Lista de Poemas
Não pude ser
o teu amor perfeito
antes esta ferida.
Por isso para ti
não serei a pele
— poro a poro teu alumbramento —
serei apenas a cicatriz.
Perfeita.
Esculpo a página a lápis
e um cheiro de bosque
então me aparece.
Que a poesia é feita de romãs
daquilo que é eterno
e de tudo que apodrece.
Toca minha pele assim
as costas com beijos lentos
a nuca com lábios roxos
as coxas com mãos noturnas.
Nada é mais suave
que teu cabelo solto
aberto como asa
sobre meu corpo.
Poema integrante da série Canto IV: Ilhas Idílicas.
In: ARCHANJO, Neide. As marinhas. Apres. Sônia Régis. Rio de Janeiro: Salamandra, 1984
A minha cidade é
sagrada
dura
casta.
Digo pouco.
Ela devora todas as falas.
A gente que aqui mora
vai se matar em cinco minutos
cercada de falos brancos
lentos cavalos
duplos edifícios.
Nas ruas o asfalto friíssimo
e a fundação dos esgostos.
Nas casas
os comedores
os roedores
os suicidas
os assassinos
os vampiros
todos absolutamente bons.
Aqui se morre de amor.
O mar é vazio
— abismo no vale —
e os rios soltos pelo interior.
Ai, a mágoa desta cidade
não se conta.
Por que escurecer o coração?
(...)
O halterofilista da praça da Sé
o bancário da rua XV
o moço do bilhar
a menina do som de cristal
o móvel corretor de imóveis
o vendedor de bilhetes
o vendedor de automóveis
— margem rio peixe água entulho flor —
e o artista
— homem coletivo —
têm o privilégio:
suportam te olhar sem filtros.
Com eles eu componho
a tua aura
— encantamento além da superfície —
e te assumo agudíssima canção
na garganta estreita
do meu grito.
Sei que meus juízos minhas ações
meus atos
comprometem a tua sacralidade áspera
a tua dureza espessa
a tua castidade casta.
Mas a cada hora gasta
— queda cegueira dor —
sonho a minha conversão exausta.
Saulo, Saulo, por que me persegues?
In: ARCHANJO, Neide. Poesia na praça. São Paulo: I.L.A. Palma, 1970
40 [Ah, esta manhã tão clara
e teu corpo que se inclina para o mar.
Como conciliar a luz em teu olho,
as ondas deitadas mansamente, mansamente
e a tua imagem
longa gaivota
indo e vindo pela praia verde de sol,
tudo como numa marinha de Pancetti
que tenho dentro de mim?
Não há o que lembrar.
Falo desta luz que me ilumina
e que te alcança embora longe
porque é primavera aqui onde estou
e é primavera aí onde estás.
Pressinto a tua mansidão hoje
nesta manhã tão clara
e sempre te quis saber assim:
olhando o mar.
Não há onde buscar lembranças,
senão naquelas lembranças
agora retomadas nesta manhã tão clara
em que vejo nítida e precisamente
em frente ao mar
a imagem que me aprisiona e mata docemente
que me aprisiona e mata docemente
em frente a outro mar.
In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
A gota
se desloca do rio de gotas
e antes de mergulhar
ávida
na minha mão
recolhe um momento
de diamante ou de cristal.
Poema integrante da série Fragmentos.
In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
41 [A cidade nunca me cansou, Quixote
apenas me confundiu
quando se espalhou pelas marginais,
empurrou o rio
e saiu do outro lado do mundo.
Gostaria que ela fosse
a cidade de Oswald de Andrade, o sátiro,
e as tardes limpas do rio Tietê
e os passeios de Cadillac pelo Paraíso.
Esta é a rua Mauá.
O trem ali embaixo
não dá vontade de partir,
porque sinto que nenhuma viagem,
nenhuma outra vida,
nenhuma outra forma de vida,
mudaria a vida,
este estado definitivo e morno
de todas as coisas.
Por isso vou, volto, reflito.
E tenho medo.
In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
Veio negra
Veio negra
lindíssima
como um lírio de Ofir
e habitou a tenda que armei
entre silêncios
do ócio mais ardente
alegria luminosa de carícias
coisas perfumadas trazidas de viagens
feitas por terra
e por mar.
Deitou seu corpo ao lado do meu.
Abrigou-se.
À nossa volta tudo foi
farto doce e santo
o verde o roxo o branco
mais uma ternura
que sabia ser volúpia
e quis ser encanto.
(Sentada
nua.
Um lenço cobre o bandó
desce pelas encostas
longas líbias escuras.
No chão os seus arreios
nos joelhos minha cabeça que descansa.
É tarde
um sol pequeno brota na janela:
meu poema e seus contornos
entre seus dedos
como os seus adornos.
Na voz uma canção nagô
falando de coisas estranhas
que devem ser de amor.
