Lista de Poemas

Hábitos

Acordar sobre pedras deslizantes
Trabalhar colares de dados no pescoço
Beber água de cirurgia
Adoçar o café dos cães
Descascar cebolas com tesoura de cabeleireiro
Palitar os dentes com uma foto de feto
Quando a morte chega, a vida não passou de um susto
Hábitos
Confeccionar fogueiras de laranjas
Violar molduras em quadros brancos
Soletrar canções indigentes
Exibir medalhas de chumbo em colares de dados
Esculpir um mudo na Torre de Babel
Quando a morte chega, a vida não passou de um susto
Habito hábitos
Tragar
Estragar
Crivar a noite de insanidade embutida
Poetizar a incoerência de um pardal na poeira
Fiscalizar o estado do gelo
Espantar um espantalho com espelho
Óbito
Quando a morte chega, a vida não passou de um hábito

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👁️ 231

Plano cartesiano

A luz da lâmpada cobriu meus temperos
Já não encontro minha doença dentro do pote
Procuro em vão, um dia sóbrio na geladeira
Comprei bolo de formiga, chá de astronauta
Um chiqueiro novo, ferraduras de anjos
Uniformes despejados, cinzeiros desbotados
Alqui mia, cheia de bigode e pose
Está tão gorda e peluda quanto seu dono
Encontrei alguns remédios contra-indicação
Quando bisbilhotava a construção ao lado
“Ei” gritou-me o proprietário lá da rua
“Se acabar com minhas pílulas
Sou bem capaz de comprar um pato e um tapete”
Já não encontro minha doença dentro do pote
A luz da lâmpada, a luz da lâmpada
Alqui não veio mais aqui
Procuro em vão, um dia sóbrio na geladeira
Comprei molho de algodão, rocambole de eutanásia
Fissuras cerebrais acrobáticas, miúdos elétricos
Ultrajes simbólicos, medo do escuro
Encontrei um pato e um tapete
Quando bisbilhotava a construção ao lado
“Ei” gritou-me o proprietário lá da rua
“Se acabar com minhas pílulas
Sou bem capaz de comprar um pato e um tapete”
Já não encontro minha doença dentro da lâmpada
Procuro em vão, um dia sóbrio no pote
Alqui mia, algo dão
Alqui mia, algo dão
Alqui mia, algo dão
Alqui não veio mais aqui
Se Alqui mia
Algo dão

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👁️ 226

Espectrorante

Alimentando as águas
Com iscas de peixe
Afogando os raios
Com isopor em lata
Entregando ao desenhista seu retrato feito a mão
Na plena galeria de pinturas em borracha
Ao vivo, um lampejo histérico insular organizado
De olhos especificamente cardíacos
Na aurora servida em casca sobre a pedra de roseta
Espectrorante
Cativo e batizado
No toque de recolher aos catarros siameses
Rebanho único na ponta do lápis
Aqui jaz sua obra
Acolhemos a loucura assim como ela nos acolhe
Desenhamos a inconfundível voz do vento
Que nos eleva no primeiro sopro
Assim,
Um poeta fantasma
Um poema cuspido

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👁️ 201

Miríade

Quietos
Recebo uma baforada de cigarro na cara
E logo após, uma risada branca, iluminada
“Hahahaha, vi Oz!”
Não reajo
Não tiro os olhos da sombra
Na parede
Os botões secos dos lírios mortos
Criam essa face
Soprando um apito
“Vi Oz! Tenho um pedido!”
O vento balança o pote cheio de terra
Os lírios estão mortos mas dançam
O apito cai da boca
Volta pro nariz
A sombra jorra um líquido
O homem é banguela
E careca
Mesmo assim canta
Sem encostar a língua no céu da boca
“Tem o quê?!” Pergunto
“Tenho um pedido Oz”
Quietos
As roupas estáticas no varal
Trégua
O apito na boca
“Qual pedido?”
“Quero que mate uma barata”
No outro dia
Enquanto meus cabelos caíam
No chão do banheiro
E uma barata era velada
Dentro do lixo
Enrolada num papel higiênico
Eu lembrava daquela face
Apitando conforme o vento
E cantando sem tocar a língua no céu da boca:
“Os navios partiram deixando as âncoras
Somente quando quiserem atracar
Saberemos o peso delas”
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Metástase

