Lista de Poemas

Sem Saída


Sem Saída

Paulo Ferraz de Oliveira


Ficou um ar sem vida, um céu sem cor;
Ficou um gosto sem gosto, um cheiro de tristeza.
Ficou um sorriso sem graça, uma desgraça sem culpa;
Ficou uma fraqueza sem queda, uma queda sem dor.
Ficou uma dor sem doença, uma doença sem cura;
Ficou uma ânsia sem resposta, uma resposta sem nexo.

Ficou o nada, sobre o tudo do meu amor.

Ficou a flor me olhando assustada,
Temerosa de que eu a matasse.
Ficou aquela lágrima indefesa sem ter um abrigo pra se esconder;
Ficou aquela noite perdida no tempo,
Ficou aquele tempo perdido no nosso mundo.
Ficou um mundo de breves encantamentos,
Ficou o encanto de eternos momentos.

Ficou aquele vento enamorado que se recusa a ir embora,
Ficou um coração em pânico sem tuas doces carícias de outrora.
Ficou o paraíso utópico, nos sonhos da madrugada;
Ficou a madrugada fria, nos pesadelos da saudade.

Ficou uma saudade, sem saída.

Ficou tudo que deixastes em mim
Como as estrelas que tu vês nos céus.
Elas aparecem radiantes no crepúsculo, enfeitando a noite,
Para despedirem-se do mundo logo depois, no alvorecer.

Assim ficastes em meu mundo.

Porque na vida tem coisas que não chegam e nem partem,
Apenas ficam.
Como a esperança inesperada,
Como a chance desperdiçada,
Como a mensagem que foi perdida,
Como teus olhos ficaram em minha vida.
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Inventário de um Cândido Povo


INVENTÁRIO DE UM CÂNDIDO POVO

Paulo Ferraz de Oliveira



Cândido Sales, berço esplêndido!

Cândido é o amor de teus filhos.

Filhos que de ti nasceram, filhos que em ti cresceram,

E se foram para outras terras, jamais de ti esqueceram.


Cândido Sales, conquista interminável!

Serias tu a Nova Conquista do sertanejo necessitado

Dos humildes que depositaram em ti suas vidas secas.


Mas não eram tão cândidos teus candidatos!

Conquistaram tuas terras com a avareza do latifundiário,

Exploraram tuas riquezas com a ganância do mercenário.


Cândido Sales, gente de labuta!

Gente pacífica que pela sobrevivência luta

E pela brava fé da esperança desfruta.


Cândido Sales, entreposto de tradições culturais!

Vieram teus colonizadores e por ti se apaixonaram

Talvez pelas águas pardas do teu incansável rio,

Ou pelo espetáculo da rodovia que em teu ventre resplandece.


Não vieram alemães, nem italianos, nem tampouco sulistas;

Mas vieram os nordestinos, cabras da peste, homens e mulheres de coragem

E, caprichosamente, os irmãos do norte fazem parte da nossa bela imagem.


Cândido Sales, milho e mandioca!

Abres orgulhosamente a cortina árida do Nordeste Brasileiro,

Não só nos mapas de Geografia ou no discurso do poeta,

Mas nos seus costumes, suas tradições, sua pobreza.


Na farinha do baiano, no Cuscuz do pernambucano,

Na peleja, no suor, na alegria e na tristeza nossa de cada dia,

Todos se misturam numa só paixão,

Candidossalenses de alma e coração.


Cândido Sales, romântica promessa!

És uma jovem donzela acanhada, ávida de sonhos

A solidariedade é o trunfo do nosso povo, virtude rara;

A politicagem é nossa ferida exposta que não sara.


A feira é a nossa garota dos olhos, nosso chamego semanal

Na segunda feira, a cidade inteira desce jubilosa à Praça do Mercado

Ali na feira, a eloquente arte da sobrevivência comercial

Ofusca a elegante conferência das damas sobre o novo boato espalhado


Nas barracas exaustas, pulsa e acelera o coração da nossa terra,

Se a feira incomoda os lucros do lojista estabelecido

É a única porta aberta para o sustento do povo sofrido


Cândido Sales, ciranda de ilusões!

A vibrante Rio-Bahia é o teu motor. De dia e de noite.

A aflição, o paraíso; o sonho e o pesadelo.

Vidas e mortes se entrelaçam nesta gigantesca estrada

Estrada que é a nossa própria aventura de viver.


Às marginais da nossa Rio-Bahia, também "briquita" o povo

Os ofícios são antagônicos, o sofrimento é o mesmo.

A turma do óleo em sua correria interminável dentro de macacões esburacados

Os borracheiros com seus macacos incansáveis, dentro de clínicas de pneus furados


A famosa beira da Rio-Bahia, nosso oásis de prosperidade!

