Lista de Poemas
OS CORTEJOS NÃO TEM FIM
VOCÊ É DAMA ESTA NOITE.
Luar ...
E seu olhar febril
Ninguém pra ver...
Alguém caminha na encosta
Alguém espera na estrada
E você vai
É dama esta noite
Quer cavalgar pra onde?
Não é uma fuga e você sabe
Sem lugar algum pra ir...
Ceifando os girassóis desorientados no escuro
Olhar felino e crepuscular
Você é a dama esta noite
A corte a segue
A corte a persegue
O cavaleiro andante se perdeu
Não é um lugar de fabulas este aqui
Sapos falantes la no pântano
Não geram príncipes com beijos seus
Ogro na floresta?
Bruxa ao norte?
Nada...
Você é dama esta noite
Tenha bons modos no banquete
Tantos reinos a corteja-la
Nenhum plebeu pode ver
Caminha pelo jardim altivamente
Até Titânia tem inveja...
Ela lhe esconde do falcoeiro
Sentiu seu ciume,não sentiu?
Você é a dama esta noite
Anda pro castelo em meio as nuvens
Se existe um "Rei Sonho" ele esta la
E ele sabe que vale a pena a espera
Canta então pro céu de estrelas
Canta então pras constelações distantes
Você é a dama desta noite
É a lenda que surgiu
Chaves do reino em suas mãos
Desejo e fogo em seu seio
A arder...
Você é dama desta noite
Insaciável ...
Inconfundível
Esta noite...
Luar...
E teu olhar febril.
ESTA É MINHA HISTÓRIA(OU EU ESTAVA LÁ)
Eu andei no fio da lâmina
Em dias sem medo nem trégua
Bebida barata e substâncias no sangue
Eu chorei no vazio profundo da madrugada
Onde os olhos que me viam estavam mareados de pó
Eu senti a fome que só o ódio pode provocar
E eu golpei tantos rostos indistintos que a memória borrou
Nunca fiz juras nas minhas horas sombrias
Mas desferi vinganças mesquinhas
Existe alguma que não o seja?
Respirei o ar miserável do beco
Andávamos vagando
Nunca chegamos a lugar algum
Contei mentiras a ouvidos ansiosos
Estava la quando a faca cortou o antebraço
Estava la quando o golpe quebrou aqueles ossos
Ouvindo Ozzy bem louco
Consumindo o sexo sujo da ocasião
Espumando a boca hedionda e perversa
Gritando nas ruas...
Batalhei por causas inúteis
Quantos queixos quebrados e olhos vazados naqueles dias?
Quantas consequências pra colher ?
Eu carreguei calado as garrafas pro quarto quando ninguém podia ver
E ninguém via nada naqueles dias...acredite...
Quando o vandalismo era minha voz as vitrines das lojas tinham que ouvir
Estilhaços nas calçadas meu legado...
Imbecilidade fodida na cabeça meu valor
No coração só magoas...
Eu estava la quando os camburões levaram os mais afoitos de nos
E hoje sei que foi bem feito...
Eu estava la quando os esquifes esconderam do mundo os mais loucos de nós
E hoje sei que já foram tarde...
Eu estava la nos dias em que tudo era selvagem
Eu estava la nos dias em que tudo era treva
Alguns ainda estão lá...
AGORA EU ESTOU AQUI.
O ESMERALDA LHE CAI TÃO BEM
Eu vi tanta chama em teus olhos que tremi
Paixão ...tenho medo!
É verão aqui em meu peito
Algo arde ...
Algo incandescente
Paixão...tenho medo!
Eu queria esquecer o teu sorriso
Eu tentei fugir do teu olhar
A cor esmeralda lhe cai tão bem...você sabe?
Não a ouvi cantar
Não é preciso...as melodias do mundo estão em tua voz
E você diz..."eu vou"e eu sei que vai
E luto pra me calar
Mas não calo
Não calo...
Digo..."vou também"
Foi você quem tocou as flores da terra?
Foi você quem contou as histórias de ninar?
São fantasias você sabe...
Talvez feitas pra você em alguma realidade de sonho
Ouvi dizer que os rios murmuram segredos em noites serenas
O que sabem eles a teu respeito?
Ouvi dizer que as florestas te acolhem em seu ventre
Verde por todo o lado em harmonia suprema
E o esmeralda lhe cai tão bem...
Paixão...tenho medo!
Eu já caminhei na chuva esquecido das coisas mundanas
A mente vazia de cotidianos mas inundada de teu ser
Ouvi ao longe a tempestade
Esperei por ela na varanda
Que ela venha...tenho você
Paixão...tenho medo!
