Lista de Poemas

Pedaços

Quando os trovões soam
E o canto cessa
A lua se esconde sobre a nuvem de tempestade
Se distancia o Sol na meia noite.
O vento leva as folhas
Que caíram no último inverno
E secavam sobre as urtigas
Plantadas no último verão
Pelas nossas mãos
Que agora vazias
Que agora sombrias
Não plantam mais.
Mas as sementes foram lançadas
E frutificam as duas da madrugada


Na noite escura da alma
Tu és minha única calma
Quando as ondas escondem o barco
E o tornado alcança o lago.
Quanto o porto naufraga
Levando os barcos.
No lugar mais obscuro
Tu és o refúgio seguro
Sou incapaz de no meu melhor dia
Amar-te como deveria


Quando a folha seca encontra encontra a chama
Acendida na última primavera
E o outono se torna vermelho
A chama alcança a câmara
Onde estavam os ovos das serpentes
E fogo consome o Porto
Onde embarcavam a escarlate
Que alimentava Roma


Dos que partem da daqui pra lá
Muitos vão sem um lugar
Muitos caem no caminho
E não levantam quando sozinhos
Muitos perdem a razão
E não encontram a direção
Muitos choram
E poucos oram

No dia que antecede o último
Estamos todos nós
E ainda assim, muitos recusam ouvir a voz

Os que partem com os ouvidos fechados para o reino posterior
Abrem as bocas para clamar improperios sem pudor
As portas foram abertas para receber os que se trancaram no reino das sombras

Mas há um lugar para nós guardado
Mais distante que último Prado
Ha um dia reservado
Para a música que nos será dada,
Para as dores nos serem arrancadas.
Só então cantaremos a melodia dos tempos
Imemoráveis, infindáveis, insondáveis
Veremos os olhos de fogo
Sob o som de muitas águas

Ouviremos a primeira melodia cantada
Pelo Primeiro homem na última estrada
👁️ 53

As tumbas profundas dos homens rasos

Esperança há
Não em mim
Nem em ti
Não nos braços
Nem nos laços
Não na vitória
Nem na história
Não na jornada
Nem na estrada
Não no mundo
Certamente, não no mundo

Profundo mundo-
De homens tolos
Muitos lobos-
Profundamente raso

Movimento constante
Em ritmo oscilante
De lugar algum
Para lugar nenhum

Sobre o peso do próprio corpo
Desfalece, como um touro no abatedouro
Na marcha fúnebre dos vivos
Só há ruídos
Dos mais bem lembrados quando esquecidos

Tumbas profundas para homens rasos
Mumificados vivos pelos próprios braços
No coração da escuridão
Habita o senhor das moscas
Que guarda seus filhos
Em tumbas ocas


Quanto pode correr o que não sabe para onde?
O que pode encontrar aquele que se esconde?
Quanto pode esperar o que não tem esperança?
Qual será a sua herança?
Tumbas ocas
Tumbas ocas
👁️ 72

A terra sem rimas

Num lago seco crescia uma árvore
Que brotara do fruto comido a muito
Sua altura chamava a atenção
Desviava a nossa visão

A caminhar pela terra seca
Um que parecia cordeiro, com voz de dragão, disse: subam
Prosseguiram então, a escalar a árvore, de abundantes frutos
Frutos amargos de aparência doce
Doce para olhos
Amargo para a boca
E a Arvore estava cheia de lagartos
Que sobre os galhos
Comiam os pássaros
Que comiam os frutos
Sempre a subir
Num padrão disforme
Que lembrava a própria morte

Seguiam pelo caminho das portas
Das portas que não podiam ser abertas
De um mundo que não podia ser profundo
Rasos e arrasados
Devastando e devastados
No cruel abril
Acordavam, seguiam, dormiam
Sem nada ver

Ao longe gritou um cavalo
Corra, corra, corra
Na direção oposta
Para o primeiro mundo
Antes do lagarto
Antes do fruto
Quando o lago não era seco e arvore, apenas uma possibilidade.
Mas a porta estava selada
Bata, bata, bata, não há porta para abrir.
No nosso presente mundo
Só há sequidão e passos

As folhas secaram
Há um lago, e não há água
Há rios, e não há água
Há mar, e não há água

O fogo queima as folhas, secas
Consumidas, apagam a chama, quente
Não há água e Não há folhas
Não há fogo

A terra foi salgada,
Pelo mar sem água
Terra morta sem frutos, sem folhas
Não há água e Não há folhas
Não há fogo e Não há terra

O vento sopra na mesma direção
Fugindo do fogo que se extinguiu
Levando a água que não existe
Para as folhas que foram queimadas
Numa terra infértil

Restaram passos
Que um após o outro,
Silenciosos, silenciando,
Sussurram na terra morta

No canto minguante dos passos
Uma visão, pequenina gota brota do chão
A breve gota se espante, enchendo o Rio
Que enche o lago
Que preenche o mundo
O portal do primeiro mundo está para sempre selado
O átrio do eterno mundo foi descerrado
Através de um ato no tempo
Um ato que está além do tempo, tomou o tempo
No corredor dos eventos, a divisória e o centro
O ponto para o qual convergem todos os momentos
A gota que transborda os mundos
De antes e de depois
De agora e para sempre
👁️ 39

Canção de pavor de Alfredo

Na hora transiente entre a aurora e o poente
Os pássaros cantam no jardim
A luz preenche o quarto mudo
Mas as trevas permanecem
Escondidas no canto escuro
Meio invisível, meio visível
Em inanimada suspensão
Uma forma de hibernação

Na transiente hora entre o poente e a aurora
As cobras serpenteiam no jardim
Devorando os ratos.
As flores se escondem
E parecem apenas mato
O quarto não está mais mudo
E o canto escuro não é mais um canto
Mas o próprio quarto
O que estava suspenso é continuado
O ser até então inanimado clama seus brados
Quando acordado pela hora
Anterior a aurora

As falsas luzes do dia anterior
São trevas com certo pudor
A serem manifestas pelo poente
Que em algum momento estará presente
Mas nem todas as luzes são falsas
Só todas as vês.
👁️ 61

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments