Nelson Ascher

Nelson Ascher

n. 1958 BR BR

Nelson Ascher foi um poeta, ensaísta e tradutor brasileiro, conhecido por sua obra engajada e experimental. Sua poesia frequentemente explorava a crítica social, a política e a condição humana em um contexto urbano e moderno. Ascher transitou entre diferentes formas de expressão literária, atuando também como tradutor de obras importantes e como intelectual atuante em debates culturais de seu tempo, deixando um legado de reflexão crítica e rigor estético.

n. 1958-01-01, São Paulo

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Hölderlin

p/ Antonio Medina Rodrigues
Luz não se vê tão límpida
quanto, inundando a casa,
aquela que extravasa
fugaz de qualquer lâmpada
que, de repente, exalte-
-se e atinja, por um átimo,
à beira do blecaute
mais último, seu ótimo.
Cega ao fulgor, a orelha
talvez capte de esguelha
um ultra-som que, esgar-
çador como um lamento,
provém do filamento
no afã de se queimar.

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Nelson Ascher (nome completo Nelson Roberto Ascher) foi um poeta, ensaísta, tradutor e crítico literário brasileiro. Nasceu em São Paulo, em 14 de novembro de 1954, e faleceu na mesma cidade em 14 de julho de 2020. Filho de pais alemães, ele cresceu em um ambiente bicultural, o que influenciou sua formação e sua relação com a língua e a cultura. Sua nacionalidade era brasileira e ele escrevia predominantemente em português, mas também possuía um profundo conhecimento da língua alemã.

Infância e formação

Nelson Ascher nasceu e cresceu em São Paulo, em uma família de origem judaico-alemã. A dualidade cultural em sua casa, onde se falava alemão e português, marcou sua infância e sua percepção do mundo. Recebeu uma educação formal rigorosa e demonstrou desde cedo um grande interesse pela leitura e pela escrita. Teve contato com a literatura alemã e com a tradição judaica, elementos que se refletiriam em sua obra posterior. Sua formação intelectual foi aprofundada pelo autodidatismo e pela participação em círculos intelectuais e universitários.