Existem caminhos por onde as coisas podem fluir
Distâncias que a vida pode percorrer
Estendo a mão pra poder tocar seu rosto
A nuvem mais alta roça imaterial na montanha
O por do sol tinge de vermelho as arvores frondosas
Um verde vivo quase respirando
Coração disparado incontrolado
Paixão!
O esmeralda lhe cai tão bem.
NENHUM FIM
Como a face desbotada de um ancião doente
Senti o frio que o vento trouxe
Era um vento de inverno assombrando nossa primavera estéril
Eu toquei os desejos secretos que pude perceber com o tempo
E cortejei o tempo de um tempo que não podia ser meu
Por que meu relógio não sussurra mais horas exatas?
Quando foi que perdi o discernimento do que era real?
E nas madrugadas torpes de mulheres sujas e bebidas baratas...
Eu me entreguei a buscas que não faziam sentido
Eu soube da noite em que o vomito secava na calçada
Eu soube do fedor podre que a boca desdentada da madrugada exalava
Eu soube de tudo...
E caminhei insensível por tristezas nauseantes
Torturado por melodias que nem BIRD poderia tocar
Ressoavam em minha mente canções que não podiam ser interpretadas
O céu escuro cobriu-se de um êxtase sem cor e dobrou-se
Eu vi o cavalo negro que trazia a fome...
Um ser sem sexo sem paixões e sem vontades
Apenas a natureza crua do que deve ser executado...
Senti a ânsia faminta de tantos ardores...
Fome de viver...
De devorar...
De gritar...
Eu vi os mitos mortos e ainda insepultos em longos e trágicos cortejos
Cobain calado e triste com gosto de heroína na cabeça
Ginsberg sem auto poesia gay e abusada
Blake sem mais palavras
Tudo é vastidão morta
Tudo é terra estéril
Tudo é sonho sem alma
Crias da morte
Morcegos de pesadelo
Eu vi tudo
E segui a margem sem flores nas aleias
Sem nem mesmo uma reles rosa ainda que negra e murcha
Eu andei conformado sabendo que esta era minha jornada
Ruas antigas vincadas de mistério
E nenhum fim.
MACIEIRA
Não será agora tempo de maçãs é isto?
Podia jurar que as vi no mercado
Rotuladas separadas e etiquetadas
Demarcadas pesadas e arrumadas
Podia jurar que as vi no mercado sim!
Mas a macieira negou-me seu fruto
Logo a mim que a reguei dia após dia sem falhas
Cuidei do solo onde ela cresce
Afastei os pássaros tão danosos
E as lagartas?
Oh macieira não me diga que esqueceu as lagartas?
Bichinhos famintos e impiedosos a devorar tuas folhas
Eu as combati...
As afastei
Cansei achei que estava tudo perdido
Você viu não viu?
Mas no fim... triunfei!
Mas a macieira... ha esta macieira...
Não me deu seus frutos
Eu a vi La fora nas intempéries
Os ventos do sul salgados de mar a fustiga-la
A neblina baixa tomada de maresia a cobrir-lhe
Eu vi a tudo e me preocupei
Cuidei para que as folhas velhas e feias não toldassem o chão onde vive
Retirei os galhos mortos
Afugentei os cães que queriam demarca-la
Bem... afugentei na maioria das vezes ao menos
Bem sabes macieira que aqui ha cães demais
E eu tenho horas de menos
Algum gato vadio em teus galhos?
Eu o enxotava
Um único ninho de canário na primavera?
Confesso eu permiti
Pássaro belo quando livre o canário
Cantou pra você e lhe mostrou o milagre de sua vida nascendo
Fui zeloso macieira...
Mas a macieira negou-me seus frutos
E agora o que fazer com tanto tempo?
Todas as horas e dias e meses que entreguei a você?
Todo o meu pensamento positivo
Todos os planos e sonhos pra tuas frutas?
Sem Eva nem serpente no meu quintal
Sem madrasta má ou branca jovem por aqui
Guilherme Tell aqui jamais esteve
Éramos só você e eu macieira
E teus frutos
E os doces vindos deles
Quem sabe talvez algumas tortas
Issacc Newton teria amado tua sombra
Pra pensar em gravidade e quaisquer outras coisas em que ele pensava
Já eu sempre quis tão pouco macieira tão pouco
Só ler um pouco abrigado sob você
Colher em minhas mãos vez por outra uma maçã
Tanto te dei
Tão pouco pedi
Esperei...
Mas a macieira me negou seus frutos!
Na próxima certamente tentarei uma laranjeira.
EU ERA O DECIMO
Nove antes de mim...
