Escritas

Lista de Poemas

Por quê?

Se eu amo
e a vida é um sopro apenas,
se chamo
por um nome um ser humano,
se o infinito
cabe num verso
e o universo no coração;
se a dor
se exprime num grito,
num ai,
e o amor num beijo,
numa palavra;
se um pássaro
transpõe um deserto,
a fé remove montanhas,
e um átomo encerra
força e mistério;
se há tanto encanto
numa mulher
e tanta beleza
numa flor;
se o mar é gota d’água
que se houve numa conchinha,
e a Via Láctea só poeira,
a nebulosa um redemoinho,
e a terra parece imensa,
mas cabe num olhar;
se um adeus é finito
e o amor medir ninguém sabe;
-Por que me dizem os sábios
que as estrelas estão tão longe,
se eu sei que elas estão tão perto?

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Emília

Conheci Emília
no espaço
e enamorei-me dela.
Passeávamos de mãos dadas
na Via Láctea,
amando no infinito.
Demos muitas voltas de cometa
e passamos por milhões de estrelas.
Jamais tivemos a menor quizília
e é, por isso, que de madrugada
fico em vigília procurando vê-la.
Há pouco tempo nos separamos:
vim exilado para este mundo,
e Emília foi morar noutro planeta.

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Reprise

Ao ancorar a nave
à laje
entre ciprestes
no campo sacro,
liberta no espaço
minha alma há de alegrar-se
de saudades.

Tê-las já é reportar-me
à viagem como se estivesse em curso.

Não seja triste a despedida
qual se de um sonho
não houvesse reprise.

Há miríades de galáxias,
infinidade de astros
e até universos paralelos.
Numa nova nave,
por bondade divina,
hei de encontrar outra Terra,
um mundo igualzinho ao de outrora,
um mesmo sol, a mesma lua,
— a casa, as ruas, as pessoas —,
a cidadezinha no alto
reviver tudo como era,
amar e repetir a vida
da viagem finda.

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Pesquisa Estética

À procura
da sonoridade mais pura,
quis decifrar o mistério
da beleza natural.

Palavra por palavra,
desfolhei o poema
e despetalei a flor.
Em busca da magia de um canto
quase descubro
a fonte do amor.

O que faz o mavioso gorgeio,
seria a forcá que faz o vôo?
Onde a nascente no coração de cristal?

Pena por pena,
depenei um canarinho,
tingi de sangue as minhas unhas,
mas ao abrir-lhe o peito
não achei a flautinha divinal ...

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Astrovate

Fazedor de artes,
no tempo dos aeroplanos
tornei-me um astrovate.

Em frente à igrejinha
ao lado da escola,
haviam arrancado o pinheiro
— uma Torre de Babel vegetal —
antes que alcançara o céu.

Fora lá a plataforma
(largo onde atracavam os circos)
dos meus vôos iniciais.

Eu subia as ruas do arco-íris
no meu carrinho.
Na pipa,
me levava o vento
até o fim do carretel.
No balão,
seguia com os da Via Láctea,
tocha — o coração.

Comigo no clarão do lombo
corcoveava no ar
o boitatá.
Espelhavam um céu estrelado
os campos
com o lume dos pirilampos.

Eu deslizava de patins
pelas nuvens,
e meu pai ia me buscar
com a vara de marmelo.

Nas asas de uma borboleta,
vi a Terra multicor.
Nos Andes
eram as asa de um condor,
e sobre o Oriente
apenas um tapete voador.

Antes,
muito antes dos astronautas
dei uma volta pelo universo
na cauda de um cometa.

Com tecnologia de brinquedo
inventei uma astronave,
aprendi a dirigi-la
com um bando de andorinhas.

No primeiro lançamento
houve explosão na plataforma:
nove soldadinhos de chumbo
morreram.

Num passe de poesia,
batuta, pena ou pincel
fazem o prodígio:
vôo pelas pautas
de compasso em compasso:
pelas tintas, pelas palavras.
Viajo entre contos e lendas.

Tudo é real:
o País de Alice,
deslumbra-me o dos sacis-pererês.
A Terra viajo tão rápido
que a Itália parece a bota de sete léguas
do gigante.

Em órbita flutua,
mas dispara além da lua;
aprendiz de feiticeiro,
não sei como pará-la.

Quanto mais se distancia,
surge mais perto
como se a saudade a impelira.

Aumenta o nariz de Pinóquio
com a mentira,
acorda a Bela Adormecida
com um beijo,
uma bruxa muda gente
em sapo ou serpente,
o astrovate faz a sua nave
um condão de versos.

Com a fuselagem a coruscar nas entrelinhas
das estrelas,
o poema peregrina anunciando
a revolução da Fraternidade
para salvar a vida na Terra
com os encantos das historinhas.

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O Salvador

O céu
é o cenário
da Paixão de Cristo.

O sudário
que O retrata
é um retalho da noite.

Ele
insiste
em salvar almas no infinito.

Na Via Láctea
arrasta a cruz de estrelas
para o Calvário.

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RosAmor

Tenho um sentimento concreto,
objeto
que pode ser visto e tocado
como se fora o coração.

Contornos de abraços,
beijos encarnados,
sorrisos e lágrima amalgamados.
Novelo
de graças e rubor.
Aspecto
nem de brilhante nem de cristal,
mas de igual esplendor.

Tocha
de afetos que desabrocha
no meu peito.
Centelha
do belo universal.
Bem espesso, copado,
amorosa flor:

— A rosa, mas só a rosa vermelha
tem as formas do meu amor.

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