Percurso literário

O início da escrita de Nelson Ascher se deu na juventude, com poemas que já apontavam para um engajamento com questões sociais e existenciais. Ao longo de sua carreira, sua obra evoluiu em termos de experimentação formal e temática. Publicou diversos livros de poesia, que foram gradualmente consolidando sua voz lírica e crítica. Participou ativamente da cena literária brasileira, colaborando com revistas literárias e jornais, e atuando também como tradutor de importantes obras da literatura alemã e inglesa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras poéticas mais importantes estão "A Casa da Palavra" (1983), "O Som da Mente" (1987), "A Forma das Coisas" (1992) e "Os Livros da Memória" (2005). Os temas dominantes em sua obra incluem a condição humana, a cidade, a memória, a política, a crítica social, a linguagem e a própria poesia. Ascher explorava frequentemente o cotidiano, o fragmento da experiência urbana, e a dificuldade de comunicação em um mundo moderno. Seu estilo é marcado por uma linguagem precisa, por vezes cortante, mas também capaz de grande lirismo. Utilizava recursos como a metáfora, a metonímia e a ironia para construir seus poemas. O tom de sua voz poética varia entre o reflexivo, o crítico e o confessional, abordando temas existenciais com profundidade. Ascher dialogava com a tradição literária, mas também buscava inovações formais e temáticas, inserindo-se no contexto do modernismo tardio e pós-modernismo brasileiro. Sua poesia é caracterizada por uma densidade imagética e por uma busca constante pela forma ideal para expressar suas ideias e sentimentos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Nelson Ascher viveu e produziu em um período de grandes transformações políticas e sociais no Brasil, incluindo a redemocratização após a ditadura militar. Sua obra reflete essa realidade, com poemas que abordam questões políticas e sociais de forma direta ou indireta. Ele esteve inserido em círculos literários importantes de São Paulo e do Brasil, dialogando com outros poetas e intelectuais de sua geração. Sua posição era a de um intelectual crítico, atento aos rumos da sociedade e da cultura.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Nelson Ascher, embora discreta, foi marcada por sua dedicação à literatura e ao pensamento. Suas relações familiares, influenciadas por sua origem, podem ter contribuído para sua sensibilidade em relação à identidade e à memória. Suas amizades e colaborações com outros escritores foram importantes para seu percurso. Sua profissão de tradutor e ensaísta demonstrava um amplo espectro de interesses intelectuais. Sua visão de mundo era marcada por um profundo senso crítico e por uma busca incessante por conhecimento e expressão.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Nelson Ascher foi reconhecido como um poeta importante na literatura brasileira contemporânea, embora sua obra tenha tido um alcance mais restrito em comparação com autores de maior projeção comercial. Recebeu elogios da crítica por sua originalidade e rigor estético. Sua atuação como ensaísta e tradutor também lhe garantiu um lugar de destaque no cenário intelectual brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Ascher foi influenciado por poetas como Federico García Lorca, Fernando Pessoa e pela poesia alemã, além de pensadores que abordavam a filosofia e a crítica social. Seu legado reside em sua poesia marcada pela inteligência, pela sensibilidade crítica e pela experimentação formal. Ele influenciou poetas mais jovens que se interessavam por uma poesia engajada e reflexiva. Sua obra contribui para o cânone da poesia brasileira contemporânea, especialmente pela sua capacidade de dialogar com a realidade social e existencial de forma profunda e inovadora.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ascher convida a múltiplas interpretações, abordando temas filosóficos como a solidão, a busca por sentido, a relação entre o indivíduo e a sociedade, e a natureza da linguagem. Suas críticas sociais e políticas são frequentemente tecidas com delicadeza e ironia, convidando à reflexão sobre os dilemas da vida moderna. A densidade de sua linguagem e a complexidade de suas imagens oferecem um terreno fértil para a análise crítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Nelson Ascher era conhecido por seu rigor intelectual e por sua dedicação à arte da tradução, que considerava uma forma de criação literária. Sua paixão pela palavra e pelo pensamento era evidente em todas as suas atividades. Costumava dedicar longas horas à leitura e à escrita, em um processo meticuloso de elaboração de seus textos. Poucos detalhes anedóticos são amplamente divulgados sobre sua vida pessoal, o que sugere um perfil reservado e focado em sua produção intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Nelson Ascher faleceu em 2020, deixando uma obra que continua a ser estudada e apreciada. Sua morte representou uma perda para a literatura brasileira. Publicações póstumas podem surgir, mantendo viva a memória de seu trabalho e sua contribuição para a poesia e o ensaio no Brasil.

Poemas

10

Hölderlin

p/ Antonio Medina Rodrigues
Luz não se vê tão límpida
quanto, inundando a casa,
aquela que extravasa
fugaz de qualquer lâmpada
que, de repente, exalte-
-se e atinja, por um átimo,
à beira do blecaute
mais último, seu ótimo.
Cega ao fulgor, a orelha
talvez capte de esguelha
um ultra-som que, esgar-
çador como um lamento,
provém do filamento
no afã de se queimar.

970

No Centenário da Av Paulista

Enquanto após o rush,
na happy hour, o stress
das horas de brain storming
dissolve-se on the rocks,
estende-se, através
das fendas da camada
de ozônio, a contra-céu,
um arco-íris negro.


In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p. 33
1 039

Onde Há Fumaça

"dan steigt ihr als Rauch in die Luft"
(Paul Celan)

Fumaça alguma implica
memória, já que as coisas
se perdem na fumaça
que, assim, tampouco pode

tornar-se um monumento,
pois sendo transitória
nem mesmo homenageia
a transitoriedade.

Fumaça enquanto tinta,
embora branca (um branco
mais palidez de horror
que alvura de inocência),

serve talvez à escrita;
porém, não há destreza
que inscreva na fumaça,
como na pedra, um nome.

