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Junqueira Freire

Junqueira Freire

O Remorso da Inocente

III

Cisma a virgem mansamente
Em pensamentos do céu,
Mais cândida que as rolinhas,
Mais cândida que seu véu.

E cismava: — Ai! que eu não seja
Tão pura no meu amor:
Tão pura — como este raio
Da lâmpada do Senhor! —

E cismava: — Ai! que eu não seja
Já para Deus menos bela,
Como a bonina que murcha,
Que eu arranco da capela! —

E cismava: — Ai! que eu não tenha
Um crime, sem eu saber!
Qual será? — Ontem de noite
Eu não pude adormecer! —

E cismava: — Ai! que eu não seja
Menos linda ao meu Senhor!
Já hoje eu corri do claustro:
Dos mortos tive temor... —

E cismava: — Ai! que eu não seja
Ré de um crime que eu não sei,
Bem como o inseto escondido
Na rosa qu'ontem cortei! —

Ei-la, a cisma da donzela,
Da filha da solidão.
Ei-lo, o remorso que esconde
Nas dobras do coração.


Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.11

NOTA: Poema composto de quatro parte
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Álvaro Moreyra

Álvaro Moreyra

S Paulo

A garoa enfeitada pelos anúncios luminosos
brinca de bola de sabão na ponta dos arranha-céus.
Da janela do hotel vejo a cidade sorrindo.
Tão bonita!
São Paulo, eu quero bem a você.
Você dá gosto de ser brasileiro.
Você trabalha e não é neurastênica.
Você é rica e ainda por cima é inteligente.
Todas as cidades do Brasil deviam pagar prenda
para você...


In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
1 797
Álvaro Moreyra

Álvaro Moreyra

A Mangueira e o Sabiá

O sabiá pousou em cima da mangueira e cantou,
cantou uma semana inteira.
Depois foi-se embora, nunca mais voltou.
A mangueira ficou triste mas toda cheia de
mangas.
Mangas doces, tão bonitas, a mangueira nunca
deu.
Deu agora de saudade, porque a mangueira
sofreu.
Quanta mulher sabiá!
E quanto homem mangueira!...


In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
2 227
Junqueira Freire

Junqueira Freire

A Freira

Eu jovem freira, bem triste choro
Aqui cosida co'a cruz de Deus.
Aqui sozinha, ninguém não sabe
Dos meus desejos, dos males meus.

Qual no deserto se praz a rola,
Cuidam que a freira seja feliz.
E a pobre freira, dentro da cela,
Ninguém não sabe que se maldiz.

Enquanto a vida não se desdobra,
E apenas rompe, róseo botão,
A freira insone prateia de astros,
Povoa de anjos sua solidão.

Uma palavra que ela profere
É sempre um ente que ela criou.
Uma florzinha que colhe acaso
É uma amiga que ela encontrou.

Conversa à noite co'a estrela vésper,
Ama o opaco de seu clarão.
E sente chamas que julga dores,
E o peito aperta co'a nívea mão.

Ela não sabe que a estrela vésper
Influi nas almas lascivo ardor:
Que, não sem causa, no tempo antigo,
A estrela vésper chamou-se — Amor.

A estrela vésper produz nas virgens
Estranho incêndio, vulcão fatal:
Quer seja freira — do Cristo filha,
Quer seja antiga pagã vestal.

A estrela vésper... Fugi, meninas,
Fugi dos raios do seu candor.
A estrela vésper influi volúpia,
A estrela vésper chama-se — Amor.

(...)


Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.25-2
6 230
Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

Orphée aux Enfers

Subia o pano acima. A musa da alegria
Iluminava o rosto à prazenteira claque,
E deuses e vestais da morta teogonia
Vinham dançar em cena aos cantos de Offenbach.

Ao despedir a orquestra as notas delirantes.
Borrados arlequins lascivos como Pã,
Nos braços — espirais dum grupo de bacantes
Saltavam, sem pudor, na febre do can-can.

Era a sátira viva, a sátira pungente,
Levado no delírio aos baixos entremeses.
Expondo ao riso alvar de geração doente
A crença dos fiéis dos fabulosos deuses.

Então esses heróis divinos das florestas.
Outrora adoração e crenças dos pagãos,
Tornavam-se truões que em delambidas festas
Viviam de espancar o tédio dos cristãos.

