Escritas

Carnaval

Ano
1919
Carnaval

Poemas nesta obra

A Canção Das Lágrimas de Pierrot

I
A sala em espelhos brilha
Com lustres de dez mil velas.
MirĂ­ades de rodelas
Multicores — maravilha! —

Torvelinham no ar que alaga
O cloretilo e se toma
Daquele mesclado aroma
De carnes e de bisnaga.

E rodam mais que confete,
Em farĂąndolas quebradas,
Cabeças desassisadas
Por Colombina ou Pierrette.
II
Pierrot entra em salto sĂșbito.
Upa! Que força o levanta?
E enquanto a turba se espanta,
Ei-lo se roja em decĂșbito.

A tez, antes melancĂłlica,
Brilha. A cara careteia.
Canta. Toca. E com tal veia,
Com tanta paixĂŁo diabĂłlica,

Tanta, que se lhe ensangĂșentam
Os dedos. Fibra por fibra,
Toda a sua essĂȘncia vibra
Nas cordas que se arrebentam.
III
Seu alaĂșde de plĂĄtano
Milagre Ă© que nĂŁo se quebre.
E a sua fronte arde em febre,
— Ai dele! e os cuidados matam-no.

Ai dele! que essa alegria,
Aquelas cançÔes, aquele
Surto nĂŁo Ă© mais, ai dele!
Do que uma imensa ironia.

Fazendo Ă  cantiga louca
Dolorido contracanto,
Por dentro borbulha o pranto
Como outra voz de outra boca:
IV
— "Negaste a pele macia
"À minha linda paixão!
"E irĂĄs entregĂĄ-la um dia
"Aos feios vermes do chĂŁo...

"Fiz por ver se te podia
"Amolecer — e não pude!
"Em vĂŁo pela noite fria
"Devasto o meu alaĂșde...

"Minha paz, minha alegria,
"Minha coragem, roubaste-mas...
"E hoje a minh'alma sombria
"E como um poço de låstimas..."
V
Corre apĂłs a amada esquiva.
Procura o precĂĄrio ensejo
De matar o seu desejo
Numa carĂ­cia furtiva.

E encontrando-o Colombina,
Se lhe dĂĄ, lesta, Ă  socapa,
Em vez de beijo uma tapa,
O pobre rosto ilumina-se-lhe!...

Ele que estava de rastros,
Pula, e tĂŁo alto se eleva,
Como se fosse na treva
Romper a esfera dos astros!...

A Ceia

Junto Ă  pĂșrpura os tons mais ricos esmaecem.
Chispa ardente lascĂ­via em cada rosto glabro.
Luzem anĂ©is. À luz crua do candelabro
Finda a ceia. O perfume e os vinhos entontecem.

César medita e trama o desígnio macabro.
Quando em volĂșpia aos mais os olhos enlanguescem,
Os seus, frios, fitando o irmão, lançå-lo tecem,
Horas depois, do Tibre ao fundo volutabro.

TrĂȘs gregas de alvos pĂ©s, pubescentes e esguias,
Torcendo os corpos nus donde acre aroma escapa,
Dançam meneando véus, flexíveis como enguias.

Enquanto, a acompanhar os lascivos trejeitos,
Entre os seios liriais de uma matrona, o Papa
Deixa cair, rindo, um punhado de confeitos.

1907

A Dama Branca

A Dama Branca que eu encontrei,
Faz tantos anos,
Na minha vida sem lei nem rei,
Sorriu-me em todos os desenganos.

Era sorriso de compaixĂŁo?
Era sorriso de zombaria?
NĂŁo era mofa nem dĂł. SenĂŁo,
SĂł nas tristezas me sorriria.

E a Dama Branca sorriu também
A cada jĂșbilo interior.
Sorria como querendo bem.
E todavia nĂŁo era amor.

Era desejo? — Credo! De tísicos?
Por histeria... quem sabe lĂĄ?...
A Dama tinha caprichos fĂ­sicos:
Era uma estranha vulgĂ­vaga.

