Osman Lins

Osman Lins

1924–1978 · viveu 54 anos BR BR

Osman Lins foi um renomado escritor brasileiro, cuja obra se destacou pela originalidade e pela sofisticação técnica. Com uma produção literária que abrange romances e contos, explorou as complexidades da condição humana, as relações interpessoais e as angústias existenciais. Sua escrita é marcada pela profundidade psicológica dos personagens, pela experimentação formal e por uma linguagem precisa e evocativa. Lins é reconhecido por sua contribuição significativa para a renovação da prosa brasileira na segunda metade do século XX.

n. 1924-07-05, Vitória de Santo Antão · m. 1978-07-08, São Paulo

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II – Flagrantes Esportivos

— Os voos sobre a neve —

O lenço polido e frio.
É uma cauda de noiva,
o longo lençol de neve.

As asas guardam em si as possibilidade de voo.
Mas as asas do homem não têm plumas,
não participam de alturas:
são instrumentos de abraços
e suas únicas relações com a distância são os gestos de adeus.

Descendo, velos, na branca esteira de neve,
Um homem colhe no corpo um impulso que o lançara no ar.

(assim é possível colher,
numa rápida visão da namorada,
a subsequente alegria)
E o homem desprende-se do solo,
braços abertos,
lança à face das montanhas sua transitória e audaciosa revolta.
Fenece o impulso, o voo se interrompe;
esvai-se a alegria,
o homem desce.

§

A Cesta Enganosa

Num gesto de prestidigitador que solta um pombo,
um jogador endereça a bola ao companheiro , que corre.
Entre sua mão e o solo, a esfera traça
. . . . . . . . . . . . . [o desenho de um sismógrafo,
— tal como Virgínia, vestido de cambraia,
naquelas tardes antigas,
com sua ternura infantil a sua bola azul.
Entre os dez homens aflitos
há uma serie de equívocos.
Todos correm, a bola passa
de mão em mão. Afinal,
afinal, serenamente, como se buscava um ninho,
como corpo fatigado que se aninhasse na rede,
flor num jarro transparente ou anular num anel,
a bola acerta com a cesta.
Mas, oh! A cesta está furada
e permanece vazia
como anel sem anular.

§

A Devolução do Tempo

O trampolim é um braço estendido
com a iminência de um milagre na extremidade da mão.
Calma,
como a assinalar o princípio da canção que
[o seu próprio corpo contará no ar.
a moça estende os braços.
Há um silencio místico:
Estamos em face do sobrenatural.
A água da piscina estremece,
tem frêmitos de folhagem.
Os calcanhares se erguem
— e este sinal tem qualquer coisa de fronte que se inclina para um beijo.

Numa decisão de suicida,
o corpo iluminado se projeta,
é linha e fuso,
e seta disparada.
Veloz,
estrela libertada que finge itinerário de pássaro,
a flama vertical desaparece.
(Quem me trará de volta a saltadora?)

Torne o sol tornem os relógios,
torne o meu encantamento.
como estrela dissipada,
que refizesse o caminho
da própria rebelião,
a saltadora ressurge.
Afla, leve, a flor das águas,
e pousa no trampolim:
a sombra de um passarinho
que pousasse em minha mão,
não seria leve assim.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Osman Lins, nome artístico de Osman Martins Lins, nasceu no Recife, Pernambuco, em 5 de julho de 1924, e faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de julho de 1978. Foi um proeminente romancista, contista e crítico literário brasileiro. Filho de Antônio Martins Lins e Maria Amélia Lins, cresceu em um ambiente familiar de classe média.

Infância e formação

Osman Lins teve uma infância marcada por boa parte em sua cidade natal, o Recife. Sua formação educacional incluiu o Colégio Salesiano e o Ginásio Pernambucano. Desde cedo, manifestou um interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo influências da literatura clássica e contemporânea. Eventos em sua juventude, como a Segunda Guerra Mundial, certamente moldaram sua visão de mundo.

Percurso literário

O início da carreira literária de Osman Lins deu-se com a publicação de contos em jornais e revistas locais. Seu primeiro romance, "O Falso Comentarista", foi publicado em 1952. Ao longo de sua trajetória, sua obra evoluiu significativamente, com fases marcadas pela experimentação narrativa e pela exploração de temas cada vez mais complexos. Lins também atuou como crítico literário, colaborando com diversos veículos de comunicação.

Obra, estilo e características literárias

As obras principais de Osman Lins incluem "O Falso Comentarista" (1952), "A Gata Borralheira" (1955), "No Corredor" (1958), "O Visitante" (1959), "Avalovara" (1961) – obra considerada um marco de sua carreira pela experimentação –, "A Rainha e os Sete Punhais" (1970) e "Nove, Novena" (1970). Seus temas dominantes giram em torno da solidão, da incomunicabilidade, da angústia existencial, da memória e da passagem do tempo. Lins explorou formas narrativas não lineares, fragmentação, múltiplos pontos de vista e um uso sofisticado da linguagem, com grande densidade imagética e um tom muitas vezes introspectivo e melancólico. Sua obra é associada ao Modernismo brasileiro, especialmente à chamada "geração de 50", e ele é reconhecido por suas inovações formais e temáticas.

