marloff

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Não sei falar de mim. Só sei tentar ser humano todos os dias.

n. , Tarrafal de Santiago/Ponta Lagoa

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arrombo


é. a cidade foi o seu rosto de susto,

depois, foi-se a meter como freguesia,

dentro do seu corpo.

a cidade foi só ele, sem, resistência.


quase que esquecemos de ser, por momentos. só grandes mudos.

Aquele lugar mais a norte que rompe,

onde nasce a iniciação e todo o promontório, de maus homens,

cheios de bons costumes, antepassados costumes.


ainda que os deuses andam a estagiar nessas nossas maneiras estranhas,

de ser um mero homem, já quase sem nome com idolatria no sangue.

era só uma voz que ecoa por toda a parte da cidade.

As vezes a cidade era um buteco plantado de mariposas.

ali perto dos olhos, todas as fragrâncias e traços das agua:

migram para dentro as suas próprias lágrimas,

era só um homem grosso que quebrava em pé,

mais a frente não se entendia porquê crescia mais que o corpo,

talvez fosse ele o homem do seu sorriso, se não, é a extensão do monte, graciosa

andavam a viver disfarçados um, na cara do outro.


talvez uma cabeça inteira fosse mais importante que certos papeis,

timbrados para amputar certas portas,

mesmos as invisíveis, a varapaus e cabeçadas em grossos ventos e chuvas,

as vezes empurrava o país, e por ai ficamos

e por ai ele ficou. 


talvez, era só a entoação da morte

entoando as canções de outono nas folhas,

de um coração que demora em mudar de maneiras vivas,

em pele meramente humana,

que gasta, sangra e morre.


depois nem isso

nem nome,

nem a imagem do homem,

só medo das coisas

sem espanto e sem a cara.
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Biografia

Mário Loff começou a delinear, na cidade da Praia, o seu percurso académico através da História e do Património. Naturalmente, estes componentes encontram-se unidos e formam um todo praticamente indissociável quando se associam à Cultura. Este poeta Tarrafalense de raiz, alma e coração, é um verdadeiro crente na criação artística enquanto motor do desenvolvimento do património cultural. Ativo na cena cultural do seu Concelho, sempre procurou contribuir para um ambiente dinâmico, criativo e inovador em todos os domínios das artes. Escreveu dezenas de peças de teatro, dos quais cinco foram encenadas no grupo teatral Komikus de Tarrafal no qual Mário Loff é o seu diretor, ainda tem um programa de voluntariado na escola secundaria da sua cidade onde ensina teatro aos jovens de primeiro nível, mas também tem programas de incentivo à leitura e divulgação de livros. Certamente, a prática artística ao mais alto nível passa pelo interesse precoce pelo universo das artes do espetáculo e pela integração em organismos culturais. Por isso, concebeu o projeto “Despertar”, com o intuito de envolver os jovens Tarrafalenses e sensibilizá-los para a cultura. Esta iniciativa também tem o condão de se aproximar de públicos socialmente desfavorecidos, procurando a sua integração, também na componente artística da sociedade. Professor e formador, de 2004 a 2006 e entre 2014 e 2015, Mário Loff assume como um ato de responsabilidade a divulgação da cultura. Assim, tem levado a cabo a produção da “Rádio Praça” na cidade de Tarrafal de Santiago que, para além do puro entretenimento, procura reforçar a cidadania enquanto promove livros e autores. É notório o incentivo à leitura, numa meritória campanha de informação e sensibilização, que ao promover o acesso às obras do património cultural, Loff procura incutir a qualidade na educação artística. Entre o pensamento e a expressão, mostra a sua força criativa e perseverança na escrita. Contribuiu, em 2019 algumas das suas poesias foram selecionadas para a antologia “poetas para o novo ano II” também foi selecionado 2018, no livro de contos infantil “A viagem mais fantástica do mundo” da escritora Natacha Magalhães e para a comemoração do Centenário da sua cidade natal escreveu e ofereceu à sua cidade sete poemas. Participou em várias antologias como, por exemplo, a antologia dos poetas de Tarrafal de Santiago (que em parceria com jovens poetas foi o precursor), a antologia de poesia da língua portuguesa”Mil Poetas”, a antologia “Palavras da Alma”, foi colaborador do boletim da Altas, onde é membro-fundador da Associação Literária de Tarrafal de Santiago e da qual é o atual presidente. Em 2017 foi convidado pelo CITCEM e pelo DCTP da Universidade do Porto, no âmbito do Colóquio Internacional “A Glimmer of Freedom. Tarrafal - Silêncios, Resistências e Existências”, para contextualizar o Antigo Campo de Trabalho de Chão Bom e os seus presos políticos através de um poema da sua autoria. Em 2018 foi convidado pela festival de Cinema da ESAP para abordar a história do Ex.campo de Concentração atraves da sua poesia e, atualmente e Presidente da direcçoa da ALTAS. Inquestionavelmente, Mário Loff é um poeta prismático e um ativista cultural que com o seu olhar crítico, centrado na comunidade, envolve e contextualiza os diversificados aspectos da sociedade e da cultura Cabo-verdiana.

