Lista de Poemas
Reflexo Nu
Arranco florzinhas de girassol
Pergunto
Por que não te despes também?
Arranco florzinhas de girassol
Pergunto
Por que não te despes também?
Tu gritas
Tu esperneia-te
Tu escabela-te com tamanha extravagância
Tu choras com a inocência
De não saber a razão de todas as coisas
Tu gritas com a inocência
De saber a razão de todas as coisas
Um feixe de luz entra em meu escuro quarto
Desprevenido fecho a cortina
Para ti não chorar
E espernear-te diante do sol
Arranco as florzinhas de girassol
Com um olhar de fulgor
Diante do espelho
E pergunto
Por que não te despe também?
Conflito em Silêncio
O suco amarelo do medo
Escorre escorre pelo chão
Virado em vermelho sangue
Que chega até as paredes
Criadas pelo senhor
Mas quem é o senhor?
Nem eu sou
Meu próprio senhor
Admito que sou vil
E uma das responsabilidades
Da liberdade
É lidar com a própria vileza
Como olharei nos olhos
Do senhor, agora?
Eu o reconheço
Mas não o conheço
Teu silêncio sangra-me
O corpo maltratado
E emaranha-se a razão
No desabrochado e rosado
Ouvido do céu
As veias clamam
Por perdão
E no fundo do olho do poço
Não sou tua imagem
Nem semelhança
Teu silêncio machuca-me
E pergunto se
Meu grito que rasga o céu
Alcança-te
Este é o silêncio que corta
a minha carne
e sangro-me alaranjado
A vida
A vida é como tu percebe cada intervalo de espaço-tempo
Cada detalhe cada átomo de existência
É uma caminhada
Em um escuro e gélido embrião de dúvidas
Que vamos nos aquecendo em uma grande lentidão
É a busca do reconhecimento da nossa consciência
Pela nossa própria existência
E o que resta aos que nunca se sentem aquecidos?
Como posso responder?
Quem dirá eu que sou um aquecido?
Não seria pretensioso de minha parte
Me considerar um aquecido?
Ser humano é ter a consciência
De que não temos controle de tudo
E se tivéssemos controle de tudo
Ainda assim seriamos humanos?
Mas ainda buscamos ter controle de tudo
É a busca que nos torna humanos
É o sofrimento da busca que é a luz da vida
Se eu fosse feliz o tempo inteiro
Me tornaria um bobo
Todos nós sofremos mas em graus diferentes
Isso também é a vida
Tua consciência perceber que existem diferentes graus
Em cada limite de espaço-tempo
É a tua consciência ter a consciência de que outra consciência
Sofre em diferentes graus
Ela percebe os intervalos de espaço-tempo
De uma maneira totalmente diferente da tua
Quantas vezes ao dia tu tentas ter consciência da tua existência?
A vida é pequenos fragmentos do tempo
Que se deslocam em um espaço invisível e intocável
Apenas sentimos
A vida é uma eterna caminhada
Em pura subjetividade.
Amor Surreal
Que iluminam a cidade
Dentro da minha cabeça
É tua voz soando como um violino
Como uma trilha sonora ao meu filme onírico
Me fazem esquecer o que há lá fora
Teu toque aquece e estremece
E todos os prédios dessa cidade
Tendem a cair
Tu deixas colorido até mesmo
O concreto cinzento
Tuas palavras fazem
Com que borboletas passeiem por toda minha cidade
Ferozes animais passeiam
Por todos os cantos
Tudo fica há solta na cidade
Aqui é sempre noite
Onde os animais passeiam e vivem em harmonia
Não há barulhos de carros
Ou fábricas fumacentas
Apenas rios e lagos cristalinos
Flamboyants amarelos, vermelhos
Margaridas e Rosas
Se misturam em meio ao orvalho
Na beira do rio que corre
Com uma lenta fluidez
E segue tomando outras formas
Para além da cidade
Em um longínquo campo
Informo-lhe que não sou mais o prefeito dessa cidade.
O Eu
Sintetiza minhas vontades e
minhas inclinações
clama por desespero a desesperar-se
para tocar a si mesmo
enquanto corre os rios entre meus dedos
por de baixo do guarda-chuva acima
de minha cabeça
escondendo o rosto trêmulo da ode
aos meus próprios erros
e a fumaça que exala de minhas mãos
não passa de uma mera tentativa
a não deixar que desmorone a montanha
da coragem ao desespero
Fluxo
beijo-te os pés amo-te
enquanto os infelizes anjos gritam
recordo-me da dor e questiono-a
junto aos emaranhados e desconhecidos
fios do amanhã
não amo meus inimigos
com a falsa espera de que há
a punição metafísica
mentira sacralizada
de baixo do cinzento céu
da insatisfação humana
que grita em nossos corações
sempre a espera da
infíma felicidade
e nunca questionamos aquilo
que nos faz feliz
a dialética consigo mesmo
amedronta
os vivos embalsamados pela sórdida existência
os mortos que estão vivos
despedaçam-se e preenchem-se
com o que podem
enquanto abaixam a cabeça
e o rio corre em seu fluxo
do qual nunca teremos certeza
O Conto de Madalene
- O que fazes por aqui? Não quero visitas de ninguém, pode se retirar, agora!
- Desculpe. - Ela respondeu assustada - Sou fotógrafa e estou de viagem para fazer alguns registros... Achei muito bonita a sua casa, percebe-se as plantas e flores tomando conta...
