindo as águas que cantando descem...

Gosto de vê-las à tardinha, envoltas
Numa suave e mística tristeza,
Olhando os rolos das espumas soltas
Que encrespam o lençol da correnteza.

Tristonhas plantas! Árvores sombrias!
Como se as torturasse estranha mágoa,
E as compungissem fundas nostalgias,
— Procuram consolar-se à beira d'água.

Oh! vós que amais os campos, nunca as vistes?
— Desconsoladas, trêmulas, chorosas,
Pelas barrancas dos arroios tristes
Debruçam as ramagens silenciosas...

Que importa o sol, que importa a chuva e o vento,
Se sempre as mesmas ânsias as consomem?
Talvez — quem sabe? — nesse desalento,
Palpite e sofra o coração dum homem!

Talvez nessas folhagens, nesses ramos,
Torturados de angústia e desconforto,
— Sem que a vejamos, sem que a compreendamos,
Soluce a alma de algum poeta morto.

Ai, não turbeis a misteriosa mágoa,
A imensa nostalgia em que se abismam;
Deixai-as em silêncio, à beira dágua,
Essas tristonhas árvores que cismam...


Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Sertanejas.

In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8.ed. São Paulo, 196
1 562
Martins Fontes

Martins Fontes

Ser Paulista

Ser paulista! é ser grande no passado
E inda maior nas glórias do presente!
E ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.

Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.

Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa — o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.

Ser paulistal em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!

4 283
Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

Flor do Asfalto

Flor do asfalto, encantada flor de seda,
sugestão de um crepúsculo de outono,
de uma folha que cai, tonta de sono,
riscando a solidão de uma alameda...

Trazes nos olhos a melancolia
das longas perspectivas paralelas,
das avenidas outonais, daquelas
ruas cheias de folhas amarelas
sob um silêncio de tapeçaria...

Em tua voz nervosa tumultua
essa voz de folhagens desbotadas,
quando choram ao longo das calçadas,
simétricas, iguais e abandonadas,
as árvores tristíssimas da rua!

Flor da cidade, em teu perfume existe
Qualquer coisa que lembra folhas mortas,
sombras de pôr de sol, árvores tortas,
pela rua calada em que recortas
tua silhueta extravagante e triste...

Flor de volúpia, flor de mocidade,
teu vulto, penetrante como um gume,
passa e, passando, como que resume
no olhar, na voz, no gesto e no perfume,
a vida singular desta cidade!

4 020
Aracy de Monte Alverne

Aracy de Monte Alverne

Duas Esposas

Ele constituiu, na vida, duas esposas.
Uma legal que a sociedade aplaude,
que tem direitos onde a lei repousa,
que passa sem ninguém fazer alarde!

A outra vive às ocultas... Foi roubada...
Não tem direitos, tudo lhe condena,
quando passa é por todos apontada
como quem faz um crime e foge à pena!

A primeira, teve um altar cheio de rosas,
um branco véu, grinalda , finas rendas
e recebeu, de todos, majestosa,
cumprimentos, abraços, oferendas.

O altar da segunda, foi a Natureza!
O vento, o sol, a lua, o céu azul e o mar
testemunhas de sublime beleza,
a grinalda de estrelas e o véu de luar!...

1 047
Alberto de Lacerda

Alberto de Lacerda

Hino ao Tejo

Ó Tejo das asas largas
Pássaro lindo que se ouve em todas as ruas de Lisboa
Ó coroa duma cidade maravilhosa
Ó manto célebre nas cortes do mundo inteiro
Faixa antiga duma cidade mourisca
Fênix astro caravela liquida
Silêncio marulhante das coisas que vão acontecer
Deslizar sem desastres sem fado sem presságio
Tu ó majestoso ó Rei ó simplicidade das coisas belíssimas
Nas tardes em que o sol te queima passo junto de ti
E chamo-te numa voz sem palavras marejada de lágrimas
Meu irmão mais velho

1 596
Guimarães Rocha

Guimarães Rocha

Desconhecido

Sou o pensamento
O vento soprando forte
O barco da sorte
O sorriso da alegria
A força da magia
A dor do fraco
O segredo do forte
O medo da vida

2 002
Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

Amanhecimento

De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.

2 675
Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

Família Lugar

Um rio não divide
duas margens.
O que se planta nos lados
é que o separa.

Aqui o cemitério
lá lagoa da trindade.
Aqui os entregues
lá os escolhidos
em severa matemática.

Para um devoto
tudo é muitas coisas.
Uma ravina de águas
que envolve
vivos e mortos.

Por isso é direito
passar a um lado do rio
a capela
e o cemitério.

Em ambos se viaja
bem vestido e forro.
Em ambos espera
um domingo
de várias línguas.