A carta na manga
Com o assovio desfalcado
Dilacerando os espaços dos dentes
Assim se curva o desprovido confete mercúrio
Ao se deparar com Críton sonâmbulo
Ajustando a ferradura da fuga
No cachorro Bartolomeu
A carta na manga
Como uma imensa lamúria aos pés de Péricles
O choro que o mar despertou e jorrou
Por entre as antigas cantigas de ninar
Que assustaram primos, ao ponto de vê-los estáticos
Nos seios fartos da tia Melinda
A carta, a manga
A fivela e o coração de vaca
Aspirante ao título de jovem audaz no cemitério voador
Aspirado pelo prepúcio de Zeus
Tornando-se gêmeo siamês do Holocaustrofóbico
Caem paródias, caem sonetos, caem morcegos
Miro a recém formada imagem do cabeça de porco
Vou até Boccaccio, sucumbo à peste 
Me vejo dentro da marmita do besouro
É feijão, arroz, carne e alface
O sabor é delirante se não mastigado
Está calor, úmido, e a rua parece investigar seu passado
Empresto uma nota de dez
Durmo duas horas
Descongelo a geladeira
Estendo as roupas
Prescrevo meu dia
Como sempre,
Pela última vez
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libélula

a libélula de uma cor estranha
batendo asas de olhos fechados
eu falhei em contemplar tanta beleza
mas ela continua
está tão perto
que me espanta pensar em respirar
e espantá-la
não estamos conectados
estamos frios
dançando um tango estático
suas asas aceleradas fazem um som ininterrupto
vupt, vupt, vupt, vupt, vupt
rápida como o laser da animosidade
vácuo vago
chacina empírica
vivemos na velocidade da vida
mas fomos ultrapassados pela morte
respiro fundo e a libélula não se move
nosso quadro sem pintor
cuspiram nosso momento íntimo
ela mantêm-se em equilíbrio com o ar
eu vendi o futuro de três pessoas
vupt, vupt, vupt, vupt, vupt
minimizo os detalhes
agonizo nas possibilidades
demarquei um território inóspito
onde sangue é ingrediente para o alivio
esse inseto rodeia plantas verdes em formato de coração
talvez queira um daquele tamanho
talvez encare aquilo como bundas em pé
vendi o futuro de três pessoas e não ganhei nada
pelo contrário, pago até hoje
minha libélula não sabe disso
desconfia
mas sou tão grato pelos momentos
que me recuso tentar cortar suas asas
então de olhos fechados
nos despedimos
e voamos baixo, unidos
pra lugar nenhum
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Poemarcenaria

Quando as veias apertam
O martelo bate o sino
E o sol nasce
Gracioso 
Como borboletas no sal grosso
Quando as veias rasgam
O escárnio é doce
Como um favo leproso
E o sol se põe
Entre mercadorias baratas
Sócrates suicidou-se por acreditar na justiça
Jesus pensou tanto crucificado 
Que coagulou sangue na boca
Vestígios nos sons do telhado
Morte lenta a criar raízes
Nas marmitas do absurdo
Teatro de uma cena congelada
Piada contada em bocejos
A lua nasce dentro de um chupão
Navega nas cerâmicas do peixe
E ri nos relâmpagos de um vulcão
A pena
Há pena
Apenas
Casacos cheios de furos dos cigarros
Consórcios
Com sócios
Labaredas do suicídio coletivo
O papagaio grita:
“Existe vida na gaiola, existe vida na gaiola, existe vida na gaiola”
Novamente o despertador é programado
E se acorda um minuto antes
Do poema