Poemas

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Leitura e livro como poder


No mundo moderno as pessoas passaram a ter liberdade de se reivindicar, expressar, no fundo, foram-lhes dado a chance de quererem degustar o poder, tê-la por perto, senti-la, administra-la e transmiti-la. Em certa medida a modernidade tem dado poder às pessoas, em contramão, verifica-se que é cada vez mais em reduzido número de pessoas a procurar e ter acesso ao poder de verdade, aquele poder construido por saberes. As palavras são usados pela boca e levadas ao papel. Livros tem sido feito, uma das marcas da modernidade, a informação e o livro. Livro e a leitura é o poder que está disponível para as pessoas, são poderes cada vez mais negados e maltratados pelas pessoas e gerações, sobretudo essa geração que reclama muito a participação e proclama com pompas a banalidade, eles querem o poder, no fundo, sem fazer isso ser de facto isso acontecer pelos livros. 
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Preciso de acertos

Preciso de acertos. Ultimamente tenho ido aos shows de contentamento e oiço os teus risos. Sempre que posso comprar a tua alegria e implanto-as nos olhos. Agora os meus olhos já não são tristes, mesmo que fosse, elas agora cantam ao lembrar-me de te e encantam-me tanto.
Tenho-te lido nas noites isoladas sem estranhas coisas como o voo dos mosquitos, palavras que não enxugam a boca. Eu tenho feito acertos no teu nome. Provavelmente quem te fez foi os mestres dos acertos, criador da arte. Agora tu menina, tu és a construtora de acertos e eu o público no teu concerto, no seu corpo em noites de atos de entrarmos um no outro como se o amor fosse um sacrilégio imediato. Se no outro dia, se nada não dar certo nos nossos corpos juntos, talvez darão acertos na alma.
202

arrombo


é. a cidade foi o seu rosto de susto,

depois, foi-se a meter como freguesia,

dentro do seu corpo.

a cidade foi só ele, sem, resistência.


quase que esquecemos de ser, por momentos. só grandes mudos.

Aquele lugar mais a norte que rompe,

onde nasce a iniciação e todo o promontório, de maus homens,

cheios de bons costumes, antepassados costumes.


ainda que os deuses andam a estagiar nessas nossas maneiras estranhas,

de ser um mero homem, já quase sem nome com idolatria no sangue.

era só uma voz que ecoa por toda a parte da cidade.