Se o movimento cai, a cidade inteira queixa a calamidade

Menos as prostitutas, que apesar de darem descontos

Lideram o mercado interno e externo.

Mas diz a lenda que a mais bonita logo enriquece e vai embora

Frustra a freguesia e parte pro Sul para ser uma distinta senhora.


Cândido Sales, esperança dolorosa!

A ponte do Rio Pardo é um monumento do progresso sobre nossas águas;

Última lágrima dos que partem para o exílio, exangues, em busca da sorte

Primeira alegria dos que voltam, após a saudade os sufocarem de mágoas.


A nossa velha Ponte, tão surrada, tão massacrada anos a fio

Hoje não tem mais o outrora pujante e generoso rio

Abrigo de pobres e andarilhos, balançou mas nunca caiu

É ponte federal, mas Brasíla parece que nunca a viu

No Planalto não se sabe que nessa parte do país,

Tem um povo honesto e trabalhador sem oportunidade de emprego decente

Ah, se essa Ponte caísse, Brasília conheceria a história dessa brava gente.


Cândido Sales não conhece fila de desempregados.

Não temos esse privilégio concedido aos pobres de cidade grande.

Pobre daqui entrava na fila pra fazer caridade.

Para ajudar o miserável mais pobre na Rádio de Seu Geraldo.


Cândido Sales, comunidade solidária!

Se hoje não tens mais a Rádio Difusora clamando "vamos fazer caridade"

Não é por falta de necessitados.


É porque a modernidade consumista não tolera a exposição da miséria,

Se a voz agônica do seu Geraldo nos incomodava,

O silêncio cúmplice de nossa hipocrisia social obstrui a nossa artéria

Nossos olhos testemunham a nossa indiferença, desconfiados

E gloriosamente moramos mais perto de Deus

E cada vez mais distante de nossos ilustres deputados.
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Por Falar em Amor

Queria te dizer coisas banais,
Tudo aquilo que dizem para as belas mulheres.

Queria te ouvir me dizer frases garbosas,
Tudo aquilo que dizem para os artistas de novelas.
Todos os caprichos que as estrelas têm nos lábios,
Tantas loucuras e fantasias
Todas são tão vazias.

Você nada me disse,
Você não era simplesmente mulher...
Era uma forma de expressão do próprio amor,
Era a complexidade linda de uma flor.

Você era a arte pacífica da natureza
Se refugiando no acalanto íntimo do seu vazio,
Diante da selva atemorizante dos homens,
Numa fuga incompreensível buscando sufocar a agonia.
A agonia da sensibilidade do seu puro coração.

Você era a filosofia da paz, a lógica da solidão.
A estranha sensação de estar presa em sua própria liberdade.

E por isso...
Nada me disse...

Eu não pude te dizer,
Nem com as palavras mais dramáticas,
Nem com o silêncio mais agudo,
nem com o beijo mais amável,
Nem com o olhar mais profundo,
Eu não pude te dizer...

Talvez na lua ou no céu estrelado,
Ou mesmo nos teus doces sonhos,
Você ouça uma vóz lúcida e grave como um trovão,
Algo assim extremamente misterioso,
Como são os mistérios perdidos do coração.

Talvez no crepúsculo de uma longa tarde,
Ou na calma silenciosa da manhã,
Você ouça eu te dizer.
Ou ainda em qualquer lugar que ouvir falar de amor,
Você ouça eu te dizer...
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NAS ESTRELAS


Oh estrelas líricas, esferas de fogo
Outrora eu as sustentava em meus braços adormecidos,
Debruçados numa janela.
Mãos fechadas como que guardando o segredo do universo,
O céu me abria uma passarela,
Os sonhos alagando a lua com correntes, vendavais;
O frio cortante da saudade dela
A escuridão da noite, em silêncio
Acariciava-me feito os negros cabelos da morena
A formosura pintada em aquarela.

Oh estrelas que agora me olham fulgurantes
Reluz no teu céu chamas sem fumaça
Raios presos naquela noite teatral.
Hoje, brilham como jamais brilharam antes
Mas brilham menos que os olhos da morena
Quando me olhava celebrando a essência do amor
No relevo do seu corpo arquitetônico
Repousava a doçura de um reino encantador

Oh estrelas, não vão agora
Contemplem um pouco mais a ânsia dos corações perdidos,
E veja o encanto dela flutuar em meus braços,
E atracar em meu beijo, como um barco perdido que encontra o porto.
Resgatando meu desejo, colando meus pedaços

Oh estrelas, ainda vos invoco em última estrofe
Para que sejais testemunhas eternas das nossas frases de amor.
E se o amor se acabar, que esta noite jamais se acabe,
E que este brilho ultrapasse toda a vida com seu resplendor.
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