Ela era o gĂȘnio da corrupção.
TĂĄbua de vĂ­cios adulterinos.
Tivera amantes: uma porção.
Até mulheres. Até meninos.

Ao pobre amante que lhe queria,
Se lhe furtava sarcĂĄstica.
Com uns perjura, com outros fria,
Com outros mĂĄ,

— A Dama Branca que eu encontrei,
HĂĄ tantos anos,
Na minha vida sem lei nem rei,
Sorriu-me em todos os desenganos.

Essa constĂąncia de anos a fio,
Sutil, captara-me. E imaginai!
Por uma noite de muito frio
A Dama Branca levou meu pai.

A Fina, a Doce Ferida...

A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo
Deixou quebranto amoroso
Na cicatriz dolorida.

Pois que ardor pecaminoso
Ateou a esta alma perdida
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo!

Como uma adaga partida
Punge o golpe voluptuoso...
Que no peito sem repouso
Me arderĂĄ por toda a vida
A fina, a doce ferida...

A Morte de Pã

Quando aquele que o beijo infiel traĂ­ra no Horto,
Desfaleceu na cruz, das montanhas ao mar
Gemeu, com grande pranto e feio soluçar,
Uma voz que dizia: — "O Grande PĂŁ Ă© morto!...

"Aquele deleitoso, almo viver absorto
"No amor da natureza augusta e familiar,
"O ledo rito antigo, outrem veio mudar
"Em doutrina de amargo e rudo desconforto.

"Faunos, morrei! Morrei, Dríades e Napéias!
"Oréades gentis que a flauta do Egipã
"Congraçava na relva em rondas e coréias,

"Morrei! Apague o vento os tenuĂ­ssimos laivos
"Dos ågeis pés sutis... Bosques, desencantai-vos...
"Fontes do ermo, chorai que Ă© morto o grande PĂŁ!...

A Sereia de Lenau

Quando na grave solidĂŁo do AtlĂąntico
Olhavas da amurada do navio
O mar jĂĄ luminoso e jĂĄ sombrio,
Lenau! teu grande espĂ­rito romĂąntico

Suspirava por ver dentro das ondas
Até o ålveo profundo das areias,
A enxergar alvas formas de sereias
De braços nus e nådegas redondas.

IlusĂŁo! que sem cauda aqueles seres,
Deixando o ermo monĂłtono das ĂĄguas,
Andam em terra suscitando mĂĄgoas,
Misturadas Ă s filhas das mulheres.

Nikolaus Lenau, poeta da amargura!
Uma te amou, chamava-se Sofia.
E te levou pela melancolia
Ao oceano sem fundo da loucura.

A Silhueta

Na sala obscura, onde branqueja
A mancha ebĂșrnea do teclado,
Morre e revive, expira, arqueja
O estribilho desesperado.

Um Pierrot de vestes de seda
Negra, ele prĂłprio toca e canta.
O timbre mĂșrmuro segreda
Uma dor que sobe Ă  garganta.

E uma tristeza de tal sorte
Vem nessa pobre voz humana,
Que se pensa em fugir na morte
À misĂ©ria cotidiana.

Como a voz, também a mão geme.
E na parede se debruça
A sombra pĂĄlida, que treme,
De uma garganta que soluça...

Alumbramento

Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!

Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela... e sinto-a pura...

Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizaçÔes da bruma
A amortalhar, a cintilar!

Eu vio mar! LĂ­rios de espuma
Vinham desabrochar Ă  flor
Da ĂĄgua que o vento desapruma...

Eu via estrela do pastor...
Via licorne alvinitente!...
Vi... vio rastro do Senhor...

E vi a Via-LĂĄctea ardente...
Vi comunhÔes... capelas... véus...
SĂșbito... alucinadamente...

Vi carros triunfais... troféus...
Pérolas grandes como a lua...
Eu vi os céus! Eu vi os céus!

— Eu vi-a nua... toda nua!

