Pêro de Andrade Caminha

Pêro de Andrade Caminha

1520–1589 · viveu 69 anos PT PT

Pêro de Andrade Caminha foi um poeta português do século XVI, cuja obra se insere no Renascimento. Conhecido por uma poesia que reflete os valores e as preocupações da sua época, abordou temas como o amor, a efemeridade da vida e a busca pela glória, características marcantes do humanismo renascentista. A sua escrita demonstra um domínio da forma poética, em linha com as tendências literárias do período.

n. 1520, Porto · m. 1589-09-09, Vila Viçosa

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Epístola XVIII

Queixo-me, douro Andrade, duns indoutos
Que o que às vezes lêem mal, pior entendem,
Querem julgar como se fossem doutos.

Tão facilmente a seu gosto repreendem
As vigílias alheias, que eu me espanto
Como eles de si mesmos não se ofendem.

O verso ou mau ou bom, o escrito, ou canto
Que o espírito custa estudo, e tempo, e lima
Julgam como que não custassem tanto.

A livre prosa ou obrigada rima
Por seu juízo e só entendimento
Assim a têm em desprezo, assim em estima.

Se lhes perguntas pelo fundamento,
Respondem só, que bem não lhes parece.
Querem que obrigue o seu contentamento.

Que me dizes, Francisco, a quem conhece
O mundo por tão raro, e em cujo espírito
Apolo claramente se enriquece?

Com quais julgas que deve ser escrito
Aquele de juízo tão ousado,
Que quer assim julgar o alheio escrito?

O sisudo, o prudente, o atentado,
O douto, antes que julgue tudo atenta,
Por não ser seu juízo mal julgado.

Ante os olhos primeiro representa
A obrigação do verso, e a natureza,
Vê se ofende a invenção, ou se contenta.

Com livre espírito nota, e com pureza
Os conceitos, as frases, as figuras,
E se na língua tem cópia ou pobreza.

Se as palavras são próprias, se são puras,
Se as busca claras para o que pretende,
Ou se ásperas, difíciles, e escuras.

O decoro se o guarda, ou se o entende,
E se matéria é bem ou mal seguida,
Se abranda, ou afeiçoa, ou move, e acende.

Se toma imitação bem escolhida,
Se o estilo é sempre grave, ou sempre brando,
Se a sentença a bom tempo, ou mau trazida.

Se se vai longamente dilatando,
Ou se diz o que quer tão brevemente
Que ou não se entende bem, ou vai cansando.

Quem tudo isto, Francisco, nota, e sente
Com claríssimo juízo, e peito puro,
E o mais que enjeita a musa, e o que consente;

Julgue, ria, repreenda, e este seguro
Que deve inteiramente de ser crido,
E eu, destes sós espíritos trato, e curo.

Destes quero ser antes repreendido,
Destes como tu és, ó raro Andrade,
Que dos outros louvado e recebido.

Aprende-se com estes a verdade
Do que Apolo promete, e a musa ensina,
A quem dá a repreensão autoridade.

O espírito que não voa, nem atina
O bem, ou mal do que se canta, e escreve,
Quando bem, ou mal julga desatina.

Se dá razão, mais fria a dá que neve,
Sem fundamento louva, e assim reprova,
Quem em juízo apressado à razão leve.

A repreensão no mundo não é nova,
Mas quem melhor entende, mais de espaço
O mau repreende, ou o melhor aprova.

Têm as línguas agudas mais que daço
Estes que querem ser graves censores,
Se lhes armas, caem logo em qualquer laço.

Juízos vãos, indoutos repreensores,
Não sofrem musas ser assim tratadas,
Nem recebem de vós inda louvores.

Tende-os guardados, tende bem guardadas
As leves repreensões que usais em tudo,
Para as coisas das musas não tocadas.

Sem elas todo peito há de mudo,
E raríssimo aquele, antes só, peito
Que não se deva ant elas chamar rudo.