E as grandes ovações àqueles decaídos
Traziam-me à lembrança o bárbaro selvagem,
Que vinha sapatear na tumba dos vencidos
No campo onde travara o prélio da carruagem.

Podeis dormir em paz, ó legião sagrada!
Ó Júpiter, Plutão, titãs da fé pagã!...
E como tudo marcha às solidões do nada
Inda há de rir de nós o crente de amanhã.


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.24-25. Poema integrante da série Musa Livre.

NOTA: Orphée aux enfers - Orfeu nos infernos, título da opereta do compositor Offenbac
982
Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

Recordação

Elas entraram uma após outra
no harém das recordações
Gilberta dos lábios maus
Armanda dos vícios bons
Dulce dos seios maternais
Teresa das angústias vãs

Uma após outra elas entraram
na dança descompassada
Susana em passo de valsa
Maria quebrando um samba
Mas a tua melodia
oh coração solitário
nenhuma delas percebeu

Foram saindo por isso
cada qual para seu lado
Gilberta com seu marido
Armanda pro cemitério
Dulce descabelada
entre remorsos e ais
Teresa com sua angústia
Susana dizendo adeus
Maria se requebrando

e teu coração solitário
mais solitário ficou.
Os anos passaram, cansaste?
Qual! nas tardes de abril
nas noites de lua cheia
o mesmo enleio te prende
a mesma insatisfação.
Outros lábios procuras
outros seios, outras mãos,
outros nomes se inscrevem
no medo da solidão
Mas apenas a lista aumenta
pois nada sedimenta
no fundo de teu coração.


Publicado no livro Oh! Valsa Latejante...1922/1943: poemas (1943).

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.148-149. (Autores brasileiros, 19
1 834
Carlos Vogt

Carlos Vogt

Metalurgia

Para João Baptista

Ponho a palavra em estado de gramatical ofensa,
no torno retalho suas redondezas,
desgasto obsessivo com a broca da caneta
o que há de angular e mole na sentença.
Fora, uma forma enxuta, dentro, amor de sequidões,
ovo sozinho sem nenhum conceito a circundar-lhe a norma
de ser só ovo, sêmen contido, casca de memória.
Fazer abrasivo:
a lima, a lixa, a mão desgastam por extornos
a rixa com o verso, a rima com o avesso;
no chão, limalhas, matéria de contornos,
na página, o poema:
liso, úmido, duro como gelo.


In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 438
Sílvio Romero

Sílvio Romero

Jogo dos Dedos

(Sergipe e Pernambuco)

Dedo miudinho,
Seu vizinho,
Maior de todos,
Fura-bolos,
Cata piolhos.
Este diz que está com fome,
Este diz que não tem o quê;
Este diz vai furtar;
Este diz que não vá lá,
Este diz que Deus dará.


In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.292. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 880
Sílvio Romero

Sílvio Romero

Outra [Parlendas

Dinglin, dingues, Maria Pires?
Dinglin, dingues, Estou fazendo papa.
Dinglin, dingues, Para Quem?
Dinglin, dingues, Para João Manco.
................Quem foi que o mancou?
Foi a pedra.
Cadê a pedra?
Está no mato.
Cadê o mato
O fogo queimou.
Cadê o fogo?
A água apagou.
Cadê a água?
O boi bebeu...
Cadê o boi?
Foi buscar milho.
Para quem?
Para a galinha.
Cadê a galinha?
Está pondo.
Cadê o ovo?
O padre o bebeu.
Cadê o padre?
Foi dizer missa.
Cadê a missa.
Já se acabou.


In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.295. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 534
Carvalho Júnior

Carvalho Júnior

IV - O Perfume

A Artur de Oliveira

Unge-te a pela fina e setinosa
Um perfume sutil, insinuante,
Igual à planta da Ásia venenosa,
Cuja sombra atraiçoa o viandante;

O nardo, o benjoim e a tuberosa,
As tépidas essências do Levante,
Do Meio-Dia a flora luxuosa,
De cores e de aromas abundante,

Não disputam-lhe o passo, a primazia,
Nem produzem-me a lânguida apatia
Que em noites de verão, lentas, calmosas,

Sinto quando debruço-me em teu seio,
Afogando-me em morno devaneio
Num mar de sensações voluptuosas.



