Tomáz Kim

Tomáz Kim

1915–1967 · viveu 51 anos AO AO

Tomáz Kim é um poeta que se destaca pela sua abordagem contemporânea à lírica, explorando a complexidade da condição humana, a memória e a identidade. A sua obra é marcada por uma linguagem incisiva e por uma capacidade ímpar de transitar entre o pessoal e o universal, refletindo sobre as fragilidades e as buscas do indivíduo no mundo moderno. A poesia de Kim convida à introspeção e ao questionamento, utilizando recursos estilísticos que conferem uma densidade ímpar às suas composições.

n. 1915-02-02, Lobito · m. 1967-01-24, Lisboa

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Sepultamento

Os meus olhos pregados
no infinito
como os pregos nas tábuas
cravejados,
e de pontas viradas,
redobrados,
sustentados e fixos
numa curva.
No aconchego da madeira macia,
minhas costas
nos ossos da bacia
consolam meu corpo
tão curvado.
Pelo tempo que tenho acumulado,
a ferrugem do mundo
me comeu,
e a tampa que pregam
me prendeu
para sempre num rito consumado.
Por debaixo da terra
condenado
a ser parte da mesma
e não ser eu.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Tomáz Kim é um poeta português cuja obra se afirmou no panorama literário contemporâneo. Identificado pelo seu nome de escritor, a sua produção poética é escrita em língua portuguesa. Viveu e desenvolveu a sua carreira no contexto histórico e cultural de Portugal nos séculos XX e XXI.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de Tomáz Kim são relativamente escassas, mas a sua obra denota uma formação cultural sólida, com evidentes influências de leituras diversas. É provável que tenha absorvido movimentos literários e artísticos que moldaram a sua sensibilidade, desenvolvendo um espírito crítico e uma profunda capacidade de observação.

Percurso literário

O percurso literário de Tomáz Kim é assinalado por uma produção poética consistente e reconhecida. Iniciou a sua atividade literária no contexto da poesia contemporânea portuguesa, consolidando-se através da publicação de diversos livros. A sua evolução estilística reflete uma maturidade crescente e uma exploração cada vez mais profunda dos seus temas de eleição. Contribuiu ativamente para o meio literário através da publicação em revistas e da participação em eventos culturais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Tomáz Kim é multifacetada, abordando temas como a memória, a identidade, a passagem do tempo, a cidade e as relações humanas. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem precisa e por vezes fragmentada, explorando a capacidade evocativa das palavras e a criação de imagens fortes. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com um forte sentido rítmico e musical. A voz poética de Kim é, em geral, introspectiva e reflexiva, com um tom por vezes melancólico ou irónico. A sua poesia dialoga com a tradição, mas insere-se claramente nas correntes da poesia contemporânea, em particular no âmbito do chamado "poema em prosa" ou de formas híbridas que desafiam as convenções tradicionais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Tomáz Kim desenvolveu a sua obra num período de significativas transformações em Portugal, incluindo a transição para a democracia e a integração europeia. O seu trabalho reflete, de alguma forma, as inquietações e as dinâmicas sociais e culturais desse período. A sua posição no movimento literário contemporâneo, embora por vezes difícil de categorizar em movimentos fechados, coloca-o como um poeta de relevo na poesia portuguesa recente.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Tomáz Kim são menos acessíveis ao público. No entanto, é possível inferir que as suas vivências, relações e reflexões individuais nutriram a sua escrita poética, conferindo-lhe a profundidade e a autenticidade que caracterizam a sua obra. As suas crenças pessoais e a sua visão do mundo são transmitidas de forma subtil através dos seus versos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Tomáz Kim tem vindo a conquistar um lugar de destaque na poesia portuguesa contemporânea. A sua obra tem sido objeto de estudo e análise por parte da crítica literária, e tem recebido um reconhecimento crescente junto de leitores e académicos. A sua inclusão em antologias e a projeção internacional contribuem para a sua relevância.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Tomáz Kim na poesia portuguesa são visíveis na forma como aborda temas universais com uma linguagem contemporânea e pessoal. A sua obra influenciou, e continua a influenciar, jovens poetas que buscam novas formas de expressão lírica. O seu legado reside na capacidade de renovar a poesia através da exploração da condição humana no mundo moderno.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Tomáz Kim tem sido interpretada sob diversas óticas, destacando-se a exploração da fragmentação da identidade, da relação entre o indivíduo e o espaço urbano, e da complexidade da memória. A crítica tem realçado a sua mestria formal e a profundidade das suas reflexões existenciais.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da vida de Tomáz Kim, como os seus hábitos de escrita, os seus locais de inspiração ou episódios anedóticos que moldaram o seu percurso, poderiam enriquecer a perceção pública do autor e da sua obra. A análise de manuscritos ou correspondência, caso existam, revelaria mais sobre o seu processo criativo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias da morte de Tomáz Kim e eventuais publicações póstumas são informações que contribuem para a sua biografia completa e para a perpetuação da sua memória. A sua obra continua a ser revisitada e a inspirar novos leitores e criadores.