Contexto cultural e histórico

Osman Lins viveu e produziu em um período de grandes transformações no Brasil, incluindo o regime militar. Sua obra dialoga com a literatura de sua época, mas também se distancia de tendências mais engajadas politicamente, focando-se na interioridade e na condição humana. Ele fez parte de círculos literários importantes e manteve relações com outros escritores, sendo reconhecido como um dos grandes nomes da prosa brasileira contemporânea.

Vida pessoal

Osman Lins manteve uma vida pessoal reservada. Sua dedicação à literatura era intensa, e ele enfrentou problemas de saúde ao longo da vida, o que, por vezes, refletiu-se em sua obra. Casado com Maria Helena Lins, sua esposa foi uma figura de apoio em sua carreira.

Reconhecimento e receção

Osman Lins obteve reconhecimento crítico significativo em vida, sendo aclamado por sua originalidade e rigor formal. Sua obra "Avalovara" lhe rendeu importantes prêmios literários. Embora talvez não tenha alcançado a mesma popularidade massiva de outros autores, seu lugar na literatura brasileira é consolidado academicamente e pela crítica especializada.

Influências e legado

Entre as influências de Osman Lins, destacam-se autores como William Faulkner, Virginia Woolf e James Joyce, pela experimentação narrativa. Seu legado é imenso, tendo influenciado gerações posteriores de escritores brasileiros com sua técnica apurada e sua exploração da subjetividade. Sua obra é frequentemente estudada em universidades e figura no cânone da literatura brasileira.

Interpretação e análise crítica

A obra de Osman Lins é objeto de vasta análise crítica, com leituras que exploram suas complexidades narrativas, temas existenciais e a condição humana. Sua escrita é vista como um mergulho profundo na psique humana, abordando a fragilidade, a busca por sentido e as dificuldades de comunicação.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Uma curiosidade sobre Osman Lins é sua dedicação quase monástica à escrita, buscando a perfeição em cada frase. Sua timidez contrastava com a força de sua prosa. Relatos indicam que ele tinha hábitos de escrita rigorosos, dedicando longas horas ao trabalho literário. Seus manuscritos e correspondências são fontes importantes para o estudo de sua obra.

Morte e memória

Osman Lins faleceu precocemente, aos 54 anos, vítima de um câncer. Sua morte representou uma perda significativa para a literatura brasileira. Publicações póstumas e a contínua reedição de seus livros garantem sua memória e a perpetuação de sua obra.

Poemas

2

Visões do Movietone

Epígrafe

Viajantes de cristal,
as lentes nos contarão suas visões.
E logo,
tal um vendedor ansioso,
estende a nossos olhos
seu mostruário de imagens
colhido nas retinas transparentes.

Queremos de misérias e alegrias.
Aqui estamos.

§

Os caminhantes ociosos

Na estrada lívida,
multidões caminhavam.
Um violoncelo invisível lembra um cachorro cego,
vagando, à procura de um anjo.
Não o encontrará.
A multidão caminha, estonteada,
e para eles não existem más estradas.
São as solteironas dos caminhos:
não podem mais escolher.
e realizam entre nós aquelas núpcias tristes
Vão e vão
Itinerantes,
nada levam em suas mãos
— até as suas almas deixaram,
na urgência de partir,
em suas terras natais.
Nada levam, nada fazem,
senão vir, silenciosos,
pelos lívidos caminhos.
Nada fazem, os ociosos.

§

Conferência à Beira Mar

Quatro figurões descem do avião
e são conduzidos em automóveis hermeticamente fechados para negociar a paz.
Trazem os bolsos cheios de preocupações e um menino morto no coração parado.
Vão de negro e lúgubres:
os respectivos consulados não concederam passaportes aos seus sorrisos.
— e um clandestino,
foi confiscado pela Guarda Aduaneira
e vendido em leilão a um agente de seguros.
As lâmpadas fotográficas reluzem à sua passagem,
como relâmpagos sem voz
(Oh! Como são breves
e mais inconstantes que os refletores antiaéreos!)
Os figurões se encontram
e três deles erguem os braços
quando o representante norte-americano lhes apresenta a estrela de xerife.
Mas estão junto ao mar,
à sombra de um para-sol cujos gomos são feitos com retalhos de bandeiras
e o xerife joga às ondas seu distintivo astral
que se transforma em estrela do mar
— quem sabe se futura Estrela Dalva?
Cada um fala uma língua e o intérprete é mudo.
Mas de manso,
inofensivo réptil,
crescente luz,
canção que se aproxima,
o mar avança, cresce, envolve-os.
E as quatro cabeças sob a barraca de praia
lembram a Rosa dos Ventos e os quatro pontos cardiais.
E a paz?
Afogou-se.

§

As Bestas Messiânicas

Domingo de sinos presumíveis
e explorações mirins nos arrabaldes do sonho.
Crianças tornam aos portões do Paraíso Perdido
e agora outra vez reconquistado.