In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
1 354
Antonio Fernando De Franceschi

Antonio Fernando De Franceschi

Giga

"Love is unhappy when love is away!"
James Joyce


escura a sina de quem ama
e entra inteiro nessa trama

pois sendo o amor ardida chama
mais machuca quem mais ama

e não acalma quando queima
no abrasado peito a dor insana

saber que o fogo apaga um dia
e que esse dia não demora

porque o amor mesmo doído
nunca morre em boa hora


In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto.

NOTA: Referência aos sonetos [Amor é fogo que arde sem se ver;], de Camões, e "Soneto de Fidelidade", do livro POEMAS, SONETOS E BALADAS (1946), de Vinicius de Morae
1 693
Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

O dinheiro é um feitiço

(...)

Adriano — O dinheiro é um feitiço
Que a todo mundo enlouquece;
Aos ricos todos festejam,
O pobre nada merece.

Celestina — As senhoras melhor sabem
Do dinheiro o valimento;
Moça rica que tem dote,
Nunca perde casamento.

Pantaleão — O rico nunca tem frio,
Traz sempre a barriga cheia;
E até por coisas que eu sei
Jamais visita a cadeia.

Felisberto — Homem pobre é sempre feio
Bicho mau e desprezado;
Quem tem dinheiro é bonito,
É sábio, sempre engraçado.

Coro Geral — Dinheiro! venha dinheiro!
Dinheiro é tudo na terra;
Dá prazeres, glória, amores,
Faz a paz e move a guerra.


Publicado no livro O primo da Califórnia: ópera em dois atos, imitação do francês (1858).

In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.147-148. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
3 905
Lila Ripoll

Lila Ripoll

Grilo

Um grilo fere
o silêncio com seu
canto.
Fere ouvidos
fere alma
pensamento
e solidão.

Risca o vidro
da janela.
Traça desenhos
no ar. Vai
crescendo
de insistência.
Parece agulha
de vidro. Fina
lâmina cortante
abrindo sulcos
no ar.

Vai o canto
se adensando
de mistura
com a chuva
Vai o canto
se adensando
de mistura
com o vento.

Grilo e chuva
na janela.
Grilo e vento
na vidraça.

Vento e chuva,
grilo e vento
levaram meu pensamento
e o desfolharam
no ar.


Poema integrante da série Poemas Inéditos.

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968
1 664
Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

Canto IV - Nos Túmulos

Como na vida humana uma esperança
Que a luzir e apagar-se nos desvaira
Um estreito carreiro e tortuoso,
Que surge aqui, e ali desaparece
Para surgir e se esconder de novo
Por entre grupos d'árvores frondosas,
Vai sinuoso terminar-se humilde
Da velha ermida aos pés. Em torno dela
Se ufana sobre o monte a natureza.
Vegetação hercúlea arrosta as nuvens,
D'aurífero diadema ipês c'roados,
Quais da floresta reis; sapucaeiras
Em coifas cor do pejo a fronte erguendo,
D'espaço a espaço em turmas soberanas
Ostentam força, e em generoso impulso
Parecem, dilatando os longos braços,
Estrênuos proteger tênues arbustos,
Que ao perto humildes crescem. Pela terra
Vêm rochedos rompendo, como dorsos
De elefantes curvados; negras furnas,
Despenhadeiros turvos lá se afundam,
E além brame a torrente impetuosa,
Que as rochas morde e enfim se precipita
No abismo pavoroso, onde se engolfa
A urrar como um touro embravecido


In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.134-135

NOTA: O "Canto IV - Nos Túmulos" é composto de 43 parte
2 096
Eduardo Alves da Costa

Eduardo Alves da Costa

Sete Anos de Cordeiro

Sete anos de cordeiro já servia
Jacó a Lobão, pastor cruento,
que, em troca apenas do sustento
e das promessas doces que fazia,
numeroso rebanho apascentava.

E após tanto servir, dia após dia,
viu Jacó a esperança de uma vida,
nédia Raquel, a ele prometida
pelo astuto Lobão, tornar-se Lia,
num ardil mesquinho e odioso.

