Escritas

Lista de Poemas

Explore os poemas da nossa coleção

Florbela Espanca

Florbela Espanca

Árvores do Alentejo

Ao Prof. Guido Battelli

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
– Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
11 077
3
Adélia Prado

Adélia Prado

Explicação de Poesia Sem Ninguém Pedir

Um trem de ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.
11 404
3
Jorge de Sena

Jorge de Sena

NOÇÕES DE LINGUISTICA

Ouço os meus filhos a falar inglês
entre eles. Não os mais pequenos só
mas os maiores também e conversando
com os mais pequenos. Não nasceram cá,
todos cresceram tendo nos ouvidos
o português. Mas em inglês conversam,
não apenas serão americanos: dissolveram-se,
dissolvem-se num mar que não é deles.
Venham falar-me dos mistérios da poesia,
das tradições de uma linguagem, de uma raça,
daquilo que se não diz com menos que a experiência
de um povo e de uma língua. Bestas.
As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem
esquecidas noutras, morrem todos os dias
na gaguez daqueles que as herdaram:
e são tão imortais que meia dúzia de anos
as suprime da boca dissolvida
ao peso de outra raça, outra cultura.
Tão metafísicas, tão intraduzíveis,
que se derretem assim, não nos altos céus,
mas na caca quotidiana de outras.

3 860
3
Castro Alves

Castro Alves

A Canção do Africano

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!

"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!

"0 sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar ...

"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".

O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!

............................

O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!

5 111
3
1
Giuseppe Ghiaroni

Giuseppe Ghiaroni

Pontos de Vista

Na minha infância, quando eu me excedia,
quando eu fazia alguma coisa errada,
se alguém ralhava, minha mãe dizia:
-Ele é criança , não entende nada!
Por dentro , eu ria satisfeito e mudo.
Eu era um homem, entendia tudo.
Hoje que escrevo histórias e poemas
e pareço ter tido algum estudo,
dizem quando me vêem com meus problemas:
-Ele é um homem, ele entende tudo!
Por dentro, alma confusa e atarantada,
eu sou uma criança, não entendo nada!

2 697
3
Camilo Pessanha

Camilo Pessanha

Violoncelo

(A Carlos Amaro)

Chorai, arcadas
Do violoncelo,
Convulsionadas.
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos.
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro.
Que ruínas, ouçam...
Se se debruçam,
Que sorvedouro!

Lívidos astros,
Soidões lacustres...
Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas.
Blocos de gelo!
Chorai, arcadas
Do violoncelo,
Despedaçadas...

4 679
3
António Feliciano de Castilho

António Feliciano de Castilho

Os Sonhos

Das Escavações Poéticas

Recordas-te, ingrata,
Quando eu te dizia,
Que em sonhos Armia
Cedia aos meus ais?
Sorrias, coravas,
Fugias, juravas
Que nunca os meus sonhos
Seriam leais.

Armia, esta noite,
Segundo o costume,
Tomei co meu nume,
Tomei a sonhar.

Qual és, eras rosa,
Gentil, espinhosa,
Sem par nos rigores,
Nas graças sem par.

Dou graças ao fado,
Já sonho esquivança;
Já luz esperança
No meu coração.
Tu juras que em sonhos
Só há falsidades,
E nunca deidades
Juraram em vão.

2 143
3
Bocage

Bocage

Soneto Ditado na Agonia

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura;

Conheço agora já quão vã figura,
Em prosa e verso fez meu louco intento:
Musa!... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura.

Eu me arrependo; a língua quasi fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... a santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!.

3 113
3
Heinrich Heine

Heinrich Heine

DE MANHÃ CEDO

Minha esposa querida e boa.
Minha bem amada esposa,
Que logo pela manhã
Negro café, branco leite,

É ela mesma quem serve!
E com que encanto, que sorriso!
Em todo o mundo de Cristo
Não há quem sorria assim.

E a flauta que é sua voz
Só entre os anjos se encontra.
Cá por baixo, quando muito,
Entre os melhores rouxinóis.

E as mãos que são como lírios
E os cabelos que entressonham
Em volta do róseo rosto!
Ah, tudo nela é perfeito!
Hoje, porém, ocorreu-me
- Não sei porquê - que um pouquinho
Mais elegante o seu corpo
Pudera ser. Um pouquinho.

