Lista de Poemas
Ex-Servo
Vai embora,
O que podes querer de mim?
Se já levaste água que me leva,
Porque queres traçar o meu fim?
Leva este vinho,
Que me faz ter devaneios,
Esse olhar que me mata mais,
Que a beleza desses seios,
Diz o que quiseres,
Afinal de contas nada me importa,
Sai, vive a tua vida,
Que a minha já nasceu torta,
Quem me dera recuar,
Até aquele vão de escada,
E dizer que aquele beijo,
Era uma garrafa envenenada,
Eu amei conscientemente,
Na conformidade desta obssessão,
Por muito amor que existisse,
Nada vindo de mim foi são,
Por isso vai,
Corre e desaparece,
Bebe do meu copo,
Consome-me e esquece-me.
ASAS FINGIDAS
Ah, poeta incompreendido,
Nem musa tens para chorar,
Escreves à noite, sem uma garrafa de vinho,
Declamas à luz da lâmpada e nem sequer vês o luar,
Que merda será não seres o cliché,
Que todos procuram em estrofes infinitas,
Como será querer acordar no vazio,
Sem curares a dor que esta noite citas,
Ah, poeta desgraçado,
Resta água e algum licor para beber,
Não fumas e levas uma vida saudável,
Um raro boémio que não se deixa ver,
Coruja de alcunha,
Mas será a noite assim tão amiga,
Pois se te sentes bem,
Porque vês a dor como inimiga.
Ela te fez assim,
Com força para seguir sem medo,
E se agora és quem querias ser,
Porques finges ser o cliché em segredo?
Carta Entreaberta
Já viste o sol que brilha lá fora? Um dia de Outono maravilhoso e eu na mesma, com a muleta atrás e uma mochila. Porém, a muleta não é o meu principal foco nesta carta. Alguma vez pensaste que eu iria escrever uma carta para ti? Bem, se calhar até não, mas eu sou instável e por alguma razão, só penso em ti e não na razão. Vou muitas vezes pelos impulsos que desencadeias e não pela razão e esse é o meu maior mal, muitas das vezes. Seguir-te é uma das etapas mais bonitas que terei na minha vida, mas se por vezes tudo parece dar certo, outras vezes é tudo um conto imaginário que os miúdos escrevem na quarta classe. Todos temos fraquezas e desvios, eu tenho os meus e não serei o único.
Faz-me mal pensar em demasia, como estou a fazer neste momento, mas se tudo isto pode parecer algo para encher chouriços ou distribuir palha, enganas-te, porque na verdade, estou a pensar em ti enquanto escrevo. Nasci com o sague quente,a ferver, quase como se quisesse despontar para algo. Virei muitas vezes as costas à paz, embora a pratique todos os dias. Mas não é a guerra que quero começar, apenas digo que nem sempre sou a melhor pessoa a escolher palavras, não sei, é um defeito meu que não tem remédio e por vezes chego a pensar se não será uma questão de feitio.
Sei que amadurecemos com a idade e é isso que pretendo. Perdi muito tempo a explodir sem necessidade, aprendi que o silêncio às vezes é a melhor arma, porque como todos nós sabemos, se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro. Mas eu sou assim, rabugento e impertinente, muitas vezes com quem não merece e desde que parti a rótula há seis meses, apercebi-me de que o exercício físico ajuda-me a libertar um pouco dessa raiva em excesso. Tu que me acompanhas, sabes que voltei à natação e que me sinto bem quado vou lá. Isto tudo para te dizer que o impulso não mata mas por vezes destrói a pessoa. O problema é que enquanto eu perco tempo e energia com o que não interessa, também estou a magoar as pessoas de quem gosto.
Não te entrego à penúria, afinal de contas gosto de viver contigo, mas sinto que tens de ir mais vezes morar com a razão, ela sim, a pragmática. Mas sei que vais estar comigo até ao meu último dia, afinal de contas é bom amar enquanto vivo contigo.
Sofia
Vou ser um facínora infame,
Dizer-vos que virei escravo,
Do meu egoísmo covarde,
Que só age quando é tarde,
E nunca se torna bravo,
Se ao menos pudesse conseguir,
Enfrentar esta bolha impermeável,
Que me suga e asfixia,
Logo ao raiar do dia,
Não iria parecer um inimputável,
Mas eu bem tento escondido,
Acordar tamanha fera,
E palavra a palavra,
Lembro-me do tempo em que te amava,
Dentro da nossa reluzente esfera,
E quando te voltar a ver,
Na clara luz do dia,
Vamos recordar juntos,
No meio de mundos mudos,
Quem era a "minha" Sofia.
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