Em seu corpo esplêndido
suor e gozo
beijoim e hortelã
um silêncio roxo resplandece.
Reina Nanã.)
(...)
Poema integrante da série Sítio III.
In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
Não estamos perdidos
Isto é um milagre. Ter um corpo
uma casa um amigo
manter nas veias o sangue aceso
é um milagre. Saber que houve alguém
que nos acariciou
e nos banhou de lágrimas.
Só
no meio da rua
penso nestas dádivas
antes que a lâmina da morte me atravesse.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
No jardim do mosteiro
silêncios envolvem o monge
e seu livro de horas.
Ele sabe da sombra infinita
que espera lá fora.
É velho o monge
e morrerá com ele
alguma frase em latim
uma entonação gregoriana
seu rosário suas sandálias
e um pouco de mim.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
Era candeia
e parecia ser o lume.
Era candeia.
Nomeio-o
Alma
adequado ao clarão
que traz consigo.
Nem distraído
nem remoto
este Anjo
apenas hesitante
entre o bem e o mal
como se um e outro
ele não fora
e assim desapercebido
ora luz ora sombra
passasse por mim.
Em contrapontos.
In: ARCHANJO, Neide. O poeta e o anjo. Rio de Janeiro, 1994. p.9. Poemas datilografado
Comentários (0)
NoComments
Maria Bethânia | Pequeno Oratório do Poeta para o Anjo | Neide Archanjo
Neide Archanjo — As Pessoas Querem Saber | #Poesia Brasileira | Com Leitura de Poema #Podcast
Fernanda Ventura (Poemas de Neide Archanjo)
NEIDE ARCHANJO Pavão Azul Soneto de Sosígenes Costa
Neide Archanjo — Poema Diferente | #Poesia Brasileira | Com Leitura de Poema #Podcast
Neide Archanjo — É Um Milagre | Poesia Brasileira
Neide Archanjo
40tena em versos - Neide Archanjo #10
Docemente | Neide Archanjo #sentir #poesia #contemplação #viver
Fado do retorno | Neide Archanjo #arte #poesia #literatura
PEQUENO ORATÓRIO DO POETA PARA O ANJO.wmv
Pr Jó Cardoso- Relampeia Jesus e Barulho de Espada
SÉRIE "OUTROS AUTORES" (POR ANTÔNIO CUNHA): 235 – ANNA MIRANDA: ALLEGRO
SÉRIE "OUTROS AUTORES" (POR ANTÔNIO CUNHA): 198 – ANNA MIRANDA: LAMPEJOS
Autopsicografia
Damares - A batalha do Arcanjo (Ao Vivo)
Série “Do InVerso a Toda Prosa” – 77: PELAS RÉDEAS – de Anna Miranda
Série “Do InVerso a Toda Prosa” – 29: PALÁVIDA - de Anna Miranda
SÉRIE "OUTROS AUTORES" (POR ANTÔNIO CUNHA): 221 – ANNA MIRANDA: MILHO CRU
Carrego as estações | Carlos Felipe Moisés
Série “Do InVerso a Toda Prosa” – 38: INSOLITUDES – de Anna Miranda
Série “Do InVerso a Toda Prosa” – 4: AMOR DE CÃO - de Anna Miranda
LIVE: Poesia Negra do Brasil: Movimentos e Visibilidade com Paulo Sabino
Poema Escuridão Fundamental
68. Poetando - Sosigenes Costa - Emendando um soneto (Voz de Marilia Gabriela)
MIKE ARCHANJO - RAZÃO DE SER ( LYRICS)
Wilsom arcanjo Neves junior
Não fique abatido Pr.Alex Arcanjo
Uma Pequenina Luz (Poema. Fragmentos)
MARIA BETHÂNIA ALLEZ Y
POESIAS DOS ANOS 80
O ANJO E O POETA
A Batalha do Arcanjo
Escreve me Cidinha Santos
LEANDRO ARCHANJO - DONO DA FESTA
Anjo da Poesia
coreografia: Sou humano não sou perfeito. coreógrafa Luciana Archanjo
Rodrigo Carreira - Tornou-me o pôr-do-sol..., de Sosígenes Costa | VERSOS E LUZ
Meu primeiro livro de poesia ❤ #poesia #escritora
Grupo Arcanjo
Moça Linda, Bem Tratada
ÉRICO DE FREITAS - SONETO DO ANJO - Sosígenes Costa
Entre versos, poesias e pensamentos
BEBI VOCÊ | Poesia com Canção 'RONDA' Paulo Vanzolini
POESIA E PROSA COM MARIA BETHÂNIA | Ep.4 CASTRO ALVES (4/5)
Emendando um Soneto (Sosígenes Costa)
40tena em versos - Antero de Quental #130
A dor da Partida. #morte #saudade
Peça "Fala Sério" 2017 - Texto Anjo
Monique Malcher — 10. | #Poesia Brasileira | Com Leitura de Poema #Podcast
Português
English
Español