Seja meu verso, sem nenhum respeito
Daqueles, a que Febo maior parte
Tem de si dado, ou repreendido, ou aceito.

Seja de ti, Francisco, que guardar-te
Quis par honra da musa portuguesa,
E para entre os mais raros mais mostrar-te.

Tu segue confiado aquela empresa
Que tão felicemente começaste,
Segue-a com pronto espírito, e alma acesa,

A vitória Caríssima que achaste,
Digna do raro engenho que em tudo usas,
E usaste sempre em tudo o que cantaste;

Confiado em teu conselho, e no das musas
A segue, e em tua lima, e espírito claro,
E assim mais haverá espantos que escusas
Em teu verso, e em teu canto douto e raro.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Pêro de Andrade Caminha foi um poeta português, ativo no século XVI. Embora detalhes sobre a sua vida sejam escassos, a sua obra o situa no contexto do Renascimento em Portugal. A sua nacionalidade era portuguesa e a sua língua de escrita o português.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e a formação de Pêro de Andrade Caminha são limitadas nas fontes históricas. No entanto, sendo um intelectual do século XVI, é provável que tenha recebido uma educação humanista, típica da época, que lhe permitiu o domínio das letras e das artes.

Percurso literário

O percurso literário de Pêro de Andrade Caminha está ligado à poesia renascentista portuguesa. A sua obra, embora não extensíssima, reflete as preocupações temáticas e estilísticas do seu tempo. A produção poética era a sua principal atividade literária.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Pêro de Andrade Caminha, embora não vasta, é representativa da poesia do século XVI. Os temas recorrentes incluem o amor, a fugacidade do tempo e a condição humana, alinhados com os ideais do humanismo renascentista. O seu estilo demonstra um apreço pela forma poética, utilizando recursos expressivos que visavam a elevação do discurso e a expressão de sentimentos de forma elaborada. A sua poesia dialoga com a tradição clássica e com as inovações do Renascimento, caracterizando-se por uma linguagem cuidada e uma estrutura métrica rigorosa, própria da época.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Pêro de Andrade Caminha viveu num período de grande efervescência cultural em Portugal, marcado pelas Grandes Navegações, pela expansão do império e pelo florescimento das artes e das letras. Insere-se no movimento literário do Renascimento, onde o humanismo e a valorização do indivíduo ganharam destaque. A sua obra reflete, de certa forma, o espírito de uma época que buscava conciliar a fé cristã com a redescoberta dos valores clássicos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Dados específicos sobre a vida pessoal de Pêro de Andrade Caminha, como relações familiares, amizades ou crenças particulares, são escassos e não constituem um foco de conhecimento público.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Pêro de Andrade Caminha advém da sua contribuição para a poesia renascentista portuguesa. Embora não seja tão proeminente quanto outros poetas da sua época, a sua obra é considerada relevante para o estudo da literatura do século XVI.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado É provável que Pêro de Andrade Caminha tenha sido influenciado por poetas clássicos e por autores do lirismo petrarquiano, que tiveram grande impacto na poesia renascentista europeia. O seu legado reside na sua participação no desenvolvimento da poesia em língua portuguesa, contribuindo para a diversidade estilística e temática do período.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Pêro de Andrade Caminha pode ser analisada sob a perspetiva dos ideais renascentistas, explorando a tensão entre o efêmero e o eterno, o terreno e o espiritual. A sua poesia oferece um vislumbre das preocupações existenciais e estéticas de um intelectual do século XVI.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Devido à escassez de informações biográficas detalhadas, aspetos curiosos ou menos conhecidos sobre Pêro de Andrade Caminha são difíceis de identificar e documentar.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias exatas da morte de Pêro de Andrade Caminha não são conhecidas. A sua memória é preservada através da sua obra poética, que representa um testemunho da produção literária do Renascimento em Portugal.

Poemas

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Epístola XVIII

Queixo-me, douro Andrade, duns indoutos
Que o que às vezes lêem mal, pior entendem,
Querem julgar como se fossem doutos.