Fez-lhe então o pastor singela oferta:
servir mais sete anos sem protesto,
após os quais — tempo modesto —
a porteira lhe seria enfim aberta
para gozar Raquel em liberdade.

Por mui simples e também por mui cordeiro,
acedeu Jacó sem um balido.
Mas antes do prazo transcorrido,
percebeu o rebanho tão ordeiro
que Raquel era um Lobão melhor vestido.


In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira).
1 504
Antonio Fernando De Franceschi

Antonio Fernando De Franceschi

Corpo

"... o único roteiro é o corpo. O corpo."
João Gilberto Noll


o corpo quer ordena sem recusa da vontade
a implacada ira seu domínio sabe altíssimo
sobre toda resistência quer o corpo em sanha
o outro corpo que no enlace o corpo assanha
e é fúria o doce nome seu jubiloso corpo
livre de amarras ou temores na aguda hora
que sempre mais e muito o infrene corpo quer
e a seu regaço incita em febre o corpo alheio
e logo é quieto o escuro abismo intranscendido
pois só o corpo aplaca o corpo em seu roteiro


In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
1 375
Antonio Fernando De Franceschi

Antonio Fernando De Franceschi

Sílex

face angular
que cavo a talho
esta em que me mudo
reiterado
cópia provável de mim
no mudo rosto
e abrasado golpe
que desfecho:

minha antes não fosse
a dor
e a mão crispada
que desce
fere
e me desvela pedra


In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). Poema integrante da série Perfis em Pedra.
1 171
Carvalho Júnior

Carvalho Júnior

I - Profissão de Fé

Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.

Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos de lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.

Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpo de alfenim.

Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.


In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
3 545
Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

Canto I - A Rocha Negra

VI
(...)
Dizem que ali na turva penha imensa
Em velhas eras se acoutava insana
Mulher sabida em mágicas tremendas,
Que ensinam maus espíritos; formosa,
Inda aos cem anos moça como aos vinte,
Vê-la um momento era adorá-la sempre;
E amá-la eterno perdimento d'alma.
Gênio das trevas, só da lua amiga,
Fugia à luz do sol; mercê d'encantos,
Durante a noite mística pairava
No espaço em torno à rocha densa nuvem,
Em cujo seio toda se embebia,
Mal se abriam no céu rosas d'aurora;
Chamavam-a por isso a Nebulosa.
(...)
Tempo, que se não mede, assim vivera
Sempre moça e gentil, mau grado os anos;
Uma noite porém de tredo olvido
(Foi castigo de Deus) ao mar se atira,
Sem que antes repetisse as da cabala.
Satânicas palavras; tarde as lembra...
Mais tarde as balbucia... os pés se molham...
Vai sentindo afundar-se... em vão braceja...
Ruge a tormenta... súbito revolto
A juba monstruosa o mar encrespa,
E no abismo e no céu jogam madrias;
D'encontro à rocha-negra bravas ondas
O corpo arrojão da esquecida maga;
Debalde a miseranda estende os braços;
Se à pedra quer ligar-se, as mãos lhe faltam,
Pelo dorso escabroso escorregando,
As unhas lasca em vão e fere os dedos;
Uma, dez, vinte vezes... sempre o mesmo,
Dúbia esperança, e desengano certo!...
Volve os olhos ao céu... cintila aurora;
Quebra-se à luz do sol de todo o encanto;
Ai da fada gentil!... solta no espaço
A nuvem protetora, mago asilo,
Vai fugindo a embeber-se no horizonte,
Como no mar imenso abandonada
Erma barquinha que a corrente alonga!...
Não pode mais com a vida... perde as forças...
Um derradeiro arranco... inda é baldado...
Último foi: — abriu medonha boca
O pego vingador, e absorveu-a,
Dando-lhe cova aos pés da rocha-negra.

V

Ninguém da maga diz que o corpo exânime
Boiasse à flor das águas; um mistério
Foi sua vida, igual mistério a morte:
Contam muitos, porém, que nas desoras
Das noites em que a lua aclara a terra.
No turvo cimo da tremenda rocha
Vem sentar-se a cismar branco fantasma:
Que tão profundos ais longos desata,
Como nunca exalara humano seio;
Que há frio gelador da rocha em torno.
Esse fantasma... é ela; e canta e chora,
E com pérfido choro e tredos cantos,
Os incautos atrai, que ao mar se arrojam
De súbita loucura arrebatados,
Ou por negros contratos se escravizam
Ao império fatal da Nebulosa.

