Escritas

Poemas nesta obra

1. a Respiração Dos Deuses É Um Silêncio Nu

A respiração dos deuses é um silêncio nu
E uma nudez mais aguda poisada sobre as coisas
2

Aqui minha alma se suspende
Como tocando a substância pressentida
3

Eis o centro do mundo seu umbigo
A exacta proporção de presença e vazio

A Cidade Dos Outros

Túnica de tortura era a cidade
Que tecida pelos outros nos vestia

Nem uma folha de tília ou de palmeira
Nos escondia

Caminhamos no chão azul das noites
E nas arenas brancas do meio dia

E a cidade como cães nos perseguia

A Minha Vida Está Vivida

Já minha morte prepara
Seu pó de beladona
Viajarei ainda para me despedir das imagens
Antes de despir a túnica do visível

Em vão me engano
Verdadeiramente sou quem fui
Atravessando quartos forrados de espelhos ardentes
E diluída no fulgor da Primavera antiga

Se ainda busco o promontório de Sunion
É porque nele vejo a minha face despida
O mitológico mundo interior e exterior
Da minha própria unidade perseguida

Mas como despedir-me deste sal
Deste vento inventor de degraus e colunas
Como despedir-me das pedras deste mar
E deste denso amor inteiro e sem costuras

Beijei a Terra Com Os Meus Olhos, a Minha Boca E Os Meus Dedos

Beijei a terra com os meus olhos, a minha boca e os meus dedos
Enrolei-a a mim em círculos inumeráveis
E em contemplações intermináveis
Dissolvi-me nos seus segredos

Como Todo o Amor Humano

Eras impuro, falso e vil,
Mas eu ergui a perfeição do teu perfil
Na manhã d’hoje em frente do Oceano.

Deus Recebe Em Seu Silêncio Puro

O sonho do arquitecto

E dá-te a plenitude da morada
De que foste projecto

Para tudo se tornou tarde
Até para o mar e para o vento
A tua morte tudo invade
Com desalento

Enigmáticos, Desertos E Suspensos

Os espaços vermelhos do poente,
Países de completa maravilha,
Cobrem o campo morto dos destroços

Um por um morremos olhos fitos
No caminho dos deuses.

Quando Morreste de Repente Arrastando Contigo Para a Morte a Minha Infância

Morreste sozinho
Entre pinhais rios e campos
Como um homem do paleolítico no rasto da caça
Morreste em agonia
Inteiro e sereno e de bem com as coisas
Tinhas olhado com alegria a claridade da manhã de Dezembro
A terra era justa
O solo germinava
Foste velado primeiro na cabana do pescador
Depois na casa
Dormias na justiça terrestre
Na pura fidelidade à imanência
À tua maneira

São Estes Os Dias do Novo Estio Deslumbrado

Quando depomos as grades e as barreiras
Como um vestido que foi usado contra o frio
São estes os dias em que a ferocidade depõe as suas armas

Teu Passo Não Enraizou Nas Areias de Seda

Embora te iniciasse Ártemis
Quando atravessaste a roxa
Respiração da aurora tropical

Tomaste em tua mão o sopro
Como um fruto ou como um rosto

Nas palavras tupi procuraste o segredo
Extremo do lugar
Uma névoa velou o azul dos morros
As praias como braços se estendiam
No mar corriam todas as quadrigas
Atreladas em mão azul

Tu Que Esculpes No Ar o Vento Musculado

Belo é o teu sorriso sem cabeça
A tua alegria lutadora e veemente
Que vai pesando uma por uma as proas dos navios

Belo é o teu passo impetuoso
Ó portadora sem braços nem oferenda
De ti só recebemos
O mundo onde moramos e o que somos