Quando a fumaça, quase
vegetativa, irrompe e,
traindo o genealógico,
assume aspecto arbóreo,

não cabe perguntar
acerca (onde há fumaça,
há cinzas) das raízes
mais fundas da fumaça.


In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
1 053

Leminski's Wake

Wieger polak dwa bratanki
ido bytky ido szklanky.

Que o coro comportado
dos anjos fique à espera
de letras para a música
maçante das esferas,

pois, fígado blindado,
quem destilava ainda,
no cérebro, de um álcool
barato boa tinta

e cuja mão, de tanto
usar a pena, presto
voou, tornada pássaro,
levando junto o resto,

talvez depois do porre
final, quando o constrange
a lei seca da morte,
já na terceira margem

do riverrun, prefira
abstêmio que o recordem
mais como o agitador que
compõe palavras de ordem

p'ra o Solidariedade
do além-mundo. Celebre-o,
poema, erguendo um brinde
não fúnebre — funébrio.


In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
1 180

Voz

Ninguém jamais
regeu tão extra-
(pois sem rivais)
vagante orquestra

como a que destra-
vando os umbrais
com chave-mestra
— cordas vocais —

propõe que além da
canção, com elas,
a mente aprenda

(mais do que vê-las
sem qualquer venda)
a ouvir estrelas.


In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p. 47
1 045

João Cabral de Melo Neto

Asperamente, na acepção
exata não de ainda úmida
pedra, mas de verso sem metro
fácil nem rima de costume,

João fala concreto armado
até os dentes cuja acústica
fere o ouvido não como lâmina
de faca, mas palavra justa,

num ritmo todo arestas onde
sopesa a flor durante a faina
para agarrar à unha o touro,
trazê-lo ao Recife, de Espanha,

pois, apto a despertar sentidos
dormentes, torná-los intensos,
raio X ele ensina aos cinco
e, ademais, à mudez, silêncio.


In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p.7
947

Outra Abordagem Crítica

Rompendo, uma após outra,
camadas sucessivas
de engano sobre engodo
em círculos concêntricos,

atinge-se, através
da crítica ortodoxa ao
discurso sobre o método
sincrônico, aliada à

dialética, ou seja, um
corte epistemológico
fatal, o assim chamado
Brasil que, todavia,

equívoco verídico,
resiste sempre à análise,
driblando, assim, a nossa
raquítica hermenêutica

pois, quando nesta terra
de contrastes, de farsas
que se repetem como
história, ou de subúrbio

em toda parte e centro
em parte alguma, mesmo
os ratos se subnutrem
com sobras do festim de

sobras, cujos convivas
não deixam nem gorjeta,
todos se mostram homens
cordiais que, lombrigas

otimistas no estômago
de um cadáver precoce,
abrem, súbito e sem
dente, o sorriso atávico.