As vezes a cidade era um buteco plantado de mariposas.

ali perto dos olhos, todas as fragrâncias e traços das agua:

migram para dentro as suas próprias lágrimas,

era só um homem grosso que quebrava em pé,

mais a frente não se entendia porquê crescia mais que o corpo,

talvez fosse ele o homem do seu sorriso, se não, é a extensão do monte, graciosa

andavam a viver disfarçados um, na cara do outro.


talvez uma cabeça inteira fosse mais importante que certos papeis,

timbrados para amputar certas portas,

mesmos as invisíveis, a varapaus e cabeçadas em grossos ventos e chuvas,

as vezes empurrava o país, e por ai ficamos

e por ai ele ficou. 


talvez, era só a entoação da morte

entoando as canções de outono nas folhas,

de um coração que demora em mudar de maneiras vivas,

em pele meramente humana,

que gasta, sangra e morre.


depois nem isso

nem nome,

nem a imagem do homem,

só medo das coisas

sem espanto e sem a cara.
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Mortos de fome 47


Antes de meter por terra adentro
e de boca sofrida de silêncio imposta pelas mãos, 
diga-lhes
que coisas, tipos barreiras rochosas impede que a boa nova chega a cidade
diga-lhes
que de outro lado anda desânimos com caras coladas a outra
diga-lhes 
que temos caído por anos num vácuo que farto de liberdade,
com grandes números, maduros tipos, idades das coisas.
diga-lhes
que no lugar de vento já se habituou o folgo de mulher solteira.

diga-lhes 
que a terra só tem resistido,
porque são as nossas lágrimas a aguentar as levadas no contrabando da seca,
diga-lhes
que precisam voltar pela última vez para,
explicarem sobre a penúria que morreu no país,
as suas bocas que caíram a falar a verdade sobre as faces da morte, da fome
de homens e a desarrumo da esperança,
e a fome que festeja a cabeça dos homens, cor da terra seca.
214

Memórias da madrugada

Por mais que caia chuva na terra e molhe as ilhas, a água que corre nas ladeiras, rochas e entra no mar e invade os oceanos serão sempre uma ajuda vinda do céu a essas terras de ilhas que andam conforme os passos dos homens na terra, ora branca, ora negra. E finalmente mestiça. Estes serão sempre felizes, de calças arregaçadas até pernas e marcas que não são indicações de lugares, mas sim sinal de lida, criação dos filhos, aqueles calos que afloram nas mãos feito mapa das ilhas onde os homens se reinventaram olhando uma cara sem a própria cara porque revoltamos centenas de vezes por dentro por muitas coisas e mantemos sempre salvo, por sermos naturais da terra seca e as vezes verde, se revelássemos todas as nossas ânsias e frustrações em nossos corpos e cara, o que seriamos? Seria aquele que se metamorfoseia porque está acostumada a ser seca por dentro e esperançosa por fora.
Poucas coisas que se formaram e ocuparam a terra passaram a ser certas imagens  de desinteressado olhar de quem é artífice por circunstância. Nem os homens que aprenderam a tocar gaita e inventaram o funana, nem mulheres que arrumaram um canto bem posicionado em algum bairro de terra batida e o chamaram de terreiro, as mulheres de mãos juntas e de dedos esticados retirando o som da txabeta, que chamam luz ao batuco e tem germinado nessas gentes, a melodia do próprio batuco, mais aquelas de Santiago, nem homens de coração manso e de espírito leve, que soltaram melodia e a morna, foram sentir a gratuitidade das coisas que a terra dá, mas, o povo das ilhas para não desistir da sua existência e da conquista no meio do impossível confortavam-se na musica e na bruteza da terra. Os homens das ilhas não encontraram esperança de graça na pedra que ainda mantém o silencio das grandes obras que permitiram chamar esta nação de  país. Estão em silencio, completamente em silêncio as pedras desta terra, elas sempre estiveram aqui. Nós só chegamos há menos de cinco séculos e passamos a ser chamados de cabo-verdianos, a última raça da humanidade. Aquele filho de uma negra e de um branco, aquele que se cortou, no apelido, com o tal parente africano, aquele que sorriu por ter lhe ter sido posto o apelido do homem branco, que carregava chicotes e a noite fazia uma carrada de mulatos, que depois foram conhecidos por cabo-verdianos. Antes de nós no mundo já havia quase todas as raças. Mal o branco dobrou o atlântico ganhamos vida e nome como boas gentes de pele menos escura e algum significado em ser o grande branco da terra. A terra era nua, o vento ainda é nu, a pedra é silenciosa, ainda eles nos percebem e somos apenas uma carrada de mulatos procurando o irmão africano que nasceu aqui e foi só um escravo vendido às  outras terras e ficamos sós. Órfãos de referência e andamos a falar na ciência de olhar por detrás do pensamento. Sem pais e com mães com excesso de canseira e injúria escrita no seu próprio nome. 
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se fosse coisas


se fosse coisas

eu daria-lhe o meu tarrafal

mas não lhe posso oferecer

No entanto, eu posso oferece-lo em poesia

eu só tenho poemas para oferecer, melhor deles é este poema

leia varias vezes e lentamente.