Aqui no cemitério
homens multiplicam.
E o que fazem
está na oficina
do entendimento.

Essa é a margem
silenciosa do rio.
E mal permite
a ruga do tamboril.

Lá a capela
nave sem instrumentos.
Nela o que inspira
é a música os santos
no reinado.

Um negro do rosário
faz uma as outras coisas.
Na ravina do rio
lá e aqui são capela
e cemitério.

Estamos nós, os Bianos,
de enigma resolvido.
A lagoa onde somos
tem idéias de rio.

Aqui e lá peças
dos olhos em movimento.
Como são na diferença
os mesmos Deus
e Zambiapungo.

1 337
Lya Luft

Lya Luft

Todos esses Anjos

Todos esses
Anjos que à noite
agitam cortinas e sussurram frases
que temes entender:
se te tomarem nos braços
se te beijarem na boca,
se te entrarem no corpo,
não te darão certeza de que morrer, viver,
são igualmente suaves e difíceis
loucos e sensatos , e urgentíssimos?

Poderás enfim amar, rendendo-te aquilo
que te aflora com suas asas,
te chama com suas vozes,
te vara constantemente com essa luz,
essa dor.

1 382
Jorge de Lima

Jorge de Lima

Democracia

Punhos
de redes embalaram o meu canto
Para adoçar o meu país, ó Whitman.
Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,
Catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,
Carumã me alimentou quando eu era criança,
Mãe-negra me contou histórias de bicho,
Moleque me ensinou safadezas,
Massoca, tapioca,pipoca, tudo comi,
Bebi cachaça com caju para limpar-me,
Tive maleita, catapora e ínguas,
Bicho-de-pé, saudade, poesia;
Fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,
Dizendo coisas, brincando com as crioulas,
Vendo espiritos, abusões, mães-d água,
Conversando com os malucos, conversando sozinho,
Emprenhando tudo o que encontrava,
Abraçando as cobras pelos matos,
Me misturando, me sumindo, me acabando,
Apara salvar a minha alma benzida
E o meu corpo pintado de urucu,
Tatuado de cruzes, de corações, de mãos ligadas,
De nomes de amor em todas as línguas de branco
De mouro ou pagão.

8 862
Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

Maxixe

O chocalho dos sapos coaxa
como um caracaxá rachado. Tudo mexe.
Um vento frouxo enlaga uma nuvem baixa
fofa. E desce com ela, desce.
E não a deixa e puxa-a como uma faixa
e espicha-se e enrolam-se. E o feixe rola
e rebola como uma bola
na luz roxa
da tarde oca

boba

chocha.

3 750
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sei que nunca terei o que procuro

Sei que nunca terei o que procuro
E que nem sei buscar o que desejo,
Mas busco, insciente, no silêncio escuro
E pasmo do que sei que não almejo.


10/04/1927
5 850
Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

Zumbi Saldo

Zumbi, meu Zumbi.
Hoje meu coração eu arranco
Zumbi hoje eu fui ao banco
E ainda estou presa
Escuto os seus sinos
e ainda estou presa na senzala Bamenrindus
Presa definitivamente
Presa absolutamente
à minha conta
corrente.

3 341
Caio Valério Catulo

Caio Valério Catulo

Talo, ó paneleiro

XXV

Talo, ó paneleiro, mais mole que pêlo de coelho,
que medula de ganso, que lóbulo de orelha,
que a porra flácida dum velho e que uma teia de aranha;
ó tu, que és ao mesmo tempo mais rapinante que a túrbida procela,
quando a lua os putanheiros bocejantes alumia,
restitui o manto que me roubaste
e o lenço se Sétabis e os bordados da Bitínia,
que tens o hábito de ostentar, imbecil, como bens de família.
Desgruda-mos já das tuas unhas e devolve-os,
para que chicotadas queimantes te não marquem de indignidade
o brando flancozinho e as delicadas mãozinhas,
e não estues insólito como frágil barquito
por um vento raivoso em mar grosso apanhado.

1 426
François Villon

François Villon

BALADA DAS MULHERES DE PARIS

Que sejam boas linguareiras
Florentinas e Venezianas,
Para servir de mensageiras,
Também Lombardas e Romanas,
E as Genovesas e as Toscanas.
Aqui vos garante quem diz
(Em que pese às Sicilianas):
Para a boca, só de Paris.

Em bem falar serão vezeiras,
Doutoras, as Napolitanas.
Como boas cacarejeiras
As de Bruges e as Alamanas.
Que sejam Gregas ou Troianas,
E de Hungria ou de outro país,
Aragonezas, Castelhanas;
Para a boca, só de Paris.

