Escritas

Os infernos artificiais

2001
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BENILDE AO BALCÃO I

Valerá a pena uma voz vária?
Benilde está ao balcão, repara nas moscas
pulando ao acaso num canto desvanecido,
e os homens - mudos e sonolentos -
dão à taberna um sepulcral prestígio
que em certos dias me apraz.
Envelhecemos todos, com vocação
ou sem ela. Não sei se as moscas também,
indiferentes a uma pergunta errada.

Mas eis que alguém canta um fado,
estando Benilde ao Balcão.
Talvez só então me aperceba de
que a tristeza é um luxo, impossível
um poema nos tempos que correm
ou param. Benilde ao balcão saberá?

Vou omitir por piedade a inércia
gutural do que ouvi, pronto motivo
para que outros se levantassem também
- subitamente fadistas por obrigação
ou desforra. Sai-lhes da reforma pequena
uma voz destruída pelo álcool, inter-
mitente, capaz ainda assim de vislumbres
de sabedoria: «a vida é uma estória
e a estória é mentira».

Benilde, ao balcão, não se pronuncia.
Nasceu mulher, e ainda por cima existe
(não veio da peça de teatro que tornou
literário o seu nome). Aqui quem actua
são eles, frutos disformes de uma «alma
nacional» que subscrevemos sem pensar muito.
Depois dá nisto: brando desespero
com quase vergonha de o ser.

Acendem-se na tarde as perdidas coisas,
imunes ao fado e às moscas
e a tudo. Quem pudesse remediar o defeito
grave deste existir lodoso, sem comunhão
à vista. Enobrecê-lo, pelo menos.
Mas não, apesar de tudo. Benilde
é a imagem estóica - embora desconheça
o termo - de um reino que não pôde ser,
por excesso de dor ou por nada.

Não é por conveniência retórica
que o confundo com uma taberna
onde as paredes, o urinol exíguo,
a demitida luz, me lembram de ti
ou da morte. Estamos todos aqui, acontece.
Até que me interrompam, do lado
de fora do poema, para me dizerem
com o rosto chagado e incerto
que «não vale a pena pensar nessas coisas».

Poder-se-ia suprimir o complemento directo,
se não fosse deselegante sujar
de gramática o que é lição pura de desespero.
Dou-lhe um cigarro, mais não posso dar
- e não é culpa minha a consternação
quando uma mulher, destroçada embora,
entra num reduto de decadência viril.
Se perdoam Benilde é porque está ao balcão.

Por quanto tempo não sei. Lá fora
o trânsito e os rostos
tingem-se de irrealidade, vistos deste reino
que não chegou a sê-lo. O relógio
há tantos poemas parado não sustém o tempo
homicida, e um dia a praça das Flores
será um ameno lugar de chacina
privado de bêbados como eu.

CÉLINE BLUES

Estas coisas perdem-se. Primeiro
a disponibilidade para a paixão, depois
a própria capacidade de alguém
se vir noutro alguém. Estas coisas
estão sempre a perder-se – e não faz mal,
contanto que nos reste para isso
uma canção decadente.

Falo de órgãos, artérias, tendões.
Do mesmo modo que a alma
é um órgão proscrito que sem vigor
assediamos, adivinhando talvez
que o vazio saberá devorar os traços
que de si próprio deixou: bagatelas,
massacres e aflitas circuncisões
de sentido. Paga-se nisso tudo,
de costas para a retórica,
e faz-se uma canção decadente e sem vigor

E é ainda para ninguém
que estamos a falar coisa nenhuma, supostamente evidente porque
estas coisas se perdem, como dizia
no primeiro verso o arrogante sujeito
poético que em boa hora se cala.

SINIETÉ

Não vale a pena empurrar o discurso
até aos nulos e fulgurantes
limites da linguagem. Não vale a pena
nomear o vazio com palavras mais estéreis ainda.
Que pereça sozinho este mundo onde
por descuido regressamos a um corpo
e lhe ensinamos a ruína, os vários rostos da morte.

Por corpo diz-se talvez
uma matéria que não nos pertence,
embora possessa a morramos.
Um nome não vale a pena.

Tudo existe, mas nada é real,
nem sequer o vazio, Digamos adeus
à alma que se nos nega
como uma salsicha sem lata,
deixando o poema esquecido
a um canto de si, esquecido e atroz.

De nosso só temos a morte,
o que não vale a penas sabermos

URINOL

As melhores horas da nossa vida,
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
- que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como de um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.

São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insetos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.

Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora - contente e tão triste -
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.

Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar,
no dia
em que formos
morrer.

ZULMIRA, AO AMANHECER

No urinol público lia-se UTILIZAÇÃO GRATUITA.
Fiquei quase feliz (quantas coisas gratuitas
há neste mundozinho de horror?).
Mas o que desta manhã eu mais agradeço, Zulmira,
é a tua sopa, essa que tantas vezes
me salvou a vida, entre centenas de superbocks.

Não me inquietam os chulos, os assassinos
ou estes mendigos calados. Ilustríssima gente,
de uma má-raça inegável. Prefiro perder
com eles os meus dias, e falar da fome, dos joanetes
ou do preço do azeite. Não tenho tempo
para aprofundar desrazões, nem para conviver com puetas.

Sei apenas que as poucas pessoas que amei
estavam por detrás de um balcão
onde o álcool ardia, muito devagar.
Os meus pobres anjos.
Também por isso gostava de te obrigar a esta taberna,
exílio cantante de todas as minhas antigas manhãs.

Por esta mãe desolada, pelo rumor sombrio
do vinho que nunca azedou nos meus lábios,
por certas inábeis palavras que sobre os barris
faleceram e te pertenciam somente.

Mas “até logo, Zulmira”, bem sabes que do amor
ou do futebol nada poderei jamais dizer
ou sentir. Entre os teus braços largos deponho
em silêncio aquela negra noite do meu mal.
Por uma sopa encorpada, sobre destroços
imperecíveis, bocados de morte partidos.