Tão facilmente a seu gosto repreendem
As vigílias alheias, que eu me espanto
Como eles de si mesmos não se ofendem.

O verso ou mau ou bom, o escrito, ou canto
Que o espírito custa estudo, e tempo, e lima
Julgam como que não custassem tanto.

A livre prosa ou obrigada rima
Por seu juízo e só entendimento
Assim a têm em desprezo, assim em estima.

Se lhes perguntas pelo fundamento,
Respondem só, que bem não lhes parece.
Querem que obrigue o seu contentamento.

Que me dizes, Francisco, a quem conhece
O mundo por tão raro, e em cujo espírito
Apolo claramente se enriquece?

Com quais julgas que deve ser escrito
Aquele de juízo tão ousado,
Que quer assim julgar o alheio escrito?

O sisudo, o prudente, o atentado,
O douto, antes que julgue tudo atenta,
Por não ser seu juízo mal julgado.

Ante os olhos primeiro representa
A obrigação do verso, e a natureza,
Vê se ofende a invenção, ou se contenta.

Com livre espírito nota, e com pureza
Os conceitos, as frases, as figuras,
E se na língua tem cópia ou pobreza.

Se as palavras são próprias, se são puras,
Se as busca claras para o que pretende,
Ou se ásperas, difíciles, e escuras.

O decoro se o guarda, ou se o entende,
E se matéria é bem ou mal seguida,
Se abranda, ou afeiçoa, ou move, e acende.

Se toma imitação bem escolhida,
Se o estilo é sempre grave, ou sempre brando,
Se a sentença a bom tempo, ou mau trazida.

Se se vai longamente dilatando,
Ou se diz o que quer tão brevemente
Que ou não se entende bem, ou vai cansando.

Quem tudo isto, Francisco, nota, e sente
Com claríssimo juízo, e peito puro,
E o mais que enjeita a musa, e o que consente;

Julgue, ria, repreenda, e este seguro
Que deve inteiramente de ser crido,
E eu, destes sós espíritos trato, e curo.

Destes quero ser antes repreendido,
Destes como tu és, ó raro Andrade,
Que dos outros louvado e recebido.

Aprende-se com estes a verdade
Do que Apolo promete, e a musa ensina,
A quem dá a repreensão autoridade.

O espírito que não voa, nem atina
O bem, ou mal do que se canta, e escreve,
Quando bem, ou mal julga desatina.

Se dá razão, mais fria a dá que neve,
Sem fundamento louva, e assim reprova,
Quem em juízo apressado à razão leve.

A repreensão no mundo não é nova,
Mas quem melhor entende, mais de espaço
O mau repreende, ou o melhor aprova.

Têm as línguas agudas mais que daço
Estes que querem ser graves censores,
Se lhes armas, caem logo em qualquer laço.

Juízos vãos, indoutos repreensores,
Não sofrem musas ser assim tratadas,
Nem recebem de vós inda louvores.

Tende-os guardados, tende bem guardadas
As leves repreensões que usais em tudo,
Para as coisas das musas não tocadas.

Sem elas todo peito há de mudo,
E raríssimo aquele, antes só, peito
Que não se deva ant elas chamar rudo.

Seja meu verso, sem nenhum respeito
Daqueles, a que Febo maior parte
Tem de si dado, ou repreendido, ou aceito.

Seja de ti, Francisco, que guardar-te
Quis par honra da musa portuguesa,
E para entre os mais raros mais mostrar-te.

Tu segue confiado aquela empresa
Que tão felicemente começaste,
Segue-a com pronto espírito, e alma acesa,

A vitória Caríssima que achaste,
Digna do raro engenho que em tudo usas,
E usaste sempre em tudo o que cantaste;

Confiado em teu conselho, e no das musas
A segue, e em tua lima, e espírito claro,
E assim mais haverá espantos que escusas
Em teu verso, e em teu canto douto e raro.

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