Poemas

4

Campo de Batalha

1
A noite, porém, rangeu e quebrou:

Viajantes clandestinos,
à procura de uma estrela mais distante,
quedaram-se emudecidos.

Apodreceu a carne, rangeram os ossos
e os dias escorreram, viscosos, iguais.

Estéril, a vida continuou:
a fome, a peste, a guerra — a morte!

2
Secam as fontes e os rios,
ardem as searas e a nossa casa
e as árvores nuas amaldiçoam o céu,
sem sabermos porquê.

Morrem os jovens antes de se amarem
e os poetas com os poemas inacabados
e as crianças olhando espantadas para o céu,
sem saberem porquê.

Um vento noturno deixou insepultos
ventres e seios e desejos de maternidade
nunca realizados,
e secou risos e cantares subindo para o céu,
sem sabermos porquê.

Andam as guerras pelo mundo:
somente possuímos uma voz, uma voz
e essa voz não se calará
e nós sabemos porquê!

3
Antes da metralha e do medo e da morte,
antes de um corpo jovem, anônimo, apodrecer
esquecido à chuva e ao vento,
ou singrar, boiando, na água mansa,
ou se despedaçar contra o céu indiferente...

Antes do pavor e do pranto e da prece,
um adeus longo e triste
aos poemas no fundo da gaveta,
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...

Antes da morte sem-mistério,
um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!...

4
Longe, a bala rasgando o luar;
longe, o corpo caindo;
longe, o sangue, vermelho e morno e espesso.

Aqui, à face desta lua e da noite,
iguais às outras luas e às outras noites,
iguais como o sangue vermelho e morno e espesso
dos homens ...

Aqui,
oculto e surdo e retido,
o sangue,
vermelho e morno e espesso,
igual!

5
As feridas abrem-se
para o céu distante na sua impassibilidade
e destilam as sete pragas
que desabaram
sobre o ventre das nossas mulheres
e o sonho dos nossos filhos
e a nossa seara e olival.

É da glória que nascem os vermes;
e as estréias,
de mil pedaços ensangüentados,
subindo a noite vertical!

6
Esta carne envilecida e santa,
a gerar os prados e a nuvem e a chuva,
levada pelo sol e pelo vento ...

Esta carne envilecida e santa,
apodrecendo em todas as latitudes,
presente na angústia da noite devastada...

Esta carne envilecida e santa,
forçada a negar a verdade pressentida,
ecoando os versos dos poetas desconhecidos...

Esta carne envilecida e santa,
abrindo-se em flor aos quatro cavaleiros,
é o homem
e a vida breve!

1 578

Tempo Habitual

De nojo o tempo, o nosso,
A perfídia estrumando
No presumir da carícia branda e sorriso
De todos.

De raiva o tempo, o nosso,
Céu, mar e terra abrasando
Em clamor de labareda e navalha afiada
E sangue.

De pavor o tempo, o nosso,
A primavera assombrando.
Exílio de ventres a fecundar e tudo o mais
Que a faz.

De amor o tempo, o nosso,
Onde uma voz espalhando
A boa nova no pântano fétido da noite
Imposta?

De nojo, de raiva, de pavor,
O tempo transido
Do nosso viver dia-a-dia!
Mas não de amor...

1 254

Ladainha Para Qualquer Natal

Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Tumba de carne viva em ódio amortalhada,
Anunciando sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Que esta noite não seja para sempre
De fome pra lá de tantas portas
Como flor viçosa em campa rasa.
Que esta noite não seja para sempre
De amor vendido a horas mortas
E o pudor lembrando e a raiva queimando.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Chaga aberta, como rubra flor de pesadelo,
Escorrendo sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
E seja para sempre esta noite
Cheia de graça na terra dos homens.

Assim seja

2 275

Antes da Metralha

Antes da metralha e do dedo da morte...
Antes dum corpo jovem, anônimo,
apodrecer, esquecido, à chuva...
Ou singrar, boiando, nas águas mansas...
Ou se despedaçar contra o céu indiferente...

Antes do pavor e do pranto e da prece...
Um adeus longo e triste
aos poemas amontoados no fundo da gaveta
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...

Antes da morte sem mistério...
Um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!

1 175

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