Lista de Poemas

Águas paradas não movem moinhos

Conhecimento parado empoça.
Conhecimento parado? empossa!
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Modelos

Li na República
a recomendação
de que às crianças não se contassem
os contos dos deuses de outrora
nos quais matavam aos filhos
aos pais
e uns aos outros.
Quão feliz seria Platão
se soubesse que os heróis
e as histórias de seu tempo
são - talvez - menos cruéis
e - talvez - menos violentos
que as histórias e os heróis
aclamados pelos pequenos
daquilo que convém 
chamar-se 
o agora.
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Símile

Derrubar uma folha 
Pintá-la em canto
Com a naturalidade 
Do que não fosse
Minha própria natureza.
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Soneto agnóstico

Quando chegar-me a Única Certeza
A arrebatar-me dos desejos já cansados
Serei tranquilo, da paz que ora sobeja
Ou irei fazendo birra, perturbado? 

Temerei os fantasmas do passado
Ou seguirei ao bom descanso recolhido?
Sorrir, amar, fazer-me derramado 
Fugir de um Para Sempre arrependido.

Num céu sem nome tenho acreditado 
Orando sempre a um Deus Paz e Sorriso
Que têm aos homens tanto esquecido

E se a carranca for mesmo tão preciso
Eu, que terei a vida inteira delinquido
Sorrirei também no inferno, abençoado.
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Quina

Das dores que me partem não as sinto
Curam
Cura mais o partirem-se 
Que a cura em si
Dói mais a lembrança da dor 
Que o doído que doíam 
Na permanência 
No seu contínuo indesejado
Desejado
Sem saber o purgante certo 
Pra expurgar sua beleza de pecado

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O que fazem as pedras quando não olhamos?

Fico passando ao lado das pedras

Para ver se elas decidem ser coisas.

Alguma coisa ou coisa alguma,

Como o velho Eustáquio dizia que era,

Porque os outros diziam dele,

Ele mesmo fazia era só confirmar,

E pulava bicho.

Pulava sapo,

Pulava gato,

Pulava cabra, mas não era por doidura,

Era porque gostava de ser coisa alguma.

Também jogava pedras

Não nas pessoas, na água.

Doidura é não jogar pedra a água.

Mas não me deixavam, por não querer que eu fosse

Coisa alguma.

Vovó, que não deixava eu jogar pedra na água,

Era mais doida ou menos doida?

Só sei que passo olhando as pedras,

De rabo de olho,

E elas insistem em se fazer de sonsas,

Como é costuma das pedras.

Se eu fosse o Buda, zas!

Era rapidinho essas pedras nasciam gente,

Pulando tudo que é etapa de evolução

Igual uma pipoca metafísica,

Atalhando gerações num pisco.

As pedras do Eustáquio pulavam umas vinte vezes.

As pedras pelas quais eu passo se mantêm imóveis

À moda de pedra, mesmo.

Deve ser porque são pedras,

Ou porque eu não sou Buda,

E Nem o Eustáquio,

Que fazia as pedras pularem na água umas vinte vezes.
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Balanço

Enquanto o mundo se rasga ao meio
Por sua própria natureza
Como se tivesse algo em si
De humanidade e culpa
Eu, náufrago
Naufrago
Tentando emergir
Submerso
De algo mais que o menos contraditório
Desde o tenro átomo 
Ao abraço do universo
E a música, a trilha sonora
Não minha, a do mundo
Continua, contínua
Indefinidamente, alheia a tudo
E a mim no meio 
Bela, extremamente bela
Como se tudo fosse nada
- não é, de fato – 
Como se não houvesse amanhã
- não há, por certo – 
Exceto o mais nojento rato
E o mais asqueroso inseto
Acaso não é quando percebemos
- Percebamos - 
Que há em tudo algo de incorreto?
E as cordas vibram, sem nota
Sem notar a gente roda
Sem notar, a gente roda
Sem notar a gente, roda
Numa valsa qualquer coisa de ensaio
Como nunca saio
Dos passos de um eterno afogamento.
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Veredas

Há quem passe pelos bares 
e só veja pecado
pelas igrejas
e só veja virtude
pelos fóruns
e só veja honestidade.

Há quem passe pelas escolas
e só veja ignorância
pelos ginásios
e só veja saúde
pelos hospitais
e só veja doença
pelos cemitérios,
saudade.

Quem dera, Leão,
a pior cegueira fosse ver nos bosques 
apenas lenha para as fogueiras.

Já hoje não há tantas fogueiras,
e cada vez menos bosques.

Não temos qualquer necessidade
dos meios antigos de se fazer luz.
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Ave!

Os pássaros, com sua voz de manhã
limpa - decerto não fumam -,
me contam seus segredos ancestrais. 
sobrevivem, desde que o mundo é mundo
apesar dos despejos
e prisões sem julgamento 
porque se bastam cantando
com sua voz limpa de manhã.
Decerto não fumam
- e nem se rebelam.
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Outra versão de um velho mito

Passeio por um quarto 
Gigantesco, repleto
de camas - ou macas.
Pessoas adultas (?) dormem.
Encontro meu leito.
Estou dormindo.
Também eu não sou eu.
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