Jardim Zoológico —
selva gentil, deserto ameno, polos temperados
A larga piscina é um mar ameninado.
Latitudes se encontram como as varetas de um leque,
como, num bar, marinheiros que não se entendem,
cada um contando a sua lembrança e a sua canção.
As focas zombadoras brilham como nuvens de aurora
e, para as gazelas,
a planície perdida deve ter um gosto pungente
. . . . . . . . . . . [e irrecuperável de infância morta.

Os coelhos, mesmo vivos, já parecem vítimas.
Os elefantes são pausas.
Esplende forte, sacra,
a majestade dos tigres e leões,
e na tranquilidade de uns e outros há um displicente

como se as grades fossem mitos.

São todos sós, são todos exilados.
E das jaulas, do mar ameninado,
de seus exílios, de suas nostalgias,
gritam as bestas,
apostólicas,
sem que ninguém as ouça:
“Deixai vir a mim as criancinhas
e com elas o seu deslumbramento.”

§

A Experiência Ardente

Pássaro sem cântico.
esquife desabitado,
que apreensões de vivos
não ligam a terra,
o avião sem piloto
segue.
Logo mais o atingirão,
matarão o que está morto.
Cálculos matemáticos sopesam as possibilidades da morte,
com precisão infinitesimal
como se buscassem o peso de uma pétala.
Seguros como um deus,
as equações preparam o tiro
e os diagramas fixam o desenrolar da emboscada.

E o tiro embarca
vai ao encontro do pássaro sem cântico.

Fulgem os céus,
choram as asas partidas,
imobiliza-se a hélice com um tremor de criança baleada.

E flor de chamas,
tomba em silencio o morto assassinado.,
com lentidão de túnica vazia.

§

A Moda Sempre Vária

Com um ar de bonecas mecânicas
modelos parisienses condescendem em ostentar as últimas criações da Primavera.
Aos olhos de colegiais, costureiras de subúrbio,
. . . . . . . [mães de família deficitárias e criaturas neutras para quem
. . . . . . . [a moda encalhou no último figurino comprado a já esgarço,
desfilam vestidos que mais parecem ironias.
E ninguém olha os manequins.
Todos contemplam os vestidos,
do mesmo modo que um menino,
há muitos anos,
contemplava as nuvens,
sempre alheias, sempre várias,
além das torres da igreja,
onde os vitrais sorriam nas missas do domingo
e onde as meninas, em maio, eram arcanjos de fitas no cabelo.
478

II – Flagrantes Esportivos

— Os voos sobre a neve —

O lenço polido e frio.
É uma cauda de noiva,
o longo lençol de neve.

As asas guardam em si as possibilidade de voo.
Mas as asas do homem não têm plumas,
não participam de alturas:
são instrumentos de abraços
e suas únicas relações com a distância são os gestos de adeus.

Descendo, velos, na branca esteira de neve,
Um homem colhe no corpo um impulso que o lançara no ar.

(assim é possível colher,
numa rápida visão da namorada,
a subsequente alegria)
E o homem desprende-se do solo,
braços abertos,
lança à face das montanhas sua transitória e audaciosa revolta.
Fenece o impulso, o voo se interrompe;
esvai-se a alegria,
o homem desce.

§

A Cesta Enganosa

Num gesto de prestidigitador que solta um pombo,
um jogador endereça a bola ao companheiro , que corre.
Entre sua mão e o solo, a esfera traça
. . . . . . . . . . . . . [o desenho de um sismógrafo,
— tal como Virgínia, vestido de cambraia,
naquelas tardes antigas,
com sua ternura infantil a sua bola azul.
Entre os dez homens aflitos
há uma serie de equívocos.
Todos correm, a bola passa
de mão em mão. Afinal,
afinal, serenamente, como se buscava um ninho,
como corpo fatigado que se aninhasse na rede,
flor num jarro transparente ou anular num anel,
a bola acerta com a cesta.
Mas, oh! A cesta está furada
e permanece vazia
como anel sem anular.

§

A Devolução do Tempo

O trampolim é um braço estendido
com a iminência de um milagre na extremidade da mão.
Calma,
como a assinalar o princípio da canção que
[o seu próprio corpo contará no ar.
a moça estende os braços.
Há um silencio místico:
Estamos em face do sobrenatural.
A água da piscina estremece,
tem frêmitos de folhagem.
Os calcanhares se erguem
— e este sinal tem qualquer coisa de fronte que se inclina para um beijo.

Numa decisão de suicida,
o corpo iluminado se projeta,
é linha e fuso,
e seta disparada.
Veloz,
estrela libertada que finge itinerário de pássaro,
a flama vertical desaparece.
(Quem me trará de volta a saltadora?)

Torne o sol tornem os relógios,
torne o meu encantamento.
como estrela dissipada,
que refizesse o caminho
da própria rebelião,
a saltadora ressurge.
Afla, leve, a flor das águas,
e pousa no trampolim:
a sombra de um passarinho
que pousasse em minha mão,
não seria leve assim.
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