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Sobre nada

Mesmo que o grão disseminado 
Conteste a singularidade do plantio
E a terra em desuso 
Combata o florescer obscuro 
Delírios ácidos acentuarão
Debalde, a irrigação nos poros
Latentes em cada movimento 
Mesmo que imortalizar os vícios
Signifique simpatizar a paranoia
Ramas plácidas infinitas
Ainda codificarão o instinto
E os pressupostos doutrinarão a culpa
Se os sapos tivessem asas
Não bateriam com o traseiro no chão
Sempre que pulam 
Mesmo que as pupilas dilacerem o razoável
E as bigornas sirvam de peso para papel
Alguma coerência ainda restará
E vibrará como uma víbora
No forno aceso
Jogar fora a própria vida 
Significa usá-la da melhor forma
Mesmo que confrontar medo com medo
Seja um blefe da consciência
A confusão enrijece o apetite
Por tudo que se ganha sem razão
Admita que sempre foi hipócrita!
Sendo hipócrita, como posso admitir?
Ousar ou usar
Se em qualquer momento da minha vida 
Eu depositar toda minha esperança em alguém
Então podem ter certeza
De que perdi a esperança
Mesmo que nada seja atributo de tudo
Tudo que se escreve sobre nada
Sobretudo
Sobre nada, esse poema
Não quer dizer tudo
Um peixe de sobretudo
Nada nada
Em seu aquário

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vivendo em vórtex

um muro
pula
se pendura com as pontas dos dedos
ergue-se com dificuldade
espia
sacode as pernas até subir
olha o horizonte
com pose de estátua
salta
corre segurando a chave no bolso
tilim tilim tilim
tem moedas na carteira
outro muro
acende um cigarro
repete o feito do muro anterior
outra estátua cinco minutos mais velha
olha embaixo dos pés
tem um curativo ortopédico grudado no sapato
retira, gruda as moedas e a chave 
para cessar o barulho
salta 
corre piscando um olho só
outro muro
outra estátua 
outro cisco
outro oponente de mesmo nome
pergunta
por acaso não nos vimos já no décimo primeiro muro?
que muro?
ultrapassa 
sabe onde quer chegar
corre, corre, corre…e espia
pensa
se Deus existe é problema dele

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Homeoprático testamento do voyeur analítico dos ecos urbanos

Já assisti, ao lado da margem
Onde aves de grande porte
Bicos compridos e negros
Pernas altas e secas
Observam os jacarés das costas reluzentes
Com pingos de amarelo
Boiarem na exatidão do tempo
Como se o homem fosse, enfim
A trégua do caos
Com máscaras de carne
Eu vi, eu vi
Peixe enroscado na rede do pescador
A terra molhada tem outro sabor
O coldre do vento chamou-me
Olhei para trás
E a avenida que liga duas ilhas
Caiu sob meus pés
Todo seu ouro fermentado nos relevos da subordinação
Abutres no campo de centeio
Sentei-o
Meu desprazer em forma de mácula
Homeoprata
Que palavras foram aquelas?
Que gritadas diminuíram o corredor da morte
Muros desabados e pedras marcadas pela água
A sereia ceifoi-se
Deixando uma trilha imaginária
A quem não lhe pertencia
Fez sol hoje
E a caricatura de Deus sorriu
Eu vi, eu vi
A cortina balança
Ergo a cabeça
Tem dois olhos ali
Um gato preto sentado na minha janela
O que ele quer?
Entrar aqui?
Há tantos lugares melhores para estar
Ameaçadoramente estático, menos o rabo
Dou de ombros à sua presença
Acendo mais um cigarro
Sigo o ventilador por duas voltas
Com o pescoço meio pendido para à esquerda
Vou até a sacada e sento no chão
Horário de verão
Claridade 20:00
Têm dois olhos ali, ali, ali e ali
E aqui
Observando observado
Ecos urbanos
Os jacarés deram sua sentença
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Comentários (1)

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billygancho
2019-07-08

Muito bom.