 

nisso, tenho autoridade mais do que todos eles

dou em poesia, dou-lhe tudo em tudo 

só em poesia lhe posso dar o tarrafal

aqui ele não tem dono e nem sou prisioneiro dos homens.

 

ali tem praia de arreias brancas e negras

ali entra todas as raças,

homens tortos e, de sentimentos toscos quase sérios

mulheres frígidas e de lábios de carne regidas

 

ali entra o desejados

penas das aves, folgo de ventos que ti sobram

os assopros são de quem mais te deseja.

ali entra a dona dela mesma.

 

ali entra você

a única que é mais que ela mesma,

a minha cidade é você e, a minha mais-que-tudo.
206

O peso do amor


tenho dês sentimentos no bolso

e uma prata em sua volta

tenho dês sentimentos

a brigar o peso do amor.

tenho febre na ponta dos dedos

que há muito não foi até o fundo dos bolsos.

tenho dês sentimos e uma prata

que anda a perder valor diariamente.

tenho nove sentimentos mortos

pela saudade, de resto tudo perdeu o seu valor

no escuro e na luta, quando a prata desistiu da luz.

tenho dês sentimos e uns dedos com cheiros fortes da saudade.

os dias foram prisão

em dois lados,

mal acaba a saudade, acordou o coração.
232

Saudade




Saudade é uma chateação,
chantagem em viagem na própria razão,
meio ferida, coisa as vezes feia por dentro,
quase cicatriz por sarar no interior da alma e no corredor da distância.
249

Poeminha sobre o herói!



 

Que barulho é este na sala? São vocês? Enchentes com nomes vazias! Andam a falar sobre os heróis? O quê que as estátuas andam a fazer em silêncio na rua? Nada! Absolutamente nada. A não ser o barulho da imagem e o vento na cara que bofeteia o corpo metálico e a cara do herói mudo, com livros e armas sem ensinamentos sobre a seca, ilhas, fogo e disparos de vida.
223

Invenção da seca



Chamávamos uns aos outros de ilha e as vezes de cabo-verdiano.

Pela pedra bruta, arroto ou magma sem estação marcada.

Fomos estigmatizados pelas mãos de um Cristo de fogo

apesar de esse vício de estar sentado nessas coisas de esperança

ou sonhos devastados até que se salva.

 

No nascer dos antigos dias nos mentiram que éramos tal cor verde.

Ainda me lembro que fabricávamos chuvas fora da estação,

tecidos no meio da pedra com linhas gigantes,

uns verdes, outras secas que traduzem pátrias cascalhudas,

fingíamos ser o criador do firmamento. Tentamos trazer só o sorriso, e saiu tudo em

língua da esperança.

 

Éramos ilhas inseparáveis, contra esquecimento.

Já há muitos dias velhos, já há anos esquecidos

tornámo-nos tão assimétrico ainda que pegamos as nossas mãos.

Sou terra sem berço, nação de canetas e terços tesos.

Aleitamos a terra verde no espírito e mãos no céu,

esquecemos a língua de traduzir, tudo em cabo-verdiano as cores verdes.

 

O homem de foice tem cortado as trincheiras

que impediam a caída das lágrimas de agosto

eles que souberam aprender as linguagens que esquecemos de aprender.

Eles de boina furada que trabalham com gosto.

 

A única tradução que fizemos de jeito nesta invenção foi perseguir a neve dos outros.

Mordíamos os risos da neve e aprendemos o valor das lágrimas das azaguas.

Ao vertermos escuridões em chuvas.
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