Bretãs, Suíças, más palradeiras.
Mais Gascoas e Toulousanas:
Um par das nossas regateiras
Cala-as logo e às Alsacianas,
Às ingresas como às Renanas
(É bastante a lista que eu fiz?),
E às Picardas e às Sabolanas:
Para a boca, só de Paris.
Senhor, às damas mais maganas
O prémio deveis dar, feliz.
Por mais que valham Italianas
- Para a boca, só de Paris.

(Tradução de Jorge de Sena)

1 721
Inácio José de Alvarenga Peixoto

Inácio José de Alvarenga Peixoto

Liras

(A Bárbara Heleodora, sua esposa, remetidas
do cárcere da Ilha das Cobras)

Bárbara bela,
Do norte estrela,
Que o meu destino
Sabes guiar,
De ti ausente,
Triste, somente
As horas passo
A suspirar.

Por entre as penhas
De incultas brenhas,
Cansa-me a vista
De te buscar;
Porém não vejo
Mais que o desejo
Sem esperança
De te encontrar.

Eu bem queria
A noite e o dia
Sempre contigo
Poder passar;
Mas orgulhosa
Sorte invejosa
Desta fortuna
Me quer privar.

Tu, entre os braços,
Ternos abraços
Da filha amada
Podes gozar;
Priva-me a estrela
De ti e dela,
Busca dois modos
De me matar!

3 309
Francesco Petrarca

Francesco Petrarca

ITALIA MIA

Itália minha, se o falar não vale
Dessas chagas mortais
Que o belo corpo assim te dilaceram-
Praz-me que meus suspiros sejam quais
Tibre, Arno e Pó esperam.
Que, grave e triste, aqui, eu me não cale.
Reitor celeste: ao mal
Vieste piedoso combater na terra:
Volta, Senhor, a teu país dilecto.
Perfeito que és, completo,
Vê por quão leves causas crua guerra.
E os peitos a quem cerra
Marte soberbo e fero,
Abre-os, ó Pai, desfeitos em doçura,
Ao som de quanto é vero
Em minha voz que só de Ti se apura.

E vós, a quem fortuna o freio há dado
De terras tão formosas,
De que a piedade em vós se vai delindo:
A que vem cá tanto estrangeiro armado?
Porque é que o verde prado
De sangue bárbaro se vai tingindo?
Derros vos iludindo,
Sois como cegos, pois que amor contais
Que existe, ou lealdade, em venais peitos.
Ao imigo sujeitos
Mais estareis quanto o comprardes mais.
Ó águas diluviais
Colhidas em deserto
Para inundar os nossos campos breves!
Quem poderá estar certo
Ao dar a mão a quem tem pés tão leves?

Bem próvida a natura quando alteou
Entre nós e os tudescos
Dos fortes Alpes o limite duro.
Mas a vontade estulta em gigantescos
Esforços se empenhou
E trouxe-os como sarna ao corpo puro
Ou dentro ao mesmo muro
Feras selvagens e a virtuosa grei
Que delas, por melhor, será dolente:
Sendo isto procedente
Dessas, ó dor maior, tribos sem lei,
Às quais, como direi, Mário rasgou o flanco
Qual a memória inda não stá exangue:
Quando, no último arranco,
Águas bebiam que já eram sangue.

César eu calo, que sangrento o verde
Pelas encostas fez
Das veias dels por nosso ferro abertas.
Ora não sei de que astro a rispidez
Perante o céu nos perde,
Se não são culpas vossas mais que certas,
Vontades tão despertas
Para gastar do mundo a parte bela.
De quem será juízo ou é pecado,
Se o povo desgraçado
É quem de aflito por vós paga aquela
Gente que nos flagela,
E detestável mais,
Que as almas vende a troco de áureo peso.
Eu falo pra que ouçais,
Não por ódio de alguém, ou por desprezo.

Que mais necessitais que alguém vos prove
Os bárbaros enganos
Que alçando os dedos com a morte brinquem?
Pior é a tortura do que o são os danos.
E o vosso sangue chove
Mais amplamente em ódios que vos trinquem.
No madrugar se afinquem
Os vossos pensamentos: vereis claro
Quem será caro a quem se tem por vil.
Nosso sangue gentil
É derramado por um esforço ignaro.
Fazeis ídolo raro
De um nome sem sentido:
Que o furor desta gente só repousa
No seu pensar perdido:
Pecado é nosso e não natural cousa.

Esta terra não é que andei primeiro?
Não é este o meu ninho
Em que criado fui tão docemente?
Pátria não é da fé e do carinho,
A madre em cujo seio
Dorme quem me gerou, foi meu parente?
Por Deus, que a vossa mente
Disto se mova, e pios contempleis
As lágrimas do povo doloroso
Que só de vós repouso
Ainda espera: e quanto vos mostreis
Que para el viveis, logo contra o furor
Das armas tomará em fúria absorto,
Pois que o antigo valor
No coração da Itália não está morto.

