Lista de Poemas

Lisboa

— Mãe! Quero ver o Castelo
E depois fecha-me os olhos!

Adeus Terreiro do Paço!
Adeus Torre de Belém!
Adeus ruelas estreitas
Altas horas, sem ninguém!

Adeus estrelas tombando
Nas águas mansas do Tejo!
Adeus, adeus nostalgia
Das saudades que antevejo!

Adeus guitarras gemendo
Através dos bairros fáceis!
Adeus varinas-meninas
Dos seios que foram gráceis!
Adeus sotaque estrangeiro
Que a guerra trouxe até nós!
Adeus fadista em que o fado
Serviu de herói e de algoz!
Adeus poetas sem pátria!
Adeus pátria dos poetas!
Adeus Lisboa, cidade
Que no sonho te completas!

— Mãe! Quero ver o Castelo
E depois fecha-me os olhos!

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Guitarra

Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.

Na atmosfera de fumo,
Roçando pelo vício,
Em mim dum outro rumo
Encontro um vago indício.

Unem-se em gestos vãos,
Ao sabor da guitarra,
Suplicantes as mãos
Da fadista bizarra.

Se canta, logo após
Nos prende e enfeitiça
O que perdura em nós
Da sua voz castiça.

Meu coração já batia
Muito antes de te ver,
Mas só depois desse dia
É que eu o senti bater! ...

Candeeiros de cobre
Pousados sobre as mesas
Tingem de aspecto nobre
longas velas acesas.

Perfume de recado,
Em pouco se resume
O mistério do fado:
— No amor e no ciúme.

E também na saudade,
Mais funda hora a hora,
Que, fugindo à cidade,
Foi pela barra fora!

Saudade? Ciúme? Amor?
As naus da índia onde
Estão? Envolto em dor
Quem é que me responde?

Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.

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Ao Menos Hoje

Não me batas à porta, Poesia!
Ao menos hoje quero ter coragem
Para poder esquivar-me
De ouvir a tua mensagem.

Não me batas à porta, Poesia!
Ao menos hoje quero não sentir,
Não conviver, não pensar,
Mas apenas existir!

Não me batas à porta, Poesia!
Ao menos hoje quero ser um homem
Dos que nascem, crescem, vivem,
E sem arder se consomem ...

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Circuito Fechado

Já regressei da viagem
Que me deixou no peito
Estranha tatuagem.

Marcada a ferro e fogo,
Mal que ma destinaram
Eu aceitei-a logo.

É glorioso sentir
A carne trespassada
Sem Missão a cumprir.

Sofrer só por sofrer,
Negando a covardia
Dum pretexto qualquer.

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Rimance

Na esquina daquela rua,
Passaram duas irmãs,
Cada uma transportando
Um cestinho de maçãs.

Mais duas maçãs levavam
De cada lado do peito,
Que como as outras boliam
Ao mais pequeno trejeito.

Teriam dezoito anos
(Ou teriam dezesseis?),
Cabelos loiros caindo
Em desmanchados anéis.

O cestinho das maçãs
Para onde vai bem no sei —
Cheinho, a deitar por fora,
Para o palácio do Rei.

— "Senhor Rei — aqui nos tendes
Sem pecado e sem defeito,
No tabuleiro bolindo
Ao mais pequeno trejeito" ...

Eram verdes as maçãs.
Não se podiam tragar.
Mas os seios enfeitaram
Quatro noites de luar!

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