Clavadel, 1913

Arlequinada

Que idade tens, Colombina?
SerĂĄ a idade que pareces?...
Tivesses a que tivesses!
Tu para mim és menina.

Que exĂ­guo o teu talhe! E penso:
Cambraia pouca precisa:
Pode ser toda num lenço
Cortada a tua camisa...

Teus seios tĂȘm treze anos.
DĂŁo os dois uma mancheia...
E essa inocĂȘncia incendeia,
Faz cinza de desenganos...

O teu pequenino queixo
— Símbolo do teu capricho —
É dele que mais me queixo,
Que por ele assim me espicho!

Tua cabeleira rara
Também ela é de criança:
Darå uma escassa trança,
Onde eu mal me estrangulara!

E que direi do franzino,
Do breve pé de menina?...
Seria o mais pequenino
No jogo da pompolina...

Infantil Ă© o teu sorriso.
A cabeça, essa é de vento:
NĂŁo sabe o que Ă© pensamento
E jamais terĂĄ juĂ­zo...
CrĂȘs tu que os recĂ©m-nascidos
SĂŁo achados entre as couves?...
Mas vejo que os teus ouvidos
Ardem... Finges que nĂŁo ouves...

PerdĂŁo, perdĂŁo, Colombina!
PerdĂŁo, que me deu na telha
Cantar em medida velha
Teus encantos de menina...
Juiz de Fora, 1918

Bacanal

Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!

LĂĄ se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lĂ­vidos venenos...
EvoĂ© VĂȘnus!
Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
— Vinhos... o vinho que Ă© o meu fraco!...
Evoé Baco!

O alfanje rĂștilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu nĂŁo domo!...
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extĂĄtico desfira
Em seu louvor versos obscenos,
EvoĂ© VĂȘnus!

1918

Baladilha Arcaica

Na velha torre quadrangular
Vivia a Virgem dos Devaneios...
Tão alvos braços... Tão lindos seios...
TĂŁo alvos seios por afagar...

A sua vista não ia além
Dos quatro muros que a enclausuravam
E ninguĂ©m via — ninguĂ©m, ninguĂ©m —
Os meigos olhos que suspiravam.

Entanto fora, se algum zagal,
Por noites brancas de lua cheia,
Ali passava, vindo do val,
Em si dizia: — Que torre feia!

Um dia a Virgem desconhecida
Da velha torre quadrangular
Morreu inane, desfalecida,
Desfalecida de suspirar...

Confidência

Tudo o que existe em mim de grave e carinhoso
Te digo aqui como se fosse ao teu ouvido...
SĂł tu mesma ouvirĂĄs o que aos outros nĂŁo ouso
Contar do meu tormento obscuro e impressentido.

Em tuas mĂŁos de morte, Ăł minha Noite escura!
Aperta as minhas mĂŁos geladas. E em repouso
Eu te direi no ouvido a minha desventura
E tudo o que em mim hĂĄ de grave e carinhoso.

1918

Debussy

Para cĂĄ, para lĂĄ...
Para cĂĄ, para lĂĄ...
Um novelozinho de linha...
Para cĂĄ, para lĂĄ...
Para cĂĄ, para lĂĄ...
Oscila no ar pela mão de uma crianç
(Vem e vai...)
Que delicadamente e quase a adormecer o balança
— Psiu... —
Para cĂĄ, para lĂĄ...
Para cĂĄ e...
— O novelozinho caiu.

Do Que Dissestes...

Do que dissestes, alma fria,
JĂĄ nada vos acode mais?...
Éramos sós... Fora chovia...
Quanta ternura em mim havia!
(Em vós também... Por que o negais?)

Hoje, contudo, nem me olhais...
Pobre de mim! Por que seria?
Acaso arrependida estais
Do que dissestes?

É bem possível que o estejais...
O amor Ă© cousa fugidia...
Eu, no entretanto, que em tal dia
Gozei momentos sem iguais,
Eu nĂŁo me esquecerei jamais
Do que dissestes.