Mirai, senhors, como o tempo voa
E foge a doce vida
E a morte espreita já por sobre o ombro.
Estais ora aqui: pensai nessa partida,
Quando alma nua aproa,
E solitária, ao duvidoso assombro.
Cruzando neste combro
Deveis depor no val ódios malignos,
Os ars contrários à vida serena;
E se o tempo em dar pena
Aos outros vós gastais que a actos mais dignos
Ou das mãos ou dos signos, O vosso ser se entregue
E a mais honesto estudo se converta. Que a vida aqui sossegue
E que a celeste estrada seja aberta.
Canção, tuas razões
Discretamente e com cautela digas,
Pois que te hás-de ir por entre altiva gente que é presa por demente
De usanças miseráveis, tão antigas, Do vero sempre imigas. Entrega teus apelos
Aos animosos poucos que o bem praz. E, se puders movê-los,
A eles grita, como eu grito: Paz!

(Tradução de Jorge de Sena)

4 113
Paulo Leminski

Paulo Leminski

Sossegue coração

sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa

7 960
Olavo Bilac

Olavo Bilac

Benedicite

Bendito o que na terra o fogo fez, e o teto
E o que uniu à charrua o boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que do chão abjeto,
Fez aos beijos do sol, o oiro brotar, do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano,
E o que inventou o canto e o que criou a lira,
E o que domou o raio e o que alçou o aeroplano...

Mas bendito entre os mais o que no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

5 693
Heinrich Heine

Heinrich Heine

DU BIST WIE EINE BLUME

Tu és tal como uma flor,
Tão graciosa, e bela, e pura.
Contemplo-te, e uma tristeza
Ao coração me tritura.

Quisera pôr minhas mãos
Na tua fronte formosa,
Pedindo a Deus que te guarde
Tão pura, bela, e graciosa.

3 184
Castro Alves

Castro Alves

Longe de Ti

Quando longe de ti eu vegeto,
Nessas horas de largos instantes,
O ponteiro, que passa os quadrantes,
Marca séculos, se esquece de andar.
Fito o céu — é uma nave sem lâmpada.
Fito a terra — é uma várzea sem flores.
O universo é um abismo de dores,
Se a madona não brilha no altar.

Então lembro os momentos passados.
Lembro então tuas frases queridas,
Como o infante que as pedras luzidas
Uma a uma desfia na mão.
Como a virgem que as jóias de noiva
Conta alegre a sorrir de alegria,
Conto os risos que deste-me um dia
E que eu guardo no meu coração.

Lembro ainda o lugar onde estavas...
Teu cabelo, teu rir, teu vestido...
De teu lábio o fulgor incendido...
Destas mãos a beleza ideal...
Lembro ainda em teus olhos, querida,
Este olhar de tão lânguido raios,
Este olhar que me mata em desmaios
Doce, terno, amoroso, fatal!...

Quando a estrela serena da noite
Vem banhar minha fonte saudosa,
Julgo ver nessa luz misteriosa,
Doce amiga, um carinho dos teus!
E ao silêncio da noite que anseia
De volúpia, de anelos, de vida.
Eu confio o teu nome, querida,
Para as brisas levarem-no aos céus.

De ti longe minh’alma vegeta,
Vive só de saudade e lembrança,
Respirando a suave esperança
De viver como escravo a teus pés,
De sonhar teus menores desejos,
De velar em teus sonhos dourados,
"Mais humilde que os servos curvados!
"Inda mais orgulhoso que os reis"!

..................................................................................

Ó meu Deus! Manda às horas que fujam,
Que deslizem em fio os instantes...
E o ponteiro que passa os quadrantes
Marque a hora em que a posso fitar!
Como Tântalo à sede morria,
Sem achar o conforto preciso...
Morro à míngua, meu Deus, de um sorriso!
Tenho sede, Senhor, de um olhar.

3 199
Assis Garrido

Assis Garrido

Vênus

Deusa, a teus pés a flor das minhas crenças, ponho!
Mulher, eu te procuro, eu te amo, eu te desejo!
Para a tua nudez, — a gaze do meu Sonho,
Para a tua volúpia, o fogo do meu beijo.

Divina e humana, impura e casta, o olhar tristonho,
Cabelos soltos, corpo nu, como eu te vejo,
Dás-me todo o calor dos versos que componho
E enches-me de alegria a vida que pelejo.

Glória a ti, que, do Amor, cantaste, aos evos, o hino,
Que surgiste do mar, branca, leve, radiante,
Para a herança pagã do meu sangue latino!

Glória a ti, que ficaste, à alma dos homens, presa,
Para a celebração rubra da carne estuante
E a régia orquestração da Forma e da Beleza!

4 398