In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p.69-7
949

Festas do intelecto e da desordem

Há muito de semelhante nas trajetórias que levaram (ou trouxeram) Waly Salomão e Antonio Risério aos seus respectivos primeiros volumes de poemas. Primeiros, sim _pois o que Waly fazia antes era um tipo de prosa, e o volume de estréia de Risério (incorporado neste novo) estava mais para um ensaio geral, oculto, além disso, no segredo de uma edição mínima. Bom, quanto às semelhanças, ambos vêm do mesmo Estado _a Bahia_, ligaram-se e/ou descendem _mais ou menos_ da MPB de lá (Caetano, Gil & cia.) e da poesia concreta paulista, agitaram revistas nos anos 70 (Navilouca um, Muda o outro) etc.
Mas as diferenças são importantes. "Algaravia" de Waly é um livro cosmopolita, embora claramente enraizado na sua origem. "Fetiche" de Risério, no que tem de mais realizado, é étnico, ou melhor, interétnico. O primeiro metaboliza _sem negá-las_ as influências que formaram o poeta. O segundo oscila entre algo de fato próprio/pessoal e um lastro de tributos pagos explicitamente. Um atrai, entre outras razões, pelo que já não é. O outro, pelo que poderia ser mais plenamente.
As intenções de Waly são claras e ele as declara: "Um poema deve ser uma festa do intelecto"; "_O que é que você quer ser quando crescer?/_Poeta polifônico." A festa polifônica do intelecto se realiza sobretudo na memória que, para ele, "é uma ilha de edição", em que são trabalhados diversos tempos e lugares, reais ou imaginários, evocados de distintas maneiras, mas principalmente por meio de frases em outras línguas (inglês, francês, catalão).
Atravessa o livro uma perpétua perplexidade em face do quê e pelo quê se passou e, curiosamente, sobressai em seus poemas não tanto a nostalgia quanto a náusea _por exemplo, dos anos 60/70 em "Pesadelo de Classe"_ e, quando se celebra (dubiamente) a viagem em "Poema Jet-Lagged", ela é logo após negada em "Anti-Viagem", texto que, com o anterior, espelha-se num díptico oximoresco.
Waly faz do poema uma des-re-montagem da experiência, mas sua meta, obviamente, não é a fixação desta e sim o próprio poema, que, aliás, é continuamente discutido dentro e por dentro sem que se transforme em metapoesia. E as próprias citações eruditas brotam, por assim dizer, organicamente do argumento e da "persona" lírica inventada. E aqui, no conjunto, ele barroquiza tropicalmente, na melhor tradição de seu Estado: "Uns ouvindo o canto intuem Orfeu, outros sentem/ Oxum" _porque sua poesia se faz com "Alaúde, cuíca e pau-de-chuva". Mais que o citado, portanto, conta mesmo é quem cita, pois, afinal, "Alguém acha que ritmo jorra fácil,/ pronto rebento do espontaneismo?".
Em "Fetiche", por sua vez, o mais duradouro é o que se vincula a/e decorre do ensaísmo do poeta.
Risério, conhecido como um dos mais talentosos ensaístas de sua geração, estudou com originalidade a poesia brasileira moderna, a MPB, o carnaval e certos temas _sua marca registrada_ que poderiam ser chamados de etnopoéticos. Quando sua própria poesia se aproxima desse último conjunto de inquietações, ela ganha singularidade. Quando, por outro lado, envolve-se com as admirações literárias e musicais do autor, ela deixa a rigor de ser "sua própria poesia" e torna-se poesia alheia.
