Escritas

Biografia

Poeta, escritor, artista visual, ilustrador, compositor e crítico.

Lista de Poemas

Total de poemas: 8 Página 1 de 1

Da Cor do Ocaso

cascas de tangerina

sobre a mesa

no prato de opalina,

a cozinha agora

 

                 exalando

 

ácido e flora.

 

cascas são lascas

rejeitos mortos de agosto

jeitos e trejeitos de pomar

ah, as floradas indagora

à espreita de outonos

mas há sol lá fora...

 

lascas das cascas

rejeitos da delícia

tão simples, fóssil frugal:

é cor de ocaso e poros

brilho na face

d’um suor vegetal.

 

cascas cítricas

como ocos de desgostos

a desapegar digitais

e o antigo gosto.


Do livro "Poemas", 2024/2025 (no prelo).

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a âncora

a

âncora

de-

-se

nha-

-se

em

musgo e silêncios

.

plana

em

correnteza

...

acor-

-ren

ta

da

em

suas

funduras de meia-

-noite

!





Do livro "Poemas", 2024/2025 (no prelo).

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Algodoal

O algodoal é extenso:

mar sem fim.

 

Mais

         onda que mar

 

mais

                 espuma que onda

 

mais

                          branco que espuma e areia.

 

Mar de tufos brancos

numa brancura suspensa:

nuvens entre verdes ao vento,

lembrando outra nuvem

tão alvura e pensamento:

a cabeça de minha avó,

claridade acesa dos cabelos

– tempo depurado.

 

A cada estação,

renova-se a safra

e minha avó é eterna.


Do livro "Questão de íris", 1997.

 

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Canção Madrilenha

Sob o sol de Espanha

Gaudí modula rochas

relevos cavernas

varizes de ônix...

o sol alinhava colossos de construção

arranha o céu de sangue

e profana dogmas: magmas humanos.

 

Cabral sevilha andando...

Gaudí saúda Goya Velázquez

arquiteta touradas na pedra

– mosaicos do touro madrilenho.

 

oh Espanha dolente e rubra ao sol

há guernicas em cada canto do mundo.





Do livro "Poemas", 2024/2025 (no prelo).


 

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Iate de Núpcias

se para e boia

âncora não, navio sim

se desce e para

âncora sim, navio não

se ar e lata, celeste

âncora não, navio sim

se sal e alga, marinho

âncora sim, navio não

se freme, atlântico

âncora não, navio sim

se funda, pacífico

âncora sim, navio não

se noite, côncava, emersa

âncora não, navio sim

se lasciva, convexa, imersa

âncora sim, navio não

se náufraga, una, úmida

âncora sim, navio sim.


Do livro "Questão de íris", 1997.

 

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O Caracol

 

Ali no quintal

(onde a flora desembesta),

faz pirueta a ondadura

sobre língua muda, que desliza

– antenada escultura.

 

Bicho-trailer,

carregando um pôr de sol

– cristalino como a mágoa,

é lesma resignada em

rodopio, o caracol.

Bichinho tão casa e calma

tão doçura cepacol,

pelas folhas de hortelã:

caramujo, caramundo

escargô-tobogã.

Tão visgo e vidro,

a arquitetura de giros,

vê-se toda luz transpassada

pela carapaça-vidraça:

acesa, a carne lerda

sonha outonos verão.

Caramudo, caracol

(bioparabólica aspiral)

modelado a sal si bemol

furacão de osso, cor de arrebol.

 

Ah carrancudo caracol,

caramelo, agonia cachecol

que a mão do vento

em casca e cálcio, esculpiu

a cruz do bichinho:

 

pedra e redemoinho.



Do livro "Questão de íris", 1997.

 

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O Coqueiro

É tão coice e vento

esta espinha vegetal

de verde quase catavento.

Na copa do coqueiro

(sob o azul, apenas finge que fere),

a mão de espinhos espetando o firmamento.

É pura motriz: nervosa asa

fazendo-se abano e muitos

 

                                           tapas

 

“ – Asa, cavas o vento ou cavalgas?”

Moenda de giros alíseos

(não mói nem trava)

roda tão maremoto, chicote sem dor

só esmerilha o vento, sem mágoa.

Folh-asas: espetadas em vão

e do chão

por uma perna fixa, quase tão curva

de tão perene e parada.

Tão inocente e dócil

assim é o coqueiro

seus cachos de pedra verde

entre folhas de bravura e afago

– quando a ventania compõe este azedume

de palhas ainda tenras, finas

costelas assustadas.    

 

Oh palhas tenras

sem sonhar cobertura alguma ou feno raro

mas já garimpam o ar, o nada

em seu esperneio de aflição represada

são folhas ao vento:

asas sem pássaro.

 

E assim,

querer-se fuga e voo

onde só há prisão,

o coqueiro e suas folhas

(verdura e convulsão)

num bamboleio sibite, som somente

sonhando um dia, serão só vento

sem fruto, sem folha, sem asa, sem nada.


Do livro "Litorâneos", 2016.

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Nano

pende a amora

no fino galho

oferece-se à manhã

seu novelo escuro

rubros do rubro

de açúcar e gominhos

ô frutinha

indefesa aos insetos

dança à asa do colibri

 

balança senãos e sins

o pontinho carmim

minicérebro:

que pensa, que ri?

entre verdes foliares

oferece-se em sacrifício

sua jujuba frugal

à fúria temporal
 

ô
 

meteoro

nino, pequenino

ao chão

ao formigueiro-carnaval.





Do livro "Poemas", 2024/2025 (no prelo).
 

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