Epígrafe

Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e perguntou tristemente — se eu a reconhecia?
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia do que do
seu ar de extrema penĂșria. Fez por parecer alegre. Mas o sorriso se lhe transmudou em ricto amargo. E os olhos ficaram baços, como duas poças de ĂĄgua suja...
Então, para cortar o soluço que adivinhei subindo de sua garganta, puxei-a
para ao pé de mim e, com doçura:
— Tu Ă©s a minha esperança de felicidade e cada dia que passa eu te quero
mais, com perdida volĂșpia, com desesperação e angĂșstia...

Epílogo

Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um carnaval todo subjetivo:
Um carnaval em que o sĂł motivo
Fosse o meu prĂłprio ser interior...

Quando o acabei — a diferença que havia!
O de Schumann Ă© um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
E o meu tinha a morta mortacor
Da senilidade e da amargura...
— O meu carnaval sem nenhuma alegria!...

1919

Hiato

Ês na minha vida como um luminoso
Poema que se lĂȘ comovidamente
Entre sorrisos e lĂĄgrimas de gozo...

A cada imagem, outra alma, outro ente
Parece entrar em nós e manso enlaçar
A velha alma arruinada e doente...

— Um poema luminoso como o mar,
Aberto em sorrisos de espuma, onde as velas
Fogem como garças longínquas no ar...

Madrigal

A luz do sol bate na lua...
Bate na lua, cai no mar...
Do mar ascende Ă  face tua,
Vem reluzir em teu olhar...

E olhas nos olhos solitĂĄrios,
Nos olhos que sĂŁo teus... E assim
Que eu sinto em ĂȘxtases lunĂĄrios
A luz do sol cantar em mim...

Menipo

Menipo, o zombeteiro, o CĂ­nico vadio,
la fazer, enfim, a Ășltima viagem.
Mas ia sem temor, calmo, atento Ă  paisagem
Que se desenrolava Ă  beira do atro rio.

E chasqueava a sorrir sobre o Estige sombrio.
Nem cuidara em trazer o Ăłbulo da passagem!
Em face de Caronte, a pavorosa imagem
Do barqueiro da Morte olhava em desafio.

Outros erguiam no ar suplicemente as palmas.
Ele, avesso ao terror daquelas pobres almas,
Antes afigurava um deus sereno e forte.

Em seu lĂĄbio cansado um sorriso luzia.
E era o sorriso eterno e sutil da ironia,
Que triunfara da vida e triunfava da morte.

1907

O Descante de Arlequim

A lua ainda nĂŁo nasceu.
À escuridão propícia aos furtos,
PropĂ­cia aos furtos, como o meu,
De amores frĂ­volos e curtos,

Estende o manto alcoviteiro
À cuja sombra, se quiseres,
A mais ardente das mulheres
TerĂĄ o seu Ășnico parceiro.

Ei-lo. Sem glória e sem vintém,
Amando os vinhos e os baralhos,
Eu, nesta veste de retalhos,
Sou tudo quanto te convém.

NĂŁo se me dĂĄ do teu recato.
Antes, polido pelo vĂ­cio,
Sou fĂĄcil, acomodatĂ­cio,
Agora beijo, agora bato,

Que importa? Ao menos o teu ser
Ao meu anélito corruto
EsquecerĂĄ por um minuto
O pesadelo de viver.

E eu, vagabundo sem idade,
Contra a moral e contra os cĂłdigos,
Dar-te-ei entre os meus braços pródigos
Um momento de eternidade...

O Súcubo

Quando em silĂȘncio a casa adormecia e vinha
Ao meu quarto a aromada emanação dos matos,
DeslizĂĄveis astuta, amorosa e daninha,
Propinando na treva o absinto dos contatos.

Como se enlaça ao tronco a ondulação da vinha,
Um por um despojando os fictĂ­cios recatos,
EstreitĂĄveis-me cauta e essa pupila tinha
FosforescĂȘncias como a pupila dos gatos.

Tudo em vĂłs flamejava em instintiva fĂșria.
A garganta cruel arfava com luxĂșria.
O ventre era um covil de serpentes em cio...

Sem paixĂŁo, sem pudor, sem escrĂșpulos — Ă©reis
TĂŁo bela! e as vossas mĂŁos, fontes de calefrio,
Abrasavam no ardor das volĂșpias estĂ©reis...

TeresĂłpolis, 1912

Os Sapos

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,

Berra o sapo-boi:
— “Meu pai foi à guerra!”
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foil!?.

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: — “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso Ă© bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
NĂŁo hĂĄ mais poesia
Mas hĂĄ artes poĂ©ticas...”

Urra o sapo-boi:
— “Meu pai foi rei” — “Foi!”
— “Não foi!” — “Foi” —*“Não foi!”.

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
— “A grande arte Ă© como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuĂĄrio.
Tudo quanto Ă© belo,
Tudo quanto Ă© vĂĄrio,
Canta no martelo.”

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
— “Sei!” — “Não sabe!” — “Sabel”.

Longe dessa grita,
LĂĄ onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;

LĂĄ, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitĂĄrio, Ă©

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo cururu
Da beira do rio...

1918

Pierrette

O relento hiperestesia
O ritmo tardo de meu sangue.
Sinto correr-me a espinha langue
Um calefrio de histeria...

Gemem ondinas nos repuxos
Das fontes. Faunos aparecem.
E salamandras desfalecem
Nas sarças, nos braços dos bruxos.

Corro Ă  floresta: entre mirĂ­ades
De vaga-lumes, junto aos troncos,
GĂȘnios caprĂ­pedes e broncos
Estupram virgens hamadrĂ­ades.

Ergo olhos sĂșplices: e vejo,
Ante as minhas pupilas tontas,
No sete-estrelo as sete pontas
De sete espadas de desejo.

O sexo obsidente alucina
A minha Ă­ndole surpresa:
As imagens da natureza
SĂŁo um delĂ­rio de morfina.

A minha carne complicada
Espreita, em voluptuoso ardil,
Alguém que tenha a alma sutil,
Decadente, degenerada!

E a lua verte como uma Ăąmbula
O filtro erĂłtico que assombra...
Vem, meu Pierrot, Ăł minha sombra
CocainĂŽmana e noctĂąmbula!...

Pierrot Branco

AtrĂĄs de minha fronte esquĂĄlida,
Que em insĂŽnias se mortifica,
Brilha uma como chama pĂĄlida
De pĂĄlida, pĂĄlida mica...

NĂŁo a acendeu a ardente febre,
Ai de mim, da consumpção hética
Que esgalga, até que um dia a quebre,
A minha carcaça caquética!

Nem a alumiou a fantasia
Por velar de rĂșbido pejo
Aquela agitação sombria
Que em pancadas de mau desejo

Tortura o coração aflito,
Sugere requintes de gozo,
Por concriar — sonho infinito —
O andrĂłgino miraculoso!

A chama que em suave lampejo
A esquĂĄlida tez me ilumina,
NĂŁo a ateou febre nem desejo,
— Mas um beijo de Colombina

Pierrot Místico

Torna a meu leito, Colombina!
Não procures em outros braços
Os requintes em que se afina
A volĂșpia dos meus abraços.

Os atletas poderĂŁo dar-te
O amor prĂłximo das sevĂ­cias...
SĂł eu possuo a ingĂȘnua arte
Das indefinĂ­veis carĂ­cias...

Meus magros dedos dissolutos
Conhecem todos os afagos
Para os teus olhos sempre enxutos
Mudar em dois brumosos lagos...

Quando em ĂȘxtase os olhos viro,
Ah se pudesses, fĂștil presa,
Sentir na dor do meu suspiro
A minha infinita tristeza!...

Insensato aquele que busca
O amor na fĂșria dionisĂ­aca!
Por mim desamo a posse brusca.
A volĂșpia Ă© cisma elegĂ­aca...