3 317
3
Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Os anjos

Os anjos descobrem
a vulva
no mesmo instante

em que sabem
do pénis:

com
as pernas ligeiramente
abertas
e desviando as asas

São raríssimas as
asas
que não partem dos seios

a florir nos
ombros

Como um manso púbis
com os seus veios
de sombra

E o anjo
debaixo
ficou a acariciar o pénis
do anjo que voava
por cima

de manso procurando
o fundo
da vagina

4 559
3
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Há dias

Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.


de Os lugares de Lume
8 995
3
Carlos Alberto Pessoa Rosa

Carlos Alberto Pessoa Rosa

Tempos

hastes esguias
lançam roxos sobre
a primavera
pedestres caminham
nas nuvens
homens anseiam alturas
verticalizam

tempos de consumo
descrenças
de prédios sem janelas
de deuses perdidos
na história
de casebres sem luzes
nas varandas

ruas vermelhas
não cabem em telas
soterradas
sementes aguardam o momento
para reflorestar

vôo branco
na distância
transparência de mar
o verde desce
debruçado
sobre um rio

a contra-mão da vida
sinalizada
por uma bandeira vermelha
tempos de secas
e pragas
de argamassa em paliçada
corredeiras a nos escorrer
por labirintos

sinto cheiros
um perfume conhecido
exala de seu corpo adormecido:
tempos de amor

1 011
3
Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Gozo XII

São tuas as pálpebras
dos meus dias

tal como a laranja do lago
estagnado
é a lua do lago ao meio dia
quando o sol dos ombros está
rasgado

São teus os cílios
que as noites utilizam
é tua a saliva dos meus
braços

é teu o cacto que no ventre
incerto
debruça levar os seus
orgasmos

Não tenho mais que te dizer
das coisas
que tudo o mais te faço eu
deitada

enquanto sentes que o teu corpo
cresce
por dentro do mundo
na minha mão fechada

3 548
3
António Aleixo

António Aleixo

O pincel

MOTE

Fui uma noite pintar
Com um caneco empretado;
Eu pintei sem reparar,
Pintei e fiquei pintado.

GLOSAS

Eu comecei com jeitinho
A compor o ramalhete;
Primeiro foi com azeite
E depois foi com cuspinho.
No começo era estreitinho,
Custava o pincel a entrar...
Começa a dona a gritar:
"Não me parta a tigelinha",
Mas que coisa engraçadinha,
Fui uma noite pintar...

Comecei devagarinho...
Quando fui ao outro mundo
Meti o pincel ao fundo
E parti o canequinho.
Até mesmo o pincelinho
Veio de lá todo pintado,
Eu já estava desmaiado,
Perdendo as cores do rosto;
Mas pintei com muito gosto
Com um caneco emprestado.

Vem a mãe toda zangada:
"Tem que pagar-me a vasilha...
No caneco da minha filha
Não pinta você mais nada...
...Lá isto, a moça deitada,
Sem poder levantar-se,
Com tanta tinta a pingar
No lugar da rachadela!..."
"Diga lá, que desculpe ela,
Eu pintei sem reparar!"...

Pra que vejam que sou pintor
E meu pincel nunca deixo;
Pra que saibam que o Aleixo
Não é somente cantor...
Também pinto qualquer flor
E faço qualquer bordado;
Mas aqui o ano passado,
Perdi, de pintar, o tino...
Fui pintar, fiz um menino,
Pintei e fiquei pintado.

2 465
3
1
Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

No corpo

De que vale tentar reconstruir com palavras
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?

O sonho na boca, o incêndio na cama.
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

4 128
3
Conceição da Costa Neves

Conceição da Costa Neves

Distâncias

Dos meus aos teus braços
o caminho é bem curto.
Nossas bocas fazem o encontro
do desejo incontido e longo.
Depois, tudo é posse louca.
Músculos, carinho, seiva.
Paixão da carne que transvasa
nas vontades de todos os tempos.
Terminou. Músculos lassos. Vontades esgotadas.
É longo agora o caminho dos meus
para os teus braços.

1 386
3
Jean de La Fontaine

Jean de La Fontaine

Solidão

Solidão, que me dás um deleite profundo,
Sítios que sempre amei, não poderei jamais,
Bem longe dos salões, gozar de sombra e paz?
Quando vão me prender as guaridas amenas,
E poderão, longe dos paços, as Camenas
Me atrair e ensinar dos céus, do firmamento
O que aos olhos escapa - o errante movimento,
Os nomes e o valor dos astros peregrinos,
Por quem marcados são condutas e destinos?
Se à vida não cheguei pra grandes aparatos,
Ao menos aprecie o encanto dos regatos!
Que em meu verso apareça uma veiga florida!
De ouro não tecerá a Parca a minha vida,
Eu nunca dormirei rodeado de lambris:
E, por isso, em meu leito, hei-de ser infeliz?
Menos profundo o sono e menor seu prazer?
Nos ermos, oblações lhe haverei de fazer.
Quando o instante vier de os mortos alcançar,
Sereno já vivi e morro sem pesar.

