Lista de Poemas

Poema do desassossego

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer,
Ter medo de suas lembranças.

Mário Quintana


Basta.
Fazer coisas não aquece o coração.
Não o meu. Tão pouco o teu.

Que aquilo que resta
do desassossego do fazer
não acrescenta um côvado
à lembrança daquele
que cruza comigo. Ou contigo.

Mas faz o que tens a fazer
sem medo das tuas lembranças,
que são a origem e termo do que és.

Eu sei quanto é custoso.
Eu sei que as bolas de sabão
que eu lançava ao ar
quando criança,
nascidas numa lata velha
achada no lixo do meu quintal,
foram tropeços
quando penetrei
no mundo do fazer.

Fi-las explodir, uma a uma,
na crença de que seguia
o caminho certo
para ser crescido.

Até um dia,
porque era sábado,
em que parei para pensar.

Foi quando descobri
que fazer coisas
iguais ao que fazia
após a explosão
das bolas de sabão,
se for por gente,
com gente, para gente vizinha
aquecem, essas sim,
o coração.

É por isso, amigo,
que segredo-te ao ouvido
num sussurro:
apesar do que resta
do teu desassossego,
faz o que tens a fazer
sem medo das tuas lembranças.
Que elas são a origem e termo do que és.

25/11/2017
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👁️ 124

E regressei às origens

Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.
Confúcio



Amar.

No princípio era o verbo.
Um verbo gerado numa praia distante,
ora solarenga, ora nublada,
ora enxuta, ora molhada.
Nela as areias formavam multidão
que lavrava, comia, pensava,
prometia, calava.

Certo dia,
nessa praia distante
entre a multidão,
duas areias pequeninas
brincando à cabra cega
chocaram de frente.
Retiraram as vendas
e olharam-se
olhos nos olhos.

Foi em terras do Gerêz.
E viram como isso é bom.
E foi de vez.

Enleando-se,
as duas areias morreram
para que pudesse nascer
uma pedrinha maior
que o mar já não podia arrastar.

Enleando-se,
Foram aos poucos morrendo
cada dia
para que pudessem nascer
rochas de tamanho maior.

E ontem,
passando em passeio
nessa praia distante,
ora solarenga, ora nublada,
ora enxuta, ora molhada,
o que vi.
Um rochedo virado montanha
que nenhum abalo derrubará.

Trepei a nossa montanha.
Sentei-me no pico, em silêncio,
olhando o horizonte.
Ao longe
eu vi fascinado
nessa praia distante
entre a multidão,
duas areias pequeninas
brincando à cabra cega,
olharem-se olhos nos olhos.

Na eternidade, olhando do Céu
essa nova rocha virada montagem,
seja eu quem for, esteja onde estiver,
serei feliz de novo.

11/11/2017
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👁️ 149

E regressei às origens

Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.
Confúcio



Amar.

No princípio era o verbo.
Um verbo gerado numa praia distante,
ora solarenga, ora nublada,
ora enxuta, ora molhada.
Nela as areias formavam multidão
que lavrava, comia, pensava,
prometia, calava.

Certo dia,
nessa praia distante
entre a multidão,
duas areias pequeninas
brincando à cabra cega
chocaram de frente.
Retiraram as vendas
e olharam-se
olhos nos olhos.

Foi em terras do Gerêz.
E viram como isso é bom.
E foi de vez.

Enleando-se,
as duas areias morreram
para que pudesse nascer
uma pedrinha maior
que o mar já não podia arrastar.

Enleando-se,
Foram aos poucos morrendo
cada dia
para que pudessem nascer
rochas de tamanho maior.

E ontem,
passando em passeio
nessa praia distante,
ora solarenga, ora nublada,
ora enxuta, ora molhada,
o que vi.
Um rochedo virado montanha
que nenhum abalo derrubará.

Trepei a nossa montanha.
Sentei-me no pico, em silêncio,
olhando o horizonte.
Ao longe
eu vi fascinado
nessa praia distante
entre a multidão,
duas areias pequeninas
brincando à cabra cega,
olharem-se olhos nos olhos.

Na eternidade, olhando do Céu
essa nova rocha virada montagem,
seja eu quem for, esteja onde estiver,
serei feliz de novo.

11/11/2017
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👁️ 113

Era uma vez um saco

Sou saco perdido
no meio da estrada.
não sei se vazio
se cheio do nada.

Sou cabra sou cobra
sou coroa de rei.
sou fada madrasta
nas teias da lei.

Sou puro sou virgem
sou casto no lar,
sou bruto sou bronco,
sou monstro no mar.

Sou pajem, sou prenda,
sou tenda contigo.
Sou farsa sou frágil,
sou falso comigo.

Sou saco perdido
no meio da estrada,
não sei se vazio
se cheio do nada.

Sou belo, sou crente,
sou ponte do rio.
Sou luz e sou fonte,
no meio do frio.

Sou filme, sou vento,
se tento lutar.
Sou palco, sou cena
sou pena a voar.

Sou cana batida
pelo vento de lado,
que goza na vida
bocado a bocado.

Sou saco perdido
no meio da estrada,
não sei se vazio
se cheio do nada.

Sou naco de broa
na boca do mundo,
palhaço, cantor.
pastor, vagabundo.

Sou prenda embrulhada
em papel de jornal.
Sou coisa, sou loiça
sou simples mortal.

Sou saco perdido
no meio da estrada,
não sei se vazio
se cheio do nada.

Mas parto contente
de tudo o que sou.

Não sei se sou gente,
não sei se sou crente,
não sei de onde venho
nem para onde vou.

Mas sei o que sou.

Um pouco de ti.
um pouco de mim.
um pouco do outro
que por mim passou.

14/04/1968
👁️ 144

Lancei Pontes

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.
S. Paulo - Coríntios, 13



Lancei pontes

Miríades de letras
que tombam num livro,
esvoaçando,
não fabricam poesia.

Lançar mão
a ditongos, vogais,
consoantes agarrados no ar,
ajeitando-os no papel
como quem arruma
as meias na gaveta,
é como o eco dum sino
de ricochete na montanha,
não mais que um desassossego
que conduz à solidão.

Oh! De quantas letras me servi já
para entreter vazios,
esconder preconceitos,
assobiar para o lado
simulando preceitos.

Oh! De quantas outras
alcancei no ar as letras certas
na hora certa em que te olhei,
em jeito de ligar
ao belo que há em ti.

Que talvez sem notares,
tais letras, vogais, consoantes
que colocas
no que escreves,
no que falas,
mas também no que sentes,
no que crês e no que ris,
são pontes para a outra margem.
E vai por aí
que é do lado de lá o teu lugar.

13/01/2018
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