Conflito em Silêncio
Escorre da alma
O suco amarelo do medo
Escorre escorre pelo chão
Virado em vermelho sangue
Que chega até as paredes
Criadas pelo senhor
Mas quem é o senhor?
Nem eu sou
Meu próprio senhor
Admito que sou vil
E uma das responsabilidades
Da liberdade
É lidar com a própria vileza
Como olharei nos olhos
Do senhor, agora?
Eu o reconheço
Mas não o conheço
Teu silêncio sangra-me
O corpo maltratado
E emaranha-se a razão
No desabrochado e rosado
Ouvido do céu
As veias clamam
Por perdão
E no fundo do olho do poço
Não sou tua imagem
Nem semelhança
Teu silêncio machuca-me
E pergunto se
Meu grito que rasga o céu
Alcança-te
Este é o silêncio que corta
a minha carne
e sangro-me alaranjado
Amor Surreal
São teus afáveis olhares de farol
Que iluminam a cidade
Dentro da minha cabeça
É tua voz soando como um violino
Como uma trilha sonora ao meu filme onírico
Me fazem esquecer o que há lá fora
Teu toque aquece e estremece
E todos os prédios dessa cidade
Tendem a cair
Tu deixas colorido até mesmo
O concreto cinzento
Tuas palavras fazem
Com que borboletas passeiem por toda minha cidade
Ferozes animais passeiam
Por todos os cantos
Tudo fica há solta na cidade
Aqui é sempre noite
Onde os animais passeiam e vivem em harmonia
Não há barulhos de carros
Ou fábricas fumacentas
Apenas rios e lagos cristalinos
Flamboyants amarelos, vermelhos
Margaridas e Rosas
Se misturam em meio ao orvalho
Na beira do rio que corre
Com uma lenta fluidez
E segue tomando outras formas
Para além da cidade
Em um longínquo campo
Informo-lhe que não sou mais o prefeito dessa cidade.
O Conto de Madalene
Dentro da casinha de madeira vê-se claramente as plantas entrando pelas frestas subindo até o telhado, enquanto as florzinhas de girassol desabrocham no pequeno e velho sofá. No pé da mesa era possível ver as flores enroladas em seu encalço. E os antigos armários envoltos de gardênias. O cheiro do café exala como o perfume de uma querida avó, e os orvalhos ao lado acompanham o envelhecimento da casinha de madeira. É rotineiro olhar-se diante do espelho pela manhã e perceber seu rosto envelhecendo acompanhado de uma solidão da qual não envelhece e muito menos faz parte de uma juventude. Após a caminhada matinal costumeira em busca de lenha, o velhinho aproxima-se de sua pequena casa no campo e encontra uma jovem mulher. Ele, pondo em ordem seu surrado suspensório e seu chapéu metricamente calculado em sua cabeça após dar uma olhadinha para cima, pergunta a jovem mulher:
- O que fazes por aqui? Não quero visitas de ninguém, pode se retirar, agora!
- Desculpe. - Ela respondeu assustada - Sou fotógrafa e estou de viagem para fazer alguns registros... Achei muito bonita a sua casa, percebe-se as plantas e flores tomando conta...
- Não me interessa nem um pouco! Muito menos o que tu fazes da vida! VAI EMBORA DAQUI, DEIXE-ME PAZ!
A garota assustada, decidiu ir embora. Mas a verdade é que ela se sentira extremamente atraída pela simples casa com suas flores e plantas dominando-a, criando formas e vida sobre as velhas madeiras que compunham a casinha. A garota que fora mandada embora, interessada sobre porque o velhinho morava lá sozinho e também interessada em tirar fotos da casa pela qual ficou maravilhada, decidiu voltar até lá todos os dias no mesmo horário e sempre, era mandada embora com o mesmo tom grosseiro do velhinho. Contudo, ela não desistiu até que o velhinho cedeu e a convidou para entrar para oferecer-lhe um café.
Ao entrar na casa, a moça ficou em um grande deslumbre, em um estado de embevecimento em como aquela simples casinha era linda por dentro, pequena e rústica com flores e plantas enrolando-se pela pequena casa. Ela extasiada, sentou-se lentamente no sofá cercada por pequenos girassóis, e inspirava e expirava com prazer o cheiro daquelas flores. O velhinho preparou o café e após servi-la fez um sincero pedido de desculpas:
- Peço-te desculpas, minha jovem. Vivo aqui sozinho há trinta anos e tu és a primeira pessoa em que entro em contato durante todo esse tempo. - Ele deu uma coçadinha na grande e grisalha barba - Digo com toda a certeza, eu perdi a sensibilidade em como falar com as pessoas e admito que senti medo, medo até mesmo de aproximar-me mais de ti.
Após beber um pouco do café a moça levantou-se e começou a reparar nos mínimos detalhes da rústica casinha, virou-se e disse:
- Estou acampando aqui perto e estava explorando a área... O senhor se importaria se caso eu fotografasse sua casa? Ela é linda...
Em uma imediata resposta:
- Acredito que Madalene não se importaria...perguntarei a ela antes.
Em voz alta, o velhinho perguntou olhando para o teto se Madalene se importaria com as fotos que iriam ser tiradas pela jovem.
- Madalene não vai se importar. - Disse o velhinho
Após uma expressão facial de estranhamento da jovem, ela capturou algumas fotos com grande maestria.
Todas as manhãs, a jovem voltava para conversar com o velhinho em sua rústica casinha, sempre admirada com as flores que habitavam por toda a casa. Até que uma certa manhã, a jovem perguntou curiosa:
- Gostaria de lhe perguntar algo...
O senhor parou o que estava fazendo e olhou-a de costas por cima do ombro
- Quem é Madalene? Venho aqui todos os dias e não encontro mais ninguém além do senhor.
O velhinho respirou fundo e disse:
- Madalene era minha esposa.
- O que aconteceu? - A jovem perguntou.
- Madalene morreu em um acidente de carro, há trinta anos. Desde então, eu vivo aqui. Madalene amava as flores, as plantas, a natureza. Amava a simplicidade.
O velhinho gritou em voz alta, olhando para o teto:
- Madalene, aceita uma xícara de café? - E o velhinho sorriu com fulgor.
- Todos os dias nesse horário, eu sirvo uma xícara de café para Madelene, deixando-a aqui em cima, na mesa. - Disse o velhinho.
Escorrendo lágrimas do rosto da moça ela caminha até a porta da casa. O velhinho se aproxima da moça e toca em seu ombro:
- Se importaria em tirar uma foto minha ao lado da minha esposa? Pode ser aqui mesmo, encostado na casa, ao lado dos orvalhos.
A jovem entregou a foto de sua Polaroid ao velhinho, e deu-lhe um abraço caloroso em uma calorosa despedida. E lá se foi o velhinho, em mais uma caminhada matinal, em busca de lenhas, para manter o coração de Madelene aquecido.
O que há?
O que há depois da amargura?
A paz seria aceitar a solidão
Ao caminhar pelos ciclos findáveis e taciturnos?
Me sentir confortável com os velhos sapatos na estante?
Lidar com tuas vontades seria
A resolução do sopro efêmero da modernidade?
O tempo também rompe laços
Com pessoas, lugares
E velhos amantes que agora enxergam
A pérola da vida semelhante ao estado
Em que flores desabrochavam sobre tua cabeça
Ideias que refletiam o futuro
Agora podem estar mais perto da tua alma substancial
Talvez não há nada o que esperar de volta
Talvez assim seja melhor
A astúcia de não esperar algo
Apenas o caminhar pela velha cidade
Ouvindo o barulho do sapato
"TAC" "TAC".