A volĂșpia Ă© bruma que esconde
Abismos de melancolia...
Flor de tristes pĂąntanos onde
Mais que a morte a vida Ă© sombria...

Minh'alma lĂ­rica de amante
Despedaçada de soluços,
Minh'alma ingĂȘnua, extravagante,
Aspira a desoras de bruços

NĂŁo Ă s alegrias impuras,
Mas a aquelas rosas simbĂłlicas
De vossas ardentes ternuras,
Grandes mĂ­sticas melancĂłlicas!...

Poema de Uma Quarta-feira de Cinzas

Entre a turba grosseira e fĂștil
Um Pierrot doloroso passa.
Veste-o uma tĂșnica inconsĂștil
Feita de sonho e de desgraça...

O seu delĂ­rio manso agrupa
AtrĂĄs dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro o apupa...
Indiferente a tais ataques,

Nublada a vista em pranto inĂștil,
Dolorosamente ele passa.
Veste-o uma tĂșnica inconsĂștil,
Feita de sonho e de desgraça...

Rimancete

À dona de seu encanto,
À bem-amada pudica,
Por quem se desvela tanto,
Por quem tanto se dedica,
Olhos lavados em pranto,
O seu amante suplica:
O que me darĂĄs, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus olhos (disse ela),
Os meus olhos sem senhor...
— Ai não me fales assim!
Que uma esperança tão bela
Nunca serĂĄ para mim!
O que me darĂĄs, donzela;
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus lábios (disse ela),
Os meus lĂĄbios sem senhor...
— Ái não me enganes assim,
Sonho meu! Coisa tĂŁo bela
Nunca serĂĄ para mim!
O que me darĂĄs, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te as minhas mãos (disse ela),
As minhas mĂŁos sem senhor...
— Não me escarneças assim!
Bem sei que prenda tĂŁo bela
Nunca serĂĄ para mim!
O que me darĂĄs, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus peitos (disse ela),
Os meus peitos sem senhor...
— Não me tortures assim!
Mentes! DĂĄdiva tĂŁo bela
Nunca serĂĄ para mim!
O que me darĂĄs, donzela,
Por preço de meu amor?
— Minha rosa e minha vida...
Que por perdĂȘ-la perdida,
Me desfaleço de dor...
— Não me enlouqueças assim,
Vida minha! Flor tĂŁo bela
Nunca serĂĄ para mim!
O que me darĂĄs, donzela?...
— Deixas-me triste e sombria.
Cismo... NĂŁo atino o quĂȘ...
Dava-te quanto podia...
Que queres mais que te dĂȘ?

Responde o moço destarte:
— Teu pensamento quero eu!
— Isso não... não posso dar-te...
Que hĂĄ muito tempo ele Ă© teu...

Rondó de Colombina

De Colombina o infantil borzeguim
Pierrot aperta a chorar de saudade.
O sonho passou. Traz magoado o rim,
Magoada a cabeça exposta à umidade.

Lavou o orvalho o alvaiade e o carmim.
A alva desponta. DĂłi-lhe a claridade
Nos olhos tristes. Que Ă© dela?... Arlequim
Levou-a! e dobra o desejo Ă  maldade
De Colombina.

O seu desencanto nĂŁo tem um fim.
Pobre Pierrot! NĂŁo lhe queiras assim.
Que são teus amores?... — Ingenuidade
E o gosto de buscar a prĂłpria dor.
Ela Ă© de dois?... Pois aceita a metade!
Que essa metade Ă© talvez todo o amor
De Colombina...

1913

Sonho de Uma Terça-feira Gorda

Eu estava contigo. Os nossos dominĂłs eram negros, e negras eram as nossas mĂĄscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lĂșgubre
TĂŁo contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave jĂșbilo
Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo...
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extĂĄticas!
E a impressĂŁo em meu sonho era que se estĂĄvamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
— Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!

Era terça-feira gorda. A multidão inumeråvel
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingĂȘnuas ao gosto popular, em cores cruas.