- Não me interessa nem um pouco! Muito menos o que tu fazes da vida! VAI EMBORA DAQUI, DEIXE-ME PAZ!
A garota assustada, decidiu ir embora. Mas a verdade é que ela se sentira extremamente atraída pela simples casa com suas flores e plantas dominando-a, criando formas e vida sobre as velhas madeiras que compunham a casinha. A garota que fora mandada embora, interessada sobre porque o velhinho morava lá sozinho e também interessada em tirar fotos da casa pela qual ficou maravilhada, decidiu voltar até lá todos os dias no mesmo horário e sempre, era mandada embora com o mesmo tom grosseiro do velhinho. Contudo, ela não desistiu até que o velhinho cedeu e a convidou para entrar para oferecer-lhe um café.
Ao entrar na casa, a moça ficou em um grande deslumbre, em um estado de embevecimento em como aquela simples casinha era linda por dentro, pequena e rústica com flores e plantas enrolando-se pela pequena casa. Ela extasiada, sentou-se lentamente no sofá cercada por pequenos girassóis, e inspirava e expirava com prazer o cheiro daquelas flores. O velhinho preparou o café e após servi-la fez um sincero pedido de desculpas:
- Peço-te desculpas, minha jovem. Vivo aqui sozinho há trinta anos e tu és a primeira pessoa em que entro em contato durante todo esse tempo. - Ele deu uma coçadinha na grande e grisalha barba - Digo com toda a certeza, eu perdi a sensibilidade em como falar com as pessoas e admito que senti medo, medo até mesmo de aproximar-me mais de ti.
Após beber um pouco do café a moça levantou-se e começou a reparar nos mínimos detalhes da rústica casinha, virou-se e disse:
- Estou acampando aqui perto e estava explorando a área... O senhor se importaria se caso eu fotografasse sua casa? Ela é linda...
Em uma imediata resposta:
- Acredito que Madalene não se importaria...perguntarei a ela antes.
Em voz alta, o velhinho perguntou olhando para o teto se Madalene se importaria com as fotos que iriam ser tiradas pela jovem.
- Madalene não vai se importar. - Disse o velhinho
Após uma expressão facial de estranhamento da jovem, ela capturou algumas fotos com grande maestria.
Todas as manhãs, a jovem voltava para conversar com o velhinho em sua rústica casinha, sempre admirada com as flores que habitavam por toda a casa. Até que uma certa manhã, a jovem perguntou curiosa:
- Gostaria de lhe perguntar algo...
O senhor parou o que estava fazendo e olhou-a de costas por cima do ombro
- Quem é Madalene? Venho aqui todos os dias e não encontro mais ninguém além do senhor.
O velhinho respirou fundo e disse:
- Madalene era minha esposa.
- O que aconteceu? - A jovem perguntou.
- Madalene morreu em um acidente de carro, há trinta anos. Desde então, eu vivo aqui. Madalene amava as flores, as plantas, a natureza. Amava a simplicidade.
O velhinho gritou em voz alta, olhando para o teto:
- Madalene, aceita uma xícara de café? - E o velhinho sorriu com fulgor.
- Todos os dias nesse horário, eu sirvo uma xícara de café para Madelene, deixando-a aqui em cima, na mesa. - Disse o velhinho.
Escorrendo lágrimas do rosto da moça ela caminha até a porta da casa. O velhinho se aproxima da moça e toca em seu ombro:
- Se importaria em tirar uma foto minha ao lado da minha esposa? Pode ser aqui mesmo, encostado na casa, ao lado dos orvalhos.
A jovem entregou a foto de sua Polaroid ao velhinho, e deu-lhe um abraço caloroso em uma calorosa despedida. E lá se foi o velhinho, em mais uma caminhada matinal, em busca de lenhas, para manter o coração de Madelene aquecido.
Brasa Brasil
Prestando homenagem ao sincopado
A vibração que não me deixa de lado
Desnudo minha alma ao samba
E ao tropicalismo que não me abandona
Me perco e me acho no Concretismo ávido sonoro
Vejo-me refletido e compreendido
Em teus aspectos mais sagazes e florescentes
Tão pitagórico quanto alegórico
És teu choro em teu ventre
O chorinho e o cavaquinho
Ah meu rico Brasil... que tu não caias
Outra vez nas amarras sanguinareas
E que não te prendam
Como um passáro enjaulado novamente.
O que há?
A paz seria aceitar a solidão
Ao caminhar pelos ciclos findáveis e taciturnos?
Me sentir confortável com os velhos sapatos na estante?
Lidar com tuas vontades seria
A resolução do sopro efêmero da modernidade?
O tempo também rompe laços
Com pessoas, lugares
E velhos amantes que agora enxergam
A pérola da vida semelhante ao estado
Em que flores desabrochavam sobre tua cabeça
Ideias que refletiam o futuro
Agora podem estar mais perto da tua alma substancial
Talvez não há nada o que esperar de volta
Talvez assim seja melhor
A astúcia de não esperar algo
Apenas o caminhar pela velha cidade
Ouvindo o barulho do sapato
"TAC" "TAC".
Barbarismo não-instintivo
Anseia por novidades inexistentes
Falsas ramificações da existência
Latéx extraído da seringueira
Também extraiu a vida dos verdadeiros donos
Escravos nos bastidores
E todos somos espectadores envenenados
Não é ficção
Não é surreal nem "Kafkiano"
É o obscurantismo que sempre
Circundou a humanidade.
Comentários (1)
lindíssimos e profundos versos brancos. dahora demais!
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