Lista de Poemas

A lucidez da loucura

Não há saudade sem tormento

Finitude sem nostalgia

Ou amor sem sustento

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A vulva

Percorro o teu corpo com a língua

Recolho os teus fluidos saboreando cada um

A vulva envolta em movimentos avulsos

Sorve com sofreguidão o sabor do teu sexo

É nos meus ombros que quero as tuas mãos

Quando te oferto o meu torso e toda a minha vontade de te sentir

Os cabelos são rédeas presas que regem a nossa vontade

Os mamilos, esses roço-os no cetim que húmido se forma no nosso mar de deleite.

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Nos teus lábios

Nos teus lábios tens pérolas de tempo

Janelas abertas de brisas frescas

E uma crescente claridade luzente

Quando partes levas os meus lábios nos teus

E com eles furtas-me o silêncio

Deixando-me a tua voz no meu peito

Da minha boca levas a palavra que te digo

A todos os instantes que o silêncio impera

Entre o castanho e o verde do nosso olhar

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Laço

Não posso dizer-te que te amo

Quando já antes o disse centenas de vezes

Não pode ser amor o que sinto

Quando nunca antes o tinha sentido

Não sendo amor, que outra coisa pode ser

Quando no laço do abraço

O meu corpo é essência

E a minha alma é mais do que o meu ser

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Fado

Que te ditam os meus versos
Quando me pedes para te escrever um poema?
Que pele reveste a tua alma
Quando na escrita me encontras?
Que sentimento é este que soa
Por entre as cordas da guitarra?
Um amor lento de final de tarde?
Um olhar quase cansado e caído
Por entre os véus da noite?
Uma lágrima que encontra
Conforto nos lábios que afagas?
Um grito de amor
Numa garganta muda?
Que alma é esta que te procura
No adiar dos dias
E que mata a sede
No teu corpo cevado?
Que pesar este o de te amar
Numa demora que não é a minha
Nesta folhagem de Outono
Quando é de azul-mar que te matizo?
Que sentimento é este
Vivido intensamente nestes dias partidos
Repletos de partidas e chegadas
De abraços e de confissões?
Que amor é este que de tanto se querer
Tudo tem para dar?
Que paixão é esta que não pesa na alma
E liberta o espírito
Sempre que de sorriso te revivo
Serás tu alma igual à minha
Que sente nas veias este fado?
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Da alma

Toda a poesia que escrevo

É arrancada da alma

De gume afiado abro o peito

E derramo todas as palavras

As que doem caem duras no chão

As que magoam não replicam

Há também os versos de alento

E as palavras de amor

Essas espalho-as pelo corpo

Para que a tua língua as recolha

E em ti permaneçam

Sem que eu as tenha dito

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Cansada de ser mulher

Estou cansada de ser mulher

Esgotada de ser aquela que os homens procuram

Para viver momentos de prazer

Estou cansada de ser carne e gozo

Fatigada de ser um ser vazio e sem alma

De ser fonte de desejo e de não beijar

Estou farta de mandar embora da minha vida

Quem nunca deixei verdadeiramente entrar

Estou sem sangue frio nas veias

Para implacavelmente continuar a ser mulher

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Corpo cansado

Fatigado, o corpo deixo-o cair por entre os véus

Com os braços prostrados sobre o ventre

Assim permaneço

Sem que o tempo ocupe espaço

Os olhos deixo-os seguirem o seu rumo

Como a folhagem de Outono também eles caem e se fecham

Não sei se acordada ou a dormir

Reclino a cabeça deixando os cabelos caídos pelo chão

Sonho

Viajo para uma noite de Verão em que o horizonte te traz

E contigo vem toda a vontade e loucura

Que tornou a distância vazia

Ou a estrada um paralelo que se cruza

Contigo vieram histórias e narrativas

Dúvidas que metamorfoseamos em verdade

Mãos que se tornam asas

E gestos incessantes que depravam, viciam e seduzem

Contigo veio também o destempero

De querer consumir num momento

Tudo aquilo que não cabe numa vida

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Acto inato

Masturbar é uma forma de arte

É conduzir ao centro do corpo

Os dedos que teimosamente escorregam

Carregam e esfregam os lábios que não falam

Aqueles que apenas emitem prazer e desejo

E que sorvem num simples gesto a energia dos corpos.

Os dedos guiados pela fome

Trepam os vales e as ondas do corpo

Caminhando extasiados e inebriados pelo odor do sexo

Empurrados por uma mão febril

Que incessante e sem dubiedade avança

Aprisionando num único gesto todo aquele mar


Nos lábios das palavras sacia todo o prazer

Deitando na língua os fluidos emanados pelo sexo

Extinguindo o fogo, a febre e o desejo

Cobrindo suavemente os lóbulos da boca

Para com a língua recolher

O desfalecimento dos espasmos que o corpo ainda liberta

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Nascer de ti

Queria esquecer quem fui

Apagar todas as pegadas

Desprezar todos os nomes

Queria viver sem memórias

E nascer na tua boca

Sempre que me pronunciasses

Queria renascer como Vénus

Na concha das tuas mãos

Nos teus lábios brotar

Toda a minha alma

Repleta de ti

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