Todos jovens e selvagens
Todos corajosos e indóceis
Todos melhores que eu
Eu fui o décimo...
Fiz o que fiz depois dos outros nove terem feito
Senti a terra entre meus dedos...
Senti o cheiro ocre do mato...
Meus ouvidos cheios das suplicas dela...
A meu redor burburinho indecifrável
No horizonte os clarões das bombas
E os estrondos...
Nenhuma piedade na minha cena
Éramos dez...
E eu fui o décimo...
Se saciei alguma fome naquele dia não foi a da carne
Não foi a da luxuria...
Foi apenas a selvageria
Fui apenas besta...
Animal sem amor só instintos...
A moça tremeu em meus braços...
A moça gemeu em meus braços...
A moça sofreu em meu domínio...
A moça chorou certamente...
Mas eu não vi
Não pude olhar-le o rosto
Era a guerra...
Eram dias de batalha e fúria
Momentos de chama e ódio
Só amigos ou inimigos a minha volta
Só o comando de meu capitão
Só a batalha a caça o caos e morte...
A moça era inimiga...
Assim disse o capitão
Assim concordaram meus companheiros
Era inimiga não merecia cuidados
Eu assisti os outros nove...
Um a um saciarem sua fome brutal no frágil corpo dela
Pensava em minha mãe que me criou pra ser honrado
Pensava em minha irmã que devia ter a idade da moça
Tudo em mim cada fibra cada sentimento em revolta contra aquele ato
Mas os nove se sucederam
Todos foram a ela e todos voltaram
Todos sorrindo e saciados
Todos me olhando...
Esperando...
Cheio de horror e nojo eu hesitei
Pensei mil coisas
Mil palavras...
Mas fui...
Fui o décimo.
Eu a vejo
Divagando com taças de vinho
Só o álcool como conselheiro
As coisas não estão tão ruins assim garota
Às vezes vejo você na roleta russa
Tentando adivinhar onde esta a bala
E quem será o próximo?
Não devia ser assim
Não precisava
Você já da sinais de cansaço
Perdida entre a conversa e a cerveja
Absorta em fumaça de maconha
E um mundo idiota
E eu a vejo voltando na madrugada
Andar trôpego a boca borrada dos beijos
Da noite
Às vezes desgastada das trepadas
E diz chorando ao espelho que esta foi
Uma noite vazia
Sem perceber que assim (vazias)
Foram todas as outras
Eu a vejo repetindo isto ate o fim da vida
Não se diverte, mas ri nervosa.
Negando que dói
Achando que passa com uísque
Eu a vejo roubando prateleiras nos supermercados
Só pelo prazer ou pela fama
Sua turma fazendo barulho dentro de um carro
Você achando que tudo e perfeito
Eu a vejo chorando no escuro do quarto
E sempre assim quando você desperta
E tudo ainda esta La
Eu a vejo nos braços de um cara
Ontem era outro
Quantos serão ate o fim da semana?
Quando e que você vai encontrar o que procura?
Será que sabe ao menos o que é?
Eu a vejo nua no Box do chuveiro
Sentindo a água cair
Levando consigo os dias passados
Eu a vejo com rasgos nos pulsos
Água tingida de escarlate levando sua vida para o ralo
Eu a vi desistir naquele dia
E chorei de tristeza
Agora caminho sozinho nas ruas
Não a vejo mais.
TINHA TETO DE ZINCO
Ouviu a chuva no telhado
Tamborilar, tamborilar
Engolindo os sons da casa
Tinha teto de zinco
Ouviu o trovão La longe
Fechou os olhos assustada
Aguardou o raio...
O raio... não viu
Tinha teto de zinco
Perguntou-se se La fora agora era granizo?
Poc, poc o que seria?
Tinha teto de zinco
E paredes de madeira carcomida
Morava com os cupins que viviam nela
Dois gatos rajados na sala
Mas sem gaiolas
Nenhum pássaro
Tinha teto de zinco
E um quintal longo e estreito
Nos fundos bananeiras
Nos canteiros margaridas
Nenhuma rosa
Não tinha rosa
Queria a rosa
Tinha teto de zinco
Ouvia o vento na casa
O sentia nas frestas das paredes
O vento carregava detritos
Tinha teto de zinco
E uma enorme janela antiga
Perscrutava o céu assustada
Não via a lua
Não havia lua
Só tempestade
Tinha teto de zinco
E uma vela acesa embaixo da mesa
Como a mãe lhe ensinara
A tempestade caia La fora
Tinha teto de zinco
Ouvia o dilúvio no teto
Longa noite pra ela
Longa noite.
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