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In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.3-6

NOTA: O "Canto I - A Rocha Negra" é composto de 36 parte
2 644
Colombina

Colombina

Espírito

Não! A verdade és tu! A tua flama pura
sobre a matéria e além dos séculos cintila!
Plasmas o sonho e dás à humana criatura
forças para vencer a própria triste argila.

Conduzes ao saber; a ti pertence a altura;
tudo que é belo vem da tua luz tranquila.
Sem ti seria o mundo uma caverna escura;
nem a morte cruel te vence ou te aniquila.

Revelação de Deus, de toda a sua imensa
sabedoria, que dizendo ao homem "Pensa!"
no cérebro lhe pôs a forja das idéias.

Sim, a verdade és tu, espírito que elevas
as criaturas; tu, que enches de luz as trevas,
transformando a miséria e a dor em epopéias!


Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.

In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 118
Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

São Paulo

Canto a cidade das neblinas
e dos viadutos
minha cidade
amante de futebol e vendedora de café
Os aventureiros bigodudos
como nas fitas da Paramount
o Friedenreich pé de anjo
e a bolsa de mercadorias
as chaminés parturientes do Brás
os quinze mil automóveis orgulhosos
no barulho ensurdecedor dos klaxons
e a cultura envernizada dos burgueses
os engraxates da Praça Antônio Prado
e o serviço telegráfico do "Estado"
a febre do dinheiro
as falências sírio-nacionais
a especulação sobre os terrenos
a politicagem e os politiqueiros
e a negra de pó de arroz
e até os bondes da Light
para o Tietê das regatas e dos bandeirantes
os homens dizem que tu és ingrata
e que devoras os teus próprios filhos...
Mas que linda madrasta tu és
toda vestida de jardins!
Minha cidade
Amo também teus plátanos nostálgicos
imigrantes infelizes
teus crepúsculos de seda japonesa
tuas ruas longas de casas baixas
e teu triângulo provinciano...


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.70-71. (Autores brasileiros, 19
2 955
Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes

Estou cego a todas as músicas

Estou cego a todas as músicas,
Não ouvi mais o cantar da musa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o peito que me cobre a blusa.
Já a mim nenhuma cena soa
Nem o céu se me desabotoa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como a língua cobre de saliva
Cada dente que sai da gengiva.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o sangue cobre a carne crua,
Como a pele cobre a carne viva,
Como a roupa cobre a pele nua.
Estou cego a todas as músicas.
E se eu canto é como um som que sua.


In: ANTUNES, Arnaldo. Tudos. 3.ed. São Paulo: Iluminuras, 199
2 522
Artur de Azevedo

Artur de Azevedo

Por Decoro

Quando me esperas, palpitando amores,
E os grossos lábios úmidos me estendes,
E do teu corpo cálido desprendes
Desconhecido olor de estranhas flores;

Quando, toda suspiros e fervores,
Nesta prisão de músculos te prendes,
E aos meus beijos de sátiro te rendes,
Furtando as rosas as púrpureas cores;

Os olhos teus, inexpressivamente,
Entrefechados, lânguidos, tranquilos,
Olham, meu doce amor, de tal maneira,

Que, se olhassem assim, publicamente,
Deveria, perdoa-me, cobri-los
Uma discreta folha de parreira.


In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
2 308
Lila Ripoll

Lila Ripoll

Floresta

De olhos fechados
mergulho em teu ventre.
Perfumes se encontram
no meu rosto. Braços
apanham meus cabelos.

Braços leves, pesados,
amorosos ou rudes,
Braços de cedro
ou espinheiro,
de parasitas
ou cravos selvagens.

No ar e na boca
um gosto de erva
amanhecida. Um gosto
de coisa lavada.
Um ar de chuva
e terra. Um gosto
de mundo amanhecendo.

Oh, enveredar
por esse mundo livre
e ser uma entre as árvores
que formam o volume
do teu rosto.

Enveredar por esse mundo livre.
Conhecer a geografia
do teu peito. Misturar-me
à conversa das folhas
e adivinhar o casamento
secreto das raízes!


Poema integrante da série Poemas Inéditos.

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968
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