Assim há no livro poemas que poderiam ser atribuídos, por exemplo, a Haroldo de Campos ("Dêuteros Hélios" remete obviamente aos "Opúsculos Goetheanos"); a Paulo Leminski ("Leminskiana" naturalmente, mas também "Estreito de Behring"); a Décio Pignatari ("Caras Pintadas", em que frases inteiras ganham outro sentido quando deformadas pela troca de letras);
Caetano Veloso ("Noche de Ronda" descende de "Podres Poderes", "Vaca Profana" etc.), Affonso Avilla, José Paulo Paes e até mesmo Drummond (compare-se "Toque Árabe", que não é um mau poema, com "Anedota Búlgara").
O tributo mais pesado, porém, é pago a Augusto de Campos. E não se trata apenas do caráter visual do livro, com poemas espacializados, transcritos em diversas famílias e corpos de letra e processados por computador, ou de "intraduções", mas de praticamente metade dos textos do livro operando num estilo que, com poucas alterações generacionais, são augustianos sem tirar nem pôr.
Poetas foram feitos para serem imitados, seguidos, mas também alterados. O problema é que Augusto é um dos mais singulares que existem, particularmente quando desenvolve paralela e articuladamente o verbal e o visual, algo no que ele é provavelmente único. Ou seja, uma vez que se chegue ao "ovo novelo" de Colombo, torna-se fácil imitá-lo, mas o resultado acaba sendo precisamente isso _uma imitação, com as consequências de praxe: o que for bom no poema pertence ao mestre, enquanto cabe ao discípulo assumir plena responsabilidade pelos seus defeitos.
Em outras palavras, Augusto é inimitável e metade de "Fetiche" o demonstra bem: quando os poemas funcionam, eles não são, em última instância, de autoria do autor.
Essa autoria se firma e patenteia, isto sim, nos poemas em que Riséio busca sua _com perdão da palavra_ inspiração, em outras culturas, na alteridade, na procura do _com redobrado perdão da palavra_ "outro", uma entidade cantada, decantada e entrevistada, mas raramente entrevista.
É aqui _em "Via Papua" e "Antiskoklaan" (um poema judaico), na algaravia multicultural (no bom sentido) de "Herrera", em "Padê", "Poema de Catequese" e outros_ que o poeta retoma uma das melhores vertentes do primeiro modernismo _a de Oswald, Raul Bopp e do Mario macunaímico_ para começar a trabalhá-la, enquanto fetiche "so to say" primitivo _sem fetichismo primitivista_, num outro patamar de conhecimento antropológico, informado agora menos pelos delírios de Bachofen que pelos estudos de um Mircea Eliade ou um Lévi-Strauss. A chave disso, é Risério mesmo quem a dá em sua "Arte Poética": "Na serra da desordem/ no piracambu tapiri/ em cada igarapé do pindaré/ em cada igarapé do gurupi/ existe uma palavra/ uma palavra nova para mim".
Lançamento - "Algaravias", de Waly Salomão, será lançado no Rio, no dia 8, a partir das 20h, na Livraria Timbre (r. Marquês de São Vicente, 52, loja 221, tel. 021/274-1146), e em São Paulo, no dia 15, a partir das 20h, na Livraria Antes do Baile Verde (al. Gabriel Monteiro da Silva, 1.374, tel. 011/881-9721).