 

1 403
3
Herberto Helder

Herberto Helder

4A

Mulheres geniais pelo excesso da seda, mães
do ouro
vagaroso.
Sopram a lua pela boca dos púcaros.
A força de labareda, as porcelanas 
apuram-se, altas,
nos dedos. E elas medem girassóis pupila a pupila, 
paisagens,
rasgões da água. Entre os braços arrebatam-se 
cereais, fogo.
A escrita suprema de imaginar por música 
as coisas: louças, comidas, roupas.
Num inebriamento de beleza composta em número. 
Deitam leite nos cântaros.
E inclinam a cara, vêem no precipício
a altura voltada daquela arte da vertigem
de que são o centro. Se mungem o gado, esplendem
de pêlo e segredo, abaladas pelo bafo
do fundo: uma vaca é um jarro sumptuoso
com o rosto delas, oculto
e húmido, o rosto movido a luz.
Uma camélia soprada.
E as mãos pensando sempre.
Quem se banha nessas ribeiras fêmeas escoando-se 
nas imagens fica infuso, os membros 
em raio de estrela.
Está molhado pelo coração dentro.
Quando pelas suas ciências elas param na memória. 
Quando se abre uma ferida. Quando a ferida 
sangra.
Não toques nos objectos imediatos.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena, 
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente 
tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer. 
A boca fica em chaga.
 

14 546
3
1
David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Os teus olhos

Os teus olhos
exigindo
ser bebidos

Os teus ombros
reclamando
nenhum manto

Os teus seios
pressupondo
tantos pomos

O teu ventre
recolhendo
o relâmpago

4 455
3
Natália Correia

Natália Correia

O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

2 822
3
Martha Medeiros

Martha Medeiros

Minha Boca

minha boca
é pouca
pro desejo
que anda à solta
4 513
3
Vitorino Nemésio

Vitorino Nemésio

A Árvore do silêncio

Se a nossa voz crescesse,onde era a árvore?

Em que pontas,a corola do silêncio?

Coração já cansado,és a raiz:

Uma ave te passe a outro páis.

Coisas de terra são palavra.

Semeia o que calou.

Não faz sentido quem lavra

Se o não colhe do que amou.

Assim,sílaba e folha,porque não

Num só ramo levá-las

com a graça e o redondo de uma mão?

(Tu não te calas? Tu não te calas?!)

de Canto De Véspera

2 486
3
Alexandre O'Neill

Alexandre O'Neill

O chapéu de Tchekov

tchekov anton rebocava o seu
pulmão pelos ares da crimeia
mais ou menos quando a engomadeira
de cesário passava os seus pulmões
pelo carvão do ferro

gorki vai visitá-lo palmilhá-lo e à cancela
observa-o no umbroso jardim chapéu na mão
aparando no côncavo um cambiante raio
do sol que pela folhagem trémula se infiltra

gorki retém-se vê o tostão de sol
cair no chapéu de anton neto de servos
vê anton virar tac o chapéu e espreitar para dentro
como quem tirado o chapéu nele procurasse
a sua própria cabeça

tchekov brincava com o alheio sol
na pessoal solidão

in:A saca de orelhas(1979)
4 824
3
José Agostinho Baptista

José Agostinho Baptista

Da Nossa Morte

Da Nossa Morte

Agora é tarde.
Ninguém responde às cartas que escrevi e
atirei ao mar,
quando pensei que um dia serias como esse
marinheiro que num sonho antigo abençoava
o filho e depois partia nas asas do albatroz.
Agora é tarde.
Ninguém responde à sombria música dos meus
punhos golpeando a cadeira vazia,a mesa,as
folhas em branco onde uma única palavra se
aproxima,
manejando as suas armas-
três letras,três sinais de fogo.
Agora é tarde.
Ninguém cala os tempestuosos rios no fundo
dos meus olhos,
quando penso nos vermes,nas viscosidades
que te procuram através do cetim.

1 636
3