Iam em cima, empoleiradas, mulheres de mĂĄ vida,
De peitos enormes — VĂȘnus para caixeiros.
Figuravam deusas — deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.
A turba, ĂĄvida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.

NĂłs caminhĂĄvamos de mĂŁos dadas, com solenidade,
O ar lĂșgubre, negros, negros...
Mas dentro em nĂłs era tudo claro e luminoso!
Nem a alegria estava ali, fora de nĂłs.
A alegria estava em nĂłs.
Era dentro de nĂłs que estava a alegria,
— A profunda, a silenciosa alegria...

Toante

...wie ein stilles Nachtgebet.
Lenau

Molha em teu pranto de aurora as minhas mĂŁos pĂĄlidas.
Molha-as. Assim eu as quero levar Ă  boca,
Em espĂ­rito de humildade, como um cĂĄlice
De penitĂȘncia em que a minh'alma se faz boa...
Foi assim que Teresa de Jesus amou...
Molha em teu pranto de aurora as minhas mĂŁos pĂĄlidas.
O espasmo Ă© como um ĂȘxtase religioso...
E o teu amor tem o sabor das tuas lĂĄgrimas...

Verdes Mares

Clama uma voz amiga: — “Aí tem o Ceará.”
E eu, que nas ondas punha a vista deslumbrada,
Olho a cidade. Ao sol chispa a areia doirada.
A bordo a faina avulta e toda a gente jĂĄ

Desce. Uma moça ri, quebrando o panamå.
— “Perdi a mala!” um diz de cara acabrunhada.
Sobre as ĂĄguas, arfando, uma breve jangada
Passa. TĂŁo frĂĄgil! Deus a leve, onde ela vĂĄ.

Esmalta ao fundo a costa a verdura de um parque.
E enquanto a grita aumenta em berros e assobios
Rudes, na confusĂŁo brutal do desembarque:

Fitando a vastidĂŁo magnĂ­fica do mar,
Que ressalta e reluz: — “Verdes mares bravios...”
Cita um sujeito que jamais leu Alencar.

1908
A ROSA
À vista incerta,
Os ombros langues,
Pierrot aperta
Às mãos exangues
De encontro ao peito.

Alguma cousa
O punge ali
Que ele nĂŁo ousa
Lançar de si,
O pobre doido!

Uma sombria
Rosa escarlata
Em agonia
Faz que lhe bata
O coração...

Sangrenta rosa
Que evoca a louca,
A voluptuosa,
VolĂșvel boca
De sua amada...

Ah, com que mĂĄgoa,
Com que desgosto
Dois fios de ĂĄgua
Lavam-lhe o rosto
De faces lĂ­vidas!

Da veste branca
À larga tĂșnica
Por fim arranca
A rosa pĂșnica
Em um soluço.

E parecia,
Jogando ao chĂŁo
A flor sombria,
Que o coração
Ele arrancara!...

Vulgívaga

NĂŁo posso crer que se conceba
Do amor senĂŁo o gozo fĂ­sico!
O meu amante morreu bĂȘbado,
E meu marido morreu tĂ­sico!

NĂŁo sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocĂȘncia.
Antes da minha pubescĂȘncia
Sabia todos os segredos...

Fui de um... Fui de outro... Este era médico...
Um, poeta... Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.

Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos, o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie
Que inspira... E aos tímidos — o orgulho.

Estes, caçÔo-os e depeno-os:
A canga fez-se para o boi...
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingĂȘnuos!

E todavia se o primeiro
Que encontro, fere toda a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo... dou dinheiro...

Se bate, então como o estremeço!
Oh, a volĂșpia da pancada!
Dar-me entre lĂĄgrimas, quebrada
Do seu colérico arremesso...

E o cio atroz se me nĂŁo leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas...

NĂŁo posso crer que se conceba
Do amor senĂŁo o gozo fĂ­sico!
O meu amante morreu bĂȘbado,
E meu marido morreu tĂ­sico!