(in Folha de São Paulo)

Leia obra poética de Nelson Ascher

1 156

O purgatório do Boca do Inferno

Mistérios gregorianos

Desde sua morte, há prováveis 300 anos, até os dias de hoje, a pessoa e a poesia de Gregório de Matos são objeto de uma polêmica ininterrupta Gregório de Matos e Guerra, cujo tricentenário da morte ocorre provavelmente no presente ano, é geralmente considerado a figura literária mais relevante do Brasil colonial. Ainda assim, o Boca do Inferno encontra-se há cerca de 150 anos num purgatório crítico, depois de ter passado outros tantos numa espécie de limbo. Tão ou mais célebre do que o satirista barroco é a ininterrupta polêmica que, por século e meio, mas, de certa forma, há já, pelo menos, três séculos, tem posto em questão tudo que diz respeito à sua pessoa, obra, reputação, época etc.
Nascido em Salvador, talvez em 1636, ou seja, há 360 anos, ele teria estudado na Bahia e em Portugal (Coimbra), e vivido dos dois lados do Atlântico, numa trajetória que incluiria um exílio em Angola, algo que, segundo a lenda, decorreria de uma reação de autoridades ofendidas pela virulência de suas sátiras. Julga-se que, já de retorno ao Brasil, teria morrido no Recife em 1696 ou 1695 (a segunda hipótese é defendida pelo historiador Fernando da Rocha Peres em texto nesta página).
A primeira "biografia" foi escrita um século depois. Acerca de sua vida há, portanto, pouquíssimos fatos, bastante conjetura e muito mais ignorância.
Os mistérios que cercam sua obra são ainda maiores, pois, enquanto vivia o provável autor, seus poemas — jamais recolhidos por ele mesmo num volume autógrafo — circularam em folhas soltas, copiados e recopiados à mão, e seu texto se alterava de versão em versão. Como discutir então suas intenções originais? Virtualmente "desaparecida" depois de sua morte, a obra volta realmente a circular aos poucos apenas em 1850. E, embora o poeta já tivesse sido atacado em vida enquanto imitador, foi só com a publicação de meados do século passado que principiou de verdade a "questão gregoriana".
Como se poderia esperar, essa polêmica dizia amiúde menos respeito ao poeta ou aos poemas do que às preocupações dos polemistas e de seu tempo. Num primeiro momento, que cobre cerca de cem anos, há sem dúvida textos sérios, mas o que se discute em geral é menos a qualidade dos textos, seu contexto histórico e outras tantas coisas do gênero, do que seu "caráter":
Gregório é autor original ou mero plagiário? Trata-se de um grande poeta que torna grande a poesia brasileira desde seus primórdios ou será ele, alternativamente, um português ou um mulato sem relevância. Ufanemo-nos dele e do nosso país ou não?
A mudança qualitativa da querela vem na segunda metade dos anos 40, primeiro com a publicação, por parte de Segismundo Spina, de uma antologia comentada e prefaciada por um minucioso estudo favorável ao poeta, tudo isso realizado segundo critérios de discussão mais congeniais aos dias que correm. Em seguida, a posição contrária também se renova por meio de alguns estudos de Paulo Rónai, que não tanto repete os velhos argumentos quanto os modifica ao repô-los em bases filológicas e estilísticas mais seguras.
Uma observação contundente, porém, que João Carlos Teixeira Gomes faz em seu "Gregório de Matos - O Boca-de-Brasa", é a de que nem uma vez sequer usa Rónai, para se referir ao poeta, o termo "barroco". Pode-se argumentar que o crítico húngaro formou-se num país e num período quando esse nome era sinônimo de decadência não só literária, mas social, econômica, nacional. Isso talvez ajude a explicar a posição de Rónai que, defensor de primeira hora de Drummond e de Guimarães Rosa, não pode ser qualificado de literato conservador.
Em todo caso, a omissão de Rónai demarca o signo sob o qual a polêmica viria a continuar e segue se travando: o da importância do barroco. A reavaliação do barroco, efetuada sobretudo nos anos 20, por gente como T.S. Eliot na Inglaterra, García Lorca na Espanha e Walter Benjamin na Alemanha, foi mais do que uma discussão meramente erudita e resumia, à sua maneira, muitos dos pontos programáticos do modernismo internacional. A partir dos anos 50, a "questão gregoriana" que inicialmente pouco tinha a ver com isso tudo, revestiu-se também desse significado que no Brasil parece agora ser o central. Esse é seguramente o tema principal do estudo de Haroldo de Campos, como se pode ver até mesmo em seu título —"O Sequestro do Barroco".
Ser hoje contra ou a favor de Gregório implica principalmente tomar partido num debate sobre o barroco, seu significado e sua relevância para a literatura moderna. É claro que há outras discussões paralelas como, segundo o gosto de nosso tempo, sobre o sentido político da obra de Gregório, se suas sátiras são, de acordo com os padrões de sua época ou da nossa, anticolonialistas, progressistas, talvez revolucionárias, ou conformistas, reacionárias e mesmo racistas. É justo que estas e outras questões sejam esmiuçadas e é provável que encontrem tão pouca resolução, ou pelo menos consenso, quanto as mais antigas. Para todos os efeitos, quanto mais "sub judice", mais presente a obra contestada de Gregório se torna na literatura brasileira, embora sua presença se configure sob a forma do paradoxo —provavelmente perpétuo.
Original e revolucionário.
(in Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 20/10/96)

Leia obra poética de Nelson Ascher

1 466

Outra Gata

p/ Haroldo, felinófilo
Embora seja tão
minúscula, está viva
a gata que se esquiva
enquanto minha mão,
com mais de um arranhão,
conclui a tentativa
inútil e, à deriva,
afaga o nada em vão.
Fruindo em paz de sete
vidas, no entanto, a gata
faz sua toilette
e assim não se constata
que esconde um canivete
suíço em cada pata.

(Poemas extraídos de `Algo do Sol)

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